Segunda língua

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Uma segunda língua (L2) é qualquer língua aprendida após a primeira língua ou língua materna (L1). Não é necessariamente uma língua que esta sendo numerada na ordem em que é adquirida - o termo ‘’segunda’’ está para o que é distinto da língua materna. Diferente do conceito de Língua Estrangeira (LE), uma não-primeira língua é aquela adquirida sob a necessidade de comunicação dentro do processo de socialização.

Segundo Karen Pupp Spinassé[1] (2006), em seu artigo Os conceitos Língua Materna, Segunda Língua e Língua Estrangeira e os falantes de línguas alóctones minoritárias no Sul do Brasil, "para o domínio de uma SL é exigido que a comunicação seja diária e que a língua desempenhe um papel na integração em sociedade.  A aquisição de uma Segunda Língua e a aquisição de uma Língua Estrangeira assemelham-se no fato de serem desenvolvidas por indivíduos que já possuem habilidades lingüísticas de fala, isto é, por alguém que possui outros pressupostos cognitivos e de organização do pensamento que aqueles usados para a aquisição da L1.  Uma diferenciação entre essas duas formas de aquisição de língua não-materna baseia-se fundamentalmente no já citado papel ou função da SL na cultura do falante’’.   

É bem possível que o primeiro idioma que a pessoa aprenda possa não ser mais sua língua dominante, e sua segunda língua passe a ser a mais confortável de se usar. Por exemplo, o censo do Canadá define primeira língua propondo como "a primeira língua aprendida na infância e que continua a ser utilizada", reconhecendo que para alguns a língua mais antiga pode ser perdida num processo conhecido como atrito linguístico. Isso pode acontecer quando a criança pequena vai, com ou sem sua família (devido a imigração ou a adoção internacional), para um novo ambiente linguístico.

Idade[editar | editar código-fonte]

De acordo com algumas pesquisas, a diferença distintiva entre uma primeira língua (L1) e uma segunda língua (L2) é a idade na qual a língua é aprendida. Por exemplo, o linguista Eric Lenneberg definiu segunda língua como uma língua adquirida conscientemente ou usada por seu falante depois da puberdade. Na maioria dos casos, as pessoas nunca alcançam o mesmo nível ou fluência e compreensão em suas segundas línguas como ocorre com a primeira língua. Esses fatos costumam ser associados com a Hipótese do Período Crítico.

Na aquisição de L2, Hyltenstam (1992) achou que algo em torno de 6 a 7 anos parecia ser um prazo final para bilíngues alcançarem o grau de proficiência “como de um nativo”. Depois dessa idade, os estudantes poderiam conseguir um grau “próximo como de um nativo”, mas essa língua iria ter bastantes erros que fariam com que se a fixasse separadamente do grupo L1. A incapacidade de alguns dos assuntos para alcançar a proficiência como de um nativo precisa ser vista em relação à idade inicial. "A idade de 6 a 8 faz parecer ser um período importante na distinção entre “próximo como de um nativo” e “como de um nativo” em último entendimento... Mais especificamente, pode-se sugerir que a idade inicial interage com a frequência e a intensidade do uso da língua" (Hyltenstam, 1992, p. 364).

Depois, Hyltenstam e Abrahamsson (2003) modificaram a ideia do prazo etário, discutindo que depois da infância, em geral, torna-se mais e mais difícil adquirir a “como de um nativo”, porém nõa havendo um prazo final particularmente. Além disso, eles discutiram diversos casos em que uma L2 como nativa era adquirida mesmo durante a fase adulta.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Aquisição da Segunda Língua[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

A distinção entre aquisição e aprendizado foi proposta por Stephen Krashen (1982) como parte da Monitor Theory. De acordo com Krashen, a aquisição da linguagem é um processo natural, enquanto o aprendizado é um processo consciente. No primeiro, o estudante precisa participar de situações comunicativas naturais. No segundo, existe a correção do erro, assim como o estudo de regras gramaticais isoladas da língua natural. É preciso notar que nem todos os educadores de segunda língua concordam com essa distinção. Não obstante, o estudo de como uma segunda língua é aprendida/adquirida é referido como Aquisição de Segunda Língua.

Pesquisas nesta área sofrem influências tanto de teorias linguísticas como também da psicologia. Uma das teorias lingüísticas dominantes propõe a hipótese de que uma ferramenta, ou um tipo de módulo no cérebro, contém conhecimento inato. Muitas teorias psicológicas, por outro lado, trazem a hipótese de que mecanismos cognitivos, responsáveis por boa parte da aprendizagem humana, processam a língua. Outras teorias dominantes e pontos de pesquisa incluem estudos que examinam se descobertas sobre L1 podem ser transferidas para o aprendizado de L2, estudos de comportamento verbal (a visão de que estímulos linguísticos construídos podem criar uma resposta de falas desejada), estudos de morfemas, Behaviourismo, análise de erros, fases e ordem de aquisição, Estruturalismo (abordagem que observa como as unidades básicas de linguagem se relacionam de acordo com características em comum), estudos de aquisição de primeira língua, análises contrastantes (abordagem onde línguas são examinadas em termos de diferenças e semelhanças), e interlínguas (que descrevem a língua do aprendiz de L2 como um sistema dinâmico, governado por regras) (Mitchel, Myles, 2004).

