Sismo de Agadir em 1960
Sismo de Agadir em 1960
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|---|---|
| Prédios destruídos em Agadir devido ao terremoto | |
| ShakeMap que mostra a intensidade do terremoto segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos | |
| Epicentro | |
| Profundidade | 15 km[1] |
| Magnitude | 5,8[2] MW |
| Intensidade máx. | X (destruidor)[3] |
| Data | 29 de fevereiro de 1960 (66 anos) 23:40:18 local |
| Duração | <15 segundos[4] |
| Países afetados | Marrocos |
| Réplicas | 22 de março VI (bastante forte) 17 de abrilVI (bastante forte)[5] |
| Vítimas | Entre 12 000 e 15 000[3] mortos Cerca de 12 000[6] feridos |
| Localização do epicentro em Marrocos | |
| Localização em mapa dinâmico | |
O sismo de Agadir em 1960 ocorreu em 29 de fevereiro às 23:40:18, horário local, perto da cidade de Agadir, localizada no oeste de Marrocos, na costa do oceano Atlântico. Apesar da intensidade moderada do terremoto, de 5,8 MW, sua profundidade relativamente rasa (de 15 km) resultou em um forte tremor sentido na superfície, atingindo uma intensidade sísmica de X (destruidor) na escala de Mercalli.[1]
Entre 12 e 15 mil pessoas (cerca de um terço da população de Agadir na época) morreram e outras 12 mil ficaram feridas, com pelo menos 35 mil desabrigadas, tornando-se o terremoto mais destrutivo e mortal da história marroquina. Os bairros Founty, Casbá, Yachech/Ihchach e a região de Talborjt foram particularmente afetadas. O hipocentro raso, a proximidade da cidade portuária de Agadir e os métodos construtivos insatisfatórios foram apontados por engenheiros sísmicos e sismólogos como fatores que contribuíram com a magnitude destrutiva.
Geologia
[editar | editar código]A Cordilheira do Atlas é um cinturão de montanhas intracontinental que se estende por 2 000 km de Marrocos à Tunísia. Essas montanhas foram formadas durante o Cenozoico por colisão continental. A cordilheira atinge seu ponto mais elevado a oeste, em Marrocos.[7] O Alto Atlas se formou durante a reativação de um antigo rifte do Triássico. No entanto, em vez de produzir forças de extensão, a reativação comprimiu esse rifte.[8]
A atividade sísmica em Marrocos se concentra no norte do país e na região do Mar de Alborão. Ao sul do Rife a atividade é escassa, porém é distribuída pelo Alto Atlas, Médio Atlas e Antiatlas. No Atlas Saariano, por sua vez, é limitada e ausente na região saariana ao sul do cinturão; também é menos ativa a leste, na Tunísia e Argélia. Terremotos na Cordilheira do Atlas apresentam mecanismos focais de deslizamento, empuxo ou uma combinação de ambos (deslizamento oblíquo).[9] O sismo de Marraquexe-Safim em 2023 foi o maior na Cordilheira do Atlas naquele momento, atingindo a nordeste de Agadir. Medindo 6,9 MW, rompeu uma falha de empurrão. No entanto, a localização do terremoto de 2023 em uma área pouco povoada limitou o número de mortos a menos de 3 000.[10]
Sismo
[editar | editar código]Embora o choque tenha sido registrado por sismógrafos ao redor do mundo, poucas dessas estações estavam próximas o suficiente da região atingida para localizar o epicentro com alta precisão. No entanto, segundo as informações disponíveis, a localização foi determinada como sendo a 8 km ao norte-noroeste de Casbá. Observações macrossísmicas (estabelecendo os locais com a maior intensidade observada) situaram o epicentro a cerca de 1 km ao norte de Yachech. Uma sequência de pequenos abalos sísmicos precedeu o evento principal. O primeiro ocorreu em 23 de fevereiro de 1960, com uma intensidade de III ou IV (Fraco a Moderado), e em 29 de fevereiro um abalo sísmico mais significativo teve intensidade de VI (Bastante forte), provocando sustos por volta da hora do almoço.[5]
