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Lamiales

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Como ler uma infocaixa de taxonomiaLamiales
Ocorrência: Ypresiano-recente[1]
Classificação científica
Reino: Plantae
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Lamiales
Bromhead{[2]
Famílias[3]
Sinónimos
Galeopsis speciosa.
Exemplo das características das Lamiales em Lavandula angustifolia (gravura do Köhler's Medizinal-Pflanzen).
Utricularia aurea, uma planta carnívora da ordem Lamiales.
Cordylanthus rigidus, uma planta parasita da ordem Lamiales.

Lamiales é uma ordem de plantas com flor do clado asterídeas das eudicotiledóneas[4] que, na classificação das angiospérmicas do sistema APG IV, agrupa 24 famílias[4] que incluem cerca de 23 810 espécies repartidas por mais de 1 059 géneros,[5] com representantes em todo o mundo (distribuição cosmopolita).[6] Membros bem conhecidos desta ordem incluem várias ervas aromáticas, culinárias e medicinais, tais como o manjericão, a hortelã, o alecrim, a salvia, a segurelha, a manjerona, os oréganos, o tomilho, a lavanda, o jacarandá, o gergelim e muitas outras espécies com elevada importância económica.

Descrição

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A ordem das Lamiales é um agrupamento taxonómico do clado das asterídeas. O nome «Scrophulariales» tem também sido utilizado para identificar o mesmo grupo. Já que a família das Lamiaceae e a família das Scrophulariaceae estão na mesma ordem de acordo com a taxonomia cladística, ambos os nomes podem ser utilizados. Contudo, na nomenclatura cladística, o clado lamióide é mais basal que o clado escrofularióide, de modo que os taxonomistas preferem o nome Lamiales para esta ordem.

No sistema de classificação de Cronquist, de base morfológica, a ordem Lamiales incluíam as famílias Lamiaceae, Verbenaceae, Boraginaceae e Lennoaceae. As restantes famílias que agora integram a ordem, pertenciam à ordem das Scrophulariales.

As espécies da ordem das Lamiales apresentam, geralmente, as seguintes características básicas: (1) flores com simetria bilateral e com uma corola bilabiada; (2) cinco pétalas (pentameria); e (3) ovário súpero composto por dois carpelos unidos.

Morfologia

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As espécies vegetais da ordem Lamiales são eudicotiledóneas, são herbáceas ou têm caules lenhosos.[7] Tricomas glandulares estão presentes nas plantas.[7]

As flores zigomórficas são comuns, com cinco pétalas (pentâmeras), sendo duas na parte superior e três na parte inferior, mas também ocorrem espécies com flores actinomórficas.[7][8] As espécies têm potencialmente cinco estames, mas na maior parte dos casos são reduzidos a dois ou quatro estames férteis.[7][8] As Lamiales também produzem um único estilete ligado a um ovário que normalmente contém dois carpelos.[9] O ovário é observado principalmente como sendo súpero.[10] A inflorescência é normalmente dos tipos cimeira, racemo ou espiga.[6]

O tipo de fruto é geralmente uma cápsula deiscente.[11]

Várias espécies de plantas carnívoras são encontradas nas famílias Lentibulariaceae e Byblidaceae.[6] Algumas espécies de plantas protocarnívoras também foram encontradas na ordem, especificamente na família Martyniaceae.[6]

Várias espécies de plantas parasitas são encontradas na ordem Lamiales, especialmente as pertencente à família Orobanchaceae.[6] Estas plantas parasitas podem ser hemiparasitas ou holoparasitas.[6]

A ordem Lamiales pode ser encontrada em quase todos os tipos de habitats em todo o mundo.[12] Esses habitats incluem florestas, vales, pradarias e pastagens, terrenos rochosos, florestas tropicais, pântanos, costas e até mesmo áreas congeladas.[10][12][13] Ocorrem em climas que vão do tropical às regiões temperadas frias.

A ordem Lamiales possui uma variedade de espécies com usos antropogénicos, sendo as mais populares pertencentes às famílias Lamiaceae e Acanthaceae.[13] Muitas destas espécies da ordem Lamiales produzem compostos com propriedades medicinais a partir de alcalóides e saponinas capazes de ajudar a tratar uma variedade de infecções e distúrbios metabólicos.[13] Esses alcalóides e saponinas podem ajudar na digestão, no resfriado comum ou na gripe, na asma, em infecções hepáticas, em infecções pulmonares e apresentam propriedades antioxidantes.[13]

As espécies dentro da ordem também são conhecidas por terem propriedades que repelem insetos e ajudam a controlar doenças prejudiciais causadas por insetos, como a malária transmitida pelos mosquitos.[14][13] As plantas da família Acanthaceae possuem metabolitos secundários bioativos nas suas folhas maduras, que se revelaram tóxicos para as larvas de insetos.[14] Os inseticidas derivados de plantas são uma boa alternativa aos inseticidas químicos sintéticos, pois são baratos, abundantes e seguros para outras plantas, organismos não visados e o ambiente.[14]

