Soyuz 11

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Soyuz 11
Insígnia da missão
Informações da missão
Sinal de chamada Yantar
Operadora União Soviética
Foguete Soyuz
Espaçonave Soyuz 8KS-OKS 11F615A8 #32
Astronautas Georgi Dobrovolski
Vladislav Volkov
Viktor Patsayev
Base de lançamento Local 1, Cosmódromo
de Baikonur
Lançamento 6 de junho de 1971
4h55min09s UTC[1]
Baikonur, Cazaquistão,
União Soviética
Aterrissagem 29 de junho de 1971
23h16min52s UTC[1]
Distrito de Zhanaarka
Órbitas 384[1]
Duração 23 dias, 18 horas,
21 minutos, 43 segundos[1]
Altitude orbital 191.5 - 220.5 km[1]
Inclinação orbital 51,57 graus[1]
Imagem da tripulação
Dobrovolski, Volkov e Patsayev
Dobrovolski, Volkov e Patsayev
Navegação
Soyuz 10
Soyuz 12

Soyuz 11 (em russo: Союз 11) foi a única missão tripulada a embarcar na primeira estação espacial do mundo, Salyut 1 (a Soyuz 10 havia acoplado, mas não tinha sido capaz de embarcar devido a problemas na trava).[2] A tripulação, Georgi Dobrovolski, Vladislav Volkov e Viktor Patsayev,[3][4][5] chegaram na estação no dia 7 de junho de 1971 e partiram no dia 29. A missão terminou num desastre quando a cápsula despressurizou durante a preparação para a reentrada, matando os três tripulantes.[6] Os tripulantes da Soyuz 11 são os únicos humanos a terem falecido no espaço.[7]

Tripulação[editar | editar código-fonte]

Posição Cosmonauta
Comandante Georgi Dobrovolski
Engenheiro de voo Vladislav Volkov
Engenheiro de testes Viktor Patsayev

Notas da tripulação[editar | editar código-fonte]

A tripulação original da missão consistia de Alexei Leonov, Valeri Kubasov e Pyotr Kolodin. Um exame de raio-x quatro dias antes do lançamento sugeriu que Kubasov estivesse com tuberculose e de acordo com os regulamentos, a tripulação teria de ser substituída pelos reservas.[8]

Parâmetros da Missão[editar | editar código-fonte]

Missão[editar | editar código-fonte]

Foi usado o código de chamada Yantar. A Soyuz 7K-OKS foi lançada no dia 6 de junho de 1971 a partir do Cosmódromo de Baikonur, República Socialista Soviética Cazaque. Alguns meses antes, a primeira missão para a Salyut 1, a Soyuz 10, não havia conseguido acoplar com a estação.[10] Durante o primeiro dia de voo, foram realizadas manobras para possibilitar um encontro com a Salyut (1971-032A). Quando a Soyuz 11 estava de 6 a 7 quilômetros da Salyut, o sistema automático tomou o controle e em 24 minutos, diminuiu a distância entre as duas naves em até 9 metros, assim reduzindo a diferença da velocidade relativa entre as duas naves para 0,2 m/s. O controle das naves retornaram para manual em 100 m. A acoplagem demorou 3 horas e 19 minutos para ser completada, envolvendo a realização deixar a conexão mecanicamente rígida, conectando vários links elétricos e hidráulicos e estabelecendo um lacre impermeável antes da trava ser aberta. Quando a pressão foi equalizada, as travas foram abertas e os três cosmonautas entraram na Salyut 1.[11] A Soyuz 11 acoplou de forma bem sucedida no dia 7 de junho de 1971 e os cosmonautas permaneceram nela por 22 dias, batendo o recorde de permanência no espaço que não seria atingido até a Skylab 2 em 1973.[6]

Ao entrar na estação, eles encontraram uma atmosfera com cheiro de fumaça e queimado, que ficou assim até substituírem uma parte do sistema de ventilação no dia seguinte, onde no meio tempo eles tiveram de ficar na Soyuz. Sua permanência na Salyut foi produtiva, onde também realizaram cinco transmissões televisivas. Um incêndio ocorreu no décimo primeiro dia de permanência na estação, fazendo com que os responsáveis em solo considerassem o abandono da estação. O ponto alto teria sido a observação do lançamento do N1, mas foi adiado.[12]

