Romance de Vila Franca

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O Romance de Vila Franca, de seu título completo Romance que se fez d'algumas mágoas, e perdas que causou o tremor de Vila Franca do Campo, é uma descrição oral do terramoto que soterrou Vila Franca do Campo na noite de 21 para 22 de Outubro de 1522, uma das maiores catástrofes naturais que atingiram os Açores, provocando alguns milhares de mortos. Este romance é a mais antiga peça de literatura oral recolhida nos Açores.

A versão de Gaspar Frutuoso[editar | editar código-fonte]

Existem várias lições (isto é versões) do texto, sendo a mais antiga a recolhida por Gaspar Frutuoso, por volta de 1590, ou seja cerca de 70 anos após os acontecimentos que lhe deram origem:

Em Vila Franca do Campo
Que de nobre precedia
Na ilha de São Miguel
A quantas vilas havia,
Era de mil e quinhentos
E vinte e dois que corria,
Vinte e dois dias de Outubro,
Quarto de Lua seria:
Era uma quarta-feira,
Quarta-feira triste dia,
E em a noite mais serena
Que o céu fazer podia,
Inda que corre Levante
Nada d’ele se sentia;
Não corre bafo de vento,
Nem folha d’árvore bolia,
Estrelado estava o céu,
Nuvem não o escurecia.

Ante manhã duas horas
Inda não amanhecia,
Começou tremer a terra,
Mais que outras vezes tremia,
E a dar fortes balanços
Parecendo maresia:
Não treme do baixo a cima,
Mas para os lados tremia.
Nem abre boca nenhuma
O espírito que isto fazia;
Sacudiu somente a terra
Dos lados em que feria.

Sacode a terra dos ombros,
Com o peso que sentia
O grão gigante Almoural
Que deitado ali jazia.
Movem-se todas as cousas
Quando seu corpo movia;
Estrondo que faz a terra
Roncos são do que dormia,
Que de ser velho cansado
Ronca quando adormecia.

Correu a terra d’um monte
Que d’alta serra pendia,
E com ímpeto furioso
Sobre a vila se estendia,
Ali começa a dar gritos
A gente que se afligia,
Deles chamaram por Deus,
Deles por Santa Maria.
Quando chegou a manhã
Nenhum deles parecia
Que correu daquela terra
Que sobre a vila jazia,
Essa gente que escapara
Como pasmada morria;
Outra que viva ficava
Vivendo assi não vivia.

Aqui chega Frei Afonso,
E com a tocha que trazia
Da Ordem de São Domingos
De Toledo reluzia,
Esse padre glorioso
Que da glória parecia.
Para consolar o povo
Assi falava e dizia:
Confessai-vos, irmãos meus,
Em quanto vos dura o dia,
Rezai todos o rosário
Da virgem Santa Maria;
Edificai-lhe uma casa
Indo a ela em romaria,
Tomai-a por valedora
Que ela por vós rogaria,
Tende nela confiança
Que certo vos valeria.

Não acaba de falar
Quando a casa se fazia,
Uns acarretam pedra
Outros madeira d porfia.
Trabalham moços e velhos,
Pessoas de gram valia,
Até as nobres mulheres
Serviam sem fantasia.
Trazem telha dos telhados
Que no arrabalde havia,
Como formigas ligeiras,
Andam a quem mais faria,
Tanto que em poucos dias
A Ermida já servia,
Já celebram missa nela
Já lá vão em romaria.

O Capitão Rui Gonçalves
Que da Câmara se dizia,
Como soube em sua quinta
Desta terra que corria,
Manda selar seu cavalo
À espora-fita corria,
Para socorrer o seu povo
Que estava nesta agonia.

E chegando a Vila Franca
Do Campo, campo só via,
Campo em que estivera Tróia
Que soberba ser soía
De mui populosas casas
Nem uma só aparecia,
Seus paços postos por terra
Terra que neles cobria,
Com seu filho e duas filhas
A quem ele muito queria,
Também um filho bastardo
Que não tinha bastardia,
E uma sua irmã
Chamada dona Melícia.

