Santa Marcelina

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Santa Marcelina
Santa Marcelina
Virgem
Nascimento 327 em Roma
Morte 17 de julho de 397 (70 anos) em Roma
Veneração por Igreja Católica
Principal templo Basílica de Santo Ambrósio, Milão
Festa litúrgica 17 de julho
Gloriole.svg Portal dos Santos

Santa Marcelina ou Santa Marcellina (Roma, c. 327 — Roma, 397) foi uma virgem e patrícia romana, irmã mais velha dos santos Sátiro e Ambrósio, que na noite de Natal do ano 353 recebeu das mãos do Papa Libério o véu da consagração virginal. É a padroeira do Instituto Internacional das Irmãs de Santa Marcelina. Sua memória litúrgica se celebra dia 17 de julho.

Vida[editar | editar código-fonte]

Santo Ambrósio ao centro, à esquerda os Santos Gervásio e Protásio e à direita seus irmãos São Sátiro e Santa Marcelina (Obra de Ambrogio da Fossano, 1490).

Marcelina nasceu em Roma, provavelmente no ano de 327 e pertencia a família dos Ambrósios[1]. Filha de Aurélio Ambrósio[2], prefeito da Gália, que depois da morte prematura dos pais se dedicou a educação de seus irmãos menores[3]. Seu pai trabalhou como prefeito romano governando a Gália atual Tréveris[4], hoje Alemanha. Sua mãe, cujo nome se desconhece, é descrita como uma mulher inteligente e piedosa. A família de Marcelina pertencia a nobreza romana que abraçou a fé cristã, parece confirmado seu parentesco com a gens Aurelia[5]. Nascida no século IV Marcelina cresceu num contexto de grandes transformações culturais. Em 327 ocorria a primeira guerra entre a República Romana e os Samnitas pelo domínio região da Campânia e se iniciava a construção da catedral de Antioquia[6].
Em 340 seu pai assumiu o cargo de governador e a família se transferiu para Gália, ali permanecendo por alguns anos. Em Tréveris Marcelina passou sua infância e adolescência[7]. Naquele mesmo ano nascia o terceiro filho do casal, que recebeu o nome do pai, Ambrósio. Além disso, a família sofreu a morte precoce do pai ainda naquele ano. Diante disso, a mãe de Marcelina, cujo nome desconhecemos, retornou com os três filhos à Roma. Ali, passados alguns anos e antes de completar 20 anos, faleceu sua mãe. Assim, Marcelina assumiu a responsabilidade pela educação de seus irmãos menores. Sátiro e Ambrósio foram confiados a bons e competentes mestres, dedicando-se ambos, com sucesso, a estudos jurídicos, estudando literatura, direito e retórica.

