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Sexualidade de Adolf Hitler

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Adolf Hitler e Eva Braun com seus cachorros em Berghof, nos Alpes Bávaros.

A sexualidade de Adolf Hitler tem sido uma questão controversa de debate histórico e acadêmico. Há evidências de que ele se relacionou amorosamente com um alto número de mulheres em sua vida, bem como existem provas de sua antipatia com a homossexualidade, com o adendo de não haver comprovações de encontros com outros homens.[1] O nome de Hitler é frequentemente associado ao de várias amantes do sexo feminino, sendo que duas destas cometeram suicídio, uma morreu oito anos após uma tentativa e outra acabou falhando na execução do ato.[2]

Durante sua vida, Hitler criou uma imagem pública de homem celibatário sem possuir uma vida doméstica, dedicando-se inteiramente aos objetivos políticos e da nação alemã.[3] Seu relacionamento com Eva Braun, que teve duração aproximada de quatorze anos, foi escondido da mídia, porém era de conhecimento em seu círculo íntimo.[4] O escritor Heike Görtemaker, que redigiu a biografia de Braun, afirmou que o casal mantinha uma vida sexual tradicional.[5] Hitler e Braun casaram-se oficialmente no final de abril de 1945, cerca de quarenta horas antes deles cometerem suicídio juntos.[6]

Dois espiões dos tempos da Segunda Guerra Mundial enviados pelos Aliados tentaram analisar Hitler psicologicamente. Um relatório de 1943 feito por Walter C. Langer, membro da Agência de Serviços Estratégicos (OSS), descreveu-o como sendo um homem que possuía forte tendências de repressão a homossexuais e opinou que Hitler fosse um coprofílico impotente.[7] O psicólogo Henry Murray escreveu um relatório psicanalítico, sem qualquer relação com o de Langer, que apontava resultados e conclusões semelhantes.[8] Otto Strasser, um dos oponentes de Hitler no Partido Nazi, descreveu uma história similar em um interrogatório pós-guerra,[9] o qual foi veementemente contestado pelo historiador britânico sir Ian Kershaw, que afirmou que isto seria uma "propaganda anti-Hitler".[10]

Em uma pesquisa após a morte de Hitler, uma variedade de informações surgiram sobre a sua orientação sexual, onde grande parte destas atestavam que ele seria homossexual, bissexual ou assexual.[11] No entanto, faltam provas conclusivas nestas pesquisas recentes, o que leva historiadores a acreditar que Hitler era mesmo heterossexual.[12] Existe uma controvérsia sobre a existência de um filho ilegítimo de Hitler com uma de suas amantes, chamado Jean-Marie Loret, a qual é contestada e considerada improvável pela maioria dos historiadores.[13]

Relatos históricos[editar | editar código-fonte]

A vida pessoal de Hitler sempre foi alvo de muitas especulações e rumores, sendo que muitos destes foram inventados ou engrandecidos pelos seus inimigos políticos.[14] Enquanto as orientações sexuais de muitos dos membros do círculo íntimo dele eram de conhecimento público, a de Hitler não possui provas conclusivas que possam afirmar algo com exatidão.[15][16] As informações que se obtém sobre sua vida privada se baseiam em depoimentos de pessoas que viviam com ele diariamente, como seus ajudantes, seus secretários, o arquiteto Albert Speer e a família do compositor Richard Wagner.[16] Afirma-se que Hitler possuiu relações amorosas com um considerável número de mulheres durante seu tempo de vida, fato que é apoiado devido as evidências de sua antipatia ao homossexualismo e a inexistência de provas de que ele teve relações homossexuais.[17] O historiador britânico sir Ian Kershaw o descreve como uma pessoa que possuía, em sua juventude, medo do contato pessoal e do ato da relação sexual, incluindo a homossexualidade e a prostituição, pois tinha medo de contrair doenças sexualmente transmissíveis.[18] O historiador e político alemão Hermann Rauschning afirmou ter observado no registro militar de Hitler da Primeira Guerra Mundial um documento na corte marcial onde Hitler foi acusado de práticas pederastas com um de seus oficiais. Rauschning também acrescentou que na cidade alemã de Munique, Hitler estava indiciado por violar o Parágrafo 175, considerado culpado de pederastia. No entanto, não foram encontradas provas que confirmassem o depoimento do historiador.[19]