Dissimula sua dor
Ainda que muito a sentia;
Seus olhos se arrasam d'água
Por mais que ele se encobria,
Com coração esforçado
De senhor de gram valia,
Esforça todo seu povo
Que de pasmo falecia.

Manda logo cavar gente
Onde antes estar soía
O Santíssimo Sacramento
Cuidando que se acharia,
Vendo quanto Deus nos ama
Quão grande bem nos queria,
Que querendo dar castigo
Sobre si o tomaria,
Em todos nossos trabalhos
Companhia nos faria;
Dos açoutes que nos dava
Também participaria,
Sendo uma vez sepultado
Outra se sepultaria;
Por estranhar nossas culpas
A si mesmo enterraria.

Mas tão mal cheiravam elas
Que Deus dali se desvia;
Pois que cavando a gram pressa
Ali já não aparecia.
A arca acham no Altar
Mas sem ele estava vazia:
Não sabem se foi ao céu,
Se na terra ficaria
Nalgum sacrário metido,
Para o qual se mudaria.

Alguns sinais viram disto
A gente que ali acudia,
Vendo daquele lugar
Uma nuvem que subia,
Ouvindo muitos cantares
De suave melodia,
Suspeitando ser dos anjos,
Alguma gram companhia
Que da terra para os céus
A Deus acompanharia;
Ou por mãos angelicais
Noutra Vila se poria.

Mas quando não foi achado,
Um grande grito se erguia,
Daquela grande companha,
Que misericórdia pedia;
Vendo uma tal maravilha
Com gritos ninguém se ouvia
Daquele povo tão triste
Quem então não gritaria?
Batendo todos nos peitos
Quem peitos não quebraria?
Em tempo de tanta angústia
Pois deles seu Deus fugia.

Para lhe pedir remédio
Naquela triste agonia,
Já não sentem perder nada
Só não ver Deus se sentia.
Este castigo mais choram,
Este só mais lhe doía,
Vendo apartar-se Deus deles
Quem não esmoreceria?

Depois cavam em outras partes
Por ver se alguém vivia,
Acham mortos pelas ruas,
Que a terra afogado havia.
Outros acham em seus leitos
Sem temor do que viria,
Cuidando dormir de noite
Mas também dormem de dia,
Sono de uma noite só
Para sempre duraria.

Alguns vivos se acharam
Pouco número seria,
Mas quem quer que os vira vivos
Por mortos os julgaria:
Tinham todos cor da terra
Que toda a Vila cobria:
Mas não cobre uma criança
Que só três anos havia,
A qual acharam folgando
Sobre a tábua em que jazia.

Nove dias são passados
Depois de morta a alegria
Quando com gram diligencia
A gente cavando ia:
Causa de grande tremor
Quem contar ousaria,
Indo o povo em procissão
Que com choro se fazia,
Ouvida foi uma voz,
Doutro mundo parecia,
Mui fraco vem o tom dela
Porque do centro saia.

Muitos ouvem o som confuso
Mas ninguém o entendia;
Ali vem o Capitão
Que a tudo sempre acudia:
Manda cavar a gram pressa
Aonde aquele tom se ouvia,
Entendendo que era gente,
Que soterrada gemia.

Depois de muito cavar
Uma trave se descobria,
Com a ponta para o chão
Que encostada assi jazia;
Fazem logo uma abertura
Em um vão que ali havia,
Vão era que fora logea
Onde sobrado caia.

Saem por elas três vivos,
Mortos cada um parecia,
Com as mãos alevantadas
Como cada um saía;
Joelhos postos no chão
A seu Deus graça rendia,
Pelo livrar de tal morte,
Que, vivendo, ali sofria;
Onde estavam mais confusos
Não sabendo o que seria,
Se era toda a gente morta
Ou se o mundo se fundia:

Não sabem quando amanhece
Se um galo lho não dizia,
Que cantava a horas certas,
Que sempre cantar soía;
Mantinham-se de biscoito
Que para viagem havia,
Que queriam navegar
Para onde o sol saía;
Onde tinham sua terra
Mas a terra lho impedia,
Que correndo aquela noite
Ali todos os prendia;

Bebem água que do lodo
Gota a gota lhe caía,
E também de uma fundagem
Que vinagre se fazia:
Assaz de morte passava
Quem escuro ali vivia,
Contavam isto chorando,
Com choro o povo os ouvia,
Tantas lágrimas choravam
Que a terra se humedecia.

