Romano Guardini
| Romano Guardini | |
|---|---|
Romano Guardini (1920) | |
| Nascimento | 17 de fevereiro de 1885 Verona |
| Morte | 1 de outubro de 1968 (83 anos) Munique |
| Sepultamento | Ludwigskirche |
| Cidadania | Alemanha |
| Alma mater |
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| Ocupação | padre, escritor, teólogo, professor universitário, filósofo |
| Distinções |
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| Empregador(a) | Universidade de Tubinga, Universidade Luís Maximiliano de Munique, Universidade Humboldt de Berlim |
| Religião | catolicismo |
Romano Guardini (Verona, 17 de fevereiro de 1885 – Munique, 1º de outubro de 1968) foi um teólogo e filósofo da religião alemão, reconhecido como uma figura de grande influência entre os pensadores cristãos do século XX. Ele é considerado Servo de Deus pela Igreja Católica.
Presbítero católico-romano da Diocese de Mainz, lecionou na Universidade de Berlim entre 1923 e 1939 (quando teve seu curso suprimido pelas autoridades nazistas[1]). Foi professor, depois da Segunda Guerra Mundial, na Universidade de Tübingen (1945-1948) e na Universidade de Munique (1948-1962).
Sua obra abarcou muitos campos: sua influência é reconhecida nas transformações pelas quais passou a espiritualidade cristã no início do século XX,[2] no diálogo entre teologia e literatura (como seus estudos sobre Dostoiévski, Rilke, Dante e outros autores[3]) e na liturgia, sendo considerado um dos maiores nomes do movimento litúrgico.
Vida
[editar | editar código]A família de Romano Guardini mudou-se de Verona para Mainz em 1886, em seu primeiro ano de vida. Na cidade alemã, Guardini estudou no Rabanus-Maurus-Gymnasium. Depois disso, cursou dois semestres de química em Tübingen e três de economia em Munique e Berlim.
Decidindo-se pelo presbiterado, estudou teologia em Freiburg-im-Breisgau e em Tübingen. Foi ordenado em Mainz em 28 de maio de 1910. Em 1911, optou pela cidadania alemã, requisito para poder dar aulas de religião. No ano seguinte, iniciou o doutorado em teologia em Freiburg-im-Breisgau. Obteve o título de doutor em 1915, com a tese A doutrina de São Boaventura sobre a redenção – uma contribuição para a história e o sistema da doutrina da redenção, sob a orientação de Engelbert Krebs.
Trabalhou como capelão em algumas igrejas de Mainz, Heppenheim e Darmstadt nos seus primeiros anos de ministério presbiteral. A partir de 1916, concentrou-se no trabalho pastoral junto à juventude, acompanhando o grupo Juventus, em Mainz e, mais tarde, a partir de 1920, o movimento Quickborn, que realizava seus encontros no Castelo de Rothenfels. Foi o diretor nacional do Quickborn de 1927 a 1939, quando o governo nazista dissolveu o movimento e confiscou o castelo.
Em 1922, obteve a habilitação em dogmática na Universidade de Bonn, novamente com um trabalho sobre Boaventura. Em 1923, Guardini foi convidado a assumir uma cátedra de filosofia da religião e visão de mundo católica na Universidade de Berlim, como professor convidado, registrado formalmente junto à Universidade de Breslau. Ocupou esse cargo até 1939, quando as autoridades nazistas eliminaram a cátedra e o aposentaram compulsoriamente. Entre 1943 e 1945, Guardini retirou-se para Mooshausen, onde morou com o pároco, Josef Weiger, seu amigo desde a faculdade de teologia.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Universidade de Tübingen o convidou a ocupar uma cátedra de mesmo nome. Guardini trabalhou aí entre 1945 e 1948, quando aceitou o convite para trabalhar na Universidade de Munique, numa cátedra homônima, igualmente criada para ele. Ocupou essa cátedra até a sua aposentadoria, em 1964. Entre 1949 e 1962, desempenhou também o cargo de capelão universitário, na Igreja de St. Ludwig. Em 1952, recebeu de Pio XII o título de prelado doméstico de Sua Santidade, passando a ser chamado de "monsenhor".
Foi convidado a atuar como perito no Concílio Vaticano II, mas foi impedido pela sua frágil condição de saúde. Morreu em Munique, em 1º de outubro de 1968, sendo sepultado no cemitério dos padres oratorianos, na Igreja de St. Laurentius. Seus restos mortais foram trasladados para uma capela lateral da Igreja de St. Ludwig em 1997.
Obra
[editar | editar código]Romano Guardini dedicou parte significativa de sua obra à liturgia, tornando-se um dos principais nomes do movimento litúrgico. Seus livros Vom Geist der Liturgie (O espírito da liturgia), de 1918, e Liturgische Bildung (Formação litúrgica), de 1923, marcaram a reflexão sobre a liturgia, unindo sensibilidade filosófica e espiritualidade concreta, oferecendo uma compreensão simbólica e existencial dos ritos, que antecipa em muitos aspectos a renovação litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II.
