Parque Nacional Serra da Capivara

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Parque Nacional Serra da Capivara
Categoria II da IUCN (Parque Nacional)
Formação conhecida como Pedra Furada
Localização
País  Brasil
Estado  Piauí
Mesorregiões Sudeste e Sudoeste Piauiense
Microrregiões Alto Médio Canindé
São Raimundo Nonato
Localidades mais próximas Brejo do Piauí, Coronel José Dias, João Costa, São Raimundo Nonato
Dados
Área &0000000000091848.88000091 848,88 hectares (918 5 km2)[1]
Criação 5 de junho de 1979 (38 anos)[2]
Visitantes 14 163 (em 2011[3])
Gestão ICMBio / Fundação Museu do Homem Americano
Sítio oficial www.icmbio.gov.br
Coordenadas 8° 25' S 42° 20' O
Parque Nacional Serra da Capivara está localizado em: Brasil
Parque Nacional Serra da Capivara
Nome oficial: Parque Nacional Serra da Capivara
Tipo: Natural
Critérios: iii
Designação: 1991 (15ª sessão)
Referência: 606
País: Brasil
Região: Américas

O Parque Nacional Serra da Capivara é uma unidade de conservação brasileira de proteção integral à natureza localizada nos municípios piauienses de Canto do Buriti, Coronel José Dias, São João do Piauí e São Raimundo Nonato.[1][4]

O parque foi criado através do decreto de nº 83.548, emitido pela Presidência da República em 5 de junho de 1979, com a finalidade de proteger um dos mais importantes exemplares do patrimônio pré-histórico do país. Originalmente com 100 000 hectares, a proteção do Parque foi ampliada pelo decreto de nº 99.143 de 12 de março de 1990 com a criação de Áreas de Preservação Permanentes de 35 000 hectares.[1] A administração da unidade está a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO).[5]

O Parque Nacional Serra da Capivara é uma unidade de conservação arqueológica com uma riqueza de vestígios que se conservaram durante milênios. O patrimônio cultural e os ecossistemas locais estão intimamente ligados, pois a conservação do primeiro depende do equilíbrio desses ecossistemas. O equilíbrio entre os recursos naturais é o condicionante na conservação dos recursos culturais e foi o que orientou o zoneamento, a gestão e o uso do Parque pelo poder público.

É um local com vários atrativos, monumental museu a céu aberto, entre belíssimas formações rochosas, onde encontram sítios arqueológicos e paleontológicos espetaculares, que testemunham a presença de humanos e animais pré-históricos. O parque nacional foi criado graças, em grande parte, ao trabalho da arqueóloga Niéde Guidon, que hoje dirige a Fundação Museu do Homem Americano, instituição responsável pelo manejo do parque.

Sítios arqueológicos[editar | editar código-fonte]

Área de maior concentração de sítios pré-históricos do continente americano e Patrimônio Cultural da Humanidade - UNESCO. Contém a maior quantidade de pinturas rupestres do mundo. Estudos científicos confirmam que a Serra da Capivara foi densamente povoada em períodos pré–históricos. Os artefatos encontrados apresentam vestígios do homem há 50.000 anos, os mais antigos registros na América.[6]

O Parque Nacional Serra da Capivara se localiza no Estado do Piauí, ao Sudeste do Estado. Possui vários sítios arqueológicos.

Um exemplo das pinturas que podem ser encontradas no parque.

No sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, 63 datações por carbono-14 (C-14) permitiram o estabelecimento de uma coluna crono-estratigráfica que vai de 59.000 até 5.000 anos AP.[7][8] Numerosas pinturas rupestres se encontram na área. Ocre vermelho utilizado para desenhar nas rochas foi encontrado em camadas com datações de entre 17.000 e 25.000 anos AP.[9] Recentes trabalhos no pedestal do Boqueirão da Pedra Furada e no local ao ar livre próximo do Vale da Pedra Furada têm produzido mais evidências para a ocupação humana que se estende por mais de 20.000 anos, argumento é apoiado por uma série de datações por C-14 e OSL (luminescência estimulada opticamente), e pelo análise técnica do conjunto de ferramentas de pedra.[10]

No abrigo rochoso da Toca da Tira Peia os resultados trazem novas evidências de uma presença humana no Nordeste do Brasil já em 20.000 a.C. As idades obtidas, pela técnica de luminescência estimulada opticamente, variam de 22.000 a 3.500 anos antes do presente.[11]

