Sônia de Moraes Angel

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Sônia de Moraes Angel
Nascimento 9 de novembro de 1946
Santiago do Boqueirão, Brasil
Morte 30 de novembro de 1973 (27 anos)
São Paulo, Brasil
Nacionalidade Brasil brasileira
Ocupação Professora, guerrilheira
Influências

Sônia Maria de Moraes Angel Jones (Santiago do Boqueirão, 9 de novembro de 1946São Paulo, 30 de novembro de 1973) foi uma integrante do grupo guerrilheiro de extrema-esquerda Ação Libertadora Nacional (ALN) e participante da luta armada contra a ditadura militar brasileira. Presa, torturada e morta por agentes do regime militar, seus restos só foram identificados décadas após sua morte.[1] Foi um dos casos investigados pela Comissão Nacional da Verdade, que apurou mortes e desaparecimentos na ditadura militar brasileira.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Filha de João Luiz Moraes (um oficial Coronel do Exército Brasileiro) e de Cléa Lopes de Moraes, Sônia nasceu em 9 de novembro de 1946, em Santiago do Boqueirão (RS). Estudou no Colégio de Aplicação da antiga Faculdade Nacional de Filosofia e, posteriormente, na Faculdade de Economia e Administração da UFRJ, de onde foi desligada pelo Decreto nº 477, de 24 de setembro de 1969, antes de se formar, por participar de atividades subversivas.[2] Para se sustentar, trabalhava como professora de português, no Curso Goiás, no Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, de propriedade de sua família.

Casou-se, em 18 de agosto de 1968, com Stuart Angel Jones, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que conheceu nas manifestações e reuniões de militantes de esquerda.[2] Foi presa pela primeira vez em 1 de maio de 1969, quando das manifestações de rua na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, e primeiro levada para o DOPS para interrogatório e em seguida para o presídio feminino São Judas Tadeu.[1] Foi solta apenas em 6 de agosto de 1969, após ser absolvida pelo Superior Tribunal Militar, por unanimidade, passando à clandestinidade com o nome de Esmeralda Siqueira Aguiar.

Em liberdade, ela auto-exilou-se na França em maio de 1970, indo estudar na Universidade de Vincennes, enquanto lecionava português na escola de idiomas Berlitz, em Paris.

Após a prisão e desaparecimento do marido, Stuart Edgar Angel Jones, em maio de 1971, Sônia decidiu voltar ao Brasil e retomar a luta armada, ingressando na ALN, mas por causa da intensidade da repressão, foi em seguida refugiar-se no Chile de Salvador Allende, onde trabalhou como fotógrafa.[1] Retornou ao Brasil secretamente em maio de 1973, passando a residir em São Paulo.

Morte e identificação[editar | editar código-fonte]

Com Antônio Carlos Bicalho Lana, outro integrante da ALN com quem se unira, foi morar em São Vicente, onde alugou um apartamento em 15 de novembro de 1973. No mesmo mês, ela e Lana foram presos por agentes do DOI-CODI de São Paulo, denunciados pelo médico João Henrique Ferreira de Carvalho, apelidado pelo DOI-CODI de "Jota", um infiltrado nas organizações clandestinas responsável pela denúncia e morte de cerca de vinte militantes da luta armada.[3] Foi noticiado pelo II Exército em versão oficial, publicada nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo de 1 de dezembro de 1973, que ela morrera, após combate, a caminho do hospital, num tiroteio com agentes de segurança no bairro de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo.[2]

