Reportagem investigativa

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A reportagem investigativa se refere a uma prática jornalística particular cujo processo se diferencia das rotinas de trabalho convencionais pela pesquisa aprofundada, além do método de apuração, técnicas e recursos específicos. Distingue-se ainda pelo tema pautado, por seu conteúdo final (às vezes até no formato), como produto, narrativa, discurso, isto é, produz um conhecimento diferenciado[1]. Uma forma diferente de compreendê-la prioriza as consequências causadas a partir da divulgação do trabalho, em detrimento dos métodos escolhidos.[2] Este tipo de reportagem está relacionado a uma ideia de “jornalismo da indignação”, defendida pelo pesquisador norte-americano David Process e enfatiza o impacto provocado com a divulgação em vez necessariamente dos procedimentos. Nesta abordagem, a preocupação maior estaria com a relação entre o jornalismo, a opinião pública e a formulação de políticas públicas. [3]

Pela possibilidade de aperfeiçoamento democrático, a reportagem investigativa reúne as mais altas expectativas sobre o trabalho das organizações jornalísticas. Por vezes também chamada de “reportagem especial” ou “grande reportagem”, esta prática passou a ser denominada como reportagem investigativa a partir dos anos 1970, com a criação nos Estados Unidos do investigative journalism, o “jornalismo investigativo". Este tipo de reportagem pode ser encontrado nas páginas dos jornais brasileiros desde meados da década de 1970[4]. Por serem produções de fôlego que procuram a mais completa versão da realidade[5], caracterizam-se por ser resultado de uma atividade coletiva. Todo o processo que envolve o trabalho, da sugestão de pauta à edição do material, costuma contar com o envolvimento de diferentes profissionais, entre repórteres, fotógrafos(as), designers, além de consultoria para retaguarda jurídica.

O tempo de duração, normalmente mais alongado se comparado aos outros formatos jornalísticos, também costuma ser atribuído como um dos elementos diferenciais, assim como a complexidade da produção e das circunstâncias envolvidas.[6]

Características[editar | editar código-fonte]

Esta reportagem não privilegia as fontes oficiais e busca se basear na informação exclusiva, prioriza fontes primárias e documentos originais. Uma das formas deste tipo de trabalho se manifesta a partir do Jornalismo Guiado por Dados, um recurso inicialmente chamado de RAC – Reportagem Assistida por Computador, permitido com a disseminação das leis de transparência, como a Lei de Acesso à Informação (LAI), que entrou em vigor em 2012. A primeira reportagem no sistema RAC teve à frente o jornalista estadunidense Philip Meyer, sobre manifestações na cidade de Detroit, em 1967. À época, o jornalista desenvolveu a reportagem The People Beyond 12th Street [7] (vencedora do Prêmio Pulitzer) publicada no jornal Detroit Free Press. Utilizava métodos quantitativos de pesquisa das Ciências Sociais para conhecer as causas e perfis dos participantes de confrontos com a polícia numa comunidade afro-americana.

A partir de então, as técnicas se disseminaram. [8] Em 1964, o Prêmio Pulitzer, o mais famoso do jornalismo norte-americano, passou a ter uma nova categoria, intitulada Investigative Reporting ou Reportagem Investigativa [9] contribuindo para a propagação universal da terminologia. Para a professora e pesquisadora Cleofe Monteiro de Sequeira, autora do livro referencial para os estudos sobre o tema no Brasil - Jornalismo Investigativo, o fato por trás da notícia (2005), é o processo de trabalho do/a repórter que diferencia a reportagem investigativa dos outros tipos de reportagem. Como o caráter investigativo é considerado inerente à atividade jornalística, alguns compreendem um pleonasmo na utilização do termo “reportagem investigativa”. Apesar de qualquer prática jornalística não prescindir de investigação, na reportagem definida como investigativa há diferenciações, desde uma apuração minuciosa, envolvendo muitas vezes riscos e ameaças, à apresentação do resultado final.

Como trata geralmente de denúncias de governos, irregularidades, flagrantes, ações ilegais, escândalos políticos, o rigor jornalístico costuma ser maior. No Brasil, a noção de reportagem investigativa encontra resistência por parte de profissionais que atuam nas redações. Esbarra numa concepção baseada na ideia de que toda a reportagem é investigativa por natureza, ignorando as especificidades envolvidas neste tipo de modalidade. Esta confusão tem respaldo num posicionamento do escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez. Durante a 52ª Assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa, em Los Angeles, Califórnia, em 7 de outubro de 1966, ele disse que a investigação não é um especialidade do ofício, mas que todo o jornalismo é investigativo por definição [10]. Márquez é um dos autores mais citados na defesa da não separação entre jornalismo e jornalismo investigativo.

