Silêncio (Shūsaku Endō)

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Silêncio
沈黙 (Chinmoku)
Autor(es) Shūsaku Endō
Idioma japonês
País  Japão
Assunto
Cristianismo no Japão
Perseguição aos cristãos
Gênero Ficção histórica
Lançamento 1966
Edição brasileira
Tradução Mário Vilela
Editora Brasil Editora Planeta
Lançamento 2011
Formato Brochura
Páginas 288
ISBN 9788576655770

Silêncio (沈黙, Chinmoku?) é um livro de ficção histórica lançado em 1966 pelo autor Japonês Shūsaku Endō. A trama se passa no século XVII e decorre sobre um missionário jesuíta enviado ao Japão na época dos Kakure Kirishitan ("Cristão Escondido"). Vencedor do Prémio Tanizaki de 1966, é chamada de "a conquista suprema de Endō"[1] e é "uma dos melhores romances do século XX".[2] Escrita parcialmente em forma de uma carta por seu personagem central, o tema de um Deus silencioso que acompanha um crente em suas desgraças foi grandemente influenciada pela experiência católica de Endō de discriminação religiosa no Japão, racismo na França, e uma luta debilitante contra a tuberculose.[3]

Trama[editar | editar código-fonte]

O jovem padre jesuíta Português Sebastião Rodrigues (baseado na figura histórica do Italiano Giuseppe Chiara) viaja ao Japão para socorrer a Igreja local e investigar relatos de que se mentor, um padre jesuíta no Japão chamado Ferreira (baseado em Cristóvão Ferreira[4]), cometeu apostasia. Um pouco menos da metade do livro é o relato escrito de Rodrigues, enquanto a outra metade é escrita tanto em terceira pessoa, ou em cartas de outros associados com a narrativa. O romance relaciona as provações dos cristãos e as dificuldades crescentes sofridas por Rodrigues.

Rodrigues e seu amigo Francisco Garupe (também um padre) chegam ao Japão em 1639. Lá eles encontram a população local de Cristãos praticando a religião secretamente. Para descobrir cristãos escondidos, os oficiais do governo forçam os suspeitos de serem cristãos a pisarem o fumi-e, uma imagem esculpida de Cristo ou de Maria. Aqueles que se recusam são presos e executados através do anazuri (穴吊り), que é ser pendurado de cabeça para baixo sobre um poço e morrer sangrando lentamente.

Rodrigues e Garupe são incapazes de continuar seu ministério pastoral. Logo eles são forçados a testemunhar a morte lenta e cruel dos cristãos japoneses que se recusam a desistir de sua fé. Ao contrário do que Rodrigues imaginava não havia glória nesses mártires, apenas brutalidade e crueldade.

Para os oficiais Japoneses, o sucesso alcançado com o padre Ferreira, que apostatou, cedendo sob tortura e até se tornando um aliado, faz com que mudem sua estratégia. Forçam os sacerdotes a observarem as torturas e os tormentos infligidos aos seus cristãos, fazendo-os entender que são responsáveis ​​por eles e que basta que renunciem à fé para pôr fim ao sofrimento do seu rebanho.

Em seu diário, Rodrigues descreve suas lutas e debates internos. Ele entende que se pode aceitar o sofrimento pelo bem da própria fé. Mas recusar a apostasia parece-lhe ser egocêntrico e implacável, se essa renúncia pode acabar com o sofrimento dos outros.

No clímax, Rodrigues ouve os gemidos daqueles que estão pendurados no poço enquanto os oficiais esperam que ele pise na imagem de Cristo. No momento que Rodrigues encara a imagem, Cristo quebra seu silêncio: "Você pode pisar. Você pode pisar. Eu mais do que ninguém conheço a dor no seu pé. Você pode pisar. Foi para ser pisado pelos homens que eu nasci neste mundo. Foi para compartilhar a dor dos homens que carreguei minha cruz." Rodrigues coloca seu pé no fumi-e. Um oficial diz a ele, "Padre, não foi por nós que você foi derrotado, mas por este pântano, o Japão."[5]

Personagens principais[editar | editar código-fonte]

  • Sebastião Rodrigues: o padre jesuíta que é protagonista de boa parte do livro
  • Francisco Garupe: padre jesuíta que viaja ao Japão com Rodrigues
  • Kichijiro: um cristão Japonês atormentado que acompanha os dois padres e os trai em diversas ocasiões[6]
  • Cristovão Ferreira: padre que partiu para o Japão há muitos anos e que não dá mais notícias; a única informação nova é de que cometeu apostasia
  • Inoue: inquisidor Japonês decidido a impedir o avanço do Cristianismo no Japão[7]

