Ruínas romanas de Milreu

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Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre o complexo de ruínas romanas em Estoi, no Algarve. Se procura o edifício militar na Ericeira, veja Forte do Milreu. Se procura a aldeia na Beira Baixa, veja Vila de Rei (freguesia). Se procura a aldeia no Distrito de Coimbra, veja Alvares.
Ruínas romanas de Milreu
O ex libris das ruínas, o templo paleocristão.
Tipo Vila rústica
Início da construção século I
Restauro século III - IV (alterações significativas)
Proprietário inicial Império Romano
Função inicial Privado
Proprietário atual Estado Português
Função atual Cultural
Património Nacional
Classificação  Monumento Nacional
Data 1910
DGPC 70255
Geografia
País Portugal Portugal
Cidade Faro
Coordenadas 37° 5' 43.36" N 7° 54' 14.15" O
Geolocalização no mapa: Faro
Ruínas romanas de Milreu está localizado em: Faro
Ruínas romanas de Milreu

As Ruínas romanas de Milreu ou Ruínas de Estoi são um importante conjunto arqueológico em Estoi, no Concelho de Faro, em Portugal. É composto principalmente por vestígios de vários edifícios da época romana, incluindo uma abastada villa com termas, um templo, e diversas estruturas industriais e comerciais, e por uma casa quinhentista, que foi construída em cima das ruínas. As ruínas são famosas em Portugal e no estrangeiro devido às suas termas[1], pelo seu templo[2] e pelos painéis de mosaicos.[3] A villa foi habitada desde o século I e sofreu grandes obras de modificação nos séculos seguintes, enquanto que o templo pagão, construído no século IV, foi posteriormente aproveitado pelas religiões cristã e muçulmana.[4][5] Consideradas um dos mais importantes conjuntos arqueológicos do período romano em Portugal, foram classificadas como Monumento Nacional em 1910.[6] O complexo arqueológico inclui um centro de interpretação, para apoio e informação aos visitantes.[7]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Localização[editar | editar código-fonte]

O complexo de Milreu está situado junto no Cerro do Guelhim, na margem esquerda do Rio Seco, no sopé da Serra de Monte Figo.[8] Insere-se na freguesia de Estoi, parte do concelho de Faro.[9] Estoi está situado no interior do Algarve, numa zona conhecida como o Barrocal.[4]

Plano urbano de Milreu, excluindo a casa seiscentista construída em cima das ruínas. Legenda: A - edifício residencial; B - termas; C - lagar de azeite; D - adega; E - mausoléu; F - habitações para trabalhadores; G - templo; H - edifício comercial; I - zona ajardinada

Composição[editar | editar código-fonte]

O antigo núcleo urbano de Milreu estava dividido em duas secções principais, a parte urbana (pars urbana) que incluía o edifício residencial com as termas anexas e um templo[9], e a zona rústica ou agrícola (pars rustica) que era constituída por vários centros de produção, como um lagar para azeite, uma adega e um conjunto residencial.[10] Esta disposição urbana, com a villa rodeada de edifícios de apoio como oficinas e residências térreas, era comum no Império Romano.[11] Também existia um mausoléu e um edifício comercial.[carece de fontes?] Devido ao terreno inclinado, os edifícios romanos foram construídos em terraços.[8]O complexo era atravessado por uma estrada com pavimento de lajes irregulares (lithostrotum - litóstroto).[12] Também foi construído um centro de interpretação, de forma a prestar informações sobre as ruínas aos visitantes.[7]

Casa romana[editar | editar código-fonte]

A zona habitacional de Milreu era composta essencialmente por uma grande casa (villa) de uma abastada família romana, que fazia conjunto com um edifício termal.[4] A villa, ou casa de campo, foi um conceito muito difundido durante a civilização romana, sendo normal os cidadãos mais abastados deslocarem-se com as suas famílias desde as casas nas cidades até às villas durante os períodos das férias.[11]

O complexo residencial de Milreu era de grandes dimensões, contando com um grande número de salas.[12] A entrada principal para a casa (ianua - jânua) dava acesso para um corredor (prothyrum - prótiro) até ao átrio (atrium)[12], um pátio central em redor do qual foi construída a casa, e que dava acesso [9] à maior parte das divisões, incluindo vários quartos (cubicula - cubículos).[12] O átrio, no estilo coríntio (corinthium) era de forma rectangular, tendo 20,60 m no lado maior e 17,50 m no lado menor, e tinha arcadas de passeio com cobertura de telha, com uma abertura no centro.[12] As colunas eram em mármore granolaminar cinzento, e o espaço entre elas, de cerca de um metro de largura, estava ornado com galerias rendilhadas também de mármore.[12] No átrio também estava situado um poço de água potável (puteus).[12] A galeria Norte do peristilo estava ricamente decorada com um friso de peixes e outros animais marinhos, emoldurado por uma faixa ornamental, os quais provavelmente terão sido colocados durante a última fase de renovação, em meados do século IV.[10] Nas casas romanas, o átrio era a principal sala de estar da família, com luz natural a passar pela abertura central, que era aproveitada ao máximo devido aos primitivos e perigosos métodos de iluminação.[11] Normalmente, também era no átrio que estava situado o altar dos deuses da casa, os Penates, que eram adorados pela família da casa.[11] Neste sentido, a casa de Milreu desvia-se da tradição romana, uma vez que o peristilo era normalmente situado numa divisão própria, na parte de trás do edifício.[11] O fornecimento de água para as termas era feito através do implúvio (impluvium), um tanque central no átrio que guardava a água da chuva, que era por sua vez alimentado por um grande reservatório, o dividículo (dividiculum), que também era utilizado como piscina para natação (piscina natalis).[12] A água era transmitida do implúvio por um orifício para despejo de águas (emissário - emissarium sendo depois conduzido por canos (plumbum) de chumbo até ao templo e às outras divisões da casa, incluindo as termas e um reservatório de água (aquário - aquarium).[12] Outra divisão da casa que ligava ao átrio era o (oecus - eco), que provavelmente seria utilizado em eventos como festivais ou palestras (servindo desta forma como ginásio no sentido educativo (gymnasium)).[12] Também existia um outro pequeno átrio, em redor do qual estavam os compartimentos mais privados da casa.[12]

Sala do apoditério, nas ruínas de Milreu

Termas[editar | editar código-fonte]