No dia 29 de junho de 1971 a tripulação embarcou espécimes científicos, filmes, fitas e outros objetos na Soyuz 11. Então transferiram o controle manual da Salyut 1 de volta para a Soyuz 11 e retornaram para a cápsula. A desacoplagem ocorreu as 18:28 GMT. A Soyuz 11 voou ao lado da Salyut e realizou a retro propulsão as 22:35 GMT. O módulo de habitação e de serviço foram ejetados antes de entrarem na densa atmosfera. As comunicações por rádio terminaram de forma abrupta no momento da separação do módulo de habitação (por volta das 22:47 GMT), antes do blackout ionosférico esperado. Os sistemas automáticos pousaram a nave de forma segura as 23:16:52 GMT. A duração total foi de 570,22 horas e envolveu cerca de 383 órbitas—18 antes da acoplagem, 362 acopladas e 3 após desacoplarem. Ao chegarem na área de pouso e abrirem a escotilha, a equipe de resgate descobriu os três tripulantes mortos em seus assentos. A investigação oficial demonstrou que eles haviam falecido por embolia pulmonar, quando o lacre imperfeito da escotilha entre o módulo de descida e de habitação permitiu que o ar vazasse nos segundos após a separação dos módulos.[11]

Morte da tripulação[editar | editar código-fonte]

No dia 29 de junho de 1971, após uma reentrada aparentemente normal, a equipe de resgate descobriu que a tripulação havia falecido.[6][13][14]

Kerim Kerimov, presidente da Comissão Estatal, relembrou: "Externamente, não havial qualquer dano. Bateram no lado, mas não houve resposta. Ao abrirem a escotilha, encontraram os três em seus assentos, imóveis, com marcas azul escuras em seus rostos e traços de sangue em seus narizes e ouvidos. Foram removidos do módulo de descida. Dobrovolski ainda estava quente. Os médicos realizaram respiração artificial. Baseado em seus relatos, a causa da morte foi sufocação".[15]

Logo tornou-se aparente que eles haviam sido asfixiados. A culpa foi de uma válvula de ventilação localizada entre o módulo de habitação e o de descida, que havia sido aberto quando o módulo de descida se separou do de serviço, aos 12 minutos e 3 segundos após a retro ignição.[16][17] Os dois módulos eram segurados por parafusos explosivos projetados para um disparo sequencial, mas dispararam simultaneamente.[16] A força da explosão simultânea fez com que um mecanismo interno da válvula de equalização soltasse um lacre que geralmente seria descartado mais tarde, o que permitiria o equilíbrio automático da pressão da cabine.[16] A válvuma abriu numa altitude de 168 quilômetros e a perda de pressão foi fatal em segundos.[16][18] A válvula estava localizada em baixo dos assentos e foi impossível encontrá-la e bloqueá-la antes da perda da atmosfera. O gravador de dados vitais de um único cosmonauta usando os sensores indicou que a parada cardíaca ocorreu em 40 segundos após a perda de pressão. Aos 15 minutos e 35 segundos após a retro ignição, a pressão da cabine estava zerada e continuou assim até a reentrada na atmosfera da Terra.[16] O corpo do Patsayev foi encontrado perto da válvula e ele pode ter tentado fechá-la ou bloqueá-la quando perdeu a consciência. Uma extensa investigação foi realizada para estudar todos os componentes e sistemas da Soyuz 11 que poderia ter causado o acidente, apesar dos médicos rapidamente concluírem que os cosmonautas haviam morrido por asfixia.[16]

As autópsias foram realizadas no Hospital Militar de Burdenko e foi descoberto que a causa específica da morte foi a hemorragia dos vasos sanguíneos no cérebro e com menores quantidades de sangue na pele, no ouvido interno e cavidade nasal, que ocorreu quando a exposição ao vácuo fez com que o oxigênio e nitrogênio nas correntes sanguíneas borbulhassem e rompessem os vasos. Também foi descoberto que o sangue deles possui-a uma grande concentração de ácido láctico, um sinal de extremo estresse psicológico. Apesar deles poderem ter ficado conscientes por até 40 segundos após o início da descompressão, menos de 20 segundos teriam se passado antes dos efeitos da falta de oxigênio tornasse impossível qualquer reação.[15]

Alexei Leonov, o comandante original da Soyuz 11, havia aconselhado aos cosmonautas antes do voo que eles deviam fechar manualmente as válvulas entre o módulo de habitação e de descida, já que ele não confiava que eles fechassem de forma automática - um procedimento que ele pensou após passar muito tempo no simulados. Entretanto, os tripulantes ou escolheram ignorar esses avisos ou esqueceram no decorrer da longa missão. Após o voo, Leonov voltou ao simulador e tentou fechar uma das válvulas manualmente, descobrindo que é algo que necessita de quase um minuto - tempo demais numa situação de emergência onde a atmosfera da nave está escapando de forma rápida.[15]

