Rodrigo

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Aquele que é irmão, amigo e companheiro.


Rodrigo
Nascimento 688
Córdova
Morte 19 de julho de 711 (23 anos)
Medina-Sidonia
Sepultamento Viseu
Cidadania Reino Visigótico
Ocupação soberano

Rodrigo (Ruderic, Roderic, Roderik, Roderich ou Roderick nas línguas germânicas; Ludharīq لذريق‎ em árabe) (? — 714) foi rei visigodo da Hispânia de 710 a 711. Com ele terminou o Reino Visigótico. Foi o lendário "último rei dos godos". Historicamente, pouco pode ser dito com exatidão sobre o seu reinado, exceto que governou parte da Península Ibérica ao mesmo tempo em que seus adversários governavam o resto do território e que foi derrotado e morto pelos muçulmanos, que conquistariam a maior parte da Península.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Segundo a Crônica de Afonso III, Rodrigo era filho de Teofredo, filho do rei Quindasvinto, e de uma mulher chamada Riccilo. Sua data exata de nascimento é desconhecida, mas estima-se que tenha sido após 687, ano do casamento de seu pai durante seu exílio em Córdova após a ascensão do Rei Égica.[1]

Usurpação[editar | editar código-fonte]

De acordo com a Crônica de 754, Rodrigo "tumultuosamente [tumultuose] invadiu o reino [regnum] com o incentivo do Senado [senatus]."[2][3] Os historiadores têm debatido por muito tempo o significado exato destas palavras. O que é geralmente reconhecido é que não se tratou de um golpe palaciano típico como havia ocorrido em ocasiões anteriores, e sim de uma invasão violenta do palácio, que dividiu o reino.

É provável que a "invasão" não tenha partido de fora do reino, já que a palavra regnum pode referir-se ao escritório do rei; é provável que Rodrigo tenha apenas usurpado o trono.[3] Entretanto, é possível também que Rodrigo fosse um comandante regional (duque de Bética segundo as lendas) ou até mesmo um exilado, quando ele forjou o golpe.[4][5]

O "tumulto" que envolveu esta usurpação foi provavelmente violento, embora as circunstâncias deste tem dividido os estudiosos. Alguns creem que envolveu a deposição ou o assassinato do rei legítimo, Vitiza, enquanto outros acreditam que foi uma consequência da morte natural do monarca.[6] Outros acreditam que o rei Ágila II, que governou em oposição a Rodrigo, era de fato o filho e sucessor de Vitiza e que Rodrigo tinha tentado usurpar o trono dele.[7]

O Senado com o qual Rodrigo planejou seu golpe era provavelmente composto de "líderes aristocratas e talvez também alguns bispos".[3] A participação de clérigos na revolta é contestada; alguns estudiosos argumentam que o apoio dos bispos não teria levado o ato a ser rotulado de usurpação. Thompson, por exemplo, acredita que o golpe tenha sido orquestrado apenas por palacianos.[2] O grupo de senhores seculares e eclesiásticos era determinante na sucessão visigótica desde o reinado de Recaredo I.[4] Algumas medidas foram tomadas nas últimas décadas do reino para tentar diminuir a influência dos palacianos, mas eles não foram muito afetados por tais medidas, como a participação deles em um golpe em 711 indica.[2]

Divisão do Reino[editar | editar código-fonte]

Províncias da Hispânia de 586 a 711. Rodrigo controlava a província de Lusitânia e parte de Cartaginense.

Após o golpe, o reino foi dividido em dois, com a porção sudoeste (a província de Lusitânia e a parte ocidental da província de Carthaginiensis ao redor de Toledo, capital do Reino Visigótico) sendo controlada por Rodrigo e a porção nordeste (Tarraconense e Narbonense) sendo controlada por Águila. Tal fato foi confirmado por evidências arqueológicas e numismáticas. As doze moedas ainda existentes do reinado de Rodrigo, todas chamadas Rvdericvs, foram cunhadas em Toledo, provavelmente a capital do reino dele, e "Egitânia" (provavelmente a freguesia de Idanha-a-Velha).[8] As regiões onde as moedas foram encontradas não se sobrepõem, sendo altamente provável que os dois governantes reinavam em oposição um ao outro. Não se sabe com quem ficou o controle das províncias de Galécia e Bética.[8] O fato de que Rodrigo e Águila provavelmente nunca se enfrentaram militarmente é melhor explicado pela preocupação de Rodrigo com as incursões árabes na Hispânia e não com a divisão formal do Reino Visigótico.[9]

Uma lista de sucessão real visigótica menciona que Rodrigo teria reinado por um período de sete anos e seis meses, enquanto duas continuações da Chronicon Regum Visigothorum registra que o governo de Águila durou três anos.[4] Em contraste às listas de sucessão real, cuja data não pode ser determinada, a Crônica de 754, escrita em Toledo, atesta que Rodrigo reinou por um ano.[4] Especula-se que o reinado de Rodrigo tenha começado em 710 ou, mais comumente, em 711 e tenha se estendido até o final de 711 ou 712. O reinado de Águila provavelmente começou pouco depois do de Rodrigo e durou até 713.