Muitas espécies dentro da ordem Lamiales são utilizadas como decoração, agentes aromatizantes, cosméticos e fragrâncias. Os corantes naturais também podem ser extraídos de várias espécies de Lamiales.[13][15] Por exemplo, na cultura da Sardenha, a espécie de planta Lamiales mais comum usada para corantes naturais é a Lavandula stoechas, do caule da qual se extrai um corante verde claro.[15]

Taxonomia e filogenia

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Filogenia

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O sistema APG IV apresenta o seguinte cladograma para Lamiales.[3]

  Lamiales  

Plocospermataceae

Carlemanniaceae

Oleaceae

Tetrachondraceae

Peltantheraceae

Calceolariaceae

Gesneriaceae

Plantaginaceae

Scrophulariaceae

Stilbaceae

Byblidaceae

Linderniaceae

Acanthaceae

Martyniaceae

Pedaliaceae

Bignoniaceae

Lentibulariaceae

Schlegeliaceae

Thomandersiaceae

Verbenaceae

Lamiaceae

Mazaceae

Phrymaceae

Orobanchaceae

Paulowniaceae

Anteriormente, as Lamiales tinham uma circunscrição taxonómica restrita (por exemplo, por Arthur Cronquist com o sistema de Cronquist) que incluía apenas as principais famílias Lamiaceae (Labiatae), Verbenaceae e Boraginaceae, além de algumas famílias menores. No sistema de classificação de Rolf Dahlgren, o sistema de Dahlgren, as Lamiales estavam na superordem Lamiiflorae (também chamada Lamianae). Trabalhos filogenéticos recentes mostraram que as Lamiales são polifiléticas em relação à ordem Scrophulariales e os dois grupos são agora geralmente combinados numa única ordem que também inclui as antigas ordens Hippuridales e Plantaginales. Lamiales tornou-se o nome preferido para este grupo combinado muito maior. A classificação das Boraginaceae não é clara, mas trabalhos filogenéticos mostram que esta família não pertence às Lamiales.[16]

Além disso, a circunscrição da família Scrophulariaceae, anteriormente um grupo parafilético definido principalmente por características plesiomórficas e do qual derivaram numerosas outras famílias das Lamiales, foi radicalmente alterada para criar várias famílias menores, melhor definidas e supostamente monofiléticas.[16]

Datação

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Nos últimos anos, foram realizadas muitos estudos de genética molecular visando a datação da linha evolutiva das Lamiales, embora ainda haja alguma ambiguidade. Um estudo de 2004, sobre a datação filogenética molecular das plantas com flor do clado asterídeas, estimou 106 milhões de anos (MA) para a linha evolutiva das Lamiales.[17] A similar study in 2009 estimated 80 million years.[18] Outro estudo de 2009 apresenta várias razões pelas quais a questão é particularmente difícil de resolver.[6]

Posicionamento

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Famílias

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A ordem é composta por cerca de 1 059 géneros, com 23 275 espécies, divididas em 24-25 famílias:[19]

