Sociologia das emoções

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Sociologia das emoções

Introdução

O interesse da sociologia por emoções e sentimentos, foi marcado por um constante fluxo e refluxo, dependendo diretamente das necessidades de se compreender a relação entre o comportamento dos indivíduos associados às questões sociais, crises e às condições para manutenção da ordem e coesão social emergentes, no contexto de grandes transformações sociais.

As grandes Revoluções que abalaram a Europa, que promoveu a concentração da população nos centros urbanos e o arrefecimento dos mecanismos de controle da Igreja, suscitou uma inusitada expressividade emocional das massas. Os perplexos pensadores e estudiosos de então, viram-se diante da necessidade de compreender a maneira como os sujeitos reais viviam e se relacionavam com a sociedade, e, consequentemente, estudar os impulsos e motivações que os levam a agir. Os sociólogos clássicos, Comte e Dürkheim mais preocupados com as questões da ordem, e Simmel e Weber com a ação (SHILLING, 2002, TORRES, 2009).

Posteriormente, ainda que de forma intermitente a temática “emoção” continuou despertando o interesse dos sociólogos. Entre eles destacam-se Norbert Elias, Erving Goffman, Talcott Parsons, Wright Mills, Hans Gerth e mais recentemente, Richard Sennett, os quais, sob inspirações distintas, consideraram as emoções em suas análises.

Erving Goffman merece destaque para o futuro desdobramento dos estudos de emoções ao propor o “embaraço” como uma parte constitutiva “do próprio comportamento regular" (1956, p.271) e não como um impulso irracional que rompe com o comportamento social estabelecido. Dessa maneira, Goffman abre a possibilidade de se pensar não apenas o embaraço, mas também emoções como, empatia, culpa, vergonha, orgulho, ciúmes, entre outras, como mecanismos de sustentação da organização societal.

Nesse sentido, o tratamento das emoções nas abordagens de Goffman foi fundamental para que nos anos de 1970, as emoções se tornassem objeto de discussão teórica e se constituíssem como uma categoria sociológica para a análise de processos e fenômenios sociais fundamentais para manutenção da vida coletiva.

À medida que a temática emoções foi se afirmando como um objeto capaz de despertar o interesse de um número cada vez mais significativo de estudiosos e a ser abordada a partir de perspectivas e tradições sociológicas distintas (BARBALET, 2001) emoções constituiu-se como uma área específica da sociologia (TORRES, 2009). De tal forma que nos 90 do século passado foi criada a Sociedade Internacional para Pesquisa em Emoções (ISRE), e em 1984, e a seção Sociologia das Emoções pela Associação Sociológica Americana, em 1986.[1]

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Antes de avançar, cabe um registro. Como dito antes, o maior o menor interesse da sociologia por emoções resulta, na concepção dessa autora, de uma necessidade posta pela própria sociedade. Os autores clássicos, para compreender as manifestações das massas urbanas que ganham as ruas no período das grandes transformações sociais da Europa, cujas emoções eram mantidas anteriormente sob controle e sancionamento da igreja. Quando, na década de 70 do século passado o interesse dos sociólogos volta a se manifestar de forma mais frequente, e à partir de diferentes abordagens, a sociedade norte-americana (mas não apenas ela) enfrenta mudanças, por exemplo, nos papeis tradicionais de gênero (o controle da reprodução pela mulher, com advento da pílula, a participação crescente da mulher no mercado de trabalho, entre outros) (HOCHSCHILD, 1989) , surgem novos arranjos de família (que obrigam o convívio entre ex e entre filhos de diferentes casamentos), constitui-se novos tipos de interação e de modelos expressivos, influenciados pelas novas tecnologias, como aponta Denzin e outros teóricos da comunicação. Resumidamente, o estudo de emoções ganha novos contornos e avança na compreensão dos impactos de tais mudanças nas interações entre homens e mulheres, pais e filhos, trabalhador e empregado, entre outras.

O Processo de Constituição da Sociologia das Emoções - O Debate em torno do Conceito de Emoções

A constituição da Sociologia das emoções como uma sub-área da disciplina sociologia na década de 90, do século passado, foi resultado de um processo iniciado nos Estados Unidos quase duas décadas antes. Herdeiros de duas escolas sociológicas distintas, a Funcionalista (Talcott Parsons) e a Interacionista Simbólica (George Herbet Mead, Herbert Blumer, Erving Goffman) os sociólogos norte-americanos (Randall Collins, Theodore Kemper, Jonathan Turner, Norma Denzin, Arlie Hochschild, Susan Shott, Steven Gordon e Thomas Scheff), desenvolvem teorias sociológicas alternativas, e, até certo ponto, conflitantes, para emoções.

