Sociedade Pártenon Literário

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A Sociedade Pártenon Literário (originalmente Sociedade Parthenon Litterario), criada em 18 de junho de 1868, foi uma associação literária brasileira, considerada a principal agremiação cultural do Rio Grande do Sul do século XIX.[1] Foi o órgão que efetivamente formou e consolidou um sistema literário no estado.[1] Extinta por volta de 1925, foi recriada em 1997.

História[editar | editar código-fonte]

A Sociedade Pártenon Literário foi criada em 18 de junho de 1868, num período de efervescência social e política, com a Guerra do Paraguai em andamento, as ideias republicanas em expansão e uma forte retomada do movimento abolicionista.

Sediada em Porto Alegre, contou com colaboradores de toda província, promovendo um intercâmbio cultural que impulsionou a intelectualidade riograndense. Sua criação foi centrada em duas figuras: o médico e escritor José Antônio do Vale Caldre e Fião, presidente honorário, e o jovem Apolinário José Gomes Porto-Alegre. Caldre e Fião além do apoio à iniciativa, emprestou seu prestígio pessoal, pois era autor conhecido. Já Apolinário foi fundamental com sua atuação e postura.

Seu surgimento permitiu o intercâmbio de informações, textos e ideias entre os autores membros, promovendo a circulação de matérias literárias em diferentes jornais que percorreram os mais distantes recantos do Rio Grande do Sul. Sua atuação não se resumiu apenas à divulgação de literária, mas também expandir a cultura dos gaúchos, oferecendo cursos noturnos para adultos (mostrando sua preocupação com a formação intelectual da população) e criando uma biblioteca com importantes obras de Filosofia, História e Literatura e um museu com seções de Mineralogia, Arqueologia, Numismática e Zoologia. As aulas noturnas foram uma das atividades mais duradouras, permanecendo até 1884 quando, devido à dificuldades financeiras e falta de um local para abrigar as aulas, estas foram suspensas.

A Sociedade participava de campanhas abolicionistas, angariando fundos para libertação de escravos, realizando saraus poético-musicais em que se procedia à alforria de escravos.[1] Propagava os ideais republicanos e promovia também debates com temas diversos como a Revolução Farroupilha, casamento, pena de morte e feminismo, intervindo, como disse Athos Damasceno, "em todos os setores da vida social, em cujo desenvolvimento se aqueceriam as postulações mais avançadas da época. [...] Ao calor dos debates, através da pena e da palavra, a opinião pública passa a inteirar-se e a esclarecer-se, de fato e oportunamente, dos problemas que mais a afetam — a abolição da escravatura, a liberdade de culto, a emancipação da mulher, as urgências da instrução popular, as franquias políticas, enfim, o desentorpecimento de todo o aparelho institucional, em benefício do progresso do Rio Grande. E aí se surpreendem os primeiros sinais dessa nova fase de nossa História".[2]

Segundo alguns autores, uma divergência entre membros teria levado ao surgimento da revista Murmúrios do Guaíba, de efêmera duração,[3][4] porém tal questão não é clara, parecendo mais provável que tenha sido criada para preencher o vácuo deixado pela interrupção temporária da Revista Mensal em dezembro de 1869, ambas utilizando-se de idêntica estrutura na divulgação literária.[1]

Ao longo de sua existência funcionou em diversos locais, sem nunca ter tido sede própria. Em novembro de 1873, numa cerimônia em que estiveram o presidente da província, João Pedro Carvalho de Morais, e o bispo de Porto Alegre houve uma primeira tentativa de fundação de um espaço próprio, em uma região, na época, distante do centro da cidade, que deu o nome a um dos atuais bairros de Porto Alegre, o Partenon. A sede seria onde hoje é a Igreja Santo Antônio. Outra tentativa deu-se em 10 de janeiro de 1885, com presença da Princesa Isabel e do Conde D'Eu, lançou-se a pedra fundamental de um edíficio que seria localizado na rua Riachuelo.

O Pártenon Literário precedeu 30 anos a Academia Brasileira de Letras, publicando diversas obras literárias, bem como a tradicional Revista Literária, ora em formato de livro, seu legado mais forte. A Revista circulou durante dez anos e continha críticas literárias, biografias, comentários, editoriais e estudos sobre a história e cultura gaúchas. Discursos proferidos na Sociedade eram depois transcritos para a revista, além de contos, narrativas, peças teatrais e poesias. Os textos mais longos eram divididos em diversas partes e publicados ao longo de diversos números.

Entre os membros de destaque da sociedade pode-se citar: Apolinário José Gomes Porto-Alegre, seus irmãos Apeles e Aquiles, Afonso Luís Marques, Alberto Coelho da Cunha (Vítor Valpírio), Antônio Vale Caldre Fião, Argemiro Galvão, Augusto Rodrigues Tota, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Bernardo Taveira Júnior, Bibiano Francisco de Almeida, Carlos von Koseritz, Francisco Antunes Ferreira da Luz, Francisco Isidoro de Sá Brito, Hilário Ribeiro, Inácio de Vasconcelos Ferreira, José Bernardino dos Santos, João Damasceno Vieira Fernandes, José Carlos de Sousa Lobo, Lobo da Costa, Múcio Scevola Lopes Teixeira, dentre inúmeros outros. Entre as mulheres se destacaram Luciana de Abreu,a primeira mulher a subir na tribuna para falar em público, Luísa de Azambuja, Amália dos Passos Figueroa e Revocata Heloísa de Melo.

A sociedade foi extinta por volta de 1925, mediante a doação de terreno que tinha obtido para a construção de sua sede, pois de fato já deixara de existir desde 1885 quando paralisou os trabalhos associativos.