Enormes oficinas líticas onde os homens obtinham a matéria prima e a lascavam para fabricar ferramentas foram encontradas na região norte do em 2002. Em uma delas, milhares de vestígios líticos estavam no solo sobre uma superfície de aproximadamente 25.000 m2.[8]

Existem atualmente 737 sítios arqueológicos catalogados onde foram encontrados artefatos líticos, esqueletos humanos, pinturas rupestres com aproximadamente 30.000 figuras coloridas, que representam cenas de sexo, de dança, de parto, entre outras.

Ao longo de 14 trilhas e 64 sítios arqueológicos abertos à visitação, encontramos tesouros, como os pedaços de cerâmicas mais antigos das Américas, de 8.960 anos, descobertos na Toca do Sítio do Meio.[8]. No circuito dos Veadinhos Azuis, podemos encontrar quatro sítios com pinturas azuis, a primeira desta cor descoberta no mundo.

Situado em uma região de clima semiárido, fronteira entre duas grandes formações geológicas - a Bacia Sedimentar Maranhão-Piauí e a Depressão Periférica do rio São Francisco -, seu relevo é formado por serras, vales e planícies. É o único Parque Nacional do domínio morfoclimático das caatingas, o que ressalta a necessidade de conservação e restauração da flora. O Parque abriga fauna e flora específicas.

Desde a colonização, a área hoje pertencente ao Parque Nacional Serra da Capivara foi utilizada pelas populações que nela caçavam, plantavam e retiravam a madeira.

Manejo do parque[editar | editar código-fonte]

Baixão das andorinhas

A Fundação Museu do Homem Americano, ao elaborar o Plano de Manejo do Parque, estabeleceu uma política de proteção que inclui a integração da população circunvizinha do parque às ações de preservação. Implantou um projeto de desenvolvimento econômico e social que visa educar e preparar as comunidades para que possam participar do mercado de trabalho que o parque está criando na região: obras de infraestrutura, manejo e turismo ecológico e cultural.

As condições essenciais para a proteção do parque são a erradicação da miséria e da fome e a criação de novas formas de trabalho alternativo. O Plano de Manejo considera a população atual como um dos elementos dos ecossistemas a serem preservados e propõe que o Parque Nacional seja o motor de criação de recursos econômicos, em uma área onde a seca impiedosa limita a agricultura e a criação.

Patrimônio cultural[editar | editar código-fonte]

Turistas observando, as cavernas com pinturas rupestres.

As pinturas rupestres são a manifestação mais abundante, notável e espetacular deixada pelas populações pré-históricas que viveram na área do Parque Nacional, desde épocas muito recuadas. Os três sítios que apresentaram as mais antigas datações obtidas na área do Parque Nacional são abrigos-sob-rocha. Um abrigo-sob-rocha forma-se pela ação da erosão que agindo na base dos paredões rochosos vai desagregando a parte baixa das paredes fazendo com que se forme, no alto, uma saliência. Esta funciona como um teto que protege do sol e da chuva o solo que fica sob o mesmo. Com o progresso da erosão, a saliência torna-se cada vez mais pronunciada até que, sob a ação da gravidade, fratura-se e desmorona.

Os homens utilizaram a parte protegida dos abrigos como casa, acampamento, local de enterramentos e suporte para a representação gráfica da sua tradição oral.

Sobre os vestígios deixados por um grupo humano, a natureza depositava sedimentos que os cobriam. Novos grupos, novos vestígios, nova sedimentação. A repetição desse ciclo durante milênios forma as camadas arqueológicas, nas quais os arqueólogos encontram todos os elementos que permitem a reconstituição da vida dos povos pré-históricos.

Patrimônio natural[editar | editar código-fonte]

Macaco-prego (Sapajus libidinosus). Macho adulto fotografado no Parque Nacional da Serra da Capivara.

