Sousveillance

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Sousveillance (/suːˈveɪləns/ soo-vay-ləns) foi um termo cunhado pelo pesquisador canadense Steve Mann como um contraste à palavra inglesa derivada do francês "surveillance" (vigilância), onde o prefixo sur significa “acima”, enquanto sous significa “abaixo”. Uma possível tradução para o português seria “subvisão”, em analogia à adaptação para o inglês “undersight”. Tal neologismo surgiu para incentivar formas de monitoramento (como o uso de câmeras ou gravadores) do Estado por parte dos cidadãos, ao invés do cidadão pelo Estado. No entanto, apesar do termo ter surgido como reação à supervisão onipresente do governo, não é necessariamente uma ação anti-vigilância. Algumas de suas variantes são usadas para complementar a perspectiva superior da polícia. O termo “Inverse Surveillance” ou “Supervisão Inversa”, no entanto, é um caso particular que foca na fiscalização e regulação das instituições, tendo como objetivo principal combater o abuso de poder.

Tipos de sousveillance[editar | editar código-fonte]

A ação de monitoramento pelos cidadãos pode ser dividida de acordo com sua finalidade. Podemos citar algumas áreas em que a Sousveillance pode ser aplicada, a saber: próteses, seguros, equivalência e álibi. [1]

Uma câmera vestível em forma de colar. Proposto inicialmente por Steve Mann

* Próteses - dado o crescimento demográfico de idosos com memória reduzida, pesquisas vem sendo conduzidas para assistir tais pessoas com câmeras e computadores vestíveis. A Universidade de Toronto conduz um estudo para desenvolvimento de um óculos que auxilia pessoas com Alzheimer a enxergarem e memorizarem o ambiente através do uso de realidade aumentada. Tal área é conhecida como Memória Visual Prostética.
* Seguro - um número crescente de seguradoras vêm assistindo pessoas com necessidades especiais através de monitoramento remoto. Ao se deparar em alguma situação de dificuldade, um operador se conecta com uma câmera vestida pelo segurado para lidar com a situação. Toda a interação de um possível ofensor com a pessoa é intermediada pelo seguro. Isso ajuda coibir casos de hostilidade e preconceito aos quais pessoas com necessidades especiais estão sujeitas.
* Álibi - um exemplo desse tipo ocorreu em meados dos anos 2000 quando Hasan Elahi, professor da Universidade de Maryland, foi detido no aeroporto de Detroit quando uma empresa de guarda-volumes da Florida reportou que um homem árabe havia alugado um armário, deixado explosivos no mesmo e fugido no dia 12 de semtembro de 2001. Após ter sido investigado pelo FBI e submetido a diversos testes de polígrafos, Elahi foi inocentado quando conseguiu o acesso à gravações online que haviam registrado seu paradeiro nos últimos dias. Desde então o professor passou a monitorar seu movimento para evitar futuros imprevistos. Atitudes como essa exemplificam outro tipo de Sousveillance no qual gravar a si mesmo pode ser extremamente útil para coibir o preconceito.
* Equivalência - a supervisão implica em um tipo de contrato social no qual ações são registradas por uma organização, e no qual nós podemos ser responsabilizados pelas mesmas. Esse tipo de sousveillance está ligado ao fato de todo cidadão, ao ser acusado por um crime evidenciado por alguma gravação, ter o direito a uma cópia da mesma. No entanto, o acusador muitas vezes edita o conteúdo da gravação de forma conveniente a si próprio. E é aí onde a sousveillance pode ajudar. Saber que está sendo monitorado por outras câmeras além da sua faz o infrator pensar duas vezes antes de tomar tal atitude. Essa estratégia é valida mesmo se o acusado não guardar uma cópia para si, pois é a possibilidade de ter consigo o registro do ocorrido que faz um acusador reconsiderar uma possível fraude. Ainda nesse aspecto, é importante destacar que não é necessário que haja o uso generalizado de câmeras pelos cidadãos. Basta que algumas pessoas registrem os fatos para que haja um nivelamento de ambas as partes.

Este último tipo de subvisão vêm atraindo cada vez mais adeptos, a fim de se atingir um equilíbrio entre as partes. A medida que o número de câmeras pessoais aumenta, a necessidade por câmeras de supervisão diminui. Muitos acreditam que é mais saudável do ponto de vista social eliminar a necessidade de monitoramento pelas instituições. Um dos argumentos é o fato de estarmos ora de um lado das partes e ora do outro. Desde 2001, no dia 24 de dezembro, grupos de diversos países o mundo se reunem em evento chamado World Sousveillance Day para debater sobre a discrepância entre a supervisão e a “subvisão”.