A presença das termas é algo de comum nas antigas construções romanas, uma vez que a sua utilização fazia parte dos rituais diários dos cidadãos.[11] Com efeito, as termas normalmente ultrapassavam a sua função de saúde e higiene, sendo normalmente utilizadas como espaço de convívio, diversão e exercício.[11] Normalmente, o ritual do banho envolvia o uso em sequência de várias piscinas, com água a temperaturas diferentes (tépida, quente e fria), e das saunas.[11] Os balneários eram frequentados tanto por homens como mulheres, adultos e crianças, tendo alguns sido mistos,[11] enquanto que outros, como no caso de Milreu, eram separados por sexos.[12]

Um corredor (faux - fauce) dava passagem para a parte masculina das termas (androniceum - androniceu), começando por uma sala para reunião e convívio (sellaria - selário), e outra para espera (apodyterium - apoditério).[12] Esta última ligava ao salão de entrada (oecus - eco) para as várias divisões das termas.[12] Estas eram a sala dos banhos frios (frigidarium - frigidário) com um tanque circular no centro (baptisterium - batistério)[12], decorado com mosaicos marinhos[10], o tepidário (tepidarium), para banhos mornos, e o caldário (caldarium), para banhos quentes, que era alimentada pela câmara de ar quente anexa, e que também possuía uma tina (álveo) aquecida por uma fornalha própria (hypocausis - hipócause).[12] A fornalha era normalmente alimentada a carvão ou madeira, colocados por um escravo.[11] As termas também incluíam uma sauna (laconium - lacónio).[12] Uma fornalha alimentava as duas câmaras de ar quente (hypocaustum - hipocausto ou vaporarium - vaporário), com um tecto (suspensa) sobre pilares em alvenaria, uma para o lado feminino e outra para o lado masculino.[12] O ar quente passava do hipocausto para as salas de banho e estufas através de ranhuras nas paredes.[12] O salão de entrada tinha a Norte uma passagem para uma zona ajardinada (xystus), que era utilizado como local de recreio, sendo por isso provavelmente equipado com estátuas e outros elementos decorativos, e mobiliário como assentos.[12] A presença de jardins era também comum nas casas abastadas romanas, sendo normalmente utilizados durante as horas mais quentes do dia.[11]

A parte feminina (gymnaceum - gimneceu), de dimensões inferiores à zona masculina, tinha acesso próprio para a rua, com uma sala de entrada que talvez servisse igualmente de apoditério, e que possuía uma torneira (immissarium - imissário) para o fornecimento de água para os banhos.[12] Uma porta dava acesso ao frigidário, que tinha um batistério de forma rectangular com degraus.[12] A seguir estava o tepidário feminino, com uma sala anexa para perfumes e maquilhagem (elaothesium - eleotésio).[12] Tanto o frigidário como o tepidário femininos podiam ser acedidos a partir do salão principal das termas masculinas.[12] No fundo estava o caldário feminino, com um lacónio e álveo próprios.[12]

Parte produtiva[editar | editar código-fonte]

A zona a Norte da villa, identificada por Botto em 1899 como o xysti, um espaço para desporto e recreio[12], foi posteriormente reidentificada como uma estrutura para a produção de azeite, de acordo com novos dados recolhidos por investigadores.[9] O azeite era produzido em grande quantidade durante a civilização romana, sendo utilizado como parte regular da alimentação, na higiene corporal e para iluminação.[11]

Esquema do Templo Romano, durante as primeiras escavações. A - entrada; B - degraus; C - claustro superior; C' e C'', laterais do claustro superior com colunas; D - bapstistério; E - sepultura forrada de tijolos ; F - parede com ossário; G - claustro inferior; G' - sepultura com jóias femininas; G'' - piscina baptismal sobre sepulturas; G''' - jazigo em mármore; G'''' - sepultura com esqueleto
Modelo do Templo de Milreu
Interior do templo romano, mostrando a nave com a abside no fundo. O furo em baixo à direita destinava-se ao cano para a pia central
Antigo vestíbulo do templo, com a entrada para a nave no centro

Templo[editar | editar código-fonte]

O edifício mais destacado entre as ruínas de Milreu é o templo[2], que é um dos exemplos mais significativos da arquitectura romana em Portugal.[13] O templo apresenta uma forma períptera.[12] A estrutura do edifício é comum nos edifícios construídos nos finais do império romano, existindo edifícios de forma semelhante na Quinta do Marim, em Olhão, e na Vila romana de São Cucufate, no Alentejo.[9] Em termos de dimensões, o templo tinha cerca de 32,50 m no eixo longitudinal, de Norte-Noroeste a Sul-Sudoeste, enquanto que o eixo transversal media aproximadamente 25 m.[2], e segundo as escavações feitas em meados do século XIX, ocupava uma área superior a 800 m².[2] Até ao seu ponto mais elevado, nas abóbadas, o edifício apresenta uma altura superior a 10 m.[10] Segundo as notas de Estácio da Veiga, o edifício estava «construido em dois pavimentos, determinados por duas ordens de claustros que o circumdam, um em plano inferior, outro em plano superior adjacente ao corpo central, sendo todos tres corpos perfeitamente parallelos entre si.».[2] Para a alimentação de água, exista um grosso cano de chumbo, que atravessava o templo de Noroeste a Sudoeste, a alguns centímetros por baixo do pavimento inferior, e que recebia água de um depósito situado a pouca distância.[2]

A entrada do templo tinha uma soleira em cantaria, em cujos extremos foram feitas cavidades circulares onde as cancelas deviam girar, e em frente existia uma pedra de forma rectangular, para serem colocados os batentes fixos.[2] A seguir, existiam três degraus de pedra (gradus) com 5,85 m de largura, que davam acesso ao claustro superior[2], formando um vestíbulo (pronaum - pronau)[12] antes da entrada para o corpo central, a cela (cella).[2] Esta divisão tinha 11,30 m de comprimento, incluindo o remate em semicírculo, e 7,50 m de largura, e possuía no centro uma piscina ou baptistério de forma hexagonal (labrum - labro), que estava revestida no seu exterior por lâminas de mármore branco polido, talvez originário de Itália, de peças de marchetaria em mármore, e talvez de mosaicos de vidros coloridos, que foram encontrados em grande quantidade ali e nas proximidades.[2] Perto da piscina, no lado da abside, foi descoberto um jazigo pouco fundo com 1,65 m de comprimento e uma largura entre os 0,40 e 0,65 m, revestido de tijolos e mármore, que continha apenas alguns ossos humanos.[2] Na abside, separada do resto da sala por uma grossa muralha, foi instalado um ossário que media 3,95 por 0,50 m e tinha cerca de 1 m de profundidade, construído em tijolo, e que possuía os ossos de pelo menos dois cadáveres.[2] A abside (sacellum - sacelo) é normalmente a zona considerada mais importante dos templos, tendo provavelmente sido aí situado o santuário aos deuses pagãos aos quais o edifício foi originalmente consagrado.[12] Num dos lados do claustro superior foram encontradas as bases de três colunas[2], existindo provavelmente uma balastrada ou varandim entre o claustro superior e o inferior.[12] Numa das colunas foram encontradas inscrições de origem muçulmana, usando caligrafia do século IX, onde se pede a Alá misericórdia para com os membros falecidos da família muladi Alhami (traduzida como das caldas), abrangendo pelo menos quatro gerações.[9]