O sismo principal, na noite de 29 de fevereiro, ocorreu no terceiro dia da observância muçulmana ao Ramadã, causando o colapso imediato de muitos hotéis, apartamentos, mercados e prédios de escritórios. Adutoras subterrâneas de água se romperam e sistemas de esgoto ruíram. A Fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué, uma fortaleza dilapidada que estava de pé por séculos, desmoronou na encosta de uma colina. Sem pressão de água e com a maioria dos quartéis de bombeiros tendo desabado (matando seus ocupantes), muitos incêndios se propagaram na cidade turística de Agadir, ao mesmo tempo que havia poucos bombeiros disponíveis e recursos para combatê-los. Com quase 70% da cidade em ruínas, nenhuma operação de resgate pôde ser iniciada ou organizada no interior de Agadir. Pela manhã, o exército francês e os marinheiros da Sexta Frota dos Estados Unidos se aproximaram da costa, ancoraram e se prepararam para o processo de resgate.[11]
O autor britânico Gavin Maxwell estava em Marrocos na época do desastre e seu livro The Rocks Remain começa com uma descrição extraída de suas próprias experiências e de outras pessoas na área, incluindo membros do governo marroquino que estavam entre seus amigos.[12]
Reações
[editar | editar código]Maomé V de Marrocos fez um pedido para que todas as cidades de Marrocos se mobilizassem e enviassem ajuda. Ele e seu filho, o príncipe herdeiro Hassan II de Marrocos, foram de avião para a área, juntamente com vários ministros, para observar o impacto em primeira mão. Sob o título de Imame, ele concedeu uma dispensa especial aos socorristas para que deixassem de lado a exigência de abstinência de alimentos e bebidas durante o Ramadã, mas muitos trabalhadores continuaram em jejum.[12] Aviões militares da França e dos Estados Unidos voaram para Agadir para auxiliar nos esforços de socorro. O Exército marroquino prestou socorro emergencial e helicópteros chegaram da Base Aérea de Ben Guerir, a cerca de 250 km de distância.[13]
Ao chegar, o Contra-Almirante Frank Peak Akers (comandante da Força Aérea dos Estados Unidos no Atlântico Leste e Mediterrâneo) visitou o local e relatou que o hospital de Agadir estava em ruínas. Uma das vítimas do desastre foi o escritor e advogado Robin Maugham. Ele foi tratado em um hospital em Casablanca por ferimentos leves sofridos enquanto estava no resort Saada quando este desabou, ficando preso por várias horas sob uma viga que caiu.[12] A cidade de Agadir foi evacuada dois dias após o terremoto para evitar a propagação de doenças.[14]
O trabalho de resgate foi dificultado tanto pelo nível de destruição quanto pelas condições do tempo. As temperaturas estavam excepcionalmente altas para a época do ano, chegando a 40 °C. A rápida putrefação dos milhares de cadáveres criou uma atmosfera fétida e insalubre, e a adesão ao jejum do Ramadã causou ainda mais pressão sobre as equipes de resgate. Muitas vítimas também recusaram tratamento médico, acreditando que aceitá-lo significaria quebrar o jejum. As equipes de resgate foram equipadas com máscaras de gás, enquanto que cal virgem foi espalhada em áreas onde o resgate era considerado impossível, de modo a destruir os cadáveres em decomposição, mesmo diante do risco de matar sobreviventes soterrados. Desinfetante e DDT foram pulverizados sobre as ruínas por caminhões e helicópteros para controlar doenças e matar os enxames de moscas que foram atraídos para o local.[12]
As ruínas também foram infestadas por ratos da rede de esgoto destruída, pelo que veneno de rato foi espalhado para matá-los. Além disso, animais maiores, como cães e gatos vadios, que se alimentavam de cadáveres humanos, foram baleados. Saqueadores atraídos pela destruição foram fuzilados à vista e seus corpos jogados em valas comuns, juntamente com os das vítimas. Essas medidas foram vistas como insensíveis e brutais por aqueles que estavam distantes do local. Entretanto, dada a escala da destruição e a rápida infestação de potenciais vetores de doenças pelas ruínas, medidas drásticas foram consideradas necessárias para evitar ainda mais perdas humanas por epidemias.[12]