Classificações[editar | editar código-fonte]

A produção de uma reportagem investigativa pode ser resumida em sete etapas[11]

  • 1) a escolha de um tema;
  • 2) o estudo da viabilidade da reportagem;
  • 3) o planejamento;
  • 4) a busca de documentação e a observação direta da realidade;
  • 5) a apuração, envolvendo entrevistas;
  • 6) a publicação; e, finalmente,
  • 7) o acompanhamento das repercussões após a publicação do caso para possíveis retomadas ao tema.

O jornalista Leandro Fortes, autor do livro Jornalismo Investigativo (2012), faz questão de ressaltar a diferença deste tipo de trabalho: “Muitas das reportagens vendidas ao público como fruto de jornalismo investigativo – denúncias bombásticas, flagrantes de corrupção, escândalos políticos – não passaram nem perto de uma investigação. Foram entregues prontas ao repórter, como naco compartilhável das estruturas de poder da República que cabem, supostamente por direito, às redações brasileiras”.[12]

Um dos primeiros teóricos a considerar a reportagem investigativa na pesquisa em jornalismo no Brasil foi o professor Nilson Lage. Ele lembra que esta concepção pode decorrer de diferentes experiências: pequenos fatos inexplicáveis ou curiosos, pistas dadas por informantes ou fontes regulares, leituras, notícias ou a observação direta da realidade.[13]. Esse tipo de reportagem pode ser categorizada de três formas, na classificação criada pelos autores estadunidenses Bill Kovach e Tom Rosenstiel: reportagem investigativa original, reportagem investigativa interpretativa e reportagem sobre investigações. A primeira se refere à descoberta de atividade desconhecida do público que pode desencadear investigações oficiais, a segunda é resultado de análise, novas abordagens e contextualização, sem a necessidade de revelar informação inédita e a última acompanha investigações em andamento por órgãos oficiais. A instituição norte-americana IRE - Investigative Reporters and Editors - lista os pré-requisitos para que uma reportagem se enquadre como investigativa [14].

  • A investigação deve ser trabalho do/a repórter, não uma investigação feita por outra pessoa/organização;
  • O tema da reportagem deve ser de relevância para leitores e/ou espectadores;
  • O assunto deve ser algo que esteja sendo escondido do público. Grande parte do debate em torno do termo reportagem investigativa se concentra em esclarecer o que a diferencia de outras formas de jornalismo[15]

Um conjunto de livros enfatiza os métodos que os repórteres usam para obter informações como característica distintiva desta prática. Para além das questões técnicas e do o processo de apuração, métodos, estratégias, a reportagem investigativa também se distingue pelo conteúdo, forma e narrativa. As fronteiras éticas acompanham a discussão sobre a prática. Por desvendar fatos que grupos dominantes buscam manter ocultos, esta prática jornalística é permeada por fortes discussões sobre ética. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece no artigo 6, inciso VII, como dever do jornalista “combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercida com o objetivo de controlar informação."

Mas, dependendo do assunto em questão, a reportagem pode fazer uso de técnicas de investigação questionáveis do ponto de vista ético, como infiltração, gravadores e câmera escondidos, além de omissão da identidade de quem conduz a reportagem. Um exemplo a ser citado neste contexto é o jornalista alemão Günter Wallraff, cujo método de trabalho é sempre objeto de polêmica. Isso porque ele costuma recorrer à técnica do disfarce (como bigode, lentes de contato e peruca) e infiltração para viver na “própria pele” uma determinada situação. Foi assim que escreveu o livro Ganz unten, lançado no Brasil como Cabeça de Turco, em que denuncia o tratamento preconceituoso concedido aos imigrantes turcos na Alemanha. “Para desmascarar a sociedade”, escreveu Wallraff, “é preciso mascarar-se, é preciso enganar e disfarçar-se para descobrir a verdade”[16].