Os muros do claustro inferior estavam ricamente decorados por mosaicos, que representavam vários seres relacionados ao mar, como peixes, moluscos e monstros marinhos.[2] Um dos seres mitológicos terá sido talvez um centauro marinho, motivo que também foi encontrado na Casa dos Repuxos, em Conímbriga.[10] O pavimento do claustro inferior também devia ter sido de grande beleza, mas deve ter sido quase totalmente destruído quando esta área foi tornada num cemitério[2], tendo sido encontradas provas de uma organizada distribuição funerária dos cadáveres.[12] Das sepulturas foram retiradas várias jóias, como anéis, arrecadas e uma bracelete de cobre lavrada, semelhantes a outras já encontradas no templo de Marim.[2] Na zona ocidental do claustro inferior existia um ossário de alvenaria em forma de piscina, com três degraus internos, onde foram descobertos vestígios de um cadáver de um jovem.[2] Este ossário foi identificado pelo arqueólogo Felix Teichner como uma piscina baptismal, e está construído sobre sepulturas também cristãs, o que revela que a piscina foi instalada já durante o período posterior à cristianização do edifício.[9] Dentro do claustro também existia uma divisão com o piso coberto de mármore polido, onde estavam três cadáveres em mau estado de conservação.[2] Também foi encontrado um cadáver em bom estado no lado direito do claustro inferior.[2] O corpo central do templo estava revestido, no exterior, com fiadas horizontais de tijolos, enquanto que a zona do fundo, em semicírculo, tinha sido construída até ao topo com grossas paredes, que mediam 6,80 m desde a sapata até à cornija, medindo cerca de 2 m até ao cabouco.[2] Na altura, pensou-se que ambos os claustros estiveram cobertos por abóbada semicirculares, tal como o hemiciclo, onde ainda se encontraram vestígios da abóbada (porticus - pórtico).[2]

O edifício foi totalmente construído em tijolo e barro cozido, tendo sido decorado com óvulos, cordões e dentículos em várias partes.[2] O pódio do tempo está decorado com painéis de mosaicos policromados, sendo o único exemplar importante, na Península Ibérica, de um mosaico pensado para estar ao ar livre.[14] O mural de mosaico mede 52 m de comprimento e 0,81 m de altura, com uma área de 42,12 m², e possui uma densidade média de 100 tesselas por dm², pelo que o número de tesselas é de cerca de 500 mil.[15]

Durante as escavações, não foram encontrados quaisquer artefactos que indicassem que os enterramentos tivessem sido de origem pagã, mas foram encontrados vestígios cristãos, como um vaso de vidro com um monograma de Cristo em forma de X ladeado por duas pombas, utilizado nos primeiros anos da religião cristã, um baixo relevo de um plinto com duas pombas a beber de um vaso, e muitos fragmentos de mosaico onde estavam representados peixes.[2] Por este motivo, Estácio da Veiga avançou a hipótese de o edifício ter sido utilizado como templo cristão, como tinha sucedido com a estrutura encontrada em Marim.[2] Também foram encontrados vestígios do culto cristão noutros pontos das ruínas, como os destroços de uma antiga cruz de pedra no poço da villa.[12] Joaquim Botto sugeriu que o templo tinha sido originalmente dedicado a deuses pagãos, sendo provavelmente o seu altar situado na zona da abside.[12] Com efeito, foram encontradas várias lâmpadas de azeite no local, com representações de ritos ligados à deusa Vénus, sugerindo a hipótese que o templo fora consagrado a esta divindade, para protecção das termas.[12] Segundo Teichner, é possível que também tenha sido utilizado como mausoléu ou como Nymphaeum (Ninfeu).[9]

Do outro lado da rua, em frente à entrada do templo, foi construído um tanque semicircular, que foi identificado por Botto como um lavacrum (lavacro).[12] Esta estrutura estava adornada por mosaicos tanto no interior como no exterior, possuindo nas paredes internas vários ouriços do mar, um peixe, provavelmente um cherne, e símbolos em forma de V, que podem ser moscas de água ou plantas, enquanto que no exterior sobreviveu uma orla em tranças duplas, no lado virado para a rua.[10] O fundo do tanque também estava decorado com mosaicos marinhos.[10]

Solo com mosaicos em Milreu, mostrando os motivos marítimos

Mosaicos e murais[editar | editar código-fonte]

Um dos principais motivos pelos quais as ruínas de Milreu têm uma grande notoriedade são os seus painéis de mosaicos, que revestiam as paredes e os solos do templo, da casa e as termas.[2][3] A prática de utilizar mosaicos como elementos decorativos nas casas abastadas foi muito difundida durante a civilização romana, servindo não só para melhorar a qualidade de vida dos habitantes, mas também para se exibir perante os visitantes, motivo pelo qual os mosaicos eram colocados especialmente nas áreas públicas da casa.[16] Entre os principais motivos utilizados nos mosaicos estavam as figuras mitológicas, animais e cenas desportivas.[11] Os mosaicos romanos eram compostos por tesselas, pequenos cubos coloridos em mármore e calcário que eram depois assentes em argamassa.[11]

Os mosaicos representam principalmente motivos marítimos, tendo a sua composição sido criteriosamente executada tendo em conta a posição (solo ou parede) e o tipo de sala em que se encontravam.[3] Por exemplo, nas termas foram encontrados mosaicos com peixes no fundo de uma piscina.[17] Os animais representados são principalmente golfinhos, mexilhões, chernes ou robalos, lulas e ouriços do mar.[10] O uso do peixe como elemento decorativo foi algo de muito comum durante a antiguidade, tendo sido também amplamente difundido durante os primeiros anos das religiões cristã e muçulmana, o que levou a algumas dúvidas sobre a origem dos mosaicos de Milreu, durante as primeiras campanhas arqueológicas.[17] A grande presença dos motivos marinhos também pode ser justificada pelo papel que o comércio marítimo teve no desenvolvimento económico da villa, devido à sua proximidade em relação à grande cidade portuária de Ossónoba.[8] Além disso, a fauna marinha era de grande importância na dieta dos romanos, sendo especialmente apreciados os molhos feitos a partir das entranhas dos peixes.[11]