Danos
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Agadir cresceu subitamente entre 1945 e 1955, mediante condições específicas que podem ter contribuído para a grande destruição. Projetos complexos eram frequentemente executados por trabalhadores não qualificados, enquanto que era comum a falta de supervisão devida, ao mesmo tempo que havia esforços para que as obras fossem terminadas em pouco tempo. Como não havia ocorrido nenhum terremoto grave antes de 1960, a construção da cidade foi realizada sem levar em consideração a atividade sísmica. Edifícios de alvenaria com mais de um andar não suportaram o sismo, porém a resposta de estruturas de concreto armado ao desastre variou drasticamente. Por exemplo, alguns dos edifícios mais altos desse sistema estrutural desabaram completamente, enquanto outros resistiram bem ao choque, e outros escaparam completamente de danos. Na maioria dos casos de colapso total, o projeto dos edifícios não respeitava as normas de construção, visto que estas não eram a principal preocupação dos arquitetos. Ademais, a aplicação inadequada das leis também foi um fator.[15]
Muitos bairros de Agadir eram compostos inteiramente por prédios construídos com taipa. Estes tinham quase nenhuma resistência a terremotos e se desintegraram completamente, transformando-se em pó. Nessas áreas, o trabalho de resgate era impossível e as taxas de sobrevivência foram praticamente nulas; por exemplo, na região de Talbourdjt, de cerca de 5 000 habitantes, menos de dez sobreviveram.[12] Posteriormente, a cidade foi reconstruída a cerca de 1,6 quilômetros mais ao sul.[16]
Suposto tsunami
[editar | editar código]A mídia divulgou que um tsunami teria atingido a costa logo após o terremoto, com um relato de 2 de março de 1960: "Uma onda gigante se formou sobre as praias brancas e avançou 300 metros para dentro da cidade. O cais da cidade foi cortado em dois, informou um capitão espanhol por rádio."[17] Um desastre causado por tsunami foi posteriormente refutado por um relatório do Instituto Americano de Ferro e Aço (AISE; American Iron and Steel Institute), depois que uma equipe de engenheiros sísmicos, incluindo Ray William Clough, da Universidade da Califórnia em Berkeley, avaliou os danos e falhas de construções em toda a área de Agadir em março de 1960. O relatório de suas descobertas afirmou que as instalações portuárias sofreram danos devido à subsidência uniforme na área do porto, responsável pela queda de cinco grandes guindastes, mas nenhuma evidência nem testemunha confiável de grandes ondas foi encontrada, com exceção da tripulação de um cargueiro holandês que afirmou que grandes ondas no porto causaram a separação de suas amarras no momento do terremoto. Um relatório em uma edição do Boletim da Sociedade Sismológica da América de 1964 também negou a existência de um tsunami destrutivo devido à falta de evidências de um marégrafo próximo.[18][19]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ a b ISC 1960
- ↑ ANSS 1960
- ↑ a b Utsu 2002
- ↑ AISE 1962, p. 13
- ↑ a b AISE 1962, p. 27–29
- ↑ AISE 1962, p. 15
- ↑ Timoulali, Youssef; Nacer, Jabour; Youssef, Hahou; Mimoun, Chourak (2015). «Lithospheric structure in NW of Africa: Case of the Moroccan Atlas Mountains» 6 ed. Geodesy and Geodynamics (em inglês). 6: 397–408. Bibcode:2015G&G.....6..397T. doi:10.1016/j.geog.2015.12.003
- ↑ GEOFON Program GFZ Potsdam (9 de setembro de 2023). «Large earthquake in Morocco» (em inglês). Consultado em 16 de setembro de 2023. Cópia arquivada em 16 de setembro de 2023
