Silvia Federici

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Silvia Federici
Silvia Federici (2014)
Nascimento 1942
Parma, Itália
Nacionalidade Italiana, estadunidense
Ocupação filósofa

Silvia Federici (1942, Parma, Itália) é uma escritora, professora e ativista feminista italo-estadounidense. Em seus trabalhos conclui que o trabalho reprodutivo e de cuidados que fazem grátis as mulheres é a base sobre a que se sustenta o capitalismo. Nos anos setenta foi uma das impulsoras das campanhas que começaram a reivindicar um salário para o trabalho doméstico realizado pelas mulheres sem nenhuma retribuição. Na década de 1980 trabalhou durante vários anos como professora em Nigéria. Ambas trajetórias convergem em duas de suas obras mais conhecidas: Calibán e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2004) e Revolução ao ponto zero: trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas (2013).[1] Situa-se no movimento autónomo dentro da tradição marxista. Na atualidade é professora emérita da Universidade Hofstra em Nova York.[2][3][4]

Trajetória[editar | editar código-fonte]

Cresceu em Itália e viajou a Estados Unidos em 1967 para estudar Filosofia na Universidade de Buffalo.[5]

Em 1972, Federici participou na fundação do Coletivo Feminista Internacional, organização que lançou a campanha internacional Wages For Housework (WFH) a favor do salário pelo trabalho doméstico. Com outros membros da organização como Mariarosa Dalla Costa e Selma James, e com autoras feministas como Maria Mies e Vandana Shiva, Federici tem sido instrumental no desenvolvimento do conceito de "reprodução" como uma chave para as relações de classe de exploração e dominación em contextos locais e globais, bem como no centro das formas de autonomia e os comuns.[6]

Nos anos 80 deu classes na Universidade de Port Harcourt em Nigéria, e posteriormente incorporou-se como professora de Filosofia política e Estudos Internacionais no New College da Universidade Hofstra, universidade da que é professora emérita e Teaching Fellow. Nos anos 80 foi cofundadora do Committee for Academic Freedom in Africa, organização dedicada ao apoio das lutas de estudantes e profesorado em África contra os ajustes estruturais das economias de África e os Sistemas Educativos. Também é membro da associação Midnight Notes Collective.

De 1987 a 2005 foi professora de estudos internacionais, estudos de mulheres e realizou cursos de filosofia política na Universidade Hofstra de Nova York, publicando uma série de trabalhos neste campo, incluindo o aclamado Calibán e a bruxa: a mulher, o corpo e a acumulação primitiva (2004) traduzido a numerosos idiomas. O livro detalha a relação entre os julgamentos de bruxas européias dos séculos XVI e XVII e a ascensão do capitalismo, destacando a relação contínua entre a opresión e a acumulação no desenvolvimento capitalista.

Pensamento[editar | editar código-fonte]

Em seus trabalhos, Federici analisa o capitalismo e o trabalho assalariado e reprodutivo desde uma perspetiva de género e denúncia que o corpo das mulheres é a última fronteira do capitalismo.[7][8]

Federici denuncia também a intervenção da ONU na agenda e as políticas feministas com o objetivo de usar o feminismo para promover o neoliberalismo e para contrarrestar o potencial subversivo que tinha o movimento de mulheres em termos, por exemplo, de luta contra a divisão sexual do trabalho e contra todos os mecanismos de exploração.

Calibán e a bruxa[editar | editar código-fonte]

Federici publicou em 2004 Calibán e a bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva (Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation) onde desenvolve as teorias de Leopoldina Fortunati. Silvia argumenta contra a teoria da acumulação primitiva de Karl Marx. Para Marx a acumulação primitiva era precursora do capitalismo, para Federici a acumulação primitiva é uma caraterística fundamental e básica do capitalismo já que o capitalismo, com o fim de perpetuar-se, requer de uma entrada constante de capital expropiado. Em suas recentes apresentações públicas Federici, que poderia se qualificar como uma historiadora marxista-feminista do trabalho, tem sustentado seu apoio ao reconhecimento do trabalho doméstico, o trabalho sexual e especialmente, a luta pelos comuns.

No capitalismo, existe uma organização do trabalho que tem duas vertentes: os homens e agora também algumas mulheres desenvolvem a produção de mercadorias e as mulheres levam a cabo a produção da força de trabalho para o mercado. A discriminação vem de facto de que este trabalho é inapreciable. O trabalhador masculino tem verdadeiro poder social, por muito limitado que seja, como cobra um salário e que seu trabalho está reconhecido. Mas a realidade é que, se observamos o capitalismo através do trabalho assalariado, que inclui trabalho assalariado e trabalho não assalariado, veremos como a relação salarial é bem mais complexa que se só temos em conta o trabalho assalariado, já que o trabalho assalariado inclui também mecanismos de exclusão; inclui, como de facto diz Marx, mecanismos para a extracção de trabalho não assalariado. Marx teria esquecido o trabalho reprodutivo (a reprodução de seres humanos), que é tão importante e necessária para o capitalismo.[9] Federici relaciona esta expropriação com o trabalho reprodutivo e não remunerado que realizam as mulheres e com a reprodução, chave para o surgimento de uma economia capitalista baseada no trabalho assalariado. Em relação com isto, descreve a luta histórica pelos bens comuns e a luta pelo comunalismo. Em lugar de ver ao capitalismo como um triunfo liberador do feudalismo, Federici interpreta a ascensão do capitalismo como um movimento reaccionario para eliminar o comunalismo e manter o contrato social básico tradicional.

A autora situa a institucionalização da violação bem como os processos, torturas e queimas das hereges e a caça de bruxas, no centro de uma subyugación metódica das mulheres e a apropriação de sua força de trabalho. Isto está unido à expropriação colonial e proporciona um marco para o entendimento do labor do Fundo Monetário Internacional o Banco Mundial e outras instituições que promovem activamente e participação num novo ciclo de acumulação primitiva, pela qual todos os bens comuns como o água, as sementes, inclusive nosso código genético estão a ser privatizados no que equivale a uma nova rodada de apropriação de bens básicos relacionados com a sobrevivência.[10][11]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

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