Um outro painel de mosaicos, encontrado numa das paredes das termas e do qual apenas sobreviveu a parte inferior, representa um combate entre dois seres marinhos fantásticos, e que possivelmente foi colocado durante a época romana.[17] Alguns dos mosaicos foram feitos com uma grande perfeição e atenção ao pormenor, como se pode evidenciar pela forma como foram executadas as escamas dos peixes[3], ou os golfinhos, com tesseras pequenas nas mandíbulas e nos olhos, em forma de amêndoa.[10] Os mosaicos foram provavelmente executados num sistema de oficina, muito comum durante a civilização romana, onde o mestre orientava vários artistas na instalação dos painéis de mosaicos, colocando apenas a sua assinatura no final.[16] A presença de vários artistas pode ser comprovada por diferenças nos pormenores dos mosaicos, o que também foi encontrado em Milreu.[16] Os artistas que instalaram os mosaicos em Milreu, no Cerro da Vila e em Ossónoba faziam muito provavelmente parte de algum grupo itinerante, talvez vindo da cidade de Cartago, no Norte de África, que era então um dos maiores centros para mosaístas no império romano.[18] Estes grupos tornaram-se famosos pela riqueza dos seus trabalhos, pelo que eram muito procurados pelos proprietários das villas, que pretendiam dessa forma aumentar o seu próprio prestígio.[18] Do fundo de uma das piscinas foi recuperado um painel de azulejos completo, de forma semicircular, igualmente decorado com animais marinhos, e que foi inicialmente preservado no museu de Faro.[19] Além das cenas marítimas, também foram muito utilizadas formas geométricas nos mosaicos de Milreu, motivo muito comum durante a presença romana em Portugal.[3] Também foram encontrados vestígios de paredes pintadas com murais geométricos.[9]

Colunas de mármore no peristilo

Materiais utilizados[editar | editar código-fonte]

Os materiais mais utilizados para construir os edifícios em Milreu foram o Opus caementicium[9] e o tijolo (later - ladrilho), tendo pelo menos um exemplar das termas sido preservado no museu de Faro.[20] Este tijolo é de formato triangulado (triangulus), de forma a ser empregue no método de construção opus diamicton, e apresenta uma legenda circular, VER. FRONTINIANI, traduzido por Botto como Verna, filho de Frontiniano, revelando desta forma o nome do fabricante dos tijolos.[20] Foram empregues tijolos de várias dimensões, desde o mais pequeno (lydius - lídio) ao maior (pentadoron).[20] Outro material também muito utilizado, especialmente nos pavimentos e nas colunas, foi o mármore.[12] O uso de colunas de mármore como elemento decorativo e arquitectónico também foi muito comum nas habitações romanas mais abastadas.[11]

Casa quinhentista[editar | editar código-fonte]

A casa rural quinhentista, construída em cima de parte das ruínas da villa romana de Milreu, é um edifício alto e comprido, que foi utilizado como habitação e como apoio às actividades agrícolas.[21] Foi construída em alvenaria de pedra e taipa. A fachada é rectangular, e em cada canto existe uma torre de vigia cilíndrica, encimada por um cone. Na fachada lado poente um vão de porta em cantaria chanfrada, elemento arquitectónico típico da época quinhentista. o interior da casa foram reconhecidos dois níveis de pavimento distintos, o que sugere que o edifício foi utilizado em duas fases. O piso correspondente à fase mais antiga era cerca de 70 cm mais baixo do que o mais recente. O telhado é de três águas, e tem beirado com cornija e molduras em cantaria na fachada nascente.[carece de fontes?] No interior, um dos espaços era utilizado para guardar gado.[22]

Busto romano encontrado em Milreu, preservado no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa

Peças preservadas[editar | editar código-fonte]

Além dos vestígios dos vários edifícios, também foi encontrada no local uma grande variedade de artefactos utilizados como decoração ou parte do quotidiano, como bustos, peças de cerâmica e lâmpadas de azeite, que foram inicialmente levados para o museu de Faro.[12] Este museu foi criado principalmente pelos esforços de Estácio da Veiga, para preservar os achados de várias explorações arqueológicas na região.[17] Um dos bustos foi encontrado junto às termas femininas durante as primeiras escavações, e representa uma mulher com um penteado levantado na frente por um diadema de tripla cadeia.[2] Os bustos, em mármore granuloso branco[2], são de membros da família imperial romana, como a imperatriz Agripina Menor (século I) e os imperadores Adriano (século II) e Galiano (século III).[9] Uma das peças, um pequeno busto de uma mulher romana, foi oferecido ao museu por um habitante de Estoi[20], e depois transferido para o Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, tendo permanecido uma réplica em Faro.[23] Este busto fez parte da exposição Do tirar polo natural. Inquérito ao retrato português no Museu Nacional de Arte Antiga, em 2018.[24][25]

Influência cultural das ruínas de Milreu[editar | editar código-fonte]

A lenda popular algarvia do Almocreve de Estói, registada pelo escritor Gentil Marques, envolve uma moura encantada que vivia num palácio escondido perto das ruínas de Milreu.[1]

O busto romano de Milreu que foi preservado no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, inspirou o autor Jorge de Sena a escrever um poema na sua obra Metamorfoses, motivo pelo qual a Junta de Freguesia de Estoi descerrou, em 25 de Abril de 2010, um painel de azulejos em homenagem ao poeta.[23]

Busto do imperador Galiano, encontrado em Milreu

História[editar | editar código-fonte]

Ocupação[editar | editar código-fonte]

Nos primeiros séculos após o Nascimento de Cristo, o território português foi controlado pela Civilização romana, uma organização política e militar que abrangeu a maior parte da Europa e grandes porções da Ásia e África.[11] A invasão romana da Península Ibérica iniciou-se durante as Guerras Púnicas, com os ataques às colónias Cartaginesas na península.[26] Após o final das Guerras Púnicas na península, com a conquista da cidade de Gades (Cádis) em 206 a.C.,[26] Roma continuou as suas campanhas militares, de forma a conquistar toda a península, processo que demorou cerca de 200 anos.[27] A Guerra Lusitana, que opôs o exército romano às tribos lusitanas, iniciou-se em 155 a.C., e terminou no século I d.C., com a conquista total da península.[28]