Já não choram seus parentes
Mortos que a terra cobria
Muito mais choravam os vivos
Que mais morre o que vivia,
Não choram amigos mortos
Nada disto lhes doía;
Pois sabem que tarde ou cedo
Qualquer dos vivos morreria,
Choram não saber da morte
Em que estado os tomaria;

E mais choram a si mesmos
Pelo que ainda se temia,
Choram seus próprios pecados
De que o castigo nascia;
Que quem planta culpas graves
Graves castigos colhia.

Era tudo ali um grito
Que ao céu empíreo subia:
Pedem misericórdia a Deus
Cada um assim dizia:
Senhor Deus, misericórdia,
Que eu, meu Deus, não merecia.

Também tiraram um morto
Que entre eles jazia,
Que faleceu às escuras
Entre a viva companhia,
A quem dava gram trabalho
Pelo muito que fedia,
O qual depois d’enterrado
Como a outros se fazia:
Vão todos em procissão
A uma Ermida que havia,
Da Virgem Santa Catarina
Que de paróquia servia;
Dão todos graças a Deus
Como cada um podia,
Pelos livrar da prisão
Da terra que os cobria.

Cinco mil foram os mortos
Que em toda a Ilha haveria,
Por que afirmam os antigos
Tantos morreram em tal dia:
Outros contam nesta conta
Os que a peste feria,
Logo nos anos seguintes
Em que entre os vivos ardia:
O que parece mais certo,
Que então tantos não havia,
Alguns morreram nos lugares
Debaixo da casaria,
Que com o tremor de terra
Em todas partes caía.

Morreram religiosos,
Morreu muita clerezia;
Morre muita gente nobre
Que em toda a ilha vivia,
Qualquer rico e poderoso
Sem as riquezas partia;
Que por ventura ficava
A quem não lhe agradecia
Cuidando gozá-la muito
No melhor se despedia;
Não a logrou muitos anos
Nem jamais a lograria,
Se fez algum bem com ela
Isto só lhe valeria.
Morreram altos e baixos
Sem lhe valer fidalguia,
Morrem grandes e pequenos,
Todos a morte ofendia.

Mas mais morrem em Vila Franca
Onde mais povo havia
Quase todos ali morrem
Senão algum que fugia;
Mas são poucos os que fogem
Porque cada um dormia,
Poucos silo os que escaparam
Debaixo da terra fria
E alguns no arrabalde
Além da água que corria;
Outros escapam nas quintas
Porque Deus assim queria.

Cuidando ser acabado
O mal que mais não seria,
As nove horas são passadas
Depois que já o sol saía,
E eis torna a tremer a terra
Mais que dantes parecia,
Corre na Ponta da Garça
E na Maia o mesmo dia;
Terra que matou a muitos
Deste número e quantia,
Contando moços pequenos
De que contar não sabia;
Lembra-me das dores grandes,
Das pequenas me esquecia,
Onde houve magoas sem conto
Quem contar as poderia!

Teófilo Braga e a publicação do Romance de Vila Franca[editar | editar código-fonte]

Publicando este notável romance sobre o terramoto de Vila Franca do Campo em 1522, não devemos deixar de dar uma notícia do historiador insulano Gaspar Frutuoso e do seu livro intitulado Saudades da Terra.

