René Guénon

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René Guénon
René Jean Marie Joseph Guénon em 1925, aos 38 anos
Nascimento 15 de novembro de 1886
Blois, Loir-et-Cher, França
Morte 7 de janeiro de 1951 (64 anos)
Cairo, Egito
Nacionalidade francês
Principais trabalhos A Crise do Mundo Moderno; O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos; Os Símbolos da Ciência Sagrada; O Esoterismo de Dante; O Erro Espírita
Escola/tradição
Principais interesses Metafísica, Iniciação, Mitos, Gnosticismo, Maçonaria, Matemática, Crítica social, Religiões comparadas
Ideias notáveis Crítica da modernidade a partir da perspectiva de antigas tradições de sabedoria
Reevigoramento do esoterismo ocidental a partir de idéias orientais
Assinatura
Assinatura Rene.svg

René-Jean-Marie-Joseph Guénon[1] (francês: [ʁəne ʒan maʁi ʒozɛf ɡenɔ̃]; (Blois, 15 de novembro de 1886 — Cairo, 7 de janeiro de 1951) também conhecido como ʿAbd al-Wāḥid Yaḥyá (em árabe: عبد الواحد يحيى), foi um autor e intelectual esotérico francês influente no domínio da metafísica, tendo escrito sobre temas que vão desde a ciência sagrada[2] e estudos perenes,[3] ao simbolismo e iniciação.

Ele escreveu e publicou em francês, e seus trabalhos foram traduzidos para diversos idiomas. Ele é considerado um escritor importante na escola perenialista de filosofia.

Vida e obra[editar | editar código-fonte]

Symboles du centre
Quando escreveu para a revista Regnabit, Guénon dedicou uma série de artigos sobre o "simbolismo do centro": explicou que o centro é sem forma, sem dimensão e, portanto, indivisível. É o símbolo da "unidade primordial".[4] Nas figuras acima, o ponto central simboliza o "Princípio" na origem de tudo, o círculo simboliza o mundo. O círculo depende inteiramente do centro, enquanto o último é totalmente independente do primeiro. Os quatro raios da figura à direita sublinham a relação entre o "Princípio" e sua manifestação (o mundo). Se colocarmos apenas quatro raios, o círculo pode simbolizar o ciclo da existência e os quatro eixos as fases que compartilham o ciclo: as quatro estações do ano, as quatro fases lunares, etc.[4]

Nascido em 1886, em uma família católica de Blois, ele estudou nos estabelecimentos religiosos da cidade antes de se estabelecer em Paris em 1904 para preparar exames de admissão para as grandes universidades francesas. Contudo, já em 1905, ele decidiu mergulhar nos círculos ocultistas da capital e fazer da busca metafísica o objetivo de sua vida. Frequentou círculos esotéricos e contribuiu para muitas publicações dedicadas às religiões. No ano de seu casamento com uma amiga da família, Berthe Loury, em 1912, ele foi recebido como maçom e iniciou o sufismo sob o nome de Abdel Wahed Yahia (Servo do Único). Após a morte de sua esposa em 1928, ele deixou Paris e partiu para o Egito. Estabeleceu vida no Cairo em 1930, casou-se com a filha de um xeque em 1934 e morreu na terra árabe em 1951.[5]

Seu primeiro livro, intitulado "Introdução ao estudo das doutrinas hindus" (1921), constitui o fundamento de todo o seu trabalho. Nele, Guenón postula que qualquer tradição autêntica é uma forma secundária da "Tradição Primitiva" de origem supra-humana. Daqui resulta que, de qualquer forma tradicional relacionada a uma fonte não humana, podemos redescobrir o mesmo fundamento, a verdade comum, o Princípio único na origem do que quer que seja.[5]

Para Guenón, os símbolos são os verdadeiros veículos da transmissão do conhecimento tradicional. Sem os símbolos, o acesso à fonte do conhecimento ancestral seria drenado há muito tempo, pois o símbolo é capaz de sugerir uma realidade de ordem superior baseada em uma representação de ordem inferior.[5]

Ainda segundo o autor, a era contemporânea pode ser distinguida por: “sua necessidade de agitação incessante, de mudança sem fim, de velocidade sempre crescente ... É dispersão na multiplicidade e numa multiplicidade que não é mais unificada pela consciência de qualquer princípio superior”. Portanto, “uma materialização cada vez mais pronunciada para a matéria é essencialmente multiplicidade e divisão ... Quanto mais se afunda na matéria, mais os elementos de divisão e oposição ganham força e espaço; por outro lado, quanto mais se eleva em direção à espiritualidade, mais se aproxima dessa unidade, que só pode ser plenamente realizada pela consciência dos princípios universais.”[5]

