Sequestro de equipe da Rede Globo em agosto de 2006

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O sequestro de uma equipe da Rede Globo, ocorrido em 12 de agosto de 2006, foi uma ação planejada pela facção criminosa PCC com o objetivo de forçar a divulgação, pela maior emissora de TV do país, de um manifesto em vídeo criticando a postura do governo do estado de São Paulo em relação ao sistema carcerário paulista. Tal objetivo foi conseguido, com a exibição do vídeo no Plantão da Globo na madrugada de domingo, em rede estadual.

O pretexto[editar | editar código-fonte]

Em maio de 2006, no fim-de-semana do Dia das Mães, a facção criminosa PCC iniciou uma série de ataques a delegacias, policiais (e familiares) e agentes de segurança particular, além de ônibus e bancos do estado de São Paulo. Também foram realizadas diversas rebeliões que destruíram diversos presídios do estado.

A onda de violência foi motivada pela transferência e isolamento de 765 supostos integrantes da facção criminosa PCC para o Presidente Venceslau, 620 quilômetros a oeste de São Paulo.

A primeira onda de ataques ocorreu entre os dias 12 e 19 de maio, com 373 ataques, 47 mortes atribuídas ao PCC, 92 suspeitos mortos pela polícia e outros 124 presos.

Após um período de relativa calma, a facção voltou a agir, dessa vez se voltando a ataques individuais contra policiais, agentes penitenciários e familiares. Entre os dias 26 de junho e 11 de julho, 9 pessoas foram mortas pela facção, e a polícia matou 13 suspeitos.

No dia 11 de julho, porém, a onda de ataques voltou a se intensificar. Em 6 dias, houve 453 ataques, matando 9 pessoas (além de 4 suspeitos mortos pela polícia e 187 presos). A terceira onda, iniciada em 7 de agosto, contava 206 ataques na primeira semana, dessa vez com nenhuma morte criminosa, porém 10 suspeitos mortos pela polícia e 42 presos. Foi nessa terceira onda de ataques que ocorreu o sequestro da equipe da Rede Globo.

Curiosamente, após a primeira onda de ataques, a emissora nunca mais usou a expressão "PCC" em sua cobertura jornalística, sempre citando "a quadrilha que age nos presídios de São Paulo".

O sequestro[editar | editar código-fonte]

Avenida Luís Carlos Berrini, onde ocorreu o sequestro.

No dia 12 de agosto (sábado, véspera do Dia dos Pais), uma hora após chegarem à sede paulista da Rede Globo, na avenida Luís Carlos Berrini, zona sul da cidade de São Paulo, o repórter Guilherme Portanova e o técnico Alexandre Coelho Calado foram a uma padaria, localizada na mesma avenida, frequentada por diversos jornalistas e funcionários da emissora.

Por volta das 7h50min, quando deixavam o estabelecimento em direção ao carro de reportagem, foram abordados por dois homens armados que também estavam na padaria. Um dos homens os fez entrar em um Vectra escuro, enquanto o outro entrou em um Gol vermelho. Antes de fugir, um dos criminosos entrou no carro da emissora e mexeu nos equipamentos, mas nada levou.

Dois motoristas de um hotel próximo ao local chegavam à padaria no momento da ação e foram rendidos. Depois, relataram que havia também um homem numa moto participando da ação.

Cerca de uma hora depois, o Vectra foi encontrado, queimado, na avenida Portugal, no Brooklin, também na zona sul. Descobriu-se que ele havia sido roubado no último dia 10. Testemunhas contaram à polícia que os criminosos tiraram os funcionários da Globo do veículo e, com eles, entraram no Gol vermelho. Em seguida, o homem que estava na moto ateou fogo no Vectra e fugiu.

O desaparecimento do repórter e do técnico foi noticiado numa edição extra do Globo Notícia, apresentado por Mariana Godoy, no primeiro intervalo da programação infantil da Rede Globo. A cobertura completa do sequestro foi apresentada no Jornal Hoje. Ao longo da tarde, a equipe da jornalismo da emissora ficou de plantão atualizando as informações e trabalhando na edição dos telejornais seguintes. Mais tarde, o retrato falado dos três criminosos foi divulgado no Jornal Nacional.

Na noite do mesmo dia, o técnico Alexandre Calado foi libertado próximo à sede da emissora. Os criminosos deixaram com ele um DVD, e exigiram que o vídeo fosse exibido em plantão ainda naquela noite, como condição para libertar o repórter Guilherme Portanova com vida.

Após consultar [1] órgãos internacionais de segurança, a Rede Globo decidiu exibir o vídeo. À 0h28min de domingo, entrou no ar um plantão apresentado por César Tralli em rede nacional, que durou 4 minutos, com a mensagem do PCC.

