Revoltas do Canboulay

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Revoltas do Canboulay
Turbulência social em Trinidad e Tobago
Trinidad and Tobago-CIA WFB Map.png
Port of Spain, San Fernando e Princes Town foram os focos dos conflitos
Data 1881-1884
Local Port of Spain, San Fernando e Princes Town
Desfecho Vitória da polícia trinitária. Impacto cultural no caribe, com o carnaval tornando-se mais contido.
Beligerantes
Flag of Trinidad and Tobago.svg
Descendentes de escravos libertos
Bandeira da Inglaterra
Polícia colonial britânica
Comandantes
Não há registros de um líder Flag of England.svg Capitão Arthur Baker

As revoltas do Canboulay foram conflitos criados pela resistência de descendentes de escravos libertos nas cidades de Trinidad e Tobago contra as tentativas da polícia britânica de abolir o Carnaval. As revoltas começaram em 1881, na cidade de Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago, e nas cidades de San Fernando e Princes Town em 1884, sendo que nessas duas últimas cidades foi onde houve registros de morte.

Essas revoltas ainda são comemoradas pelos trinitários, e a música canboulay (que significa cana queimada em português) é uma parte importante da cultura de Trinidad e Tobago, notável por seu uso de panelas de aço como instrumentos de percussão, estas, são descendentes dos instrumentos nos anos de 1880.

Origem das revoltas[editar | editar código-fonte]

O termo Canboulay deriva do francês Cannes Brulées (cana queimada) e originalmente significava uma prática racista dos antigos senhores de escravos, em sua maioria franceses, e que consisti nos brancos se pintando de negros e zombando das danças, características físicas, o modo de falar etc. dos negros.[1]

Como aponta Eric Brasil, é a partir da abolição da escravatura em 1838 que os negros começam a se apropriar do Canboulay, ressignificando-o como algo positivo para a comunidade negra e o tornando um símbolo da identidade negra, e de fato, hoje em dia esse é um dos principais símbolos nacionais de Trinidad e Tobago.

Os grupos que tomaram o Canboulay para si eram em sua maioria e negros e pobres que viviam nas chamadas Barrack Yards - que podemos associar aos cortiços cariocas. Era a partir das Barrack Yards que o carnaval se estruturava, as diferentes moradias se enfrentavam em disputas musicais, de danças e também de embates físicos. Cada Barrack possuía uma banda musical, uma corte com um rei e rainha e indivíduos que protegiam esses dois grupos e que, se necessário, entravam em conflito para defender a sua "comunidade".

Nessas disputas se fortalecia "a identidade do grupo [que] era fundamental para a sua sobrevivência no carnaval. O senso de pertencimento desses grupos tinha origem na experiência social, calcada na vida muitas vezes turbulenta e agitadas das Barrack Yards."[1]

A Revolta Canboulay de 1881[editar | editar código-fonte]

Em 1877, é nomeado o capitão Arthur Baker para o cargo de chefe de polícia de Trinidad, com a missão de estabelecer a lei e a ordem às chamadas classes baixas - como eram comumente referidos os negros. Entre 1878 e 1880, Baker iniciou um série de medidas para combater a violência no Carnaval. Em 1880, de surpresa, ele proíbe a utilização de tochas nos desfiles das band Yards, o que a população atendeu pacificamente.

No ano seguinte, 1881, o capitão novamente sem avisar resolve proibir as tochas - que eram uma das características centrais dos desfiles do Canboulay. Todavia, dessa vez a população já estava preparada para essa possibilidade e se organizou para resistir. À ordem da polícia, eles se armaram de pedras e garrafas previamente armazenadas e entraram em conflito com a polícia na madrugada do dia 28 de fevereiro.

O embate durou a madrugada e terminou com a polícia dispersando a população e retornando ao quartel. Vale destacar que não apenas a comunidade negra se envolveu na revolta. Moradores de casas vizinhas e também outros foliões também atacaram a polícia. O desfecho da revolta se dá ainda na tarde do dia 28 de fevereiro, quando em praça pública o governador Freeling discursa para o povo e promete a manutenção do carnaval com as tochas e sem a interferência da polícia. O que já aconteceu na própria noite do dia 28, com a polícia restrita no quartel da cidade.

Impacto na cultura caribenha[editar | editar código-fonte]

Após as revoltas, o Carnaval se tornou mais contido no caribe, os frascos e colheres se juntaram aos tambores como instrumento de percussão durante o Carnaval. Nos anos de 1930, panelas de aço eram usadas com extrema frequência e a música se popularizou pelo mundo depois que a marinha dos Estados Unidos montou uma base em Trinidad e marinheiros estadunidenses levaram a música para os Estados Unidos e por consequência, para todo o mundo. Panelas de aço ainda são parte fundamental dos concursos de música Canboulay.

O vocalista tornou-se um calypsoniano em 1920 e o calypso tornou-se amplamente popular em toda a Trinidad e do Caribe em 1930. Harry Belafonte, um artista jamaicano tornou-se um enorme sucesso em todo o mundo com seu álbum de 1956, Calypso, que se tornou um vendedor de milhões. Durante a década de 1960, calypso foi fundida com a música indiana e a música soul, e depois com o funk, criando a soca.

As Revoltas do Canboulay formam uma importante parte da história e cultura trinitária, e os eventos ainda são celebrados atualmente como o Carnaval.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b Brasil, Eric (2016). «Carnaval como direito - a Revolta Canboulay de 1881». Revista Eletrônica da ANPHLAC  Verifique data em: |acessodata= (ajuda);