Sousveillance e a sociedade[editar | editar código-fonte]

O aspecto social do auto-empoderamento sugere que a sousveillance é um ato de liberação, de tomada do território comum, e de equilíbrio entre os vigiados. No entanto, a vigilância ubíqua agora viável é uma forma de consentimento por parte dos indivíduos, e pode acabar servindo apenas aos fins da estrutura de poder dominante, uma vez que a última pode utilizar tal onipresença para o benefício próprio. Uma vez que todos estivessem supervisionando e sendo supervisionado, a vigilância em si seria desnecessária.
No mundo contemporâneo de sociedades conectadas, indivíduos costumam trocar de comunidades ao longo do dia. Apesar disso, a supervisão é uma manifestação das eras industriais e pós industriais nas quais grandes organizações hierárquicas impunham eficientes tecnologias de controle neo-panópticas. Nos grandes centros urbanos atuais as pessoas precisam de muito mais sousveillance, uma vez que não há proteção da vila/comunidade ou organização hierárquica.
Ao prover meios de simultaneamente vigiar e ser vigiado, os dispositivos vestíveis oferecem uma nova voz no até então monólogo da supervisão. Eles propiciam um caminho em direção ao empoderamento dos indivíduos, a medida em que eles atravessam diariamente suas múltiplas e complexas redes.

Jornalismo cidadão[editar | editar código-fonte]

A forma que você retrata a história vai mudar a história

Jornalismo cidadão é uma forma eficiente de Sousveillance. Sua origem pode ser observada desde a década de 90, nos EUA. Como o nome sugere, refere-se a divulgação de notícias que deveriam ser abertamente discutidas pela mídia profissional, mas que acabam sendo omitidas devido ao crescente viés da mesma. Tal forma de jornalismo pode ser reconhecida através dos meios que cidadãos comuns utilizam para compartilhar conhecimento, como celulares, blogs e gravações pessoais. Dessa forma, não apenas jornalistas profissionais podem ser monitorados, como também as atividades e decisões dos Estados.[2]
Outro componente fundamental que distingue o jornalismo cidadão do profissional é a proximidade com seus leitores e a aceitação de feedback. Um exemplo disso são os blogs, que são, em sua maioria, abertos a comentários, dando espaço para opiniões de terceiros, o que dá uma voz muito maior aos cidadãos e por isso vem atraindo cada vez mais adeptos, uma vez que demonstra o real interesse do jornalista em compartilhar o fato.
Ainda sobre as vantagens do jornalismo cidadão está o fato de que o público está quase sempre presente durante os grandes eventos, podendo registrar os fatos no momento exato em que eles ocorrem, e postar em mídias sociais em questão de minutos. Já o repórter de alguma emissora raramente estará presente no início de algum desastre, por exemplo. O Jornalismo cidadão é muitas vezes considerado reportagem de segundo escalão uma vez que a grande maioria do público não tem formação profissional e por isso, segundo alguns críticos, acabam imitando o que vêem na imprensa. No entanto, essa forma emergente de jornalismo vem se monstrando importante, não só para uma perspectiva em primeira mão, mas para quebrar as alianças e acordos feitos entre o governo e a grande mídia, revelando a história por completo.

O caso de Ferguson, Missouri’’’

Protestos devido à morte de Michael Brown

Em agosto de 2014, a morte do negro Michael Brown, causada pelo disparo de uma arma de fogo de um policial branco, Darren Wilson, na cidade de Ferguson, em Missouri, deixou os residentes do estado bastante revoltados. O incidente gerou uma série de protestos, resultando em violência devido ao uso de força pela polícia. Muitos manifestantes repercutiram nas redes sociais o ocorrido numa tentativa de contar o seu lado da história. Com imagens e vídeos publicados em sites como Twitter e Facebook, os ativistas buscaram atrair a atenção do resto do mundo, não só para a morte de Brown, mas para responsabilizar o governo norte-americano pela forte militarização da polícia em casos envolvendo negros. Um dos manifestantes foi um vereador da cidade de St. Louis, Antonio French, que, após divulgar diversas evidências dos protestos, foi preso por ter gravado o acontecimento. Exemplos como esse ilustram como um nome de certa relevância pode dar credibilidade ao jornalismo cidadão e assim ter um alcance muito maior. Graças ao vereador, outros seguiram seu exemplo, registrando nos anos seguintes vários casos de força policial contra negros nos Estados Unidos. Uma campanha conhecida por Black Lives Matter foi disseminada devido aos vários hashtags que acabaram virando destaque entre os tópicos mais discutidos nas redes sociais.
O caso de Ferguson não foi o primeiro exemplo de jornalismo cidadão. Em muitos outros lugares do mundo, em situações de guerra civil e terrorismo, como na Síria, no Egito, na Palestina e nos ataques a Paris, as pessoas tem usado a internet expor seus problemas para os demais locais. Dada essa facilidade, as redes sociais vem se tornando melhor que a imprensa tradicional na transmissão ao vivo de notícias, devido a rapidez com que elas são divulgadas.