No final da noite de domingo, quase 24 horas após a exibição do vídeo, os criminosos soltaram o repórter próximo ao hospital Albert Einstein, no Morumbi. Portanova disse que encontrou funcionários do hospital, que o ajudaram a entrar em contato com sua família e com a Globo.

A mensagem[editar | editar código-fonte]

Lida supostamente por um integrante da facção, a mensagem trazia críticas ao sistema penitenciário, pedindo revisão de penas, melhoria nas condições carcerárias, e posicionando-se contra o Regime Diferencial Disciplinado (RDD):

Repercussão[editar | editar código-fonte]

Horas após a exibição do vídeo, a Rede Globo divulgou um comunicado justificando a exibição:

Na segunda-feira (14), o jornal Folha de S. Paulo noticiou que o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Saulo de Castro Abreu Filho, tentou evitar que a Rede Globo exibisse o vídeo com o manifesto do PCC. Ele teria procurado dois diretores da emissora por telefone.

Enviado no domingo pela secretaria para falar com a Globo, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, coordenador do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos), se disse contra a exibição da fita por "abrir um precedente grande", porque significaria atender, sob ameaça, a uma exigência do PCC.

"Basta à violência"[editar | editar código-fonte]

No dia 16 de agosto, quarta-feira, um artigo intitulado "Basta à violência", assinado pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) e entidades representativas das emissoras de rádio e televisão, como a Abert, a Abra e a Abratel, foi publicado na capa de diversos jornais do país e veiculado à noite na televisão, antes do horário eleitoral. O texto diz:

A exibição da mensagem na TV foi boicotada pela Band, que "não endossa" a decisão da Globo de ter exibido o vídeo da facção criminosa. No lugar do manifesto, a Band — associada à Abra — exibiu, no seu principal telejornal, um editorial criticando a atitude da emissora concorrente, dizendo que "um precedente perigoso foi aberto quando a Rede Globo decidiu atender à exigência de sequestradores e divulgar de imediato um vídeo enviado por eles. Na Colômbia, o descalabro começou assim. O lado dos bandidos não deve ser tratado como Estado paralelo. Isso só reforça esse poder criminoso, que, ao se realimentar, volta sempre mais forte e ousado. São decisões — que mesmo bem intencionadas e compreensíveis do ponto de vista humano — abrem caminho para aprofundar ainda mais a tragédia em que se transformou a questão da segurança no país."

Prisões[editar | editar código-fonte]

Em 23 de janeiro de 2007, foram presos pela DEIC, quatro líderes da ONG Nova Ordem, acusados de envolvimento o Primeiro Comando da Capital. Os presos são presidente da ONG, Ivan Raymundi Barbosa, os diretores da ONG, Anderson Luis de Jesus e Simone Barbaresco. Foi presa a advogada Iracema Vasciaveo.[1]

Em 20 de janeiro de 2009, foram presos em Avenida Morubi com carro Palio (da fabricante Fiat), pela Polícia Civil de São Paulo, três homens, dos quais um tinha participado do sequestro: Sérgio Moura da Silva que já tinha um pedido de prisão preventiva expedido por envolvimento. A prisão de Silva aconteceu por volta das 23h, que estava em um Palio com Weberson Silva Teodoro e Diego de Oliveira Jesus, acusados de tráfico de drogas. Ao serem abordados, apresentaram documento falso do veículo. A polícia estava investigando o grupo após quatro meses de investigações. Após a prisão, foram mais tarde transferidos ao CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros.[2]

Notas[editar | editar código-fonte]

  • Uma cópia do DVD produzido pelos criminosos já havia sido enviada à redação do jornal Folha de S.Paulo na quarta-feira anterior, dia 9. Uma outra cópia foi jogada no estacionamento do SBT na sexta-feira, dia 11.
  • Após ser libertado, o técnico Alexandre Calado disse que os criminosos não tinham um alvo fixo. Simplesmente queriam sequestrar funcionários da Globo, não importando quem fosse.
  • Segundo o Ibope, a exibição do vídeo deu 21 pontos de audiência na Grande São Paulo, o equivalente a mais de 1,1 milhão de domicílios só na região.
  • A Globo cortou uma introdução do vídeo onde eram mostradas armas de guerra, dinamites, granadas e coquetéis molotov.[3]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. da Folha Online (23 de janeiro de 2009). «Deic prende líderes de ONG acusados de sequestro de repórter em SP». Consultado em 26 de novembro de 2009. 
  2. «Polícia prende suspeito de sequestrar repórter e técnico da TV Globo». 21 de janeiro de 2009. Consultado em 26 de novembro de 2009. 
  3. «Ao menos dez pessoas participaram de sequestro de funcionários da Globo». 14 de agosto de 2009. Consultado em 26 de novembro de 2009. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]