Nas escavações, os artefactos mais antigos encontrados em Milreu datam dos finais da segunda Idade do Ferro, embora os primeiros edifícios só terão sido construídos nos princípios do século I.[9] A villa romana foi depois alvo de várias obras de modificação e expansão, com destaque para as intervenções na zona do peristilo.[9] Existem vestígios de ocupação contínua até o século X. Nos séculos II e III, a casa foi reorganizada em torno de um grande peristilo central com colunas, rodeando um pátio aberto com jardim e tanque de água, passando nessa altura a ser um edifício de luxo.[5] No século IV, terá sido construído o templo[5] e teve lugar a última fase de renovação do conjunto, tendo os pilares do peristilo, em tijolo, sido substituídos por colunas de mármore.[9] Todo o edifício principal deve ter recebido obras de alteração, tendo sido muito embelezado.[9] A família que ocupou a casa durante o período romano ocupava uma elevada posição social, como se pode comprovar pelos vários bustos que foram encontrados no local, representando membros da família imperial romana.[9] Devido à riqueza dos seus vestígios, Milreu pode ser considerada um dos principais exemplos do elevado nível cultural, social e económico que a província da Lusitânia atingiu durante os séculos I a IV.[29]

A vila romana tinha acesso por uma estrada secundária entre Ossónoba (Faro) e São Brás de Alportel, que fazia parte do XXI Itinerário de Antonino, uma das vias de comunicação mais importantes na Península Ibérica, ligando Ossónoba a Emérita Augusta (Mérida, em Espanha), passando por Pax Júlia (Beja) e Olissipo (Lisboa).[30] Estava situada a cerca de sete quilómetros da cidade portuária de Ossónoba, fazendo ambas parte da região romana da Lusitânia.[8] Devido ao bom fornecimento de água, que permitia boas colheitas, especialmente de azeitonas e uvas, e à proximidade das instalações portuárias em Ossónoba, a villa romana deu um bom rendimento à família, como pode ser comprovado pela extensa e rica decoração dos edifícios.[8]

A civilização romana entrou numa fase de profunda decadência no século IV, com a desagregação do império e as invasões dos povos germânicos, tendo-se extinguido completamente no século V.[11] Foi neste século que a queda da civilização romana se fez sentir mais fortemente na península, com as invasões dos Alanos, Vândalos e Suevos, e depois dos Visigodos, que conseguiram dominar toda a Península Ibérica no século VII.[31]

O templo foi posteriormente reaproveitado para o culto cristão, com várias alterações introduzidas, como a abertura de várias sepulturas tanto no interior como no exterior do edifício,[2], e a construção de uma piscina baptismal.[9]

Em 711, iniciou-se a invasão da Pénínsula Ibérica pelos povos maometanos, e dois anos depois já os muçulmanos controlavam várias cidades importantes no Sul da península, tendo pouco depois atingido a sua extensão máxima, permanecendo apenas sob controle dos cristãos uma reduzida faixa de terreno montanhoso na Cordilheira Cantábrica.[32][27] O templo de Milreu continuou a ser utilizado durante o domínio islâmico, como pode ser comprovado pelas inscrições em caligrafia muçulmana do século IX[9], tendo sido provavelmente abandonado durante este período.[5]

Casa rural em Milreu

Construção da casa rural[editar | editar código-fonte]

Entre os séculos XV e XVII, foi construída a casa rural em cima das ruínas romanas. O edifício apresenta um vão de porta em cantaria chanfrada, o que indica uma fundação durante a época quinhentista. A sua ocupação foi feita em pelo menos duas fases, tendo um novo piso sido construído em cima do anterior, provavelmente no século XIX. Foi também nesta altura que terão sido feitas as últimas modificações na casa, incluindo a construção das torres.[carece de fontes?]

Planta arqueológica de Milreu, produzida em 1877 por Estácio da Veiga

Redescoberta e primeiras escavações[editar | editar código-fonte]

A presença das ruínas romanas de Milreu já era conhecida pelo menos no século XVII, tendo sido referida no Catálogo dos Bispos do Algarve em 1674.[1]

As primeiras escavações em Milreu foram feitas em 1877 pelo arqueólogo Estácio da Veiga, um dos pioneiros da arqueologia na região do Algarve.[9] Esta foi uma das primeiras explorações arqueológicas em larga escala no país.[10] Estácio da Veiga publicou um mapa onde assinalou os restos dos edificios encontrados, incluindo as termas, as zonas habitacionais e as várias dependências agrícolas.[9] Quando se iniciaram as escavações, descobriu-se que as ruínas ocupavam um área muito abrangente, estando o principal núcleo situado então no interior da Quinta do Milreu.[2] Desde logo, as ruínas de Estoi foram consideradas como o mais importante vestígio da época romana em território nacional, tendo-se nesa altura identificado o local como a antiga cidade de Ossónoba, devido à presença do templo e das dimensões das termas, que sugeriam que a povoação romana tinha sido de grande importância.[2] Posteriormente foi abandonada a ideia que as ruínas romanas de Milreu pertenciam a Ossonoba, embora na década de 1960 ainda existiam defensores desta teoria.[1] A maior parte dos artefactos encontrados, e alguns dos painéis de mosaicos foram preservados no Museu de Faro.[17] Algumas das estruturas desapareceram desde as escavações originais ou foram novamente encobertas, como sucedeu com a zona Este do conjunto, onde se encontravam os edifícios agrícolas e a necrópole[10], que foram reaproveitados para plantações.[9] A área a Norte do peristilo também foi novamente encoberta, para serem construídas estruturas agrícolas em cima.[9] Ainda assim, é considerado um dos núcleos arqueológicos em melhor estado de conservação no Algarve.[14] Devido ao grande número de achados no complexo, as ruínas de Milreu tornaram-se um dos mais importantes núcleos arqueológicos da cultura romana.[6] No entanto, após as escavações iniciais, o local foi praticamente deixado ao abandono, e todos os vestígios não transferidos para outros locais foram pilhados.[12] O escritor e cónego Joaquim Botto considerou a situação de Milreu como um dos principais exemplos para a necessidade do governo criar um enquadramento legal para a protecção do património histórico e arqueológico, pelo que exortou o ministro Elvino de Brito a continuar os seus esforços neste sentido.[12]

Escavações arqueológicas em Milreu, nos finais da década de 1990

Século XX[editar | editar código-fonte]