Histórico no mundo[editar | editar código-fonte]

É difícil demarcar o momento histórico que origina a prática da reportagem investigativa . Uma das razões para isso reside no fato de que um trabalho jornalístico pode ou não ser considerado investigativo, conforme o critério de análise utilizado. Além disso, a maior parte das informações disponíveis sobre a história do jornalismo está ligada ao mundo ocidental. Muitos pesquisadores identificam as origens deste formato jornalístico na imprensa norte-americana.[17]

A publicação de uma série de reportagens políticas em 1972, de autoria de jornalistas então desconhecidos, Carl Bernstein e Bob Woodward, e que resultaria no Caso Watergate, é considerada um marco da reportagem investigativa. A investigação começou depois que cinco homens foram presos em 16 de junho de 1972 por tentarem instalar aparelhos de espionagem na sede do comitê do Partido Democrata, no edifício Watergate, em Washington. O processo de apuração levou os jornalistas à Casa Branca e ao coordenador de segurança do comitê para a reeleição do presidente Richard Nixon. Com o abalo da imagem frente à opinião pública, o presidente Nixon renunciou ao cargo. O caso foi relatado no livro Todos os homens do presidente e também ganhou as telas do cinema (1976).

A reportagem investigativa ganhou alcance e visibilidade após a investigação do Washington Post no caso Watergate[18]. Também passou a ser associada ao termo muckrakers, ligado àqueles que mexem com a lama ou “cavadores de informação” e watchdog (algo como jornalismo “cão de guarda”), como Silvio Waisbord retrata no livro Watchdog journalism in South America: news, accountability and democracy. Ele prefere “jornalismo cão de guarda” a “jornalismo investigativo”. Este tipo de prática ainda não é tão disseminada na história da imprensa da América do Sul, como nas experiências norte-americanas e europeias [19] Isto se deve a fatores como de ordem econômica, política e social. A instabilidade política e a violência de Estado dificultaram a adoção do modelo norte-americano de jornalismo em países da América do Sul. Por isso, menciona na introdução da obra que sua intenção não é apenas entender as relações entre mídia e democracia na região, mas também contribuir para os estudos comparativos internacionais sobre o tema.

No Brasil[editar | editar código-fonte]

O surgimento da investigação jornalística no Brasil só ocorreu após o fim da ditadura militar (1964-1985). Diferentes pesquisadores convergem para a compreensão segundo a qual, como tendência, a reportagem investigativa só emerge no país com a redemocratização[20]. No período dos 21 anos em que os generais estiveram no comando do país, a imprensa brasileira ficou pressionada pela censura e repressão. Apesar de registros de reportagens investigativas entre 1964 e 1985 - a Revista Realidade, publicada pela editora Abril com circulação de 1966 a 1976, e o livro 10 Reportagens que abalaram a ditadura, organizado por Fernando Molica, são exemplos disso – o término da censura marcou uma nova fase no jornalismo brasileiro.

Uma das reportagens investigativas mais referenciadas nas escolas de jornalismo do país é Rota 66: A história da polícia que mata, de autoria do jornalista Caco Barcellos e publicada pela primeira vez em 1992. Vencedor do Prêmio Jabuti na categoria reportagem, o livro aborda a política de extermínio com a morte de jovens por parte da tropa especial da polícia de São Paulo no período de 1970 a 1992. Antes disso, durante a ditadura militar e logo após o fim da censura aos veículos de comunicação, em agosto de 1976, a reportagem Assim vivem nossos superfuncionários também é até hoje lembrada como um marco. Publicada no jornal O Estado de S. Paulo, com a coordenação do jornalista Ricardo Kotscho, denunciava as mordomias de ministros e funcionários do alto escalão do governo. A inspiração para o trabalho surgiu com a publicação de conteúdo semelhante no New York Times sobre os privilégios dos superfuncionários do governo comunista na hoje extinta União Soviética. Apesar da ampla repercussão, não houve consequência prática após as denúncias no Brasil[21]

Na literatura especializada, é comum encontrar referências de que a partir do Governo Collor houve uma disseminação dos métodos de investigação nas redações. Há quem considere o impeachment de Collor o “marco zero do jornalismo investigativo no Brasil”[22].No entanto, como apontado, há registros de reportagens investigativas anteriores a esse período na imprensa brasileira.