René Guénon insistia constantemente no declínio do Ocidente e na sua entrada na Idade do Ferro ou Kali Yuga, como os hindus chamam. O “período mais sombrio desta idade das trevas” tocou primeiramente o Ocidente e, como resultado indireto, toda a humanidade. A principal razão para esse declínio é o esquecimento dos princípios universais. Somente o renascimento da Tradição além das cisões entre "Oriente e Ocidente" (1924) permitirá ao homem sair da "crise do mundo moderno" (1927) e desta idade das trevas caracterizada pelo "reinado da quantidade e os sinais dos tempos” (1945).[5]

Recepção[editar | editar código-fonte]

René Guénon teve influência discreta no campo das religiões comparadas,[6] particularmente no início de carreira de Mircea Eliade e em estudiosos contemporâneos como Huston Smith, William Chittick, Harry Oldmeadow, James Cutsinger e Hossein Nasr. Carl Schmitt escreveu em 1942 que Guénon era um "professor" importante para Mircea Eliade. No entanto, Eliade também escreveu que preferia os escritos do tradicionalista Ananda Coomaraswamy a Guénon e Evola, que ele definiu como "diletantes" em um ensaio escrito em 1937.[7] Eliade também achava que Sri Aurobindo era mais preciso do que Guénon.[8] Já no campo das artes, o impacto do trabalho de Guénon tem sido muito amplo, influenciando muitos artistas, em particular no movimento surrealista. Exemplos de escritores e artistas influenciados por Guénon incluem Alain Danielou, André Malraux, Albert Gleizes, André Breton, Antonin Artaud, Marco Pallis, René Daumal, Raymond Queneau, Georges Bataille e Paul Ackerman.

Antonin Artaud foi o artista mais proeminente influenciado por Guénon.

Logo após a Primeira Guerra Mundial, Guénon esteve próximo de alguns círculos da direita francesa conservadora, como as neotomistas, sobretudo as influenciadas por Jacques Maritain, e alguns membros do movimento político de direita Action Française, incluindo Léon Daudet, Jacques Bainville (Maritain, como muitos católicos, cortou qualquer ligação com a Action Française após a condenação papal do movimento em 1926).[9][10][11] O principal objetivo de Guénon durante este período foi convencer Maritain e a Igreja Católica a revitalizarem o cristianismo através de um diálogo com as religiões orientais. Guénon imaginou uma restauração da "intelectualidade" tradicional no Ocidente com base no catolicismo romano e na maçonaria.[12] O projeto não foi bem-sucedido. Vários autores enxergam Guénon como um sucessor do monarquista ultramontanista Joseph de Maistre, que foi um maçom como Guénon.[9]

Guénon se declarava apolítico e rejeitou qualquer interpretação política de seu trabalho.[13] Contudo, ele influenciou vários escritores considerados da extrema-direita do espectro político. A principal razão é o fato de que ele desempenhou forte influência sobre o fascista Julius Evola, com quem manteve uma correspondência epistolar. Além disso, Carl Schmitt, o jurista conservador alemão, disse ao estudioso da religião comparada Mircea Eliade que ele considerava René Guénon como “o homem mais interessante que existe hoje”.[14] Guénon permanece nas listas de leitura dos membros da Nova Direita.[15][16][17] Por exemplo, o trabalho do autor russo Aleksandr Dugin[18][19][20] é influenciado por René Guénon e Julius Evola. Dugin afirmou diversas vezes que considera Guénon como um de seus professores. O escritor brasileiro Olavo de Carvalho[21][22] e o estrategista político Steve Bannon[23] também integram a lista de autores influenciados por Guénon.