Todas essas teorias influenciaram e pedagogia e o ensino de segunda língua. Existem muitos métodos diferentes de ensinar segunda língua, alguns dos quais advindos de uma só teoria. Métodos comuns incluem o da gramática/tradução, o método direto, o método audiolingual (claramente influenciado pelas pesquisas audiolinguais e a abordagem behaviourista), o jeito silencioso, Sugestopédia, Aprendizado de Língua Comunitário, Total Physical Response, e o Método Comunicativo (muito influenciado pelas teorias de Krashen) (Dogget, 1994). Algumas dessas abordagens são mais populares e vistas como mais efetivas do que outras. A maioria dos professores de língua, entretanto, não se restringem apenas a um estilo, mas utilizam um método de ensino misto. Isso contribui para um ensino mais balanceado, que ajuda no sucesso de alunos com variados estilos de aprendizado.

Português como Segunda Língua[editar | editar código-fonte]

No Brasil, os séculos XIX e XX foram marcados por grandes ondas de imigração: só entre 1819 e 1947, o país registrou 4.903.991 imigrantes. Assim se formaram inúmeras comunidades de imigrantes, e trabalhadores de diversas nacionalidades  naturalmente se depararam com a necessidade de aprender a língua local. Começava aí a demanda de desenvolvimento desse campo que só foi se fazer atendida recentemente, quando pesquisas acadêmicas começam timidamente a ser desenvolvidas e métodos de ensinos a ser elaborados. A ausência de políticas públicas para o ensino de português como segunda língua, também como língua de acolhimento, ocasionou que no Brasil fosse registrada uma iniciativa singular de escolas comunitárias de imigrantes, além ser o país com maior número de escolas étnicas na América.[2]

Além de imigrantes, a comunidade surda tem papel expressivo dentre as que utilizam o português como segunda língua. Após a aprovação da Lei de Libras (2002), a língua de sinais brasileira (Libras) passou a ter status de língua, e o surdo hoje tem direito ao acesso à sua língua natural (considerada como primeira língua), que é ponto de partida para qualquer outra aprendizagem. A modalidade escrita da língua portuguesa passa então a ocupar o papel de segunda língua, e entra na vida do surdo apenas após a alfabetização em libras, idealmente. O status de segunda língua do português, nesse caso, representa uma conquista para a comunidade, que milita pelo direito do surdo à sua própria língua.[3]

Nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP), pesquisas mostram que apesar do status de língua oficial, o português atua apenas como segunda língua de boa parte da população desses países. Isso acontece devido à presença significativa de diversos idiomas locais que são utilizados no dia-a-dia, enquanto o domínio do português frequentemente se limita à sua necessidade para que se consiga acesso à educação e formação acadêmica.  

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Canale, M. and Swain, M. (1980). Theoretical bases of communicative approaches to second language teaching and testing. Applied Linguistics, 1, 1-47.
  • Johnson, H. (1992). Defossilizing. ELT Journal, 46/2, 180-9.
  • Mangubhai, F. (2006). What do we know about learning and teaching second languages: Implications for teaching. Asian EFL Journal 8(3)[4]
  • Selinker, L. (1972). Interlanguage. International Review of Applied Linguistics, 10, 209-31.
  • Selinker, L. and Lamendella, J. (1978). Two perspectives on fossilization in interlanguage learning. Interlanguage Studies Bulletin, 3, 143.

Referências

  • Second Language
  • Chomsky, N. (1968). Language and Mind. New York: Harcourt Brace Jovanovich.
  • Hyltenstam, K. (1992). Non-native Features of Near-native Speakers: On the Ultimate Attainment of Childhood L2 Learners. In R.J. Harris (Ed.), Cognitive Processing in Bilinguals (pp. 351–367). Amsterdam: North-Holland.
  • Hyltenstam, K & Abrahamsson, N (2003). Maturational Constraints in SLA. In Doughty & Long (Eds.), The Handbook of Second Language Acquisition. Rowley, MA: Blackwell.
  • Krashen, S. D. (1982). Principles and Practice in Second Language Acquisition. Oxford: Pergamon Institute of English.
  • Spada, N. and Lightbown, P.M. (2002). Second Language Acquisition. In Schmitt, N. An Introduction to Applied Linguistics. London: Arnold.
  • Doggett, G. (1994). "Eight Approaches to Language Teaching". Mosaic, 27 (2), 8-12.
  • Krashen, Stephen D., Michael A. Long and Robin C. Scarcella. “Age, Rate and Eventual Attainment in Second Language Acquisition”. TESOL Quarterly, Vol. 13, No. 4 (Dec., 1979), pp. 573-582. 7 Oct 2011
  • Mitchell, R and Myles, F. (2004) Second Language Learning Theories, 2nd edition. London: Arnold; New York, distributed by Oxford University Press (capítulo 2)
  • Ekstrand L. H. (1976). Age and length of residence as variables related to the adjustment of migrant children, with special reference to second language learning. Proceedings of the Fourth International Congress of the International Association of Applied Linguistics. Stuttgart: HochschulVerlag, 179-197. Reprinted in (1982): Krashen, S., Scarcella, R. & Long, M. (Eds.). Child/adult differences in second language acquisition. Rowley, Mass.: Newbury House, 1982, 159-17O.)
  • Ekstrand, L. H. (1980). English without a book revisited: Towards an integration of the optimum age and the developmental hypotheses in foreign language learning. Rassegna Italiana di Linguistica Applicata, 12 (2), 113-142. (1982) Reprinted in: Krashen, S., Scarcella, R. & Long, M. Eds.). Child/adult differences in second language acquisition. Rowley, Mass.: Newbury House, 136-158.