Ruth Escobar

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Ruth Escobar
Nome completo Maria Ruth dos Santos
Nascimento 31 de março de 1935 (82 anos)
Campanhã, Porto[1]
Residência São Paulo, Brasil
Nacionalidade Portugal portuguesa
Ocupação produtora cultural, atriz
Página oficial
www.teatroruthescobar.com.br

Maria Ruth dos Santos Escobar (Campanhã, 31 de março de 1935) é uma atriz e produtora cultural luso-brasileira. Tornou-se uma atriz de destaque e uma das mais importantes produtoras culturais do Brasil e destacada personalidade do teatro brasileiro, empreendedora de muitos projetos culturais especialmente comprometidos com a vanguarda artística.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Início[editar | editar código-fonte]

Nascida na cidade do Porto, norte de Portugal, numa família pobre, aos dezesseis anos, em 1951, emigrou com sua mãe, Marília do Carmo, para o Brasil. Casou-se com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar, e juntos, em 1958, partiram para a França, onde Ruth fez cursos de interpretação. Ao retornar ao Brasil, montou companhia própria, a Novo Teatro, em parceria com o diretor Alberto D'Aversa. Protagonizou Antígone América, texto de seu marido, em 1962, após algumas experiências de palco, como Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertolt Brecht, em 1960, e Males da Juventude, de Ferdinand Bruckner, em 1961, ambas dirigidas por D'Aversa.

No mesmo ano que estreia Antígone América, seu casamento com Carlos Henrique Escobar se desfaz. Ao mesmo tempo começa a reunir recursos para financiamento do seu teatro .[2]

Em 1964, decide fazer teatro popular e adapta um ônibus, transformando-o em palco, para levar espetáculos à periferia de São Paulo - iniciativa que recebeu o nome de Teatro Popular Nacional. Por essa nova experiência teatral passaram Antônio Abujamra, que dirigiu A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna e Silnei Siqueira, que encenou As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena, entre outros. As atividades do Teatro Popular Nacional se encerraram em 1965.

Inauguração do Teatro Ruth Escobar[editar | editar código-fonte]

Ainda em 1964, Ruth inaugurou seu próprio teatro, que recebeu o seu nome, situado no bairro da Bela Vista, na cidade de São Paulo. Separou-se do primeiro marido e casou-se com o arquiteto Wladimir Pereira Cardoso, que se tornou cenógrafo das produções da companhia. Entre outras, sãoi encenadas em seu teatro a A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, com direção de José Renato, 1964; O Casamento do Sr. Mississipi, de Dürrenmatt, dirigida por Jô Soares, 1965; As Fúrias de Rafael Alberti, outra encenação de Abujamra, em 1966; O Versátil Mr. Sloane, de Joe Orton, sob a direção de Antônio Ghigonetto, em 1967; e Lisístrata, de Aristófanes, encenação de Maurice Vaneau, em 1968.

Em 1968, com a vinda para o Brasil do diretor argentino Victor García, convidado para a montagem de Cemitério de Automóveis, adaptação do próprio Garcia para a obra de Fernando Arrabal, uma antiga garagem na rua Treze de Maio foi totalmente remodelada. A encenação destacou Ruth Escobar como atriz e produtora. Seu prestígio aumentou, em 1969, com a produção de O Balcão, de Jean Genet, encenada por Victor Garcia, com cenografada por Wladimir Pereira Cardoso. A produção arrebatou todos os prêmios importantes do ano, e Ruth Escobar foi agraciada com o troféu Roquette Pinto para a personalidade do ano.[3]

Polêmicas sempre cercaram a atriz e produtora. Uma delas ocorreu em 1972, quando produziu Missa Leiga (de Chico de Assis; direção de Ademar Guerra, e foi proibida de utilizar a Igreja da Consolação como palco e montada numa fábrica; outra envolveu A Viagem, adaptação cênica feita por Carlos Queiroz Telles, para o poema Os Lusíadas de Luís de Camões, cuja estreia contou com a presença do primeiro ministro de Portugal, Marcelo Caetano.

Nos anos subsequentes, Ruth Escobar ficou à frente do Centro Latino-Americano de Criatividade, projeto abortado por falta de recursos, e centralizou no seu teatro importantes manifestações contra o regime militar, inclusive a fundação do Comitê da Anistia Internacional.