No entanto, vários estudos acadêmicos descartam agora qualquer conexão intelectual entre Guénon e a política de extrema direita.[24] Em um estudo baseado nas correspondências trocadas entre Guénon e Evola e em alguns artigos, P.-G. de Roux destacou a dura crítica de Guénon em relação a Evola.[25] Da mesma maneira, em seu livro Guénon ou le renversement des clartés, o estudioso francês Xavier Accart contesta a conexão feita entre a escola perenialista e os movimentos da extrema direita. Ele afirma, por exemplo, que Guénon era altamente crítico dos envolvimentos políticos de Evola e se mostrava preocupado com a possível confusão entre suas ideias e as de Evola. Guénon também denunciou claramente a ideologia dos regimes fascistas na Europa antes e durante a Segunda Guerra Mundial.[26] Guénon consentiu em ter trechos de seus escritos publicados no jornal fascista Regime Fascista, um jornal com curadoria de Evola, mas sempre se recusou a publicar os livros e artigos de Evola.[27][28][29][30] Além disso, Guénon também influenciou muitos escritores e artistas considerados da esquerda política ou mesmo apolíticos.[26][31]

Alain de Benoist, considerado o fundador da Nova Direita, declarou em 2013 que a influência da obra de Guénon em sua escola política tem sido globalmente muito fraca. [32] Além disso, Guénon era um opositor declarado do conceito de raça ariana ou raça indo-europeia e de qualquer forma de nacionalismo.[26] Os biógrafos também lembram que Guénon negou em seus escritos qualquer conexão com uma "escola" ou "movimento". George Santayana comparou-o com C. S. Lewis.[33] O acadêmico, estudioso das religiões Huston Smith reconhece seu débito com Guénon e a Escola Perenialista.[34]

Entre os católicos, os britânicos Angus Macnab, Bernard Kelly e William Stoddart foram influenciados por Guenon.[carece de fontes?] Walter Shewring foi outro acadêmico católico, mestre pela Ampleforth College, que prestou tributo à função seminal de Guénon: “René Guénon foi um dos raros escritores de nosso tempo cuja obra é realmente importante... Ele sustenta a primazia da pura metafísica sobre todas as outras formas de conhecimento.... Os escritos de Guénon enfatizam o declínio intelectual do Ocidente desde a Renascença e expõem as superstições da ciência e do 'progresso'. A maior parte de suas teses mostra maior concordância com a autêntica doutrina tomista do que muitas opiniões de cristãos pouco instruídos.”[35]

O semiólogo Umberto Eco dedicou um capítulo de seu livro Os limites da interpretação (1990) à crítica de algumas teses guenonianas. Nomeado de Rene Guénon; Guénon: Deriva e Navio de loucos, o capitulo aponta que quase todas as características do que o autor chama de “pensamento hermético” podem ser encontradas nos procedimentos argumentativos de Guénon.[36] Eco critica o fato de Guénon defender a existência de um suposto “centro espiritual secreto”, governado por um "rei do mundo", que direcionaria todas as ações humanas. Para Eco, esses textos carecem de toda confiabilidade científica, ao passo que Guénon deprecia diversas teses que carecem igualmente de demonstrações acuradas.[37] Além disso, o autor tradicionalista Marco Pallis criticou Guénon por aceitar a existência geográfica da cidade lendária de Agartha, argumentando que "ninguém ouviu falar sobre o Rei do Mundo na Índia ou no Tibete".[38]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]