Existem, na verdade, duas versões posteriores para a tortura e morte de Sônia: a primeira delas, dada pelo próprio tio da militante, coronel , ex-comandante do DOI-CODI de Brasília e irmão do pai dela, que diz que "depois de presa, do DOI-CODI de São Paulo foi mandada para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, onde foi torturada, estuprada com um cassetete e mandada de volta a São Paulo, já exangue, onde recebeu dois tiros." A segunda versão, do ex-sargento Marival Chaves, ex-membro do DOI-CODI/SP e do CIEx, em Brasília, dada à revista Veja em 1992, afirma que "Sônia e Antônio Carlos foram presos e levados para um sítio na Zona Sul de São Paulo onde ficaram de cinco a dez dias sendo torturados, até morrerem, dia 30 de novembro de 1973, com tiros pelo corpo, sendo colocados, no mesmo dia, à porta do DOI-CODI/SP, para servir de exemplo. Ao mesmo tempo, foi montado um “teatrinho” para justificar a versão oficial de que foram mortos em consequência de tiroteio, no mesmo dia 30 (metralharam com tiros de festim um casal e os colocaram imediatamente num carro)".[2] O local da tortura e assassinato de Sônia e seu companheiro foi identificado como Fazenda 31 de Março, nome dado pelos militares em homenagem à data do golpe militar de 1964, um sítio localizado na região de Parelheiros, na zona sul de São Paulo. Dos muitos subversivos para ali levados pelos agentes da repressão, apenas um escapou com vida, o ex-deputado estadual fluminense Affonso Celso Nogueira Monteiro, em 1975, após denúncias de seu desaparecimento na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e no Congresso Nacional.[4]

Durante quase vinte anos, a família de Sônia investigou os fatos relativos à sua morte e a de seu companheiro Lana. O resultado destas investigações foi transformado no vídeo Sônia Morta e Viva, dirigido por Sérgio Waismann. Ela foi enterrada como indigente no Cemitério de Perus, em São Paulo, sob o nome de Esmeralda Siqueira Aguiar, mesmo depois de identificada como Sônia Angel. Através de um processo na 1ª Vara Cível de São Paulo, seu pai, tenente-coronel da reserva João Luiz de Morais, conseguiu a correção do certificado de óbito e a verdadeira identificação da filha. Com Sônia oficialmente morta, seus supostos restos, encontrados em Perus, foram transladados para o Rio em 1981, oito anos após sua morte.[5]

No ano seguinte, na tentativa de conseguir uma maior apuração do acontecido à Sônia, através de um processo contra Harry Shibata, legista do IML/SP que atestou sua morte, descobriu-se que os ossos entregues à família eram de um homem. Para sepultar os restos mortais da filha, sua família teve que fazer um total de seis exumações de corpos. Apenas em 1991, através da identificação dos mortos de Perus feita pela UNICAMP, os verdadeiros ossos de Sônia Angel Jones puderam ser realmente identificados e foram enterrados no Rio de Janeiro, em 11 de agosto de 1991.[5]

Homenagens póstumas[editar | editar código-fonte]

Seu nome hoje batiza um viaduto no bairro do Jardim São Luiz, na cidade de São Paulo,[6] um bairro na cidade de Mauá, uma rua no bairro do Tirol, em Belo Horizonte,e uma rua no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro.[7]

Em 2011, a atriz Fernanda Montenegro a homenageou fazendo seu papel numa campanha cívica da OAB pela abertura dos arquivos da ditadura militar, para saber a verdade sobre sua morte e de outros guerrilheiros assassinados ou desaparecidos, exibida na televisão e nos cinemas de todo o Brasil.[8]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c «Sônia Maria de Moraes Angel Jones». Grupo Tortura Nunca Mais. Consultado em 16 de junho de 2011 
  2. a b c d «A história de Sônia Moraes Angel Jones, militante da ALN». Consultado em 16 de junho de 2011 
  3. «SÔNIA MARIA DE MORAES ANGEL JONES». Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. Consultado em 8 de agosto de 2017 
  4. Viana, Natália (8 de agosto de 2011). «O sítio da tortura». A Pública. Consultado em 16 de julho de 2014 
  5. a b «SÔNIA MARIA LOPES DE MORAES» (PDF). DOSSIÊ DOS MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS A PARTIR DE 1964. Consultado em 16 de junho de 2011 
  6. «Google Maps». GoogleMaps. Consultado em 27 de março de 2014 
  7. «CEP 22790868». ceps.io. Consultado em 10 de março de 2016 
  8. «OAB-RJ lança campanha por abertura dos arquivos da ditadura». Congresso em Foco. Consultado em 16 de junho de 2011