Samba de roda

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Samba de roda
Categoria: Formas de expressão
Data de Registro: 05/10/2004
Nº de Processo: 01450.010146/2004-60
Órgão: IPHAN

O samba de roda é uma forma ancestral de dança do samba originária no Recôncavo baiano e é tido como a matriz fundamental do samba rural, especialmente do baiano.[1] Seus passos principais foram preservados na forma posterior urbanizada do samba.[1] Caracteriza-se por ser dançado geralmente ao ar livre, tendo como marca o dançante requebrando e saracoteiando sozinho, enquanto outros participantes da roda se encarregam do canto — alternando frases de solo e coro — e da execução dos instrumentos — prato e faca, pandeiro, ganzá, entre outros.[1]

Com o nome de samba de roda e já dotado de muitas das características que o identificam ainda até hoje, seus primeiros registros datam da década de 1860.[2][3] Posteriormente, passou a reunir tradições culturais transmitidas por africanos escravizados e seus descendentes, como o culto aos orixás e caboclos, o jogo da capoeira e a chamada comida de azeite.[2]

Devido a sua importância cultural e artística, recebeu reconhecimento como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2004[2] e patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura em 2005.[4]

História[editar | editar código-fonte]

O samba de roda teve início por volta de 1860, como notável influência africana. Tido como uma das bases de formação do samba carioca, o samba de roda guarda semelhanças com o coco, dança de roda mais antiga surgida na então Capitania de Pernambuco com influências dos batuques africanos e dos bailados indígenas.[5][6]

A manifestação está dividida em dois grupos característicos: o samba chula e samba corrido. No primeiro, os participantes não sambam enquanto os cantores gritam a chula – uma forma de poesia. A dança só tem início após a declamação, quando uma pessoa por vez samba de roda no meio da roda ao som dos instrumentos e de palmas. Já no samba corrido, todos sambam enquanto dois solistas e o coral se alternam no canto.

O samba de roda está ligado ao culto aos orixás e caboclos, à capoeira e à comida de azeite. A cultura portuguesa está também presente na manifestação cultural por meio do violão, do pandeiro e da língua utilizada nas canções.[7] Foi considerado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio imaterial. O ritmo e dança teve sua candidatura ao Livro de Registro (que registra os patrimônios imateriais protegidos pelo IPHAN) lançada em 4 de outubro de 2004, e, depois de ampla pesquisa a respeito de sua história, o samba de roda foi finalmente registrado como patrimônio imaterial em 25 de novembro de 2005, status que traz muitos benefícios para a cultura popular e, sobretudo, para a cultura do Recôncavo Baiano, berço do samba de roda.

Gravações de samba de roda estão à disponibilidade nas vozes de Dona Edith do Prato, natural de Santo Amaro, ama de leite dos irmãos Velloso, e amiga de Dona Canô. Dona Edith tocava música batendo faca num prato, do que provém o apelido e sua música ainda é respeitada. O álbum Vozes da Purificação contém sambas de roda, na maioria de domínio público, cantados por Dona Edith e o coral Vozes da Purificação.

Estilos derivados[editar | editar código-fonte]

Com a modernização e urbanização do samba de roda, vieram então vários nomes. Em 1916, veio o primeiro samba gravado em disco, Pelo Telefone, pelo cantor e compositor Donga, e, ao longo do tempo, vieram outros cantores e autores de sambas: Ataulfo Alves, Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, entre tantos outros.

Dos ritmos derivativos do samba, o mais controverso foi o da Bossa Nova, na década de 1950. Lançada por artistas como Antônio Carlos Jobim e João Gilberto (este, baiano de Juazeiro, o inventor do ritmo tocado no violão), a Bossa Nova é acusada pelo historiador da música brasileira, José Ramos Tinhorão, de ter se distanciado da evolução natural do samba de roda e se limitar apenas a aproveitar parte de seu ritmo para juntá-lo à influência do jazz e dos standards (a música popular cinematográfica de Hollywood, cujo maior ídolo foi Frank Sinatra). Os defensores da Bossa Nova, no entanto, embora reconheçam que o ritmo pouco tenha a ver com a realidade das favelas cariocas (por sinal, removidas dos principais bairros da Zona Sul pelos governos estaduais nos anos 50 e 60), no entanto afirmam que ela contribuiu inegavelmente para o enriquecimento da música brasileira e para o reconhecimento do samba no exterior.

Contemporaneidade[editar | editar código-fonte]

A manifestação cultural, na sua forma contemporânea, está presente em obras de compositores baianos como Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso. Nos anos 1980, o Samba de roda foi representado por nomes como Zeca Pagodinho e Dudu Nobre. A partir do final dos anos 1990 o pagode também começou a sofrer a decadência e como a história do samba de roda tem demonstrado que, sempre que um gênero começa a perder popularidade, novas formas de se produzi-lo aparecem e mantêm o samba de roda a principal forma de harmonia musical brasileira, mesmo que sempre se modificando por novas influências.

Patrimônio imaterial[editar | editar código-fonte]

O samba de roda designa uma mistura de música, dança, poesia e festa. Presente em todo o estado da Bahia, é praticado principalmente, na região do Recôncavo. Mas o ritmo se espalhou por várias partes do país, sobretudo Pernambuco e Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro, já na sua condição de Distrito Federal, se tornou conhecido como a capital mundial do samba de roda brasileiro, porque foi nesta cidade onde o samba evoluiu, adquiriu sua diversidade artística e estabeleceu, na zona urbana, como um movimento de inegável valor social, como um meio dos negros enfrentarem a perseguição policial e a rejeição social, que via nas manifestações culturais negras uma suposta violação dos valores morais, atribuindo a elas desde a simples algazarra até a supostos rituais demoníacos, imagem distorcida que os racistas atribuíram ao candomblé, que na verdade era a expressão religiosa dos povos negros, de inegável importância para seu povo.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Lopes, Nei; Simas, Luiz Antonio (2015). Dicionário da história social do samba. [S.l.]: Civilização Brasileira. p. 264. ISBN 978-8520012581 
  2. a b c «Samba de Roda do Recôncavo Baiano». Iphan. Consultado em 15 de março de 2022 
  3. Folguedos tradicionais. [S.l.]: Edições FUNARTE/INF. 1982. 59 páginas 
  4. «Unesco reconhece samba-de-roda». Folha de S.Paulo. 26 de novembro de 2005. Consultado em 15 de março de 2022 
  5. «Samba de roda (dança)». Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Consultado em 17 de abril de 2019 
  6. «Coco (dança)». Fundação Joaquim Nabuco. Consultado em 17 de abril de 2019 
  7. «La Samba de Roda du Recôncavo de Bahia». www.unesco.org. Consultado em 31 de outubro de 2016 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]