Referências

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  1. M. E. J. Chandler. 1964. The Lower Tertiary Floras of Southern England. IV. A summary and survey of findings in the light of recent botanical observations.
  2. Angiosperm Phylogeny Group (2009). «An update of the Angiosperm Phylogeny Group classification for the orders and families of flowering plants: APG III». Botanical Journal of the Linnean Society. 161 (2): 105–121. doi:10.1111/j.1095-8339.2009.00996.xAcessível livremente. hdl:10654/18083Acessível livremente 
  3. a b Angiosperm Phylogeny Group (2016). «An update of the Angiosperm Phylogeny Group classification for the orders and families of flowering plants: APG IV». Botanical Journal of the Linnean Society. 181 (1): 1–20. doi:10.1111/boj.12385Acessível livremente 
  4. a b Angiosperm Phylogeny Group (2016). «An update of the Angiosperm Phylogeny Group classification for the orders and families of flowering plants: APG IV». Botanical Journal of the Linnean Society. 181 (1): 1–20. doi:10.1111/boj.12385Acessível livremente 
  5. Allaby, Michael, ed. (2019). A Dictionary of Plant Sciences (em inglês) 4 ed. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-883333-8. doi:10.1093/acref/9780198833338.001.0001 
  6. a b c d e f g Schäferhoff, Bastian; Fleischmann, Andreas; Fischer, Eberhard; Albach, Dirk C; Borsch, Thomas; Heubl, Günther; Müller, Kai F (2010). «Towards resolving Lamiales relationships: insights from rapidly evolving chloroplast sequences». BMC Evolutionary Biology. 10 (1). 352 páginas. Bibcode:2010BMCEE..10..352S. ISSN 1471-2148. PMC 2992528Acessível livremente. PMID 21073690. doi:10.1186/1471-2148-10-352Acessível livremente 
  7. a b c d J. W. Kadereit, ed. (2004). Flowering plants, dicotyledons: Lamiales (except Acanthaceae including Avicenniaceae). Berlin: Springer. ISBN 3-540-40593-3. OCLC 53375899 
  8. a b Endress, Peter K (fevereiro 2001). «Evolution of floral symmetry». Current Opinion in Plant Biology (em inglês). 4 (1): 86–91. Bibcode:2001COPB....4...86E. PMID 11163173. doi:10.1016/S1369-5266(00)00140-0 
  9. Westerkamp, Christian; Claßen-Bockhoff, Regine (1 de agosto de 2007). «Bilabiate Flowers: The Ultimate Response to Bees?». Annals of Botany (em inglês). 100 (2): 361–374. ISSN 1095-8290. PMC 2735325Acessível livremente. PMID 17652341. doi:10.1093/aob/mcm123Acessível livremente 
  10. a b Zhang, Caifei; Zhang, Taikui; Luebert, Federico; Xiang, Yezi; Huang, Chien-Hsun; Hu, Yi; Rees, Mathew; Frohlich, Michael W; Qi, Ji; Weigend, Maximilian; Ma, Hong (1 de novembro de 2020). Saitou, Naruya, ed. «Asterid Phylogenomics/Phylotranscriptomics Uncover Morphological Evolutionary Histories and Support Phylogenetic Placement for Numerous Whole-Genome Duplications». Molecular Biology and Evolution (em inglês). 37 (11): 3188–3210. ISSN 0737-4038. PMID 32652014. doi:10.1093/molbev/msaa160Acessível livremente 
  11. McDade, L. A.; Daniel, T. F.; Kiel, C. A. (1 de setembro de 2008). «Toward a comprehensive understanding of phylogenetic relationships among lineages of Acanthaceae s.l. (Lamiales)». American Journal of Botany (em inglês). 95 (9): 1136–1152. Bibcode:2008AmJB...95.1136M. ISSN 0002-9122. PMID 21632432. doi:10.3732/ajb.0800096 
  12. a b Fonseca, Luiz Henrique M. (novembro 2021). «Combining molecular and geographical data to infer the phylogeny of Lamiales and its dispersal patterns in and out of the tropics». Molecular Phylogenetics and Evolution (em inglês). 164. Bibcode:2021MolPE.16407287F. PMID 34365014. doi:10.1016/j.ympev.2021.107287 
  13. a b c d e f Sharma, Archna; Sharma, Alka; Kumar, Vijay; Kumar, Ashwini (2015). «Selected Medicinal Plants of Order Lamiales Used in Traditional Medicine». American Journal of Pharmacy and Health Research. 3 (1) – via ResearchGate 
  14. a b c Rawani, Anjali; Ghosh, Anupam; Chandra, Goutam (Julho 2014). «Mosquito larvicidal potential of four common medicinal plants of India». The Indian Journal of Medical Research. 140 (1): 102–108. ISSN 0975-9174. PMC 4181141Acessível livremente. PMID 25222784 
  15. a b Maxia, Andrea; Meli, Francesca; Gaviano, Carla; Picciau, Rosangela; De Martis, Bruno; Kasture, Sanjay; Kasture, Veene (2013). «Dye plants: Natural resources from traditional botanical knowledge of Sardinia Island, Italy». Indian Journal of Traditional Knowledge: 651–656 
  16. a b Schäferhoff, Bastian; Fleischmann, Andreas; Fischer, Eberhard; Albach, Dirk C; Borsch, Thomas; Heubl, Günther; Müller, Kai F (2010). «Towards resolving Lamiales relationships: insights from rapidly evolving chloroplast sequences». BMC Evolutionary Biology (em inglês). 10 (1). 352 páginas. Bibcode:2010BMCEE..10..352S. ISSN 1471-2148. PMC 2992528Acessível livremente. PMID 21073690. doi:10.1186/1471-2148-10-352Acessível livremente 
  17. Bremer, K.; Friis, E. M.; Bremer, B. (2004). «Molecular phylogenetic dating of asterid flowering plants shows early Cretaceous diversification». Systematic Biology. 53 (3): 496–505. ISSN 1063-5157. PMID 15503676. doi:10.1080/10635150490445913Acessível livremente 
  18. Susana Magallón; Amanda Castillo (2009), «Angiosperm diversification through time», American Journal of Botany, 96 (1): 349–365, PMID 21628193, doi:10.3732/ajb.0800060 
  19. MOBOT: APWeb - Lamiales (consultada 14 de novembro de 2025).

Ligações externas

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