No ano de 1522, setenta e oito anos depois do descobrimento da Ilha de São Miguel, na então Vila de Ponta Delgada, nasceu Gaspar Fructuoso. Era seu pai lavrador chão e abonado na legítima frase da Ordenação, e como tal dedicava o filho para a vida do campo; Gaspar Fructuoso sentia uma propensão irresistível para os estudos de humanidades, e todas as vezes que seu pai o mandava tomar conta dos trabalhadores, ele os distraía com várias leituras dos livros com que sempre andava acompanhado. Isto decidiu o bom do pai a mandá-lo para uma das principais universidades da Europa; de facto, como conta Cordeiro na Historia Insulana, cursou o trivium e quadrivium na Universidade de Salamanca, recebendo ali o grau de Mestre em Artes.

Voltou à Ilha de São Miguel para receber as ordens do sacerdócio, e tornou para Salamanca a tomar o grau de Doutor em Teologia. Ali ouviu as lições do célebre moralista Frei Domingos do Sotto. A fama de suas virtudes e sabedoria granjeou-lhe a amizade de grandes dignitários da Igreja; o Bispo de Miranda, Dom João d’Alva, o fixou por algum tempo junto a si; leu teologia no Colégio dos Jesuítas em Bragança, donde veio para Lisboa, quando o Bispo de Miranda foi nomeado capelão mor de Dom Sebastião. A mitra de Miranda foi-lhe instantemente oferecida, mas Gaspar Fructuoso preferiu antes voltar para a sua Ilha, trocando o báculo por uma simples vigararia em Nossa Senhora da Estrela na vila da Ribeira Grande. Viveu uma vida quieta e ocupada com a prática das virtudes evangélicas, morrendo em 24 de Agosto de 1591, com setenta anos de idade. A sua rica livraria excedia quatrocentos volumes; foi deixada ao Colégio dos Jesuítas de Ponta Delgada, a quem fez depositário do manuscrito da sua História dos Açores, que intitulou Descobrimento das Ilhas ou Saudades da Terra.

Este livro notável ainda está inédito (Nota: foi publicado em 1961). Quando o Marquês de Pombal ordenou a expulsão dos Jesuítas, o Reitor do Colégio, em presença da corporação, ofereceu o livro ao Governador da Ilha de São Miguel, António Borges de Bettencourt, para que o conservasse. Nesse mesmo dia a fragata Graça levou todos os Jesuítas da ilha de São Miguel. Possui o original deste monumento o senhor Visconde da Praia (Nota: António Borges, o 2.º visconde), verdadeiro príncipe açoriano, que o obteve por compra a José Velho Quintanilha, que o recebera por herança do vigário da Lagoa, o ouvidor Luiz Bernardo, herdeiro do mencionado Governador da Ilha.

Existem duas cópias deste livro, uma de que é possuidor o Sr. José do Canto, outrora pertencente ao erudito João da Arruda, e autenticada por dois tabeliães; a outra pode ler-se na Biblioteca Pública de Lisboa, cujo traslado foi feito pelo Corregedor Veiga. Algumas destas notícias foram recolhidas de um velho professor micaelense, e aproveitadas pelo meu antigo amigo e condiscípulo António Pereira, no seu interessante estudo sobre os historiadores insulanos, que se pode ler no Santelmo, jornal literário, publicado em 1860.

O romance que publicamos, devemo-lo ao ilustre micaelense José de Torres, que de há muitos anos trabalha em uma "História Geral dos Açores", e para o que já tem extraordinários monumentos reunidos. Este romance foi publicado num jornal intitulado o Philólogo, n.º 5 e 6. Diz-nos o Sr. José de Torres: "Serviu à sua publicação no Philólogo (jornal de rapazes de 14 e 16 anos de idade) cópia tirada do apógrafo de parte das Saudades da Terra, que por sua própria mão tinha feito o nosso morgado João de Arruda, manuscrito que mais tarde foi comprado por José do Canto, cuido eu."

No Romanceiro Geral o publicámos (n.º 50), extraído do Agiologio de Cardoso, em uma lição tão breve, que supomos ser aquela a parte que andava na versão oral. O Sr. José de Torres disse também que não conhecia outro algum monumento desta natureza.

Fonte[editar | editar código-fonte]

Texto extraído de: