João Crisóstomo

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São João Crisóstomo
Escultura de São João Crisóstomo
na Catedral de S. Patrick, Nova York
No oriente: Grande Hierarca e Professor Ecumênico
No occidente: Patriarca de Constantinopla, Padre grego e Doutor da Igreja
Nascimento ca. 347 em Antioquia, Síria (província romana)
Morte 14 de setembro de 407 em Comana Pontica, Ponto (província romana)
Veneração por Igreja Católica
Comunhão Anglicana
Igreja Luterana
Igreja Ortodoxa
Festa litúrgica No oriente: 13 de Novembro e 30 de janeiro (Três Grandes Hierarcas)
No ocidente: 13 de Setembro
Atribuições Vestido como bispo, segurando um evangelho ou rolo, mão direita erguida abençoando. Ele é mostrado sempre muito magro por causa dos jejuns, uma testa alta, cabelos escuros com calvíce e uma pequena barba. Símbolos: colméia, uma pomba branca, uma frigideira, cálice sobre uma Bíblia, pena e tinteiro [1]
Padroeiro de Constantinopla, da Educação, da Epilepsia, dos palestrantes e pregadores [2]
Gloriole.svg Portal dos Santos

São João Crisóstomo (em grego: Ιωάννης ο Χρυσόστομος; Antioquia, atual Antakya, ca. 34714 de Setembro de 407) foi um teólogo e escritor cristão, arcebispo de Constantinopla no fim do século IV e início do V. Sua deposição em 404 produziu uma crise entre a Santa Sé e a Sé Patriarcal. Pela sua inflamada retórica, ficou conhecido como Crisóstomo (que em grego significa «boca de ouro»).

"Como verdadeiro pastor, tratava a todos com cordialidade, (…) em particular nutria uma ternura especial pela mulher e dedicava uma atenção particular ao matrimônio e à familia" e "convidava aos fiéis a participar na vida litúrgica, que fez esplêndida e atractiva com criatividade genial". Mas "apesar de sua bondade (…) se viu envolto em frequentes intrigas políticas, por suas contínuas relações com as autoridades e as instituições civis (…) e foi condenado ao exílio".[1]

É considerado santo pelas Igrejas Ortodoxa e Romana; é, a par de Gregório de Nanzianzo, de Gregório de Nissa e de Basílio de Cesareia, um dos quatro grandes Padres da Igreja Oriental; é ainda um dos Doutores da Igreja Católica.

Resenha biográfica[editar | editar código-fonte]

Natural de Antioquia, filho de uma família cristã, estudou, na sua cidade natal sob Libânio, filosofia e retórica. Com a idade de vinte e um anos, depois de estar três anos a colaborar com o bispo Melécio de Antioquia, e de ter recebido o baptismo, foi ordenado leitor. Contra a oposição familiar, viveu alguns anos como ermitão no deserto.

Ao longo deste tempo continuou o estudo das escrituras sagradas e, quando regressou a Antioquia foi ordenado diácono por Melécio e sacerdote pelo bispo Flaviano em 386. Acto contínuo, este último encarregou João Crisóstomo das pregações na principal igreja da cidade, cargo que desempenhou até 397. Este período de doze anos, foi o mais fecundo da sua vida e nele proferiu as suas homilias mais conhecidas e que, no século VI, lhe valeriam o qualificativo que passou a fazer parte inseparável do nome com que passou para a posteridade: crisóstomo, isto é, boca de ouro.

Os últimos anos de sua vida foram tumultuosos. Foi eleito bispo de Constantinopla em 397 e Teófilo de Alexandria foi, contra a vontade deste, obrigado a consagrá-lo bispo, coisa que não perdoaria jamais a João. Uma vez bispo, quis começar uma restauração eclesiástica na qual - quiçá por falta de habilidade - a sua boa, e decidida, vontade se deparou com os obstáculos existentes e com os muitos interesses de alguns privilegiados. Pouco a pouco entrou em conflito com parte do clero, e, pouco depois, com a imperatriz Élia Eudóxia.

Nesta situação, Teófilo de Alexandria conseguiu reunir aquele que depois viria a ser chamado o Sínodo do Carvalho, perto de Calcedónia, onde, com acusações falsas, conseguiu que Crisóstomo fosse deposto e desterrado pelo Imperador. O povo de Constantinopla, em especial os mais desfavorecidos - por quem João tanto havia feito - amotinou-se e João, no dia seguinte ao da sua saída, voltou para a sua sé episcopal.

Contudo, poucos meses depois, a situação voltou a piorar e acabou por ser desterrado para a Armênia em 404, de onde, a pedido próprio - por causa do perigo que podia representar para a sua vida a inveja de seus inimigos face às multidões que a ele acudiam -, foi de novo desterrado para um lugar mais distante, na extremidade oriental do Mar Negro, na cidade de Cucuso. A caminho deste seu último desterro, morreria no ano de 407. Os seus restos mortais foram levados para Constantinopla em 438, e o Imperador Teodósio II, filho de Élia Eudóxia, pediu publicamente perdão em nome de seus pais.