Festival Internacional de Teatro[editar | editar código-fonte]

Com o 1º Festival Internacional de Teatro, em 1974, Ruth Escobar passou a apresentar periodicamente em São Paulo o melhor da produção cênica mundial. A cidade pôde conhecer, entre outros, o trabalho de Bob Wilson (Time and Life of Joseph Stalin, que a censura obrigou a mudar para Time and Life of David Clark), a premiada montagem de Yerma, por Victor García, com Nuria Espert; além dos encenadores Andrei Serban e Jerzy Grotowski.

Em 1974, centralizou a produção para circuito internacional de Autos Sacramentales, outra encenação de Victor García baseada em Calderón de la Barca. Depois de estrear em Shiraz, no Irã, a realização teve êxito na Bienal de Veneza, em Londres e em Portugal.

Em 1976, outro projeto de fôlego - a Feira Brasileira de Opinião - reuniu textos dos mais destacados dramaturgos da época, mas foi interditado pela Censura, o que obrigou Ruth Escobar a arcar com os prejuízos da montagem em andamento.

No 2º Festival Internacional, de 1976, chegaram ao país o grupo catalão Els Joglars, com "Allias Serralonga"; os City Players, do Irã, com uma inusitada montagem de Calígula, de Albert Camus; a companhia Hamada Zenya Gekijo, do Japão; o grupo G. Belli, da Itália, com Pranzo di Famiglia, dirigida por Tinto Brass, entre outros.

Volta à cena e outras produções[editar | editar código-fonte]

Em 1977, Ruth Escobar resolveu voltar à cena. Para interpretar a exasperada Ilídia de A Torre de Babel, trouxe a São Paulo o autor Fernando Arrabal para dirigi-la.

Produziu A Revista do Henfil, de Henfil e Oswaldo Mendes, sob a direção de Ademar Guerra, em 1978. No ano seguinte, voltou à cena em Caixa de Cimento, encenação do argentino Juan Uviedo; ainda em 1979, produziu Fábrica de Chocolate, texto de Mário Prata que aborda a tortura.

Entre as grandes atrações do 3º Festival Internacional, em 1981, estavam o grupo norte-americano Mabu Mines; o belga Plan K; o La Cuadra, de Sevilha; além do uruguaio Galpón e do português A. Comuna.

Política e últimos festivais[editar | editar código-fonte]

Nos anos 1980, Ruth Escobar afastou-se parcialmente do teatro. Eleita deputada estadual para duas legislaturas, dedicou-se a projetos comunitários. Em 1994, voltou aos festivais internacionais, então mais discretos, porém ampliando sua abrangência ao trazer grupos de teatro, de dança, de formas animadas ou aqueles que uniam todas essas linguagens, como o Aboriginal Islander Dance Theatre, o Bread and Puppet, o Cricot 2, os Dervixes Dançantes. A quinta edição, de 1995, acentuou a forte tendência à diversificação ao trazer para o país a dança de Carlota Ikeda e o grupo japonês Dumb Type, o russo Levdodine com Gaudeamus, e Michell Picolli, entre outros. Em 1996, Phillipe Decoufflé; o grupo Dong Gong Xi Gong, de Taiwan; e Joseph Nadg foram os destaques da 6ª edição.

Em 1987, Ruth Escobar lançou "Maria Ruth - Uma Autobiografia", contando parte da sua trajetória, na qual a produção cultural se mescla, de modo indissolúvel, à sua atuação social, voltada sobretudo para o inconformismo com as regras estabelecidas.

Em 1990, retornou aos palcos, numa encenação de Gabriel Villela, de "Relações Perigosas", de Heiner Müller. Entre 1994 e 1997, voltou a produzir festivais internacionais, com o nome Festival Internacional de Artes Cênicas. Em 1998 recebeu, do governo francês, a condecoração da Legião de Honra.

Em 2001, criou uma versão de Os Lusíadas, de Camões, seu último trabalho nos palcos, como produtora.[4]

Alzheimer e patrimônio[editar | editar código-fonte]

Em 2000, Ruth foi diagnosticada com a doença de Alzheimer, que, ao longo dos anos, se intensificou e atingiu nível avançado, comprometendo sua memória e toda sua atividade profissional.[5] Em 2006, sua filha Patricia Escobar conseguiu interditar na justiça o patrimônio de Ruth, que passou a ser gerido por um escritório de advocacia. Em 2011, Inês Cardoso, outra de suas filhas, fez uma carta aberta como pedido de ajuda ao expor o fato da mãe não ter plano de saúde e estar em situação de abandono médico.[5][6] A filha ainda denunciou que o escritório não estaria cuidando devidamente do patrimônio, que inclui algumas casas e também o acervo pessoal da artista, com documentos históricos do moderno teatro brasileiro.[6] Nelson Aguiar, outro filho de Ruth, culpa a irmã Patricia pela escolha da interdição que ocasionou a má administração do legado.[6]