O complexo de Milreu ascendeu ao estatuto de Monumento Nacional em 1910.[6] Um dos principais defensores das ruínas foi o escritor e jornalista Mário Lyster Franco, que divulgou a sua importância arqueológica em Portugal e no estrangeiro,[1] tendo feito explorações arqueológicas em Milreu em 1941.[9] Em meados do século, a casa rural deixou de ser utilizada como habitação, tendo sido posteriormente adquirida pelo estado português e alvo de obras de restauro,[22] e na mesma altura foram demolidas as estruturas agrícolas contemporâneas em cima das ruínas.[9] Na década de 1960, as ruínas de Milreu já eram uma das principais atracções turísticas no Algarve.[1] Também foram feitas obras de conservação, por iniciativa do Instituto Português do Património Cultural e do antigo director do Museu Arqueológico de Faro, Pinheiro e Rosa.[9] No entanto, também esta intervenção como a Lyster Franco não contemplaram a zona a Norte do peristilo, uma vez que tinha sido novamente encoberta e ocupada por uma instalação agrícola.[9] Em 1971, as ruínas voltaram a ser alvo de intervenções, que duraram até aos finais da década de 1990, e que além de novas escavações também incluíram a preservação dos mosaicos.[9] Este programa foi organizado pelo Instituto Arqueológico Alemão, em parceria com a Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e o Museu Monográfico de Conímbriga.[9]

Em 1997, iniciou-se um novo ciclo de investigação em Milreu, dirigido principalmente pela Universidade de Frankfurt, em cooperação com as universidades de Jena, Budapeste e Galway, e o Instituto Português do Património Arquitectónico, e financiado pela Fundação Fritz Thyssen, sedeada em Colónia, na Alemanha.[9] Estas investigações fizeram parte de um programa maior, que se debruçou sobre o estudo das villae romanas e o seu papel económico na antiga Lusitânia, até aos períodos cristão e islâmico.[9] Inicialmente foram feitas apenas várias prospecções geofísicas na zona das ruínas, e em 1999 iniciaram-se as escavações, dirigidas por Felix Teichner, tendo sido analisados principalmente os estratos arqueológicos que se encontravam por debaixo dos pavimentos.[10] Estas escavações permitiam encontrar estruturas datadas do Século I por debaixo da casa romana, especialmente do peristilo, onde foi descoberto um armazém para grande contentores de barro (dolium).[9] Os pavimentos em si foram alvo de obras de restauro e consolidação, tendo sido aplicados vários métodos nesse sentido.[10] Nas salas a Norte do peristilo, os mosaicos apresentavam várias fissuras e depressões, tendo sido tratados no local, com a consolidação das bordas dos mosaicos, e a introdução de escoamentos nas áreas que apresentavam depressões.[10] Este método, delineado pelo restaurador Carlos Beloto, que também foi responsável pelo tratamento dos pavimentos com peixes, nas oficinas de restauro em Conímbriga.[10] Porém, esta solução necessita que a superfície seja continuamente limpa e impede a circulação em cima dos mosaicos, pelo que foi utilizado um outro sistema na galeria Norte do peristilo, que estava ricamente decorado com motivos marinhos.[10] Desta forma, a argamassa original de assentamento dos mosaicos foi substituída por uma base de cimento, disposta numa série de placas, que depois de pronta já permitia a circulação dos visitantes.[10]

Século XXI[editar | editar código-fonte]

Década de 2000[editar | editar código-fonte]

Entre 2002 e 2003 foram feitas importantes escavações em Milreu, orientadas pelo arqueólogo Felix Teichner, e cujos resultados foram apontados numa tese de doutoramento publicada em 2008 na Alemanha.[6] Felix Teichner é uma arqueólogo da Universidade de Marburgo, na Alemanha, tendo-se destacado pelos seus trabalhos de investigação nas ruínas romanas em vários pontos da região, incluindo no Cerro da Vila em Vilamoura, no Monte Molião em Lagos, e na Quinta da Abicada em Portimão.[33] Outro arqueólogo que participou nas escavações de Milreu foi o professor alemão Theodor Hauschild, cujo primeiro trabalho em Portugal foi um estudo sobre as ruínas, onde destacou a importância do templo como exemplo da época romana tardia, da decoração da villa, e da colecção de bustos encontrados no local.[34] Um dos arqueólogos portugueses a trabalhar em Milreu foi o professor João Pedro Bernardes da Universidade do Algarve, que em Abril de 2017 apresentou uma palestra onde explicou como a antiga vila romana, além de um elemento industrial, também foi uma forma de trazer a cultura das cidades até ao campo, como algo que tinha de ser domesticado e civilizado de forma a produzir riqueza.[35]

Em 2003 também foram feitas grandes obras de restauro, tendo sido renovada a zona de entrada, instalado um centro de interpretação, reparados os caminhos de visita no interior do complexo[6], e concluídas as obras na casa quinhentista.[22] Posteriormente foram feitas outras pequenas obras de conservação, que no entanto não foram suficientes para evitar a deterioração de alguns vestígios arqueológicos, principalmente mosaicos.[6]

Busto de Agripina Menor na sala de exposições de Milreu, em 2017

Década de 2010[editar | editar código-fonte]

Na década de 2010 verificou-se um aumento no número de visitantes[6], que foram 12666 em 2013[36] e cerca de 16 mil em 2017.[6] Entre 24 de Abril de 29 de Setembro de 2010, decorreu a exposição Pássaro em Terra em Milreu, com peças do ceramista e escultor René Berthol.[37]

Entre Junho e Julho de 2012, foi organizada em Milreu a exposição de escultura Do Magma às Estrelas, da artista Sara Navarro.[38]

Em 2013, as ruínas de Milreu foram um dos monumentos abrangidos pela série documental Escrito na Pedra da Rádio Televisão Portuguesa[39], onde foi feita uma reconstrução virtual da mansão e do templo, produzida por Paulo Fernandes da Universidade do Minho com as notas de Félix Teichner.[40]

Em 2014, a Direcção Regional de Cultura do Algarve, em cooperação com a empresa Exciting Space, criou a aplicação para telemóvel Milreu - StoryTrail, que consiste numa visita guiada às ruínas de Estói.[41]

Em 19 de Abril de 2015, o Dia Internacional dos Monumentos foi assinalado em Milreu com um concerto da banda Al-Fanfare.[42] Nesse mês, foi organizado o Dia Criativo em Milreu, onde crianças e adultos participaram em várias actividades artísticas, cujas criações foram reunidas na exposição O Dragão de Milreu, que se iniciou em 19 de Junho na casa rural.[43] Entre 19 de Setembro de 2015 e 30 de Janeiro de 2016, as ruínas de Milreu acolheram a exposição de arte Ruínas, com fotografias de Sandro Resende e desenhos de Marum Nascimento.[44] Em 27 de Setembro de 2015, o Centro de Ciência Viva do Algarve e a Associação Portuguesa de Museologia organizaram um banquete romano nas ruínas de Estói, onde foi feita uma prova de alimentos daquela época no antigo triclinium, explicados aos visitantes os métodos de produção, e identificadas algumas das espécies marinhas nos mosaicos.[45]