Marcelina recebeu uma sólida formação cristã. Como fruto maduro de seu intenso crescimento espiritual, no dia de Natal, mais ou menos, no ano de 353, consagrou-se a Deus na basílica vaticana, recebendo o véu das mãos do Papa Libério[7]. Marcelina entra no rol das virgens do século IV; tinha diante dos olhos um exemplo de coerência crista, vivida até o martírio, pois era de sua família a Santa Sotera, sua parenta, virgem muito jovem que morreu mártir em 304, durante a perseguição de Diocleciano, que Ambrósio lembra com orgulho e comoção no De Virginibus[8]. Segundo o costume, Marcelina seguiu vivendo em família, compartilhando, porém, a vida de consagração com uma amiga[7]. Santo Ambrósio recorda a consagração de sua irmã e as palavras do Papa Libério no tratado De virginibus, dedicado à sua irmã[9]. A vida de Marcelina, a partir de agora, será totalmente dedicada à oração e ao estudo das Sagradas Escrituras. Muitas jovens desejosas de serem orientadas por ela no conhecimento do Senhor acorriam a sua casa e junto a ela se exercitavam no socorro aos pobres e sofredores. Ao mesmo tempo, Marcelina não descuida da educação humana, cultural e cristã de seus dois irmãos, logo nomeados para importantes cargos públicos. Seus irmãos, Sátiro e Ambrósio, completaram os estudos em direito e retórica e em 365 ambos foram chamados à magistratura junto a Prefeitura de Sírmio.
No tempo do imperador Valentiniano I, no ano de 372, Ambrósio é eleito governador de Milão e Sátiro foi nomeado para uma Prefeitura. Dois anos mais tarde, em 374, chega uma inesperada e clamorosa notícia: "Ambrósio foi eleito Bispo de Milão"! Com a morte de Auxêncio de Milão, bispo ariano, seus partidários organizaram-se rapidamente na tentativa de eleger um sucessor. Em virtude de tensões existentes ali Ambrósio foi chamado para apaziguar a situação, dirigiu-se a igreja aonde os seguidores de Auxêncio estavam reunidos com o objetivo de evitar um escândalo, o que era provável, pôs-se a discursar, mas seu discurso foi interrompido por um grito: "Ambrósio, bispo!" Assim, por aclamação popular Ambrósio tornou-se Bispo de Milão, sendo aprovado pelo Papa Dâmaso I. Logo, para auxiliar o irmão em sua nova missão, Marcelina não hesita em acompanhá-lo à sede milanesa e ajudá-lo no que fosse necessário. Para ambos Marcelina foi conselheira e mestra. Paralelamente, continuava sua missão junto as suas companheiras que com ela vieram para Roma.
Em sua vida diária, Marcelina foi além das lições mais perfeitas. Jejuava todos os dias até o anoitecer, e dedicava a maior parte do dia e da noite à oração e à leitura espiritual. S. Ambrósio aconselhou-a, nos últimos anos de sua vida, a que moderasse a sua austeridade e redobrasse as orações, especialmente pela recitação frequente dos salmos, da Oração do Senhor, o Credo, que ele chama de selo do cristão, e de guarda dos nossos corações[10]. No silêncio de uma vida recolhida desenvolveu um intenso apostolado eclesial, participando ativamente das labutas do Bispo Ambrósio, orientou-o a manter-se firme e seguro no serviço da fé e da promoção da justiça. O Bispo era muito grato a seus irmãos, sobretudo, a Marcelina, a quem considerava uma verdadeira mãe. Encantava-o seu modo de proceder e em muitas ocasiões Ambrósio propunha seu exemplo a muitas outras jovens que também eram chamadas por Deus à consagração. Tamanha era a admiração que Ambrósio nutria por sua irmã Marcelina que em sua homenagem e por ela incentivado escreveu uma obra intitulada De Virginibus, exaltando as boas virtudes e a vida de Marcelina, sua querida irmã[11].
Após a eleição de Ambrósio como Bispo Sátiro assumiu toda a parte administrativa dos bens da família, que eram também destinados aos pobres. Assim como Marcelina, Sátiro foi um fiel colaborador em todos os projetos e empreendimentos de Ambrósio. Sátiro foi o primeiro a falecer, no ano de 379. Ambrósio dedicará um belo sermão em homenagem ao irmão falecido. Passados alguns anos, na madrugada do sábado santo, dia 4 de abril de 397, com 57 anos aproximadamente, Ambrósio deixa este mundo. Na rápida enfermidade que lhe abriu as portas do céu Marcelina acompanhou-o até o fim. Tendo assistido à morte dos dois irmãos, por fim, muito esgotada, morreu poucos meses depois de Ambrósio, no dia 17 de julho[12] de 397, com 70 anos. A voz do povo a proclamou santa pela vida tão edificante que levou. Foi sepultada junto a Basílica de Santo Ambrósio. Em 1722 seus restos mortais foram posteriormente transladados a uma capela erguida em sua homenagem na mesma Basílica. Em homenagem à irmã de santo Ambrósio, em 1838, o Beato Luigi Biraghi e Madre Marina Videmari fundaram o instituto religioso feminino das Irmãs de Santa Marcelina, para a educação de jovens[13].