O Parque Nacional Serra da Capivara situa-se no domínio morfoclimático da Caatinga, mas possui muitas matas de transição de Cerrado no seu limite norte. A vegetação é formada por arbustos fracos, mas extremamente ramificados, com galhos curtos e duros, com aspectos de espinhos. O tronco das árvores é liso, as folhas pequenas e a folhagem é leve e deixa passar luz. A vegetação herbácea geralmente desaparece fora da estação das chuvas.[12]

As “matas brancas” do nordeste do Brasil ou caatingas, como as chamavam os nativos, são formações biogeográficas caracterizadas por plantas xeromórficas (que perdem todas suas folhas na época seca). Ocupa 650.000 km² do Nordeste do Brasil, exceto a faixa litorânea, dos quais apenas 0,1 % encontram-se preservados legalmente.[carece de fontes?]

As pesquisas realizadas no parque resultaram no registro de 33 espécies de mamíferos não-voadores, 24 de morcegos, 208 espécies de aves, 19 de lagartos, 17 de serpentes e 17 de jias e sapos.[12] No parque destaca-se o Mocó, único mamífero endêmico da Caatinga. O maior predador de toda a região do parque é a onça-pintada, que pode ultrapassar 50kg e se alimenta de outros vertebrados que pode capturar.

O parque é também habitado pela única população conhecida de macacos-prego (Sapajus libidinosus) que habitualmente usa ferramentas de pedra e de madeira para obter alimento, além de usar esses objetos também para comunicação e ameaças[13][14][15][16]. Apesar de macacos de outras populações usarem habitualmente ferramentas de pedra[17], geralmente eles só as usam para uma finalidade (p.ex. quebrar cocos[18]), não tendo nenhuma outra população a variedade e complexidade dos macacos-prego da Serra da Capivara no comportamento de usar ferramentas. Estudos arqueológicos sobre o uso de pedras pelos macacos-prego do parque revelaram que esse comportamento ocorre a, pelo menos, 700 anos[19].

Turismo[editar | editar código-fonte]

Boqueirão da Pedra Furada, na Serra da Capivara.

O maior atrativo do Parque é a densidade e diversidade de sítios arqueológicos portadores de pinturas e gravuras rupestres pré-históricas. É um verdadeiro Parque Arqueológico com um patrimônio cultural de tal riqueza que determinou sua inclusão na Lista do Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Durante milênios as paredes dos sítios foram pintadas e gravadas por grupos humanos com diferentes características culturais que se refletem nas escolhas gráficas que aparecem nos sítios. O visitante pode hoje observar um produto gráfico final que foi realizado gradativamente e que pela sua narratividade evoca fatos da vida cotidiana e cerimonial da vida em épocas pré-históricas.

A esse interesse antropológico se soma uma rara beleza e qualidade artística das obras que apesar de traços similares às pinturas pré-históricas das cavernas da França e da Espanha, abrigos sob rocha da Austrália, apresenta um perfil típico, único na região do Nordeste do Brasil.

Problemas na manutenção e fechamento[editar | editar código-fonte]

Em agosto de 2016, a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), co-gestora do parque, encerrou suas atividades por falta de verbas. Por algumas semanas as atividades de manutenção e monitoramento foram suspensas, com as visitas turísticas ocorrendo sem cobrança[20]. Em Janeiro de 2017 a FUMDHAM renovou seu acordo de gestão compartilhada com o Ministério da Cultura, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), garantindo assim, teoricamente, as verbas e suporte legal para a gestão do parque[21].