Principais críticas
Muitos argumentam que o jornalismo cidadão não tem regulamentação alguma, não devendo ser confiado uma vez que não possui leitura de prova. Juntamente com a falta de objetividade, a escrita também pode ser considerada de baixa qualidade. Além disso, como jornalistas amadores não possuem equipamento profissional para reunir evidências, sua credibilidade é frequentemente questionada. Por isso, os críticos afirmam que jornalismo cidadão não é uma forma ideal de sousveillance, uma vez que a ideologia pode se sobrepor á acurácia da informação.

Uso Policial[editar | editar código-fonte]

Incidentes como o ocorrido em Missouri vem aumentando o apelo do público para o uso de câmeras individuais para cada policial, a fim de se utilizar o filme como evidência. As diferentes versões dadas por testemunhas da perseguição a Brown poderiam ter sido esclarecidas caso o policial estivesse portando um monitor.

Em 2012 [3] o chefe da polícia de Rialto, California, em parceria com um professor da Universidade de Cambridge, decidiu realizar um experimento com o uso câmeras entre os policiais. Ele equipou metade dos 54 oficiais com câmeras para avaliar o benefício ou não do monitoramento. Doze meses depois os resultados foram expressivos. Segundo os dados levantados pelo departamento, a incidência de denúncias de abuso de poder foi reduzida em 88%, de 24 para 3, o uso de força pela policia caiu em 60%, de 61 para 25, e o número de denúncias falsas também foi reduzido, dado o respaldo obtido pelas gravações.
Devido ao fato das câmeras ficarem ligadas em todos os confrontos com a polícia, questões relacionadas à privacidade vieram à tona, especialmente em casos de estupro ou violência doméstica. Além disso, alguns policias argumentam que o uso de câmeras pode inibir a confissão de réus ou a colaboração de testemunhas com medo de que o vídeo acabe vazando. No entanto, dois estudos conduzidos nos Estados Unidos em 2015 revelaram que policiais portando câmeras se envolveram em menos confrontos com cidadãos do que policiais sem câmeras, devido o medo de serem repreendidos por má conduta

Dificultando a vigilância[editar | editar código-fonte]

Com a intensificação da vigilância ao longo dos anos, outras formas de reação além do monitoramento foram surgindo. Entre os diversos ativistas engajados no tema está Adam Harvey, um artista e tecnologista de Berlin, que desenvolveu, em parceria com a Hyphen-Labs Interaction Studios, dois projetos para tentar dificultar o reconhecimento facial. O primeiro deles foi o CV Dazzle, que consiste basicamente em formas de maquiagem e cortes de cabelo para deixar o rosto menos simétrico (pintando um dos lados) e cobrir as partes mais relevantes para os algoritmos de reconhecimento facial como o ponto de encontro entre nariz, olhos e testa. O CV Dazzle, no entanto, não obteve muito sucesso devido ao estilo a ser aplicado em quem quisesse aderir ao projeto.
Mais recentemente, outro projeto chamado Hyperface[4], vem chamando mais atenção da mídia devido a uma abordagem diferente. Segundo Harvey, “Você pode mudar sua aparência, mas na camuflagem há uma relação entre o objeto e o ambiente. Você tem a oportunidade de mudar o ambiente, as coisas que aparecem ao seu redor, e assim modificar a confiança da visão computacional”. A ideia foi criar milhares de padrões de reconhecimento facial, aplicá-los em tecidos, que aparentariam ter olhos, bocas e narizes, e assim saturar o ambiente, de forma a divergir a olhar dos sistemas de processamento de imagem. Tais tecnologias são supostamente capazes de distinguir, a partir de uma área de apenas 100x100 pixels, características pessoais como “calmo”, “carinhoso”, tendências criminosas como “pedófilo" ou “crime de colarinho branco” ou ainda idade e gênero. Com o Hyperface, milhares dessas características estariam espalhadas pelo ambiente, dificultando a ação de determinar quais delas pertenceriam a um possível investigado.

Referências

  1. Steve Mann, [1], 2003
  2. WikiBooks,[2], An Internet of Everything?/Surveillance and Sousveillance
  3. Randall Stross, [3], The New York Times, 6 de abril de 2013
  4. Alex Hern, [4], The Guardian, 4 de janeiro de 2017