- ↑ Sébrier, Michel; Siame, Lionel Louis; Zouine, El Mostafa; Winter, Thierry; Morel, Jean-Luc; Missenard, Yves; Leturmy, Pascale (2006). «Active tectonics in the Moroccan High Atlas». Comptes Rendus Geoscience (em inglês). 338 (1–2): 65–79. Bibcode:2006CRGeo.338...65S. doi:10.1016/j.crte.2005.12.001. Consultado em 9 de setembro de 2023. Cópia arquivada em 9 de setembro de 2023
- ↑ Yeck, William L.; Hatem, Alexandra E.; Goldberg, Dara E.; Barnhart, William D.; Thompson Jobe, Jessica A.; Shelly, David R.; Villaseñor, Antonio; Benz, Harley M.; Earle, Paul S. (2023). «Rapid Source Characterization of the 2023 Mw 6.8 Al Haouz, Morocco, Earthquake». The Seismic Record (em inglês). 3 (4): 357–366. Bibcode:2023SeisR...3..357Y. doi:10.1785/0320230040. hdl:10261/347965
- ↑ Davis, Lee Allyn (2009). Natural Disasters, New Edition (em inglês). [S.l.]: Infobase Publishing. p. 77. ISBN 978-1-4381-1878-9. Consultado em 8 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 1 de julho de 2021
- ↑ a b c d e f Maxwell, Gavin (1974). The Rocks Remain. [S.l.]: Penguin Books. ISBN 978-0140039269
- ↑ «2 Morocco Quakes Kill Hundreds». Los Angeles Times (em inglês). 1 de março de 1960
- ↑ «Fire and Havoc Grip Agadir After Quakes; Hundreds of Victims Still Trapped in Debris; Death Toll in City Placed at 1,000». Los Angeles Times (em inglês). 2 de março de 1960
- ↑ Despeyroux, J. (1960). «The Agadir earthquake of February 29th 1960: behaviour of modern buildings during the earthquake». Association for Science Documents Information, Proceedings of the second World Conference on Earthquake Engineering (em inglês): 522, 527, 531. Consultado em 17 de fevereiro de 2019. Cópia arquivada em 13 de agosto de 2016
- ↑ Dahmani, Iman; El moumni, Lahbib; Meslil, El mahdi (2019). Modern Casablanca Map (em inglês). Casablanca: MAMMA Group. ISBN 978-9920-9339-0-2
- ↑ The Milwaukee Sentinel (2 de março de 1960). «Tidal wave hits» (em inglês). p. A2. Consultado em 29 de fevereiro de 2016. Cópia arquivada em 12 de março de 2016
- ↑ AISE 1962, p. 8, 29, 52
- ↑ Berninghausen, W. H. (1964). «Tsunamis and seismic seiches reported from the Eastern Atlantic south of the Bay of Biscay». Bulletin of the Seismological Society of America (em inglês). 54 (1): 441. Bibcode:1964BuSSA..54..439B. doi:10.1785/BSSA0540010439. Consultado em 8 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 12 de novembro de 2022
- Texto inicialmente baseado na tradução do artigo «1960 Agadir earthquake» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).
Bibliografia
[editar | editar código]- Advanced National Seismic System (ANSS) (1960). «Morocco 1960: M 5.8 – Morocco». United States Geological Survey (USGS). Comprehensive Catalog (em inglês). Consultado em 8 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 30 de março de 2016
- American Iron and Steel Institute (AISE) (1962). «The Earthquake of Agadir, Morocco» 1 ed. (em inglês). ASIN B000H5AJDG
- ISC-EHB Bulletin (1960). «Event 878424 Morocco». International Seismological Centre (ISC) (em inglês). Consultado em 8 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 9 de outubro de 2021
- Utsu, T. R. (2002). «A List of Deadly Earthquakes in the World: 1500–2000». International Handbook of Earthquake & Engineering Seismology. Col: Parte A, Volume 81A (em inglês) 1 ed. [S.l.]: Academic Press. ISBN 978-0124406520
Ligações externas
[editar | editar código]- Um hotel antes e depois do terremoto
- 1960: Thousands dead in Moroccan earthquake - reportagem da BBC News sobre o terremoto de Agadir (em inglês)
- Once... Agadir - um documentário de 1971 sobre o terremoto
- Agadir 1960 - site que reúne informações sobre o terremoto (em francês)
- Imagens da destruição deixada pelo terremoto
- Historic Earthquakes - Agadir, Morocco - Serviço Geológico dos Estados Unidos (em inglês)


