Síndrome de Gilbert

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Síndrome de Gilbert
Bilirubin.svg
Especialidade endocrinologia
Classificação e recursos externos
CID-10 E80.4
OMIM 143500, 143500
DiseasesDB 5218
MedlinePlus 000301
eMedicine 178841
MeSH D005878, D005878
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A síndrome de Gilbert (em inglês: Gilbert's syndrome, GS) é uma doença hepatopatia leve na qual o fígado não processa adequadamente a bilirrubina.[1] Muitas pessoas nunca têm os sintomas.[1] Ocasionalmente, pode ocorrer uma leve coloração amarelada da pele ou da parte branca dos olhos(esclera do olho).[1] Outros possíveis sintomas incluem cansaço, fraqueza e dor abdominal.[1]

A síndrome de Gilbert ocorre devida a uma mutação no gene UGT1A1 e que resulta na diminuição da atividade da enzima Uridina Difosfato Bilirrubina glucuronosiltransferase (UGT1A1).[1][2] Esta doença é tipicamente herdada de um padrão autossômico recessivo e ocasionalmente, dependendo do tipo de mutação, de um padrão autossômico dominante.[2] Os episódios de icterícia podem ser desencadeados por estresse, bem como exercícios, menstruação ou não-alimentação.[2] O diagnóstico baseia-se em níveis mais elevados de bilirrubina não conjugada no sangue, sem sinais de outros problemas hepáticos ou de destruição dos glóbulos vermelhos.[3][2]

Normalmente, nenhum tratamento é necessário.[1] Se a icterícia for significativa, o Fenobarbital pode ser usado.[1] A síndrome de Gilbert afeta cerca de 5% das pessoas nos Estados Unidos.[2] Os homens são mais frequentemente diagnosticados do que as mulheres.[1] Frequentemente não é notado até a infância tardia e o início da idade adulta.[3] A condição foi descrita pela primeira vez em 1901 por Augustin Nicolas Gilbert.[3][4]

Sinais e sintomas[editar | editar código-fonte]

Icterícia[editar | editar código-fonte]

A síndrome de Gilbert produz um nível elevado de bilirrubina não conjugada na corrente sanguínea, mas normalmente não tem consequências graves. A icterícia leve pode aparecer sob condições de esforço, estresse, jejum e infecções, mas a condição geralmente é assintomática.[5][6] Casos graves de icterícia resulta no amarelamento do tom da pele e das escleras dos olhos.

Tem sido relatado que esta síndrome possivelmente contribui para um início acelerado da icterícia neonatal, especialmente na presença de hemólise devido a doenças como a deficiência em glucose-6-fosfato desidrogenase.[7][8] Esta situação pode ser especialmente perigosa se não tratada rapidamente, já que a bilirrubina alta causa incapacidade neurológica irreversível na forma de querníctero.

Desintoxicação de drogas[editar | editar código-fonte]

As enzimas defeituosas da família Uridina Difosfato Bilirrubina glucuronosiltransferase (UGT1-1A) também são responsáveis por algumas das capacidades do fígado de desintoxicar determinados medicamentos. Por exemplo, a síndrome de Gilbert está associada a diarreia grave e neutropenia em pacientes tratados com Irinotecano, que é metabolizado pela enzima UGT1-A1.[9]

Enquanto o paracetamol (acetaminofeno) não é metabolizado pela UGT1A1,[10] mas este é metabolizado por uma das outras enzimas também deficiente em algumas pessoas com Gilbert.[11][12] Um subconjunto de pacientes pode ter um risco aumentado de toxicidade por paracetamol.[12][13]

Efeitos cardiovasculares[editar | editar código-fonte]

Várias análises encontraram uma diminuição significativa do risco de doença arterial coronariana (DAC) em indivíduos com a síndrome de Gilbert.[14][15]

Especificamente, pessoas com níveis levemente elevados de bilirrubina (1,1 mg/dl a 2,7 mg/dl) tinham menor risco de DAC e menor risco de doença cardíaca futura.[16] Esses pesquisadores passaram a realizar uma meta-análise de dados disponíveis até 2002, e confirmaram que a incidência de doença aterosclerótica (endurecimento das artérias) em indivíduos com a síndrome tinha uma relação estreita e inversa com a bilirrubina sérica.[14] Este efeito benéfico foi atribuído à bilirrubina IXα, que é reconhecida como um potente antioxidante, em vez de fatores de confusão, tais como os níveis de lipoproteína de alta densidade.[16]