Recepção[editar | editar código-fonte]

Silêncio recebeu o Prémio Tanizaki. Também já foi assunto de análises extensivas.[8] Em uma resenha publicada pelo The New Yorker, John Updike chamou Silêncio de "um trabalho notável, um estudo sombrio, delicado e surpreendentemente empático de um jovem missionário Português durante a implacável perseguição dos cristãos Japoneses no início do século XVII."[9] William Cavanaugh destaca a "profunda ambiguidade moral" do livro devido a sua representação de um Deus que "escolheu não eliminar o sofrimento, mas sofrer com a humanidade".[10]

Adaptações[editar | editar código-fonte]

Filmes[editar | editar código-fonte]

Masahiro Shinoda dirigiu em 1971 Silêncio, uma adaptação do livro.[11] Foi re-adaptado por João Mário Grilo como Os Olhos da Ásia em 1996.[12] Em 2016, o livro foi adaptado em um filme, também chamado Silêncio, dirigido por Martin Scorsese, escrito por Jay Cocks e Scorsese, e estrelado por Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano e Ciarán Hinds.[13] A premier do filme aconteceu no Pontifício Instituto Oriental em Roma, em 29 de novembro de 2016.[14]

Música[editar | editar código-fonte]

O compositor e poeta Teizo Matsumura escreveu o libreto e a música para uma ópera com o mesmo título, que estreou no Novo Teatro Nacional em Tóquio em 2000.[15] O livro inspiro a Symphony no. 3, "Silêncio", composta em 2002 pelo músico Escocês James MacMillan.[16]

Referências

  1. "Shusaku Endo's Silence por Luke Reinsma, Response of Seattle Pacific University, Volume 27, Número 4, Outono de 2004
  2. «We Have Never Seen His Face» (PDF). Arquivado do original (PDF) em 7 de fevereiro de 2009  (121 KiB) por Brett R. Dewey para o Centro de Ética Cristã na Baylor University, 2005, p. 2
  3. Ludmila Rennó (7 de fevereiro de 2017). «Dica de boa leitura da semana: O silêncio, de Shūsaku Endō». Clio Gestão Cultural e Editora. Consultado em 17 de março de 2018 
  4. The case of Cristovão Ferreira. Hubert Cieslik. Monumenta Nipponica. pp. 1-54
  5. Francis Mathy, Companhia de Jesus, da Universidade Sofia, (1974), "Introduction", Endo Shusaku, Wonderful Fool (Obaka San), Tokyo: Tuttle, p. 6, ISBN 9780068598534.
  6. Filipe d'Avillez. «Shusaku Endo, escritor de "Silêncio". O cristão japonês a quem assentava mal "o fato ocidental"». Renascença. Consultado em 17 de março de 2018 
  7. Marcelo Moura. «Silêncio: a Voz de Deus por Martin Scorsese». No Set. Consultado em 17 de março de 2018 
  8. "Suffering the Patient Victory of God: Shusaku Endo and the Lessons of a Japanese Catholic" Arquivado em 2004-02-13 no Wayback Machine. por Brett R. Dewey, Quodlibet: Vol 6 Número 1, janeiro–março de 2004
  9. John Updike (1980). «From Fumie to Sony». The New Yorker 
  10. "The god of silence: Shusaku Endo's reading of the Passion – critique of the Japanese novel 'Silence'" por William T. Cavanaugh, Commonweal, 13 de março de 1998
  11. "Chinmoku (1971)", Internet Movie Database (acessado em 18 de março de 2018)
  12. Peter Bradshaw (10 de dezembro de 2016). «Silence review: the last temptation of Liam Neeson in Scorsese's shattering epic». Consultado em 18 de março de 2018 
  13. «Silêncio (2016)». IMDB. Consultado em 18 de março de 2018 
  14. Nick Vivarelli (30 de novembro de 2016). «Martin Scorsese Meets Pope Francis and Talks Jesuit History Prior to 'Silence' Screening». Variety. Consultado em 18 de março de 2018 
  15. "Tokyo NNT website" (acessado em 18 de março de 2018)
  16. "BBCSSO/Runnicles" por Rowena Smith, The Guardian