Síntese cronológica[editar | editar código-fonte]

Anos Eventos importantes da vida de Santa Marcelina
327 Nasce Marcelina, na casa paterna, em Roma. Filha mais velha de Aurélio Ambrósio, prefeito romano, que governou a Gália, atua Tréveris.
337 Nasce Sátiro, segundo filho do casal, na cidade de Tréveris.
340 Nasce Ambrósio, terceiro filho do casal, em Tréveris. Naquele mesmo ano falece Aurélio Ambrósio, o pai. A família de Marcelina regressa a Roma.
347 Falece sua mãe, cujo nome desconhecemos. Marcelina assume, a partir de então, a responsabilidade de educar seus irmãos menores.
353 Na noite de Natal, na Basílica de São Pedro, em Roma, Marcelina recebe das mãos do Papa Libério o véu da consagração total.
365 Sátiro e Ambrósio são chamados à magistratura junto a Prefeitura de Sírmio.
372 Ambrósio é nomeado governador de Milão. Sátiro, por sua vez, foi nomeado para a prefeitura da mesma cidade.
374 Ambrósio é eleito Bispo de Milão por aclamação popular.
377 Ambrósio publica o De virginibus ad Marcellinam sororem.
378 Ambrósio escreve o tratado De virginitate.
379 Falece Sátiro em Milão.
392 Ambrósio promulga a obra De institutione virginis.
393 Ambrósio edita a Exhortatio virginitatis.
397 Falece Ambrósio em Milão. Naquele mesmo ano no dia 17 de julho Marcelina entra para a glória celeste. A piedade popular a proclamará santa.
 cripta de la Basílica de San Ambrosio . Foto de Giovanni Dall'Orto
Santa Marcelina e seu irmão Santo Ambrósio. Cripta da Basílica de Santo Ambrósio (Milão). Foto: Giovanni Dall'Orto. 

Virgindade consagrada[editar | editar código-fonte]

Santo Ambrósio de Milão, São Jerônimo e Santo Agostinho são considerados os maiores escritores do Ocidente acerca do tema da virgindade consagrada. Sabe-se que tanto estes autores como seus companheiros do Oriente advogaram em defesa e exaltação da virgindade cristã. As obras de Santo Ambrósio sobre este tema são numerosas e escritas com uma particular afeição. Em 377, três anos depois de sua eleição episcopal, Ambrósio publicou o livro De virginibus ad Marcellinam sororem (cf. PL 16, 197-244), considerado um clássico da antiguidade cristã acerca da virgindade e a mais ambrosiana de suas obras. Pouco tempo depois, em 378 escreve o tratado De virginitate (cf. PL 16, 279-316), no qual reafirma o valor da virgindade e de defende da acusação de exaltar demasiado o estado virginal. Posteriormente, em 392 escreve a obra De institutione virginis (cf. PL 16, 319-348), obra derivada de uma homilia pronunciada em Bolonha por ocasião da consagração da virgem Ambrósia. Por fim, apresenta a Exhortatio virginitatis (cf. PL 16, 351-380) onde desenvolve uma homilia pronunciada em Florência em 393 por ocasião da dedicação de uma basílica construída graças a generosidade da viúva Juliana, a cujas filhas exortava o Bispo a abraçar a consagração virginal. Além disso, independente destas obras específicas relacionadas ao tema, a virgindade reaparece em muitas outras páginas ambrosianas, seja em obras dogmáticas, em comentários exegéticos, em cartas ou em hinos[14].

Espiritualidade virginal[editar | editar código-fonte]

Segundo a proposta evangélica, o estado virginal harmoniza-se na economia dos espíritos ressuscitados que vivem no Reino de Deus (cf. Mt 22, 23-33). O Espírito difunde tal estado, em nossos dias, a fim de anunciar que desde agora o senhorio escatológico de Deus está em ação (cf. Mt 19, 3-12). O estado virginal é realmente dom do Espírito Santo, se e na medida em que é expressão do amor pascal de união e de uniformidade com Cristo (cf. Lc 18, 29s.), já que favorece o estar perto de Deus, ocupando-nos, por quanto possível, somente das coisas que lhe são agradáveis, sem nos entregarmos a distrações profanas (cf. 1Cor 7, 32s.)[15].