As tensões conceituais e metodológicas entre tais proposições envolvem questões sociológicas fundamentais, cuja origem remota aos debates travados entre os pragmatistas William James, John Dewey e George Herbert Mead: O que é emoção? Como estudá-la? Essas questões se desdobram em várias outras: Emoção é um fenômeno sociológico? As emoções são sócio-cultural ou biologicamente determinadas? Ou, as emoções são inatas e universais ou são culturalmente específicas? Qual a influência do social sobre a forma de sentir e de expressar as emoções? Ou, qual e como os sentimentos influenciam os comportamento e atitudes dos indivíduos? Os referencias teóricos da disciplina central se aplicam ao estudo das emoções ou são necessários conceitos específicos? É possível estabelecer relações entre emoções e macro estrutura? As respostas a essas questões que dizem respeito a definição do conceito sociológico de emoções podem ser agrupadas, mais amplamente, em torno de duas grandes posições, uma “universalista” e “biossocial” e a outra “construcionista” e “sóciocultural” (TORRES, 2009). Vale lembrar

A posição “universalista” defende que as emoções são inatas e estão pré-fixadas no organismo humano. Pressupondo haver uma correspondência indissociável entre emoções e certas substâncias características produzidas pelo cérebro, concluem que as emoções humanas, independentemente de sua manifestação/expressão concreta nos diferentes indivíduos ou sociedades, são invariáveis. Os adeptos dessa posição propõem uma que a sociologia das emoções deve procurar as causas (sociais, psicológicas, fisiológicas) das emoções, utilizar métodos quantitativos e ser capaz de prever e de formular “leis” gerais aplicáveis ao estudo do fenômeno.

No extremo oposto, “construcionistas” admitem que as emoções possuam um substrato biológico, mas negam que as emoções possam ser automaticamente definidas pelas sensações corporais; em vez disso, a definição da emoção depende da interpretação das sensações pela pessoa. Decore daí que as emoções são diversas e plurais variando de uma sociedade para outra, e variando no interior de uma mesma sociedade ou cultura, a depender da classe, do gênero, etc. Como defendem que as emoções são construções da cultura. para os partidários dessa posição o que importa é perceber como se dá o processo de “socialização emocional” das pessoas, as “regras” e os “vocabulários” que, naquela cultura, sancionam os sentimentos e definem as formas de expressão desejáveis para o sentir. Via de regra, privilegiam o uso de dados qualitativos e os estudos micros. Assim, enquanto os primeiros voltam o seu olhar para os aspectos da emoção que são comuns à espécie humana, o que é verdadeiramente “sentido”, independente da sua manifestação concreta, nas diferentes sociedades, os segundos se interessam pelo que as pessoas de diferentes sociedades ou grupos pensam sobre o que sentem e o que elas fazem (como lidam) com tais sentimentos (TORRES, 2009). 

Os principais representantes das posição biossocial e “construcionistas”

Gordon (1981) propõe uma análise sociológica baseada em sentimentos (sentiments) e não estados psicológicos internos, orgânicos e intensos, geralmente associados à noção de emoção, são retirados do foco de interesse sociológico para serem reintegrados como sensações transitórias socialmente interpretadas, nos relacionamentos sociais duradouros, como sentimentos. A sociedade desenvolve o “eu social” de cada membro, socializando os seus sentimentos. Isto significa: provê os indivíduos com “vocabulários de sentimentos” de forma a lhes capacitar a fazer o “manejo da expressão” e o “manejo dos sentimentos”. A socialização emocional, que permite aos indivíduos “saber” sobre sentimentos e conseqüentemente ter a habilidade de manejá-los, está, para Gordon, relacionada às funções sociais essenciais para manutenção da ordem social: a construção da solidariedade do grupo e a reprodução da estrutura de status-poder.[1]

“Regras de sentimento” (feeling rules) e “trabalho da emoção” (emotion work) (isto é, “administração” e “atuação profunda”) são, para Hochschild, as categorias chaves de um estudo sociológico de emoções que relaciona o indivíduo e a estrutura social. Hochschild argumenta que sendo emoções acompanhadas de certas sensações mais ou menos intensas e não específicas, e dado que existem padrões sociais que prescrevem a conveniência ou não de sentir e expressar emoções e sentimentos (feelings), os indivíduos não só podem como tentam, consciente e deliberadamente, interferir sobre os seus estados internos, para adequá-los, quando em desacordo. É porque os indivíduos se esforçam o tempo todo para tentar mudar a intensidade ou a qualidade de uma emoção ou de um sentimento (feeling), quando este está em desacordo com os padrões sociais (gerais ou de grupos ou classes) evidenciados nas regras de sentimento (feeling rules), que a estrutura social se mantém. As regras de sentimento são reproduzidas e mantidas pela ideologia dominante, num processo permanente de disputa, no qual novos conjuntos de regras concorrem para ocupar o seu lugar. As discrepâncias entre as exigências normativas e as emoções experimentadas, sendo extremas, podem ameaçar a própria integridade do self, causando dissociação e alienação, ou engendrar formas de luta para mudar os padrões em desacordo.