Trabalhos[editar | editar código-fonte]

Como intérprete
  • 1959 - Festival Branco e Preto (também diretora)
  • 1960 - Mãe Coragem
  • 1961 - Os Males da Juventude
  • 1962 - Antígone América
  • 1964 - A Ópera dos Três Vinténs
  • 1964 - A Farsa do Mestre Patelin
  • 1964 - As Desgraças de uma Criança
  • 1965 - Soraia Posto 2
  • 1965 - Histórias do Brasil
  • 1965 - O Casamento do Senhor Mississipi
  • 1966 - As Fúrias
  • 1966 - Os Trinta Milhões do Americano
  • 1967 - O Estranho Casal
  • 1967 - O Versátil Mr. Sloane
  • 1968 - Roda Viva
  • 1968 - Cemitério de Automóveis
  • 1968 - Lisístrata
  • 1968 - Os Sete Gatinhos
  • 1969 - O Balcão
  • 1969 - Romeu e Julieta
  • 1969 - Os Monstros
  • 1971 - Os Dois Cavaleiros de Verona
  • 1972 - A Massagem
  • 1974 - Capoeiras da Bahia
  • 1974 - Festival Internacional de Teatro, 1.
  • 1976 - Festival Internacional de Teatro, 2.
  • 1977 - Torre de Babel
  • 1978 - Revista do Henfil
  • 1979 - Fábrica de Chocolate
  • 1979 - Caixa de Cimento
  • 1981 - Festival Internacional de Teatro, 3.
  • 1982 - Irmã Maria Ignácio Explica Tudo
  • 1989 - Relações Perigosas
  • 1994 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 4.
  • 1995 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 5.
  • 1996 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 6.
  • 1997 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 7.
  • 1999 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 8.
Como produtora
  • 1959 - Festival Branco e Preto
  • 1960 - Antígone América
  • 1964 - A Pena e a Lei
  • 1964 - A Ópera dos Três Vinténs
  • 1964 - As Desgraças de uma Criança
  • 1966 - As Fúrias
  • 1967 - O Estranho Casal
  • 1967 - O Versátil Mr. Sloane
  • 1968 - Cemitério de Automóveis
  • 1968 - Os Sete Gatinhos
  • 1968 - Roda Viva
  • 1969 - O Balcão
  • 1969 - Romeu e Julieta
  • 1969 - Os Monstros
  • 1970 - Cemitério de Automóveis
  • 1972 - Missa Leiga
  • 1972 - A Massagem
  • 1972 - A Viagem
  • 1973 - Missa Leiga
  • 1974 - Autos Sacramentais
  • 1974 - Capoeiras da Bahia
  • 1974 - Festival Internacional de Teatro, 1.
  • 1976 - Festival Internacional de Teatro, 2.
  • 1978 - Revista do Henfil
  • 1979 - Fábrica de Chocolate
  • 1979 - Caixa de Cimento
  • 1981 - Festival Internacional de Teatro, 3.
  • 1982 - Irmã Maria Ignácio Explica Tudo
  • 1989 - Relações Perigosas
  • 1994 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 4.
  • 1995 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 5.
  • 1996 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 6.
  • 1997 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 7.
  • 1999 - Festival Internacional de Artes Cênicas, 8.
  • 2001 - Os Lusíadas

Referências

  1. RODRIGUES, Eder Sumariva. A dinâmica da produção teatral de Ruth Escobar: entre estética e poder, arte e resistência. Universidade do Estado de Santa Catarina, 2010.
  2. ESCOBAR, Ruth. Maria Ruth. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987, p. 115, apud RODRIGUES, Eder Sumariva, 2010, p. 46.
  3. Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro. Escobar, Ruth (1936)
  4. Família de Ruth Escobar aponta negligência na gestão do patrimônio da artista, por Gabriela Melão. Folha de S.Paulo, 29 de setembro de 2011.
  5. a b "Família pede ajuda para a atriz Ruth Escobar". O Fuxico. Acesso: 20 de outubro, 2015.
  6. a b c "'Patrimônio de Ruth Escobar está sendo deteriorado', diz família" (30/09/2011). Acesso: 20 de outubro, 2015.
  • FERNANDES, Rofran. Teatro Ruth Escobar: 20 anos de resistência. São Paulo: Global, 1985.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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