Der Gegensatz (O contraste), de 1925, é uma das primeiras obras fundamentais de Guardini. De cunho mais filosófico, ela apresenta sua teoria das oposições polares, fruto de reflexões iniciadas ainda na juventude em diálogo com seu amigo Karl Neundörfer. Guardini mostra que a realidade humana se estrutura em pares de tensões irredutíveis que não podem ser simplesmente resolvidos por síntese, mas precisam ser sustentados em sua polaridade.
Em sua obra Der Heiland, publicada em 1935, Guardini opôs-se abertamente à mitificação da pessoa de Jesus promovida pelos “cristãos alemães” alinhados ao nazismo, ressaltando, em contraposição, a estreita ligação entre cristianismo e judaísmo na historicidade de Jesus. Também suas obras Der Herr (O Senhor), de 1937, e Welt und Person (O mundo e a pessoa), de 1939, são consideradas uma refutação da visão de mundo nacional-socialista.
Entre os escritos de Guardini, destacam-se também aqueles em que ele se debruça sobre grandes autores da literatura, buscando neles chaves de compreensão existencial e espiritual para o ser humano moderno. Assim, dedicou reflexões a Dante, Pascal, Hölderlin, Rilke, Dostoiévski e outros escritores. Guardini não fazia uma leitura puramente literária ou estética, mas via na literatura um espaço privilegiado de revelação da condição humana.
Guardini traçou um diagnóstico da mudança de época que caracteriza o tempo em que vivemos, refletindo sobre a relação do ser humano com a técnica, a sua atitude diante do meio ambiente e os critérios adequados para guiar a construção das sociedades. Essas reflexões aparecem em obras como Briefe vom Comer See (Cartas do lago de Como), de 1927, Das Ende der Neuzeit (O fim dos tempos modernos), de 1950, e Die Macht (O poder), de 1951.
Obras com tradução para o português
[editar | editar código]- O espírito da liturgia. São Paulo: Cultor de Livros, 2018.
- Introdução à vida de oração. São Paulo: Cultor de Livros, 2018.
- O fim dos tempos modernos. Brasília: Academia Monergista: 2021.
- O mundo e a pessoa. Brasília: Academia Monergista: 2021.
- O Senhor. São Paulo: Cultor de Livros, 2021.
- Sinais sagrados. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2022.
- Liberdade, graça e destino. Brasília: Academia Monergista: 2023.
- Formação litúrgica. Curitiba: Carpintaria, 2023 (2ª ed. 2024).
- Cartas do lago de Como. Curitiba: Carpintaria, 2025.
Influência
[editar | editar código]A obra de Romano Guardini recebeu muita atenção durante a sua vida. Alguns de seus livros se tornaram best-sellers, e sua obra começou a ser traduzida para outras línguas, como o francês, o italiano, o espanhol, o português e o inglês, já nas décadas de 1930 e 1940. Em 1952, ele foi galardoado com o Prêmio da Paz dos Editores Alemães, organizado pela Feira do Livro de Frankfurt. Já em 1962, recebeu o Prêmio Erasmus, honraria dedicada a figuras que realizaram contribuições notáveis à cultura europeia.
Guardini era um autor caro ao Papa Paulo VI, tendo influenciado aspectos do seu magistério. O interesse pela sua obra se reavivou a partir da celebração do seu centenário (1985) e ganhou ainda um novo impulso a partir do pontificado de Francisco, devido à profunda influência do seu pensamento sobre esse papa.
Beatificação
[editar | editar código]Em 2017, a Arquidiocese de Munique e Freising deu início ao seu processo de beatificação.[4][5]
Honrarias
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Cavaleiro pour le Mérite para as ciências e as artes — 1958
Cavaleiro da Ordem ao mérito da Bavária — 1958
Grã Cruz da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha — 1959
Grã Cruz com placa da Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha — 1965
Notas
- ↑ Gibellini, p. 218.
- ↑ CHIOCCHETTA, Pietro (1984). La spiritualità tra Vaticano I e Vaticano II. Roma: Studium
- ↑ Cf. Gerl, p. 430.
- ↑ «Guardini: Prozess zur Seligsprechung wird eröffnet». katholisch.de (em alemão). 24 de outubro de 2017. Consultado em 30 de janeiro de 2026
- ↑ «Seligsprechungsprozesse für Gerlich und Guardini». www.erzbistum-muenchen.de (em alemão). 24 de outubro de 2017. Consultado em 30 de janeiro de 2026
Referências bibligráficas
[editar | editar código]- GERL, H.B. Romano Guardini. La vita e l'opera. Brescia: Morcelliana, 1988.
- GIBELLINI, Rosino. A Teologia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1998.