A espiritualidade virginal foi vivenciada de maneiras variadas no devir histórico salvífico. Se São Justino, em torno do ano 150, apresenta o estado virginal como seguimento de Cristo, Orígenes precisa o sentido de amor caritativo nele vivido. Novaciano, mais ou menos em 250, sugere vislumbrar, na virgindade, um costume angelical de perfeita oblação, enquanto nos séculos IV-V, celibato e vida monástica aparecem geralmente identificados. Santo Ambrósio, lendo a virgindade no pano de fundo do Verbo encarnado e de sua Igreja, supõe ser ela um sacramento que torna fecunda a Igreja virgem, em misteriosa participação no corpo de Cristo[15].

Em virtude desta interpretação patrística do Evangelho e da vida de Jesus na Igreja, foi se formulando uma apologia do celibato consagrado, bastante legítima e apropriada, mas, talvez, indevidamente em detrimento do estado cristão matrimonial. Ainda que admita a experiência espiritual na vida conjugal, São João Crisóstomo desvaloriza o matrimônio em confronto com a virgindade. São Gregório Nisseno sustenta que o matrimônio foi criado após o pecado original, para fazer frente à pena de morte. Hoje, prefere-se pensar o celibato e o matrimônio como dois carismas que o Espírito dá ao Povo de Deus em relação ao caminho comum evangélico da perfeição[15].

O estado virginal requer um autocontrole ascético continente. Todavia, o seu desenvolvimento progressivo é feito pelo dom do Espírito. Com efeito, uma alma é virginal na medida em que se tornou “pneumatizada” pelo Espírito e, portanto, disponível para expressar-se com e no amor esponsal com Deus. As mortificações, a custódia prudente e as renúncias ascéticas são exigidas para nos tornar disponíveis a receber o dom da virgindade do Espírito, embora se possa admitir que, na prática da mortificação, existe uma formalidade em andamento, de acordo com as épocas culturais. Na prática, negar a custódia do coração coincidiria com a pretensão de gozar da vida ressuscitada, negando o seu pressuposto de oferta na cruz.[15]    

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. PENSO, Maria Silvina. Marcelinas 160 anos: 1838-1998. Rio de Janeiro: Instituto das Irmãs de Santa Marcelina, 1998, pp. 39-43.
  2. Greenslade, Stanley Lawrence (1956). Early Latin theology: Selections from Tertullian, Cyprian, Ambrose, and Jerome, Library of Christian classics 5. Westminster: John Knox Press. 175 páginas 
  3. P. Pierrand, op. cit., p. 147.
  4. «Praetorian prefecture of Gaul». Wikipedia, the free encyclopedia (em inglês) 
  5. DE MILÁN, Ambrosio (1999). Sobre las Vírgenes y Sobre las Viudas. Fuentes Patrísticas 12. Madrid: Ciudad Nueva. 15. páginas 
  6. «327». Wikipédia, a enciclopédia livre. 14 de março de 2013. Consultado em 11 de dezembro de 2017 
  7. a b c RICCARDI, Andrea; LEONARDI, Carla; ZARRI, G. (2000). Diccionario de los santos. Madrid: San Pablo. 1548. páginas 
  8. Gianni, Tamara (2011). Seguindos os passos de Santa Marcelina. Guia artístico-espiritual em Milão e na Província. São Paulo: Congregação das Irmãs Marcelinas. pp. 11–12 
  9. Ambrosius, De virginibus, lib. I, cap. IV, 15; in PL, vol. 16, col. 193.
  10. ALBAN, Butler. Vida dos Santos. Vol. VII/julho. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 162.
  11. http://www.carbonate.it/archivio/Not_29-2012.pdf.
  12. «Acta Sanctorum. Julii. Tomus Quartus.» (PDF). Société des Bollandistes. 1725. p. 415-422. Consultado em 1 de maio de 2017 
  13. MARCOCCHI, Massimo. Caderno de Estudos VI: Luigi Biraghi e a Congregação das Irmãs Marcelinas. São Paulo: Instituto das Irmãs de Santa Marcelina, 2001.
  14. SARTORE, D.; TRIARCCA, A. M. (1987). Nuevo diccionario de liturgia. Madrid: Ediciones Paulinas. 2066 páginas 
  15. a b c d SECONDIN, Bruno; GOLFFI, Tullo (Org.) (1994). Curso de espiritualidade: experiência, sistemática, projeções. São Paulo: Paulinas. pp. 387–388 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]