Revista Mensal[editar | editar código-fonte]

Dando continuidade à tarefa iniciada pelas predecessoras O Guaíba (1856) e Arcádia (1867), o Pártenon Literário publicou sua Revista Mensal de março de 1869 a setembro de 1879, com algumas interrupções.[5] A revista ampliou o campo de atuação da imprensa literária sulina, promoveu a descentralização e unificação da literatura gaúcha.[5] Também promoveu a divulgação de autores e obras, publicando contos, romances, poesias e demais produções daqueles que, ao longo dos anos, se transformaria nos grandes mentores intelectuais do estado.[5]

Refundação[editar | editar código-fonte]

Depois de 112 anos, reiniciou as suas atividades em 1997 a partir de um grupo de intelectuais interessados em prosseguir com os postulados dos próceres de 1868. Juridicamente, no entanto, apesar de dizer-se que a Sociedade reiniciou as suas atividades em 1997, o que houve, na verdade, foi a re-fundação da extinta entidade, ora dita em sua fase Século XXI.

Assim como os sócios antigos, os atuais não estão presos ou subordinados a qualquer tipo fechado de literatura ou expressão artística. Entre eles, incluem-se juristas, poetas, prosadores, artistas plásticos, jornalistas, músicos e atores. Trata-se de uma sociedade ecumênica por excelência.

Atividades literárias atuais[editar | editar código-fonte]

A entidade conta agora com mais seis publicações, além da tradicional Revista do Partenon Literário (na verdade livro), ora em seu número 4. E são elas:

  • Coleção Autores Reunidos,
  • Coleção Prata da Casa,
  • Coleção Nossas Letras,
  • Coleção Letras Jurídicas,
  • Coleção Palestras do Partenon e a
  • Coleção Arquivo e História.

A antologia literária Genesis se constituiu no primeiro volume da Coleção Autores Reunidos, quase ou praticamente esgotada no seu lançamento, em novembro de 2003, e já se encontra em fase final o volume II, com algumas vagas e ainda sem título definido.

Existem inúmeros autores por publicar e existem escritores consagrados que se dispõem, sem quaisquer preconceitos, a escrever e publicar junto com autores que, ainda no ensino fundamental ou médio, se envolvem com os dons da literatura. De resto, como foi o caso do próprio Múcio Teixeira que ingressou no Pártenon Literário com quinze anos, por sinal, dentre inúmeros outros integrantes, naquela ocasião, e agora na atualidade, como é o objeto de recente publicação, "A Mocidade do Parthenon Litterário", de Benedito Melgarejo Saldanha, que se tornou sócio após o lançamento.

No ano de 2003 deu-se a comemoração dos 135 anos com uma Exposição Lítero-histórico-fotográfica na Câmara Municipal de Porto Alegre. Além de exemplares raros, a exposição contou com fac-símiles das capas dos autores contemporâneos integrantes da Sociedade Partenon Literário. A mostra tem por objetivo divulgar ao público em geral a trajetória da entidade que se dedica à literatura e à arte, constituindo-se em uma das Sociedades mais importantes e representativas no cenário da cultura nacional.

Atualmente reúne escritores, poetas, atores e músicos, difundindo as mais variadas formas de cultura.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d PÓVOAS, Mauro Nicola (2009). «Fontes primárias e dúvidas literárias: o caso Murmúrios do Guaíba» (PDF). Revista Iluminart, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 69-76. Consultado em 29 jan 2013. 
  2. DAMASCENO, Athos. Artes Plásticas no Rio Grande do Sul. Globo, 1971, p. 114
  3. DILLENBURG, Sérgio Roberto. A imprensa em Porto Alegre de 1845 a 1870Porto Alegre: Sulina; ARI, 1987.
  4. BAUMGARTEN, Carlos Alexandre. A crítica literária no Rio Grande do Sul: do Romantismo ao Modernismo. Porto Alegre: EDIPUCRS; IEL, 1997.
  5. a b c ESTIMA, Vinícius Marques (2009). «A história da literatura do Rio Grande do Sul, de Guilhermino Cesar: o inventário do período de formação da literatura sul-rio-grandense». Rio Grande: Dissertação (Mestrado em História da Literatura) - Universidade Federal do Rio Grande. 181 páginas. Consultado em 30 jan 2013. 
  6. PETRÓ, Camila A. (2016). «Sempre mais acima, sempre mais além : pensamentos e práticas de gênero na Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul em Porto Alegre ao longo das décadas de 1940 a 1970». LUME, UFRGS. Consultado em 10 de novembro de 2017. 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • MOREIRA, Maria Eunice (coordenadora). Narradores do Partenon Literário. Primeiros Textos Vol. 3. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 2002.
  • FRANCO, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre, 4a edição, Editora da Universidade (UFRGS), Porto Alegre, 2006.
  • DIAS, Nadir Silveira, (Resenha 'Sócios Fundadores da Sociedade Partenon Literário Fase Século XXI'), in "Genesis" (p. 5), Organizador Nadir Silveira Dias, 168 pp., 14x21, com abas, ISBN 85 894 0005-0, 1ª Edição, Editor Nadir Silveira Dias, Porto Alegre, RS, Brasil, 2003.
  • DIAS, Nadir Silveira, (Resenha 'Publicações da Sociedade Partenon Literário Fase Século XXI'), in "Partenonistas do Século XXI" (pp. 124–125), Organizador Nadir Silveira Dias, 128 pp., 14x21, com abas, ISBN 978 85 89401 58-6, 1ª Edição, Ápex Edições/Nadir Editor, Porto Alegre, RS, Brasil, 2007.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]