Referências

  1. a b c PARQUE NACIONAL DA SERRA DA CAPIVARA. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação do Ministério do Meio Ambiente (Relatório Completo). Página visitada em 14 de outubro de 2013.
  2. «Parna da Serra da Capivara». Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 30 de setembro de 2012 
  3. «Ranking Visitação» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 2011 
  4. PARQUE NACIONAL DA SERRA DA CAPIVARA. Cadastro Nacional de Unidades de Conservação do Ministério do Meio Ambiente. Página visitada em 14 de outubro de 2013.
  5. «Parque Nacional da Serra da Capivara - Visitação». Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Consultado em 30 de setembro de 2012 
  6. «G1 - Interior do Brasil tem vestígios dos mais antigos habitantes das Américas». 03 de outubro de 2013  Verifique data em: |data= (ajuda)
  7. Parenti, Fabio; M. Fontugne; N. Guidon; C. Guérin & M. Faure (1999) "Chronostratigraphie des gisements archéologiques et paléontologiques de Sao Raimundo Nonato (Piaui, Brésil) : contribution à la connaissance du peuplement pléistocène de l'Amérique"; Supplément 1999 de la Revue d'Archéométrie: 327 - 332.
  8. a b c Guidon, Niéde (2003) "Arqueologia da região do Parque Nacional Serra da Capivara - Sudeste do Piauí"; Com Ciência. Cosultado em 26 de fevereiro de 2017.
  9. Lage, Maria Conceição (1998) "Datações de pinturas rupestres da área do Parna Serra da Capivara"; Clio Arqueológica 13: 203-213
  10. Boëda, Eric; Ignacio Clemente-Conte; Michel Fontugne; & Christelle Lahaye (2014) "A new late Pleistocene archaeological sequence in South America: the Vale da Pedra Furada (Piauí, Brazil)"; Antiquity 88 (341): 927-941.
  11. Lahayea, Christelle; Marion Hernandez; Eric Boëda; Gisele D. Felice; Niède Guidon; Sirlei Hoeltz; Antoine Lourdeau; Marina Pagli; Anne-Marie Pessis; Michel Rasse & Sibeli Viana (2013) "Human occupation in South America by 20,000 BC: the Toca da Tira Peia site,Piauí, Brazil"; Journal of Archaeological Science 40: 2840-2847.
  12. a b de Araújo, A. J. G., Pessis, A., Guerin, C., Dias, C. M. M., Alves, C., La Salvia, E. S., Olmos, F., et al. (1998). Parque Nacional Serra da Capivara - Piauí­ - Brasil (p. 94). São Raimundo Nonato - PI: FUMDHAM.
  13. Mannu, Massimo; Ottoni, Eduardo B. (1 de março de 2009). «The enhanced tool-kit of two groups of wild bearded capuchin monkeys in the Caatinga: tool making, associative use, and secondary tools». American Journal of Primatology (em inglês). 71 (3): 242–251. ISSN 1098-2345. doi:10.1002/ajp.20642 
  14. Falótico, Tiago; Ottoni, Eduardo B. (21 de novembro de 2013). «Stone Throwing as a Sexual Display in Wild Female Bearded Capuchin Monkeys, Sapajus libidinosus». PLOS ONE. 8 (11): e79535. ISSN 1932-6203. PMID 24278147. doi:10.1371/journal.pone.0079535 
  15. Falótico, Tiago; Ottoni, Eduardo B. (1 de outubro de 2014). «Sexual bias in probe tool manufacture and use by wild bearded capuchin monkeys». Behavioural Processes. 108: 117–122. doi:10.1016/j.beproc.2014.09.036 
  16. Falótico, Tiago; Ottoni, Eduardo B. (21 de abril de 2016). «The manifold use of pounding stone tools by wild capuchin monkeys of Serra da Capivara National Park, Brazil». Behaviour. 153 (4): 421–442. ISSN 1568-539X. doi:10.1163/1568539X-00003357 
  17. Ottoni, Eduardo B.; Izar, Patrícia (1 de julho de 2008). «Capuchin monkey tool use: Overview and implications». Evolutionary Anthropology: Issues, News, and Reviews (em inglês). 17 (4): 171–178. ISSN 1520-6505. doi:10.1002/evan.20185 
  18. Visalberghi, E.; Fragaszy, D.; Ottoni, E.; Izar, P.; de Oliveira, M.g.; Andrade, F.r.d. (1 de março de 2007). «Characteristics of hammer stones and anvils used by wild bearded capuchin monkeys (Cebus libidinosus) to crack open palm nuts». American Journal of Physical Anthropology (em inglês). 132 (3): 426–444. ISSN 1096-8644. doi:10.1002/ajpa.20546 
  19. Haslam, Michael; Luncz, Lydia V.; Staff, Richard A.; Bradshaw, Fiona; Ottoni, Eduardo B.; Falótico, Tiago. «Pre-Columbian monkey tools». Current Biology. 26 (13): R521–R522. doi:10.1016/j.cub.2016.05.046 
  20. «Niéden Guidon deixa Fumdham e Parque Serra da Capivara fecha as portas - Portal AZ». Portal AZ. Consultado em 20 de agosto de 2016 
  21. Brasil, Portal. «Parque Nacional Serra da Capivara terá gestão compartilhada». Portal Brasil. Consultado em 30 de janeiro de 2017 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Baci-4s.jpg O local possui sítio arqueológico (arte rupestre brasileira) de interesse histórico e turístico!