Desde o dia 1 de maio de 1626 o seu corpo repousa na Basílica de São Pedro e, em 27 de novembro de 2004, o Papa João Paulo II doou parte das suas relíquias ao Patriarca Ecumênico de Constantinopla Bartolomeu I e, desta forma, tanto na Basílica Vaticana como na Igreja de São Jorge no Fanar é agora venerado este grande Padre da Igreja.

A obra teológica[editar | editar código-fonte]

A produção teológica de João Crisóstomo é extraordinariamente vasta e é composta fundamentalmente por sermões, ainda que contenha também alguns tratados de importância considerável e um significativo número de cartas.

De entre as suas homilias podem ser realçadas aquelas que versam quer sobre aspectos doutrinais, quer sobre questões polémicas: "Sobre a natureza incompreensível de Deus", "As Catequeses baptismais"; "Homilias contra os judeus", são algumas delas. Relevantes são, ainda, as suas homilias exegéticas, de entre as quais se deve salientar: "Sobre o Evangelho de Mateus" (num total de 90), "Sobre a Carta aos Romanos" (32); "Sobre o Evangelho de João"; "Sobre a Epístola aos Hebreus" (34) e as 55 homilias "Sobre o Livro dos Actos dos Apóstolos", naquele que é o único comentário completo e exaustivo sobre este livro da Bíblia que a antiguidade cristã nos deixou. No que diz respeito aos "tratados", devemos salientar: “Sobre o sacerdócio"; "Sobre a vida monástica"; "Sobre a virgindade". As cartas são cerca de 250 e pertencem, todas elas, ao período do seu desterro.

Esboço de um pensamento[editar | editar código-fonte]

A humanidade e a divindade de Jesus:
«O Apóstolo diz, "Sendo de forma (condição) divina." (Fil 2, 6) Se diz "de forma (condição)" como podeis sugerir, vós, ó arianos, que Ele era uma energia? Mas não diz-nos a seguir que "esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens." (Fil 2, 7) "A forma de servo" é, porventura, a energia de um servo ou a natureza de um servo? É evidente que é a natureza de um servo. Assim, a "forma de Deus" indica que era de igual natureza do que Deus, que era Deus e não uma energia.»
Sobre a Carta aos Filipenses VI, in Flp 2, 5-8

João Crisóstomo tem uma importância impar enquanto exegeta na medida em que ele é a norma teológica significativa da Escola de Antioquia. Não recusando as leituras alegóricas e místicas dos textos da Biblia, defendia que as mesmas só deveriam ser normativas quando os próprios autores das mesmas sugerissem, directa ou indirectamente, este significado mais profundo que, não obstante, ele reconhecia como sendo o mais autêntico.

A sua cristologia, com uma clara finalidade ortodoxa que o leva a evitar contendas, orbita sobre as afirmações inequívocas de que Jesus Cristo é simultaneamente verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem numa mesma pessoa. Acredita na, e defende a, presença real de Cristo na Eucaristia. Para João a figura de Maria (mãe de Jesus) é, igualmente, de grande importância: ela é a primeira dos que creram em Jesus e, assim, o deutero-modelo da vida cristã (sendo o modelo primeiro, primigénito e generativo o próprio Jesus Cristo). A atenção de João Crisóstomo para com os mais desfavorecidos é uma das suas mais relevantes características, a ponto de ter sido ele a celebrizar a expressão «o pobre é um "Alter Christus"». Para ele, de facto, oferecer atenção e dedicação a um pobre é dar ao próprio Cristo: «Não há diferença alguma em dar ao Senhor e dar ao pobre, pois Ele mesmo disse "quem dá a estes pequenos é a mim que dá."» ("Sobre o Evangelho de Mateus", LXXXVIII, 2-3)

Comentando os Atos dos Apóstolos, São João Crisóstomo propõe "o modelo da Igreja primitiva, como modelo da sociedade, desenvolvendo uma "utopia social", a ideia de uma cidade ideal, tratando de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Em outras palavras, Crisóstomo entendeu que não era suficiente dar esmolas, ajudar aos pobres, caso a caso, mas que era necessário criar uma estrutura, um novo modelo de sociedade (…) baseada na visão do Novo Testamento. Por isso, podemos considerá-lo um dos grandes pais da Doutrina Social da Igreja." [1]

As controvérsias com o judaísmo[editar | editar código-fonte]

Urnas com as relíquias de Gregório e São João Crisóstomo.