Hitler teve curtos relacionamentos amorosos quando era adolescente. No entanto, ele estava envolvido com histórias ligadas à sua meia-sobrinha Geli Raubal, que era dezenove anos mais jovem que ele. Ambos começaram a viver juntos em 1925 quando a mãe dela tornou-se a dona-de-casa da residência de Hitler. Apesar de não existirem registros que comprovem a veracidade do fato, Kershaw descreveu que ele "possuía uma dependência sexual latente de Raubal".[11] Informações contemporâneas relatam que ambos viviam uma relação romântica como um verdadeiro casal de namorados, sendo que o fim disto ocorreu com o suicídio dela em setembro de 1931 com um tiro na cabeça utilizando um revólver do próprio Hitler.[20] Fontes demonstram que a morte de Raubal fez com que ele entrasse em uma tristeza profunda, ficando de luto por vários dias.[20] Ernst Hanfstaengl, um dos membros do círculo íntimo de Hitler e amigo pessoal dele na juventude, escreveu que "eu sinto que Hitler foi um homem que não era nem peixe, carne ou galinha; nem totalmente homossexual e nem totalmente heterossexual... Eu tenho a firme convicção de que ele era impotente, reprimido, apenas se masturbava".[21] Todavia, Hanfstaengl acabou sendo convencido por completo da heterossexualidade de Hitler quando ele tentou de forma mal-sucedida organizar um encontro romântico entre Hitler e Martha Dodd, filha do embaixador norte-americano.[22] Ainda de acordo com Hanfstaengl, a cineasta Leni Riefenstahl desejava iniciar um namoro com Hitler na sua juventude, porém o pedido foi negado por ele.[23]

O regime militar de Hitler perseguia aos homossexuais, sendo que estima-se que 5 a 15 mil foram enviados aos campos de concentração, e destes, aproximadamente 2 500 a 7 500 acabaram sendo mortos.[1] Após a noite das facas longas, em 1934, Hitler descreveu a homossexualidade de Ernst Röhm e de outros líderes da Sturmabteilung como imoral e corrupta.[24] Em agosto de 1941, Hitler afirmou em um discurso que "a homossexualidade atualmente é tão contagiante e perigosa como uma praga", e com isso, apoiou a iniciativa do Reichsführer-SS Heinrich Himmler de remover todos os homossexuais do exército militar e da Schutzstaffel.[25] A homossexualidade por parte masculina tornou-se ilegal e proibida, e quem descumpria a tal determinação era enviado à prisão, ou em casos mais extremos, diretamente ao campo de concentração.[26]

Durante sua vida, Hitler criou uma imagem de um homem celibatário, sem possuir uma vida doméstica, pois acabava dedicando todo o seu tempo aos objetivos políticos e da nação.[3][27] No entanto, ele se considerava atraente para as mulheres, principalmente devido à posição de poder que exercia.[28] Albert Speer, amigo de Hitler na vida adulta, relembrou em uma entrevista que ele afirmava preferir se relacionar com mulheres desprovidas de inteligência, pois assim elas não iriam atrapalhá-lo em seus planos e nem impedi-lo de descansar em seu tempo de ócio.[28] Já o historiador Kershaw afirmava que Hitler tinha preferência por mulheres jovens, as quais eram fáceis de dominar e controlar. Ele exemplifica afirmando que ao menos três das mulheres que se relacionaram com Hitler (Geli Raubal, Eva Braun e Maria Reiter) eram muitos mais jovens que ele: Raubal, como dito anteriormente, era dezenove anos mais jovem; Reiter vinte e um; e a diferença de idade com Braun alcançava a vinte e três anos.[29]

Seu relacionamento amoroso com Braun, que durou aproximadamente quatorze anos, acabou sendo escondido da mídia e somente era conhecido por quem estava no círculo íntimo de relações de Hitler.[4] Dentro desse círculo de pessoas que conheciam a existência deste relacionamento, dentre os quais a maioria sobreviveu à Guerra, ambos viviam juntos em Berchtesgaden, como um verdadeiro casal. O empregado de Hitler, Heinz Linge, afirmou que recordava-se que a casa possuía dois quartos e dois banheiros, os quais possuíam portas interligadas. Segundo ele, Hitler acabava indo para o seu quarto apenas com a companhia de Braun antes destes irem dormir. Ela utilizava um roupão e bebia vinho, já Hitler preferia beber chá.[30] O escritor Heike Görtemaker, biógrafo de Braun, afirmou que o casal desfrutava de uma vida sexual tradicional.[5] Amigos e parentes dela afirmavam que ela ria sobre uma fotografia de Neville Chamberlain sentado no sofá da Berghof, casa de Hitler, onde gargalhava afirmando "se ele soubesse as coisas que aquela sofá já viu".[31]