Em 28 de Fevereiro de 2016, a Câmara Municipal de São Brás de Alportel organizou um passeio pedestre temático ao longo da Calçadinha de são Brás de Alportel, entre aquela vila e as ruínas de Milreu.[30] Em 20 de Abril, as ruínas acolheram a palestra Fábulas nas Ruínas Romanas de Milreu[46], e no dia 28, a conferência A arte figurativa no Algarve romano.[47] Em 11 de Novembro, teve lugar a peça teatral Quadros da Vida Romana, da Associação Cultural Música XXI[48], e no dia 22 desse mês foi organizada a sessão Conversas sobre a felicidade, destinada aos alunos de Estói.[49]

Em 17 de Fevereiro de 2017, foi inaugurada a exposição de arte Unforeseeable, de Pedro Cabral Santo, na Casa Rural em Milreu.[50] Em 27 de Abril desse ano, o professor João Pedro Bernardes apresentou a conferência Otium et Negotium nas villae da Lusitânia Romana[35], e em 18 de Junho a bióloga Rosena Aben-Athar Kipman fez a palestra Agripina, a jovem, e a família Júlio-Cláudia.[51] Em 1 de Junho, teve lugar a conferência Hipácia de Alexandria na dramaturgia portuguesa[52], no dia 8 desse mês foi apresentada a palestra Diógenes Laércio e as vidas dos outros, e no dia 11 foi inaugurada a exposição temporária Glooobal Maps.[53] Em Agosto, a freguesia de Estói foi candidata no concurso 7 Maravilhas Aldeias da Rádio Televisão Portuguesa, apresentando como um dos principais argumentos a presença das ruínas de Milreu.[54] Em 22 de Setembro, iniciou-se a exposição Perspetivas 8º56´53.6”W / 37º00´03.3”N, com obras de artistas de vários países do mundo[55], e no dia 24 o Centro Ciência Viva do Algarve organizou um workshop, onde foram descritas aos visitantes várias facetas da vida durante o período romano, como a alimentação, maquilhagem e artes plásticas.[56] Em 13 de Outubro, o Teatro Experimental de Lagos apresentou a peça infantil O Lobo Vermelho[57], e no dia 21 desse mês, a Associação Alçapão das Memórias e a Direção Regional de Cultura do Algarve fizeram um workshop sobre os mosaicos decorativos da época romana.[58]

Em 2018, as escavações ainda não estavam completas, faltando ainda explorar várias zonas no interior das ruínas, e num terreno particular nas proximidades, onde se calcula que esteja ainda uma importante parte da villa romana.[6] Na Década de 1990 ainda foram feitas negociações para adquirir este terreno, que nunca chegaram a ser terminadas, pelo que nunca foram feitas análises aprofundadas naquela zona.[6] Em 2 de Janeiro de 2018, uma delegação do Partido Comunista Português visitou as ruínas de Milreu, em conjunto com representantes da Direção Regional de Cultura do Algarve.[6] Durante a visita, o partido criticou a falta de uma tradução portuguesa da tese publicada em 2008, o reduzido número de funcionários a trabalhar no local, e incitou o governo a concluir o processo para a aquisição do terreno.[6] O Partido apontou igualmente vários problemas nos percursos de visita no interior das ruínas de Milreu, em especial a falta de acessos para deficientes, a sinalética e os painéis informativos, e nos conteúdos presentes na recepção aos visitantes.[6] Nessa altura, apenas estavam a laborar dois assistentes técnicos, embora se tenha verificado que para o normal funcionamento do núcleo arqueológico, especialmente do centro de interpretação, seriam necessários pelo menos seis pessoas.[6] Já se tinha iniciado o processo para a colocação de mais seis assistentes técnicos em Milreu, embora o Partido tenha criticado o recurso a empresas privadas para preencher estas posições, uma vez que não existiam profissionais suficientes deste tipo na Direção Regional de Cultura do Algarve.[6][59]

Em 20 de Abril, a Direcção Regional de Cultura do Algarve realizou a palestra Temas da Antiguidade na música contemporânea em Milreu, evento que iniciou as comemorações do Dia dos Monumentos e Sítios no Algarve[60], e no dia 27 ocorreu uma conferência sobre as obras do escritor americano Steven Saylor, que publicou vários romances históricos ambientados no Império Romano.[61] Em 8 e 15 de Maio, os alunos da Escola Poeta Emiliano da Costa em Estoi participaram em duas jornadas de aprendizagem em Milreu, no âmbito do programa DiVaM 2018 – Dinamização e Valorização dos Monumentos, onde tiveram contacto com várias modalidades de artes plásticas, como pintura e escultura.[62] Em 25 de Maio, foi realizada uma palestra sobre alimentação e saúde no complexo das ruínas de Milreu, evento que também este inserido no âmbito do programa DiVaM 2018.[63] Em 26 de Maio, as ruínas de Milreu foram o palco do espectáculo multimédia Memori-Futur, parte do programa SONDA da associação Rizoma Lab[64], e em 30 de Maio foi apresentada a conferência A representação dos moinhos na literatura da Antiguidade.[65] Em Setembro desse ano, foi organizado o espectáculo teatral Regresso ao Branco em Milreu[66], e um passeio temático de São Brás de Alportel até Milreu, integrado nas Jornadas Europeias do Património.[67] Em 2 de Outubro, as ruínas de Estói acolheram o workshop Composições geométricas em esgrafito, para os utentes da Associação de Saúde Mental do Algarve.[68] Nesse mês, a Direção Regional de Cultura do Algarve lançou a primeira fase de um programa para a conservação e restauro de um dos conjuntos de mosaicos na villa romana, de forma a garantir a sua preservação e melhorar a sua visibilidade.[69] Esta obra tem uma duração prevista de cinco meses, tendo sido entregue à empresa Nova Conservação – Restauro e Conservação do Património Artístico e Cultural, Lda.[69]

Núcleo visitável de Milreu[editar | editar código-fonte]

Imagem Número Nome Tipologia Local
The Roman Ruins of Milreu, a of a luxurious rural villa, transformed into a prosperous farm in the 3rd century, Portugal (12741908045).jpg 1 Entrada e setor sul da residência
Colunas-Milreu.jpg 2 Peristilo
Ruinas Romanas de Milreu - termas - 15.11.2017.jpg 3 Termas
Roman Ruins of Milreu - Triclinium.jpg 4 Triclínio
5 Lagar de azeite (torculário)
6 Setor nordeste da residência
7 Lagar de vinho
8 Lagar de vinho e adega (cela vinária)
9 Setor do átrio
Templo de Milreu - entrada - 15.11.2017.jpg 10 Templo
11 Instalações dos servos
12 Armazém
13 Cloaca
Milreu-Gutshaus.JPG 14 Casa rural