A mídia Soviética tentou diminuir o final trágico da missão e buscou enfatizar suas realizações durante a permanência da Salyut 1. Já que eles demoraram quase dois anos para publicamente anunciar a causa da morte da tripulação, os Estados Unidos ficaram extremamente preocupados com o programa Skylab, já que eles não sabiam se uma longa permanência em microgravidade seria fatal. Entretanto, o médico da NASA, Charles Berry manteve uma firme convicção de que os cosmonautas não podiam ter morrido por terem passado muitas semanas em microgravidade. Até que os Soviéticos anunciassem o que havia ocorrido, Berry teorizou que a tripulação havia sucumbido devido a inalação de substâncias tóxicas.[15]

Posteriormente foi desclassificado um vídeo mostrando as equipes de resgate tentando reanimação cardiorrespiratória nos cosmonautas.[19] Não foi conhecido até a autópsia que eles haviam sucumbido devido a despressurização. A equipe de solo havia perdido o contato por rádio com a tripulação antes do começo da reentrada e já haviam iniciado preparativos para o caso da tripulação ter sido perdida.[3]

Os cosmonautas receberam um grande Funeral de Estado e foram enterrados na Necrópole da Muralha do Kremlin na Praça Vermelha, Moscou, perto dos restos de Iuri Gagarin.[6] O astronauta Tom Stafford foi um dos carregadores do caixão. Eles também receberam de forma póstuma o título de Herói da União Soviética.[15]

O Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, fez a seguinte declaração oficial:[13]

O povo Estadunidense se junta ao expressá-lo e ao povo Soviético a nossa maior simpatia pelas mortes trágicas dos três cosmonautas soviéticos. O mundo inteiro seguiu as explorações desses corajosos desbravadores do desconhecido e compartilham a angústia dessa tragédia. Mas as realizações dos cosmonautas Dobrovilski, Volkov e Patsayev continuarão. Elas vão, estou certo, provar que contribuíram de forma intensa para maiores conquistas do programa Soviético para a exploração do espaço e a abertura dos horizontes humanos.

A nave Soyuz foi reprojetada de forma extensa para carregar dois cosmonautas. O espaço adicional permitiu que a tripulação usasse o traje espacial Sokol. O Sokol era um traje pressurizado leve feito para situações de emergência; versões atualizadas ainda são usadas.[15]

Memoriais[editar | editar código-fonte]

Selo de 1971.

As coordenadas do pouso são 47° 21' 24" N 70° 07' 17" E, ou seja: 90 km ao sudeste de Karazhal, Karaganda, Cazaquistão e cerca de 500 km ao nordeste de Baikonur. No lugar estava um monumento memorial na forma de uma coluna metálica de três lados, com a imagem engravada dos rostos dos três tripulantes num triangulo estilizado em cada um dos três lados perto do topo. O memorial está numa área aberta e plana, longe de quaisquer área populada, dentro de uma cerca pequena e circular.[20] Em 2012 foi descoberto que o memorial foi vandalizado de tal forma que ficou irrecuperável, com somente a base da coluna sobrando e quaisquer estradas ao redor soterradas.[21] Entretanto, em 2013, a Roscosmos restorou o lugar com um monumento reprojetado, refletindo a forma de três lados do original, mas feito de tijolos. Também foi colocado no lugar um sinal explicando a história dolugar e o destino do monumento original.[22]

Três crateras lunares foram batizadas em homenagem à tripulação: Dobrovol'skiy, Volkov e Patsaev. Seus nomes também foram incluidos na placa Astronauta Caído, deixada na Lua durante a Apollo 15 em agosto de 1971. Em homenagem à tripulação, um grupo de colinas em Plutão foi chamado de Soyuz Colles (en).