As cartas de Hitler fornecem evidências de que ele realmente gostava de Braun, e se preocupava quando ela participava de esportes e demorava para retornar para casa.[32] Seu secretário Traudl Junge afirmou que durante a realização da guerra, Hitler telefonava para Braun todos os dias. Ele estava aflito e interessado em saber sobre a segurança dela na casa de Munique, que havia comprado para Braun residir.[33] Junge também disse que perguntou a Hitler uma vez o motivo de ele nunca ter se casado, recebendo a resposta de que "... eu não teria sido capaz de dar o tempo suficiente para minha esposa".[33] Hitler afirmou a Braun que não desejava ter filhos com ela, pois eles estavam vivendo um tempo muito difícil e que "sempre espera-se que os filhos tenham os mesmos dons dos pais famosos, e eles não podem ser perdoados caso sejam medíocres".[33] Finalmente, Hitler e Braun se casaram em Führerbunker, na última semana de abril de 1945, cerca de quarenta horas antes de ambos cometerem suicídio juntos.[6]

Documentos da OSS[editar | editar código-fonte]

No ano de 1943, a Agência de Serviços Estratégicos dos Estados Unidos (OSS) recebeu um documento intitulado A Psychological Analysis of Adolf Hitler: His Life and Legend (em português: Uma Análise Psicológica de Adolf Hitler: Sua Vida e Legado), escrito por Walter C. Langer, que foi contratado pelos Aliados da Segunda Guerra Mundial para tentar decifrar os pensamentos do ditador alemão.[7] Esta reportagem, que futuramente acabou sendo expandida no formato de livro, lançado sob o título de The Mind of Adolf Hitler: The Secret Wartime Report em 1972,[34] descreveu a Hitler como tendo fortes tendências homossexuais e afirmando que ele era um coprofílico impotente.[35]

O psicólogo Henry Murray escreveu uma reportagem psicanalítica em 1943 para a OSS, que não possuía qualquer relação com a redigida por Langer, esta intitulada Analysis of the Personality of Adolph Hitler: With Predictions of His Future Behavior and Suggestions for Dealing with Him Now and After Germany's Surrender (em português: Análise da Personalidade de Adolf Hitler: Com Previsões do Seu Futuro Comportamento e Sugestões para Negociar com Ele Agora e Depois da Entrega da Alemanha).[8] Neste documento, Murray também tratou de afirmar que Hitler era um coprofílico, porém deu maior ênfase a que ele sofria de esquizofrenia.[36]

Um dos opositores de Hitler no Partido Nazi, Otto Strasser, afirmou aos interrogadores da OSS que o ditador nazista forçava a meia-sobrinha dele, Geli Raubal, a urinar e defecar em cima dele, para que ele sentisse prazer.[9] Em contrapartida, o historiador britânico Ian Kershaw alega que as histórias divulgadas por Strasser seriam inventadas e que "as práticas sexuais foram desviadas para que o conteúdo servisse como... uma propaganda anti-Hitler".[10]

Pesquisas recentes[editar | editar código-fonte]

Nas constantes pesquisas feitas após a morte de Hitler, deu-se início a um processo onde várias novas ideias surgiram em relação à sua sexualidade, sendo que a maioria delas afirma que ele era homossexual, bissexual ou assexual. Além disso, os relatórios contemporâneos afirmam que ele fez uso da relação sexual com sua meio-sobrinha Geli Raubal.[11]

O livro The Pink Swastika, escrito em 1995 por Scott Lively e Kevin Abrams, afirma que a maioria dos líderes nazistas era homossexual e que não existem provas que demonstrem que os homossexuais eram perigosos e violentos para sofrerem tamanha tortura. Historiadores de renome criticaram o livro com a acusação de imprecisão dos dados e de manipulação dos fatos.[12][37] Bob Moser, redator do Southern Poverty Law Center (SPLC), afirmou que o livro foi promovido por grupos anti-gay e que os principais historiadores concordam que a premissa dele é "totalmente falsa".[38]

O escritor Jack Nusan Porter, da Universidade de Massachusetts Lowell, escreveu em 1998: "Será mesmo que Hitler desprezava os homossexuais? Será que ele estava envergonhado da sua própria identidade homossexual? Esta é uma área da psico-história que está além do conhecimento já divulgado.