Guerra com os árabes[editar | editar código-fonte]

Segundo a Crônica de 754, imediatamente após garantir seu trono, Rodrigo reuniu forças para se opor aos árabes e berberes (Mauri), que estavam invadindo o sul da Península Ibérica e tinham destruído muitas cidades sob o comando de Tárique e outros generais muçulmanos.[5] Enquanto fontes posteriores de origem árabe tornaram a conquista da Hispânia como um evento singular realizado sob as ordens de Muça ibne Noçáir, governador de Ifríquia, de acordo com a Crônica de 754, que foi escrita numa época mais perto dos eventos que relata, os árabes começaram sua incursão pela região com ataques desorganizados e só conseguiram conquistar a Península após a morte de Rodrigo e o colapso da nobreza visigótica. Segundo Historia Langobardorum, de Paulo, o Diácono, os sarracenos invadiram "toda a Hispânia" a partir de Septem (Ceuta).[10][11]

Rodrigo fez várias expedições contra os invasores antes de ser abandonado em batalha por suas tropas e morto em 712.[5] O cronista de 754 afirma que alguns dos nobres que haviam acompanhado Rodrigo em sua última expedição decidiram abandoná-lo por "ambição pelo reino", talvez a sua intenção fosse deixá-lo morrer na batalha para que pudessem assegurar o trono para um deles.[5] Quaisquer que tenham sido as intenções, a maioria deles teriam morrido na batalha também.[5] Outros historiadores sugerem que a baixa moral entre os soldados por causa da ascensão contestada de Rodrigo ao trono foi a causa da derrota.[11] A maioria dos soldados de Rodrigo seriam mal treinados e escravos indispostos à batalha; provavelmente haveria poucos homens livres lutando pelos godos.[12] O local da batalha é incerto. Provavelmente ocorreu perto da foz do rio Guadalete, daí seu nome, Batalha de Guadalete. De acordo com Paulo, o Diácono, o local era desconhecido.[11]

Segundo a Crônica de 754, os árabes conquistaram Toledo em 711 e executaram muitos nobres que ainda estavam na cidade sob o pretexto de que ajudariam na fuga de Oppas, filho de Égica.[5] Tendo isto acontecido, de acordo com o próprio texto, após a morte de Rodrigo, a derrota das tropas dele deve ser atrasada para 711 ou a conquista de Toledo deve ser adiada para 712; este último é preferido por Collins.[13] É possível que o Oppas que fugiu de Toledo e era filho de um rei anterior tenha sido a causa da "fúria interna" que arrasou a Hispânia na época narrada pela Crônica. Talvez Oppas tenha sido declarado rei em Toledo pelos rivais de Rodrigo e Águila, seja antes da derrota de Rodrigo ou entre a morte dele e a conquista de Toledo pelos árabes.[9] Se assim for, os nobres que tinham "ambição pelo reino" podem ter sido os apoiantes de Oppas que foram mortos em Toledo pelos árabes logo após a batalha no sul.[13]

Segundo um relato do século IX, uma tumba com a inscrição Hic requiescit Rodericus, rex Gothorum ("aqui jaz Rodrigo, rei dos godos") foi encontrada em Egitânia (atual freguesia de Idanha-a-Velha, em Portugal). Segundo a lenda de Nazaré, o rei fugiu do campo de batalha sozinho. Rodrigo deixou uma viúva, Égilo, que mais tarde se casaria com um dos governantes árabes da Hispânia.[11]

Na literatura[editar | editar código-fonte]

Rodrigo foi tema de várias obras literárias. O escrito escocês Walter Scott tratou poeticamente das lendas associadas a ele em The Vision of Don Roderick (1811), assim como o fizeram os escritores britânicos Walter Savage Landor e Robert Southey em Count Julian (1812) e Roderick, the Last of the Goths (1814), respectivamente.

O escritor estadunidense Washington Irving recontou as lendas de Rodrigo em Legends of the Conquest of Spain (1835), obra escrita enquanto o autor morou na Espanha. As lendas recontadas por ele no livro são Legend of Don Roderick, Legend of the Subjugation of Spain e Legend of Count Julian and His Family.

Rodrigo também foi tema de duas óperas: Rodrigo (1707), de Georg Friedrich Händel e Don Rodrigo (1964), de Alberto Ginastera.

Notas de rodapé[editar | editar código-fonte]

  1. Collins, Visigothic, 136.
  2. a b c Thompson, p. 249.
  3. a b c Collins, Visigothic, p. 113.
  4. a b c d Collins, Visigothic, 132.
  5. a b c d e f Collins, Visigothic, 133.
  6. Collins acredita que Vitiza foi alvo do golpe.
  7. Bachrach, p. 32.
  8. a b Collins, Visigothic, p. 131.
  9. a b Collins, Visigothic, p. 139.
  10. HL, VI, 46
  11. a b c d Thompson, p. 250.
  12. Thompson, 319.
  13. a b Collins, Visigothic, p. 134.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Precedido por
Vitiza
Rei visigodo da Hispânia
710 - 711
Sucedido por
---
(invasão árabe)