Notas e referências

  1. Chacornac, Paul (1 de maio de 2005). The Simple Life of Rene Guenon. [S.l.]: Sophia Perennis. p. 7. ISBN 1-59731-055-7. Consultado em 2 de maio de 2017 
  2. René Guénon's works dealing with various aspects of sacred science are collected in the book which appeared in its first English translation as Fundamental Symbols: The Universal Language of Sacred Science, Quinta Essentia, 1995, ISBN 0-900588-77-2, then, in another translation, as Symbols of Sacred Science, translated by Henry D. Fohr, Sophia Perennis, 2001, ISBN 0-900588-78-0. There were two original French editions, both under the title Symboles fondamentaux de la Science sacrée, Editions Gallimard, Paris. The first contained a foreword followed by notes and comments by Michel Valsan, the second did not contain these additions.
  3. "Traditional studies" is a translation of the French Les Etudes Traditionnelles— the title of the journal in which many of René Guénon's articles were published
  4. a b L'idée du Centre dans les traditions antiques, publié dans Regnabit en mai 1926, ,
  5. a b c d e «The being of the metaphysics revival "One always speaks about moral, one hardly speaks about doctrine" (The Crisis of the Modern World)» (em inglês) 
  6. Oxford University Press, Description: "Against the Modern World. Traditionalism and the Secret Intellectual History of the Twentieth Century"
  7. Grottanelli Cristiano 1942. pp. 325-356
  8. Mircea Eliade’s The Portugal Journal, trans. Mac Linscott Ricketts (Albany, N.Y.: SUNY Press, 2010)
  9. a b Lindenberg Daniel. René Guénon ou la réaction intégrale. In: Mil neuf cent, n°9, 1991. Les pensées réactionnaires. pp. 69-79.
  10. Marie France James wrote that René Guénon, knew “Ferdinand Gombault, doctor in scholastic philosophy; during more than 30 years, until his departure for Cairo, these two intellectuals maintained regular contact and both were partisans of the Action Française”
  11. Paul Chacornac, Simple Life of René Guénon
  12. Cf. among others his Aperçus sur l'ésotérisme chrétien (Éditions Traditionnelles, Paris, 1954) and Études sur la Franc-maçonnerie et le Compagnonnage (2 vols, Éditions Traditionnelles, Paris, 1964–65) which include many of his articles for the Catholic journal Regnabit.
  13. Review by: Daniel Lindenberg Source: Esprit, No. 332 (2) (Février 2007), pp. 218-222. Reviewed Work(s): GUÉNON OU LE RENVERSEMENT DES CLARTÉS. Influence d'un métaphysicien sur la vie littéraire et intellectuelle française (1920–1970) by Xavier Accart
  14. Mircea Eliade’s The Portugal Journal, trans. Mac Linscott Ricketts (Albany, N.Y.: SUNY Press, 2010), see also Grottanelli Cristiano. Mircea Eliade, Carl Schmitt, René Guénon, 1942. In: Revue de l'histoire des religions, tome 219, n°3, 2002. pp. 325-356.
  15. Against the Modern World: Traditionalism and the Secret Intellectual History of the Twentieth Century by Mark Sedgwick. Oxford University Press, 2004.
  16. Roger Griffin, ed., Fascism, 1995, page 353
  17. Enquêtes sur la droite extrême, (1992), le journaliste R. Monzat
  18. Russian Fascism: Traditions, Tendencies, Movements by S. Shenfield. M.E. Sharpe, 2001. p.192.
  19. «L'œuvre de Douguine au sein de la droite radicale française». www.diploweb.com. Consultado em 17 de março de 2018 
  20. A. Shekhovtsov & Andreas Umland: Is Aleksandr Dugin a Traditionalist? “Neo-Eurasianism” and Perennial Philosophy. In: The Russian Review. 68, Oktober 2009
  21. de Carvalho, Olavo (agosto de 1981). «O homem e a sua lanterna, RENÉ GUÉNON O MESTRE DA TRADIÇÃO CONTRA O REINO DA DETURPAÇÃO» 107 ed. Planeta (revista) 
  22. «A derradeira análise da obra de Olavo de Carvalho, para nunca ter de lê-lo». Época (revista) 
  23. Here's How Breitbart And Milo Smuggled White Nationalism Into The Mainstream
  24. C.f. André Lefranc, « Julius Evola contre René Guénon » and P. Geay "René Guénon récupéré par l'Extrême-Droite " LRA 16, 2003.
  25. Pierre-Guillaume de Roux in Cahiers de l'Unité, n°5, 2017.
  26. a b c Accart, Xavier : Guénon critique des régimes totalitaires dans les années 1930, La Règle d'Abraham, september 2015, Ubik éditions.
  27. Fascism: Post-war fascisms edited by Roger Griffin, Matthew Feldman
  28. Julius Evola, Ricognizioni: uomini e problemi (Rome: Edizioni Mediterranee, 1974).
  29. Orlando Fedeli’s essay “A Gnose “Tradicionalista” de René Guénon e Olavo de Carvalho”
  30. Patrick Geay : René Guénon récupéré par l'extrême droite, La Règle d'Abraham, september 2015, Ubik éditions.
  31. Daniel Lindenberg, revue, février 2007, p. 218-222.
  32. On Radio Courtoisie (20 May 2013), during the programme Le Libre Journal de la resistance française presented by Emmanuel Ratier and Pascal Lassalle.
  33. Daniel Cory, Santayana: The Later Years: A Portrait with Letters (New York: G. Braziller, 1963), p. 267. https://www.questia.com/read/10299002
  34. The Huston Smith Reader: Edited, with an Introduction, by Jeffery Paine, p. 6.
  35. The Weekly Review, Londres, 1942).
  36. Eco, Umberto. Los límites de la interpretación. [S.l.]: Lumen. p. 109. ISBN 84-264-1214-9 
  37. Eco, Umberto. Los límites de la interpretación. [S.l.]: Lumen. p. 113. ISBN 84-264-1214-9 
  38. Lachman, Gary. Politics and the Occult: The Left, the Right, and the Radically Unseen. [S.l.: s.n.] p. 255 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]