Em 2002, a criação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), marcou um novo momento nesta discussão. Voltada para a troca de informações e formação profissional, a entidade reúne jornalistas todos os anos no seu congresso internacional com a intenção de compartilhar práticas e conhecimentos do exercício de práticas jornalísticas investigativas[23].A Abraji liderou um movimento com outras organizações pela aprovação da Lei de Acesso a Informações Públicas, sancionada em 2011 pela presidente Dilma Rousseff, e trabalha para seu aperfeiçoamento.

Além de veículos tradicionais, hoje no Brasil a Agência Pública e Repórter Brasil se destacam pelo trabalho de produção de reportagens investigativas.

Caso Tim Lopes[editar | editar código-fonte]

Talvez, um dos casos de reportagem investigativa com maior repercussão no Brasil tenha ocorrido com a morte do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo de Televisão, em 2 de junho de 2002[24]. Ele foi à favela Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro com uma micro-câmera oculta para uma reportagem-denúncia sobre abuso sexual de menores e tráfico de drogas em um baile funk. Capturado por traficantes, foi torturado e morto. O caso despertou com intensidade o debate sobre os limites e balizas éticas de quem se dedica à reportagem investigativa no Brasil.

  1. LIMA, Samuel. Insuficiências teóricas e desafios. In: CHRISTOFOLETTI, Rogério; KARAM, Francisco José (org). Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica. Florianópolis: Insular, 2011, p. 172.
  2. WAISBORD, Silvio. Watchdog journalism in South America: news, accountability and democracy. Nova York: Columbia University Press, 2000
  3. WAISBORD, Silvio. Watchdog journalism in South America: news, accountability and democracy. Nova York: Columbia University Press, 2000
  4. SEQUEIRA, Cleofe Monteiro. Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005.
  5. BURGH, Hugo de (Org.). Jornalismo investigativo: contexto e prática. São Paulo: Roca, 2008
  6. FORTES, Leandro. Jornalismo Investigativo. São Paulo: Contexto, 2008.
  7. https://s3.amazonaws.com/s3.documentcloud.org/documents/2070181/detroit1967.pdf
  8. TOLEDO, José Roberto de. Reportagem Assistida por Computador (RAC) e jornalismo investigativo. In: CHRISTOFOLETTI, Rogério; KARAM, Francisco José (Orgs). Jornalismo investigativo e pesquisa científica: fronteiras. Florianópolis: Insular, 2011.
  9. KOVACH, B.; ROSENSTIEL, T. Os elementos do jornalismo. O que os jornalistas devem saber e o público exigir. Tradução de Wladir Dupont, 2ª edição. São Paulo: Geração Editorial, 2004.
  10. SEQUEIRA, Cleofe Monteiro. Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005, p. 15
  11. Sequeira Cleofe Monteiro. Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2005, p. 15
  12. FORTES, Leandro. Jornalismo Investigativo. São Paulo, Contexto, p. 10.
  13. LAGE, NILSON. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2017. p. 139
  14. NASCIMENTO, Solano. Os novos escribas: O fenômeno do jornalismo sobre investigações no Brasil. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2010. pp. 16; 17
  15. WAISBORD, Silvio. Watchdog journalism in South America: news, accountability and democracy. Nova York: Columbia University Press, 2000.
  16. WALLRAFF, Günter. Fábrica de mentiras; tradução de Carmen Fischer. 2. Ed. São Paulo: Globo, 1990.
  17. SANTORO, Daniel. Técnicas de Investigación. México: Nuevo Periodismo, 2004
  18. SCHUDSON, Michael. Descobrindo a Notícia. Uma história social dos jornais nos Estados Unidos. Petrópolis: Ed. Vozes, 2010, p. 219.
  19. WAISBORD, Silvio. Watchdog journalism in South America: news, accountability and democracy. Nova York: Columbia University Press, 2000.
  20. WAISBORD, Silvio. Watchdog journalism in South America: news, accountability and democracy. Nova York: Columbia University Press, 2000
  21. KOTSCHO, Ricardo. Do golpe ao planalto: uma vida de repórter. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  22. FORTES, Leandro. Jornalismo Investigativo. São Paulo, Contexto, 2012. p. 10
  23. FORTES, Leandro. Jornalismo Investigativo. São Paulo, Contexto, 2012
  24. SOUZA, Percival de. Narcoditadura: o caso Tim Lopes, crime organizado e jornalismo investigativo no Brasil. São Paulo: Labortexto Editorial, 2002