Hochschild oferece-nos uma análise detalhada de como os indivíduos adultos tentam administrar seus sentimentos nas relações interpessoais, e, sobretudo, como nas relações de troca no mercado de trabalho, a capacidade de gerenciamento das emoções se torna uma mercadoria valorizada, comprada e vendida em certos tipos de emprego. Hochschild generaliza as suas conclusões para dizer que a desigualdade da estrutura social é reproduzida no processo de socialização emocional, processo este diferenciado, caso esteja relacionado às crianças da classe média ou da operária.

Kemper elege o poder e o status como categorias analíticas gerais aplicáveis ao longo do tempo e das sociedades. As emoções são, então, consideradas como resultados universais das relações diáticas dos indivíduos, considerando-se a posição hierárquica ocupada na estrutura de poder e status vis a vis os outros. Essas disposições relacionais dos indivíduos envolvem comportamentos e papéis padronizados quanto às obrigações e aos direitos a poder e status que cada um espera que o outro cumpra. A incongruência com relação aos direitos e deveres engendra “emoções estruturais” distintas, a depender da agência responsável pelo resultado obtido.

Há uma correspondência entre a estrutura social de poder e status e a estrutura orgânica. Assim, a emoção natural produzida, como resultado dos comportamentos padronizados de poder e status, não pode ser social ou culturalmente mudada, dado que poder e status envolvem emoções fisiologicamente enraizadas no organismo humano. Qualquer manejo da emoção ocorre a posteriori. A sociedade ou a cultura não tem o poder de mudar uma emoção, podem, porém, eliminá-la a um custo alto, mutilando o indivíduo, ou levar ao desenvolvimento de patologias.

Turner analisa emoções no âmbito das interações face a face. Sua tese central é que a expansão da capacidade de sentir (emoções positivas), de controlar emoções (negativas), e de desenvolver a linguagem não verbal (comunicação sem emissão de grunhidos), foi condição essencial para possibilitar a vida coletiva sem a qual a espécie teria sido dizimada. Essas capacidades, decorrentes da atuação do processo evolucionário de seleção natural sobre o cérebro humanóide, são então relacionadas às interações sociais das sociedades atuais. Assim, Turner considera que as sofisticadas emoções, encontradas na sociedade atual, são elaborações de emoções primárias e atribui a tensão permanente entre a liberdade individual e a cooperação, que caracteriza as interações, ao resultado do processo evolucionário que transformou o primata agressivo, independente e antissocial, em um ser gregário. O teórico em questão aduz também que há predominância da linguagem não verbal nas interações e que tal predominância ocorre em decorrência da necessidade evolucionária, sobrevivente do passado, de tornar os primatas em seres silenciosos para protegê-los dos seus inimigos e predadores. Essa é uma das suas tentativas de se contrapor a ênfase na linguagem verbal, que está no âmago das concepções culturalistas das emoções.

As emoções experimentadas nas interações estão associadas às expectativas dos indivíduos, considerando-se o grau de intimidade e proximidade mantido com os demais, e o número dos envolvidos no encontro. O comportamento dos indivíduos é pautado por um conjunto de símbolos que instruem e prescrevem padrões de comportamento, e recomendam “punições” e “premiações”. Os indivíduos transportam para as interações as posições de poder (autoridade) e status (prestígio) que ocupam na sociedade, de forma que os comportamentos dos participantes são influenciados e tendem a reproduzir as hierarquias.

Eis aí, um registro abreviado, uma caracterização e tipificação de posições e a circunscrição do processo de constituição da sociologia das emoções e de opções conceituais no interior do qual as pesquisas na área podem-se desenvolver.


[1]

TORRES, Marieze Rosa. Tese de Doutorado em Sociologia, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - Universidade Federal da Bahia - UFBA


[1] No Brasil, a temática começa a se afirmar, mais recentemente como, como uma área de interesse dos sociólogos de antropólogos como pode observado no número cada vez maior de GTs, de grupos, e de linhas de pesquisa, dedicados ao estudo das emoções. Merecem destaque o Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções – GREM,  UFPB, e do Grupo de Pesquisa Cultura, Sociabilidades e Sensibilidades Urbanas, da UFBA.

  1. TORRES, Marieze Rosa. Hóspedes Incômodas? Emoções na Sociologia Norte-Americana, UFBA, 2009