O historiador Lothar Machtan argumentou no livro The Hidden Hitler, lançado em 2001, que Hitler era homossexual. O livro lança especulações sobre experiências sexuais de Hitler em Viena durante sua infância e juventude com seus amigos; bem como relações na vida adulta com Röhm, Hanfstaengl, Emil Maurice, e outros membros do seu círculo íntimo. Além disso, o livro inclui um estudo de Mend Protocol, uma série de alegações feitas pela polícia de Munique no início da década de 1920 por Hans Mend, que atuou em prol de Hitler na Primeira Guerra Mundial. O jornalista norte-americano Ron Rosenbaum é um crítico fervoroso do trabalho de Machtan, afirmando que "as teses estão longe de serem conclusivas e, muitas vezes ficam muito aquém de ser evidência em tudo que é tratado".[39] A maioria dos acadêmicos norte-americanos discordam da tese de Machtan e argumentam que Hitler era de fato heterossexual.[15][16] Em 2004, a rede de televisão HBO produziu um documentário baseado nesta teoria de Machtan, intitulado Hidden Führer: Debating the Enigma of Hitler's Sexuality (em português: Fuhrer Oculto: Debatendo o Enigma da Sexualidade de Hitler).[17]

Possíveis relações com mulheres[editar | editar código-fonte]

Nome Vida Idade da morte Causa da morte Contato com Hitler Relacionamento Ref(s)
Stefanie Rabatsch Desconhecido Desconhecido Não há relatos sobre a causa da sua morte Aproximadamente em 1905 Interesse amoroso na adolescência [40][2]
Charlotte Lobjoie 1898–1951 53 Não há relatos sobre a causa da sua morte Provavelmente se encontraram em 1917 Considerada a principal amante; o filho dela, Jean-Marie Loret, afirmava que Hitler era o seu pai. Apesar disso, jornalistas e historiadores afirmam ser impossível ou improvável tal paternidade.[13][41][42] [43]
Erna Hanfstaengl 1885–1981 96 Causas naturais Encontrou-a na década de 1920 Rumores que seria uma amante [44]
Maria Reiter 23 de dezembro de 1911 – 1992 81 Causas naturais; tentativa de suicídio em 1928 por enforcamento Encontraram-se em 1925 Possivelmente uma amante [45][46][47]
Geli Raubal 4 de junho de 1908 – 18 de setembro de 1931 23 Suicídio Viveu na casa de Hitler de 1925 até o dia da sua morte Meia-sobrinha; rumores que seria uma amante [48][49]
Eva Braun 6 de fevereiro de 1912 - 30 de abril de 1945 33 Duplo suicídio com Hitler Encontraram-se no outono de 1929 Companhia por vários anos; esposa por poucas horas [50]
Unity Mitford 8 de agosto de 1914 – 28 de maio de 1948 33 Após traumatizar-se com a declaração de guerra da Alemanha à Inglaterra, tentou o suicídio; no entanto, acabou falecendo nove anos depois em decorrência de complicações de tal ato.[51] Encontraram-se em 1934 Amigos; rumores que seria uma amante [52]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Evans 2005, p. 534.
  2. a b Kershaw 2008, pp. 12–13.
  3. a b Shirer 1960, p. 130.
  4. a b Kershaw 2008, pp. 219, 378, 947.
  5. a b Görtemaker 2011, pp. 168–171.
  6. a b Beevor 2002, pp. 342–344, 359.
  7. a b Langer 1943, p. 2.
  8. a b Murray 1943.
  9. a b Rosenbaum 1998, p. 134.
  10. a b Kershaw 2008, p. 219.
  11. a b c Kershaw 2008, pp. 218–219.
  12. a b Jensen 2002.
  13. a b Joachimsthaler 1989, pp. 162–164.
  14. Kershaw 2008, pp. 23–24, 219.
  15. a b Nagorski 2012, p. 81.
  16. a b c Kershaw 2008, pp. 22–23, 219.
  17. a b Joachimsthaler 1999, p. 264.
  18. Kershaw 2008, pp. 23–24.
  19. Langer 1972, pp. 137–138.
  20. a b Bullock 1999, pp. 393–394.
  21. Hanfstaengl 1957, p. 123.
  22. Larson 2011, pp. 160–162.
  23. Bach 2007, p. 92.
  24. Kershaw 2008, p. 315.
  25. Evans 2008, p. 535.
  26. Evans 2008, pp. 535–536.
  27. Bullock 1999, p. 563.
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  31. Connolly 2010.
  32. Speer 1971, p. 139.
  33. a b c Galante & Silianoff 1989, p. 96.
  34. Langer 1972.
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  37. Mueller 1994.
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  39. Rosenbaum 2001.
  40. Kubizek 2011, p. 67.
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  43. Allen 2012.
  44. Large 1997, p. 191.
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  48. Kershaw 2008, pp. 218–222.
  49. Görtemaker 2011, p. 43.
  50. Kershaw 2008, pp. 219, 378, 947, 955.
  51. Hamilton 1984, p. 194.
  52. Bright 2002.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]