Referências

  1. a b c d e f g h «Gilbert syndrome». GARD (em inglês). 2016. Consultado em 2 de julho de 2017. Cópia arquivada em 4 de agosto de 2017 
  2. a b c d e «Gilbert syndrome». Genetics Home Reference (em inglês). 27 de junho de 2017. Consultado em 2 de julho de 2017. Cópia arquivada em 27 de junho de 2017 
  3. a b c «Gilbert Syndrome». NORD (National Organization for Rare Disorders) (em inglês). 2015. Consultado em 2 de julho de 2017. Cópia arquivada em 20 de fevereiro de 2017 
  4. «Whonamedit - dictionary of medical eponyms». www.whonamedit.com (em inglês). Consultado em 2 de julho de 2017. Cópia arquivada em 18 de setembro de 2016 
  5. Kasper et al., Harrison's Principles of Internal Medicine, 16th edition, McGraw-Hill 2005
  6. Boon et al., Davidson's Principles & Practice of Medicine, 20th edition, Churchill Livingstone 2006
  7. Bancroft JD, Kreamer B, Gourley GR (1998). «Gilbert syndrome accelerates development of neonatal jaundice». Journal of Pediatrics. 132 (4): 656–60. PMID 9580766. doi:10.1016/S0022-3476(98)70356-7 
  8. Cappellini MD, Di Montemuros FM, Sampietro M, Tavazzi D, Fiorelli G (1999). «The interaction between Gilbert's syndrome and G6PD deficiency influences bilirubin levels». British Journal of Haematology. 104 (4): 928–9. PMID 10192462. doi:10.1111/j.1365-2141.1999.1331a.x 
  9. Marcuello E, Altés A, Menoyo A, Del Rio E, Gómez-Pardo M, Baiget M (2004). «UGT1A1 gene variations and irinotecan treatment in patients with metastatic colorectal cancer». Br J Cancer. 91 (4): 678–82. PMC 2364770Acessível livremente. PMID 15280927. doi:10.1038/sj.bjc.6602042 
  10. Rauchschwalbe S, Zuhlsdorf M, Wensing G, Kuhlmann J (2004). «Glucuronidation of acetaminophen is independent of UGT1A1 promotor genotype». Int J Clin Pharmacol Ther. 42 (2): 73–7. PMID 15180166. doi:10.5414/cpp42073 
  11. Kohle C, Mohrle B, Munzel PA, Schwab M, Wernet D, Badary OA, Bock KW (2003). «Frequent co-occurrence of the TATA box mutation associated with Gilbert's syndrome (UGT1A1*28) with other polymorphisms of the UDP-glucuronosyltransferase-1 locus (UGT1A6*2 and UGT1A7*3) in Caucasians and Egyptians». Biochem Pharmacol. 65 (9): 1521–7. PMID 12732365. doi:10.1016/S0006-2952(03)00074-1 
  12. a b Esteban A, Pérez-Mateo M (1999). «Heterogeneity of paracetamol metabolism in Gilbert's syndrome». European Journal of Drug Metabolism and Pharmacokinetics. 24 (1): 9–13. PMID 10412886. doi:10.1007/BF03190005 
  13. Gilbert Syndrome no eMedicine
  14. a b Ladislav Novotnýc; Libor Vítek (2003). «Inverse Relationship Between Serum Bilirubin and Atherosclerosis in Men: A Meta-Analysis of Published Studies». Experimental Biology and Medicine. 228 (5): 568–571. PMID 12709588. doi:10.1177/15353702-0322805-29 
  15. Schwertner Harvey A; Vítek Libor (maio de 2008). «Gilbert syndrome, UGT1A1*28 allele, and cardiovascular disease risk: possible protective effects and therapeutic applications of bilirubin». Atherosclerosis (Review). 198 (1): 1–11. PMID 18343383. doi:10.1016/j.atherosclerosis.2008.01.001 
  16. a b Vítek L; Jirsa M; Brodanová M; et al. (2002). «Gilbert syndrome and ischemic heart disease: a protective effect of elevated bilirubin levels». Atherosclerosis. 160 (2): 449–56. PMID 11849670. doi:10.1016/S0021-9150(01)00601-3