Rosa Egipcíaca

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Rosa Egipcíaca (Costa de Ajudá, 1719 - Lisboa, 12 de outubro de 1771), também conhecida como Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz e Rosa Courana, foi autora de Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas, o mais antigo livro escrito por uma mulher negra na história do Brasil.[1]

Os dons espirituais levaram Rosa Egipcíaca a ter devotos, inclusive do clero católico, motivo que a levou aos "olhos" da Inquisição.[1]

A vida dela inspirou a produção dos livros Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil, uma biografia de 750 páginas escrita por Luiz Mott, e Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz: a incrível trajetória de uma princesa negra entre a prostituição e a santidade, um romance ficcional escrito por Heloisa Maranhão.[1] A biografia também foi citada e inspirou a produção de vários trabalhos acadêmicos.

Vida[editar | editar código-fonte]

Rosa nasceu na Costa de Ajudá, no atual Benim, de nação courana.[2] Em 1725, aos seis anos de idade, após ser capturada pelo tráfico negreiro, desembarcou em São Sebastião do Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1733.[1][3]

Em seguida, foi levada para Minas Gerais pelo Frei José de Santa Rita Durão, onde viveu como meretriz durante 15 anos, após o anterior "desonestá-la e tratar torpemente com ela".[1][3]

Durante o período em Minas, aos 30 anos, foi acometida por um estranho inchaço e por uma enfermidade no estômago, período coincidente com o de visões místicas, o que a levaria a deixar o meretrício e a se tornar "beata".[1][3] Em 1748, vendeu jóias e roupas conseguidas durante o metrício, distribuindo tudo aos pobres. [3]

Nesse período, passou a frequentar os ofícios divinos e liturgias. Em um deles, conheceu o padre Francisco Gonçalves Lopes, vigário da freguesia de São Caetano, famoso pelo uso de exorcismos, quando disse estar possuída por sete demônios e ter sentido um caldeirão de água fervente despejado sobre seu corpo. [3] No primeiro exorcismo de Rosa Egipcíaca, ela caiu no chão desacordada, "partindo a cabeça na pedra debaixo do altar de São Benedito".[3]

Em outro momento, o casal Durão disse que Rosa "era uma possessa especial, pois, quando vexada, fazia sermões edificantes, sempre preocupada que todos mantivessem perfeita compostura nos templos" e que falava grosso quando possuída por Satanás, além de ter visões como a de Nossa Senhora da Conceição.

O nome Egipcíaca foi dado em referência à Santa Maria Egipcíaca, também ex-prostituta.[4]

As visões de Rosa levam sua fama a ser conhecida em Mariana, Vila Rica e São João del-Rei.[3]

Certa vez, na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, Rosa Courana interrompeu a pregação de um missionário ao gritar que ela era o próprio Satanás ali presente.[3]

Levada à sede do bispado, em Mariana, foi avaliada pela Igreja que a considerou "embusteira", sendo, pois, açoitada, em 1749, no pelourinho de Mariana.[1][3] Conseguiu sobreviver aos castigos, mas ficou com o lado direito do corpo semiparalisado pelo resto da vida.[3]

Auto de falecimento de Rosa Egipcíaca, em 13 de setembro de 1771.

Em seguida, procurou o bispo da Diocese, D. Frei Manoel da Cruz, quando, após uma série de provas (uma delas envolvendo a resistência de 5 minutos à chama de uma vela), o grupo conclui que tudo não passava de fingimento, o que levou o povo a chamá-la de feiticeira.[3]

Em São Sebastião do Rio de Janeiro, para onde fugiu em 1751 e permaneceu até 1763, aprendeu a ler e escrever motivada por inspiração espiritual.[1][3]

Nesse período, ela revelou detalhes de sua vida e dons sobrenaturais ao Provincial dos Franciscanos, Frei Agostinho de São José, que passou a ser seu mentor espiritual, período também que leva os franciscanos a admirá-la pelos jejuns prolongados, autoflagelação, uso de cilício e comunhão frequente.[3] Essas características levaram os franciscanos a chamá-la de "flor do Rio de Janeiro".[3]

Foi fundadora em 1751, no São Sebastião do Rio de Janeiro, do Recolhimento do Parto, um local destinado a receber ex-prostitutas e de cultos que serviam biscoito de farinha feito com a saliva de Rosa.[1][3] No mesmo local, ela recebeu dezenas de famílias após convencê-las de que um dilúvio só pouparia quem lá se escondesse.[3]