João Crisóstomo - por causa de um conjunto de homílias que emitiu sobre a necessidade dos cristãos delimitarem o âmbito religioso da sua fé, face a um convívio social intenso com a comunidade judaica, que João via como extremamente benéfica e salutar, mas que a sua posteridade, ignorando este contexto, delas se serviu para o tachar de anti-judeu - ficou também célebre pelas suas posições face àquela que devia ser, em seu entendimento, a correcta relação dos cristãos com as comunidades judaicas. Este seu empenho está bem patente em alguns dos seus sermões. Num deles pode-se ler:

«Não vos deixem surpreender por eu ter chamado os Judeus de desastrosos. Porque eles são mesmo desastrosos e miseráveis. Aqueles que rejeitaram tão ferverosamente e recusaram as muitas boas coisas que o céu lhes colocou nas mãos. Eles conheceram os profetas desde a infância e crucificaram aquele que tinham profetizado. Aqueles que foram chamados a ser filhos desceram à raça de cães.»
«Animais sem entendimento, quando gozam de manjares que enchem e engordam, tornam-se mais difíceis e incontroláveis e não tolerarão uma canga ou rédeas, ou a mão do condutor. E o mesmo com a nação dos Judeus: porque eles se voltaram para o mal extremo, tornaram-se irrequietos e não aceitaram o jugo de Cristo nem serem colhidos pela ceifa dos seus ensinamentos.»
«Tais animais que não pensam são próprios para o abate, porque eles não são próprios para trabalhar. Os Judeus não têm experiência nisso: porque se mostraram inúteis para o trabalho, eles tornaram-se apropriados para serem mortos. Eu sei que muitas pessoas respeitam os Judeus e vêem a sua vida como honorável. Eu exorto-vos por isso a colher esse preconceito depravado pelas raízes. Já disse que a sinagoga não é melhor do que um teatro. Na verdade, a sinagoga não é apenas um bordel e um teatro, mas também um antro de ladrões e abrigo para selvagens. E não apenas para selvagens mas mesmo para selvagens impuros.»

Após a sua morte em 407, os seus oito sermãos acerca dos judeus circularam por toda a Igreja e foram traduzidos, entre outras línguas, para latim, sírio e russo. Fragmentos destes sermões foram incluídos na Liturgia Bizantina para a Semana Santa e só dela removidos já no século XX.

Não se pode, contudo, classificar essas posições como meramente "anti-semitas". Obviamente João Crisóstomo não pode ser encarado como estrito amigo dos judeus - embora tivesse amigos entre as comunidades judaicas -, mas, no outro extremo, não pode ser também classificado como um mero anti-semita, como se um fosse um nazi. Os seus textos devem ser entendidos dentro do universo em que foram inscritos.

A intenção não era a de propor represália políticas ou sociais contra os judeus: o ponto de vista era meramente teológico, baseado no fato de que alguns judeus terem participado na morte de Jesus Cristo de modo pró-ativo. Igualmente, ao acreditar que o cristianismo era a única verdadeira religião - numa posição que, embora maioritária, outros teólogos cristãos, de sempre, foram mitigando ao admitirem que todas as religiões tinham sementes de verdade -, o facto de os judeus praticarem uma religião diversa, apesar de Cristo ter proclamado que tinha vindo até eles para o seu bem - o próprio Cristo era, ele mesmo, afinal, judeu -, tornavam-se, do seu ponto de vista teológico, reprováveis.

A Divina Liturgia de São João Crisóstomo[editar | editar código-fonte]

João Crisóstomo escreveu uma liturgia que é uma versão resumida da Liturgia de São Basílio, compondo com esta e com a Liturgia dos Dons Pré-Santificados as formas de celebração eucarística do Rito Bizantino. A Liturgia de S. João Crisóstomo é usada na maior parte do ano litúrgico das igrejas orientais.

Por ocasião do XVI Centenário da sua morte, celebrou-se no Instituto Patrístico "Augustinianum" de Roma, entre 8 e 10 de novembro de 2007, o "Congresso Internacional sobre São João Crisóstomo."

O "X Simpósio Intercristão", promovido pelo Instituto Franciscano de espiritualidade da Pontifícia Universidade Antonianum e pelo Departamento de teologia da Faculdade teológica da Universidade Aristóteles de Tessalônica, na ilha de Tinos, teve como tema "São João Crisóstomo, ponte entre o Oriente e o Ocidente", no XVI centenário da sua morte.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: São João Crisóstomo
João I Crisóstomo
(398 - 404)
Precedido por: Cruz ortodoxa.png
Lista dos patriarcas grego ortodoxos de Constantinopla
Sucedido por:
Nectário 36.º Arsácio de Tarso


Referências

  1. a b (Bento XVI, na audiência geral de quarta-feira, 26 de setembro de 2007, Vatican Information Service, Ano XVII - Num. 161)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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