Na cidade de Penza, Rússia, perto da escola-ginásio No. 39, em homenagem aos cosmonautas, uma estela memorial foi feita com citações do poema de Ievguêni Ievtuchenko: "Entre nossa Pátria Mãe e vocês existe uma conexão bidirecional eterna" (em russo: "Между Родиной нашей и вами – двусторонняя вечная связь").[23]

Além do selo soviético apresentado acima, em 1971 também foi realizada uma série de selos em Ajmã[24] e Bulgária[25] em homenagem aos cosmonautas.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d e f Joachim Becker e Heinz Janssen (19 de junho de 2018). «Soyuz 11». SPACEFACTS. Consultado em 20 de julho de 2019 
  2. Mir Hardware Heritage/Part 1- Soyuz (wikisource) http://en.wikisource.org/wiki/Mir_Hardware_Heritage/Part_1_-_Soyuz#1.7.3_Salyut_1-Type_Soyuz_Mission_Descriptions
  3. a b «Soyuz 11». Encyclopedia Astronautica. 2007. Consultado em 20 de outubro de 2007. Arquivado do original em 30 de outubro de 2007 
  4. Mamta Trivedi (2001). «30 Years Ago: The World's First Space Station, which was Salyut 1». Space.com. Consultado em 20 de outubro de 2007. Arquivado do original em 6 de junho de 2001 
  5. «After glory era, cash woes hobble Russian space program». CNN. 1997. Consultado em 20 de outubro de 2007 
  6. a b c d «Triumph and Tragedy of Soyuz 11». Time. 12 de julho de 1971. Consultado em 20 de outubro de 2007. Cópia arquivada em 18 de março de 2008 
  7. «Space disasters and near misses». Channel 4. Consultado em 29 de junho de 2011. Arquivado do original em 12 de outubro de 2008 
  8. Chertok, Boris (2011). «The Hot Summer of 1971». In: Siddiqui, Asif. Rockets and People, Volume 4: The Moon Race (PDF). [S.l.]: NASA. p. 361. ISBN 9780160895593. Cópia arquivada (PDF) em 10 de agosto de 2016  Alt URL Este artigo incorpora texto desta fonte, que está no domínio público.
  9. «Display: Soyuz 11 1971-053A». NASA. 14 de maio de 2020. Consultado em 18 de outubro de 2020   Este artigo incorpora texto desta fonte, que está no domínio público.
  10. «A Troubled Salyut». Time. 10 de maio de 1971. Consultado em 20 de outubro de 2007 
  11. a b «Display: Soyuz 11 1971-053A». NASA. 14 de maio de 2020. Consultado em 5 de outubro de 2020   Este artigo incorpora texto desta fonte, que está no domínio público.
  12. «Soyuz-11 begins a fateful expedition to Salyut». 30 de junho de 2021. Consultado em 10 de julho de 2021 
  13. a b «Soyuz 11: Triumph and Tragedy». NASA. 2007. Consultado em 19 de junho de 2013   Este artigo incorpora texto desta fonte, que está no domínio público.
  14. «Deadly accidents in the history of space exploration». USA Today. 1 de fevereiro de 2003. Consultado em 20 de outubro de 2007 
  15. a b c d e f Ben Evans (24 de abril de 2013). «The Crew That Never Came Home: The Misfortunes of Soyuz 11». Space Safety Magazine. Consultado em 8 de outubro de 2013 
  16. a b c d e f «The Partnership: A History of the Apollo-Soyuz Test Project». NASA. 1974. Consultado em 20 de outubro de 2007. Cópia arquivada em 23 de agosto de 2007   Este artigo incorpora texto desta fonte, que está no domínio público.
  17. «The crew of Soyuz 11». NASA. Consultado em 20 de outubro de 2007   Este artigo incorpora texto desta fonte, que está no domínio público.
  18. «A brief history of space accidents». Jane's Information Group. 2003. Consultado em 20 de outubro de 2007. Cópia arquivada em 5 de outubro de 2007 
  19. «Soyuz 11 CPR». Consultado em 30 de dezembro de 2014 – via YouTube 
  20. «Google Maps – Soyuz 11 Landing Site – Monument Photo closeup». Consultado em 25 de dezembro de 2010 
  21. «О Памятнике Космонавтам» [About The Cosmonaut Monument]. valera-curkan.livejournal.com. 5 de maio de 2012 
  22. «Цпк. В Казахстане Открыт Восстановленный Памятник Экипажу Корабля "Союз-11"» [In Kazakhstan a restored monument was opened in remembrance of the crew of Soyuz-11]. Roscosmos. 7 de julho de 2016 
  23. Svobodnaya Pressa: "They were just 8 seconds short..." Retrieved 23 de dezembro de 2019
  24. Aljman stamps, Soyuz 11 - Cosmonaut Casualties 1972 Retrieved 23 de dezembro de 2019
  25. «Bulgaria: Stamps (Series: Death of Soviet Cosmonauts 1971». colnect.com. Consultado em 23 de dezembro de 2019 

Leitura adicional[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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