Madre Rosa foi adorada por fiéis que a procuravam de joelhos, beijando-lhe os pés e venerando suas relíquias.[3] Os cerimonais celebrados pela santa africana misturavam elementos católicos com ritos africanos, como o hábito de pitar cachimbo.[3]

Escreveu Sagrada Teologia do Amor Divino das Almas Peregrinas, um livro de cerca de 250 páginas posteriormente qualificado como heresia e parcialmente destruído pelo confessor, ex-exorcista e coproprietário, o padre Francisco Gonçalves Lopes, conhecido como Xota-Diabos, a fim de preservá-la da Inquisição.[1]

Ao se indispor com o clero que conversava durante cerimônias e com uma mulher na igreja de Santo Antônio, foi denunciada ao bispo, processo que reuniria outros desatinos de Rosa, como os de "dizer-se mãe de Deus, redentora do universo, superior a Santa Teresa, objeto de verdadeira e herética idolatria em seu recolhimento, além de capitanear rituais sincréticos igualmente suspeitos".[3]

Em certo momento, chegou a dizer que o Menino Jesus diariamente ia penteá-la sua dura carapinha e, em agradecimento, dava-lhe de mamar.[5]

Em 1763, a escrava foi tida pela Igreja Católica como herege e falsa santa[1], o que a levou ser presa nos Cárceres do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa, onde não desmentiu suas visões e experiências sobrenaturais.[3]

Rosa Egipcíaca morreu de causas naturais no dia 12 de outubro de 1771, ainda sob cárcere do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa.[6]

Relevância acadêmica[editar | editar código-fonte]

Além de livros, a vida de Rosa Egipcíaca motivou a produção de artigos em revistas acadêmicas, especialmente a partir da pesquisa de Luiz Mott na Torre do Tombo, em Lisboa, cujo levantamento a torna a personagem negra do século XVIII de maior volume documental disponível.[3]

Assim, de acordo com o antropólogo, Rosa Egipcíaca "é certamente a mulher negra africana do século XVIII, tanto em África como na diáspora afro-americana e no Brasil, sobre quem se dispõe mais detalhes documentais sobre sua vida, sonhos, escritos e paixão".[3]

A pesquisadora Rosely Santos Guimarães analisa que Rosa Egipcíaca "aprendeu a ler e a escrever na língua do dominador e teve a coragem de se colocar como o sujeito de um discurso que busca mudanças na cultura vigente".[1]

O historiador John Russell-Wood avalia que "Rosa Egipcíaca abre uma janela para a história das mentalidades de uma sociedade escravocrata e também dá identidade e individualidade a uma mulher africana, escrava e depois livre, no mar de anonimidade conferido aos escravos e aos indivíduos de ascendência africana livres no Brasil".[7]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • «Rosa Egipcíaca, uma Santa Africana no Brasil Colonial Luiz Mott» 🔗 (PDF) 

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l GUIMARÃES, Rosely Santos. Corpo negro: entre a história e a ficção. O caso de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz[ligação inativa]. Revista Em Tese, UFMG, Belo Horizonte, v. 6, p. 1–253, ago. 2003
  2. Mott, Luiz R. B. (1993). Rosa Egipcíaca : uma santa africana no Brasil. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil. p. 13. OCLC 28998352 
  3. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v MOTT, Luiz. Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil - resumo do livro. Rio de Janeiro, Editora Bertrand do Brasil, 1993, 750 p., resumo disponível na página do autor, acesso em 2 de fevereiro de 2011
  4. CYMBALISTA, Renato. Cidade dos Vivos: arquitetura e atitudes perante a morte nos cemitérios do Estado de São Paulo. 1ª ed. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2002., p.177
  5. MOTT, Luiz. Cotidiano e Vivência Religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, Laura de Mello e (Org.). Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. Coleção História da Vida Privada no Brasil. São Paulo. Cia das Letras, 1999, vol.I.
  6. «Minuta da certidão da fé de notários e auto de falecimento da ré Rosa Maria Egipcíaca (PT/TT/TSO-IL/028/18078) - Arquivo Nacional da Torre do Tombo». digitarq.arquivos.pt. Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 18078. 13 de outubro de 1771. Consultado em 5 de abril de 2021 
  7. RUSSELL-WOOD, A. J. R. Escravos e libertos no Brasil colonial. Tradução de Maria Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p.330
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