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • CARRASCO, J. M. Campos; UGALDE, A. Fernández; DILS, S. García; et al. (2008). A rota do mosaico romano: o sul da hispânia (Andaluzia e Algarve). Faro: Universidade do Algarve. Departamento de História, Arqueologia e Património. ISBN 978-989-95616-1-8. Consultado em 11 de Outubro de 2018. 
  • COUTINHO, Valdemar (2008). Lagos e o Mar Através dos Tempos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos. 95 páginas 
  • HAUSCHILD, Theodor; TEICHNER, Felix (2002). Milreu: Ruínas. Col: Roteiros da arqueologia portuguesa. 9. Traduzido por Rui Parreira. Lisboa: Instituto Português do Património Arquitectónico. 67 páginas. ISBN 972-8736-03-7 
  • MARQUES, Gentil (1999) [1964]. Lendas de Portugal: Lendas de Mouras e Mouros. Col: Lendas de Portugal. Volume 3 de 5 3.ª ed. Lisboa: Âncora Editora. ISBN 972-780-026-2 
  • PADINHA, Duarte; SUSANA, Miguel; ALMEIDA, Cláudia (2014). Plano de Marketing Estratégico para o Turismo do Algarve 2015-2018. Faro: Região de Turismo do Algarve. 494 páginas 

Leitura recomendada[editar | editar código-fonte]

  • O Algarve da antiguidade aos nossos dias: elementos para a sua história: O Algarve no mundo mediterrâneo antigo, as cidades como espaços políticos e culturais. Volume 1. Lisboa: Colibri. 1999 
  • Nós e os romanos: um dia na vila romana de Milreu: Estoi, Algarve. [S.l.]: Associação Portuguesa de Museologia 
  • Noventa séculos entre a serra e o mar. Lisboa: Instituto Português do Património Arquitectónico. 1997 
  • BERNARDES, João Pedro (2006). «O peristilo da villa romana de Milreu: novas interpretações». Promontoria: revista do Departamento de História, Arqueologia e Património da Universidade do Algarve. Ano 4 (4). Lisboa: Universidade do Algarve. p. 127-160. ISSN 1645-8052 
  • BERNARDES, João Pedro (2006). «O peristilo da villa romana de Milreu: novas interpretações». Promontoria: revista do Departamento de História, Arqueologia e Património da Universidade do Algarve. Ano 4 (4). Lisboa: Universidade do Algarve. p. 127-160. ISSN 1645-8052 
  • BERNARDES, João Pedro (2006). «Faro romana: Ossonoba e Milreu». Monumentos: revista semestral de edifícios e monumentos (24). p. 12-31. ISSN 0872-8747 
  • FRANCO, Mário Lyster. As ruínas romanas de Milreu e os últimos trabalhos nelas realizados por intermédio da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais: Comunicação apresentada ao Congresso Luso-Espanhol Luso-Espanhol para o progresso das Ciências, reúnido no Pôrto em 1942. [S.l.: s.n.] 
  • GRAEN, Dennis (2005). «Os mosaicos do "santuário" de Milreu, Estói (Algarve), no contexto de uma nova interpretação». O Arqueólogo Português. Série IV, vol. 23. p. 367 - 415. ISSN 0870-094X 
  • HAUSCHILD, Theodor (1980). Milreu / Estoi (Algarve), Untersuchungen neben der taufpiscina und sondagen in der villa – Kampagnen 1971 und 1979 (em alemão). Heidelberg, Mitteilungen 21: Madrider, F. H. Kerle, Verlag 
  • HAUSCHILD, Theodor (1984). «A Villa Romana de Milreu, Estoi, (Algarve)». Arqueologia (9). Porto. p. 94–104 
  • HAUSCHILD, Theodor (1984-1988). «O edifício de Culto do complexo de ruínas romanas perto de Estoi, na província da Lusitânia». Arqueologia e História. Série X, Vol. I/II (1) 
  • HAUSCHILD, Theodor (1971). «Dois bustos Romanos de Milreu: Estoi». Anais do Município de Faro (3). Traduzido por GOMES, Elviro Rocha. p. 241-250 
  • LANCHA, Janine; OLIVEIRA, C. (2013). Corpus dos mosaicos romanos em Portugal = Corpus des Mosaiques romaines du Portugal: II Conventus Pacencis: 2 Algarve Este. Faro: Universidade do Algarve 
  • LAMEIRA, Francisco I. C. (1995). Faro Edificações Notáveis. Faro: Câmara Municipal de Faro 
  • MOURÃO, Cátia (2008). «MIRABILIA AQVARVM – Motivos aquáticos em mosaicos antigos de Portugal ‐ Decorativismo e Simbolismo (Actas do I Ciclo de Palestras Internacional sobre Arquitectura, Mosaicos e Sociedade da Antiguidade Tardia e Bizantina a Ocidente e Oriente. Estudos e Planos de Salvaguarda». Revista de História da Arte (6). Lisboa: Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, dir. M. Justino MACIEL e Raquel Henriques da SILVA. p. 115-131 
  • PEDROSO, Rui Nunes (2005). «Pintura mural Luso-Romana». O Arqueólogo Português. Série IV, vol. 23. p. 321 - 366. ISSN 0870-094X 
  • ROSA, José António Pinheiro e (1974). Roteiro das Ruínas de Milreu. Faro: Tipografia União 
  • ROSA, José António Pinheiro e (1969). «O passado, o presente e o futuro das ruínas do Milreu». Anais do Município de Faro (1). p. 65-96 
  • SÁ, Maria Cristina Moreira de (1959). Mosaicos Romanos de Portugal (Tese de Dissertação de Licenciatura em História). Lisboa: Faculdade de Letras de Lisboa da Universidade de Lisboa 
  • SANTOS, Maria Luísa Estácio da Veiga Afonso dos (1971). Arqueologia Romana do Algarve: (Subsídios) (Tese de Dissertação para a Licenciatura em Ciências Históricas apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa). 2 Volumes. Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses 
  • SIDARUS, Adel; TEICHNER, Felix (1997). «Termas romanas no Gharb Al-Ândalus: as inscrições árabes de Milreu (Estoi)». Arqueologia medieval (5). Porto: Afrontamento. p. 177 - 189. ISSN 0872-2250 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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