Suíço (futebolista)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Suíço
Suíço
Informações pessoais
Nome completo Antônio Manoel de Barros Filho
Data de nasc. 13 de fevereiro de 1899
Local de nasc. Belém (hoje no Acará), Brasil
Falecido em 01 de julho de 1922 (23 anos)
Local da morte Belém, Brasil
Informações profissionais
Posição Half esquerdo, ponta-direita
Clubes profissionais
Anos Clubes Jogos e gol(o)s
1913-1914
1915-1922
Guarany
Paysandu

Antônio Manoel de Barros Filho (Acará, na época pertencente a Belém, 13 de fevereiro de 1899 - Belém, 1 de julho de 1922), mais conhecido como Suíço (Suisso, na ortografia da época [1]), foi um futebolista brasileiro que atuava como half esquerdo ou como ponta-direita. Notabilizou-se por ser o primeiro jogador convocado pela Seleção Brasileira de Futebol, e único pela seleção principal, vindo diretamente de um clube paraense, no caso o Paysandu. A convocação foi para a Copa América de 1921, para a qual não pôde, porém, embarcar.[2][3]

Ele é naturalmente um dos maiores ídolos da equipe alviceleste, que tem em "o clube de Suíço" uma de suas alcunhas. Seus movimentos eram descritos como ligeiros e imprevisíveis. Com ele, o Paysandu venceu pela primeira vez o clássico Re-Pa, na terceira edição do duelo. Suíço também participou dos três primeiros títulos estaduais do clube,[2] em um tricampeonato invicto entre 1920-22, com 100% de aproveitamento no primeiro, invencibilidade no segundo e a maior goleada da história da competição no terceiro, no que foi justamente a última partida do jogador.[4]

Carreira em clubes[editar | editar código-fonte]

"Ajudando" a criar o Paysandu[editar | editar código-fonte]

Filho de Antônio Manoel de Barros e Margarida Fonseca de Barros, recebeu o apelido em função de seus estudos na Suíça, de onde retornou em 1913. Naquele país, começou a praticar futebol. Ao voltar ao Pará, teve como primeiro clube o Guarany.[2] Naquele ano de 1913, o campeonato paraense, quarto torneio estadual mais antigo do Brasil,[3] voltaria a ser disputado pela primeira vez desde a edição de 1910.[5]

Na rodada final, o Guarany segurou empate em 1-1 com o Norte Club, que disputava o título com o Remo. O resultado favoreceu os azulinos, que terminaram campeões,[6] pela primeira vez.[5] Insatisfeitos com supostas irregularidades nessa partida, os membros do Norte Club buscaram anula-la, sem sucesso. Em resposta, o clube foi extinto, com seus dissidentes fundando no ano seguinte o Paysandu.[6] Suíço, inicialmente, continuou no Guarany no estadual de 1914, vencido novamente pelo Remo.[5] Em 1915, foi então convidado a juntar-se ao Paysandu. O convite partiu de Hugo Leão,[2] quem havia liderado o movimento que extinguiu o Norte e fundou a nova equipe.[6]

Primeiros Re-Pas[editar | editar código-fonte]

A estreia de Suíço no Paysandu marcou precisamente a primeira vitória do clube no clássico Re-Pa. Foi no terceiro duelo entre ambos, após o adversário ter vencido o primeiro e haver empate no segundo. Foi em 31 de janeiro de 1915, no estádio da Curuzu, na época ainda pertencente à firma Ferreira & Comandita. O jogo, amistoso, encerrou-se em 2-0, com ambos os gols sendo de autoria de Abel Barros, irmão de Suíço e também estreante no Paysandu naquela ocasião.[2][7] Uma revanche foi imediatamente marcada, para 21 de fevereiro. E Suíço inspirou os colegas a buscarem uma vitória de virada por 2-1, com Abel Barros anotando outro gol,[2] em nova partida amistosa.[7] Suíço havia acabado de completar quinze anos de idade, uma vez que nascera em 13 de fevereiro de 1899.[2]

Porém, o Remo venceria o Estadual seguidamente até 1919.[5] A rivalidade com o Paysandu já nascera forte; o Remo foi campeão paraense de 1916 sem disputar o clássico, pois antes os alvicelestes retiraram-se do campeonato, em protesto por não serem autorizados a inscrever o jogador Jacques, da União Esportiva, com o torneio em andamento, embora a liga houvesse previamente autorizado ações semelhantes de outras equipes.[8] O único clássico naquele ano foi um amistoso combinado exatamente para apaziguar as relações entre os dois clubes, com o Remo ganhando por 3-1.[9]

O Paysandu ficou sem ganhar o duelo entre 1915 e 1919. Suíço não jogou os três clássicos de 1917 (3-3, 1-1 e Remo 3-1),[10] voltando a atuar nos dois de 1918 (Remo 4-2 e 0-0).[11] Em 1917, realizou-se pela primeira vez o Torneio Início, vencido pelo Paysandu,[12] com Suíço entre os titulares.[13]

No primeiro clássico de 1919, o Paysandu foi declarado vencedor após W.O. do Remo quando a partida ainda estava em 1-1. No jogo seguinte, foi a vez dos bicolores se retirarem mais cedo, em protesto à expulsão justamente de Suíço em meio à derrota parcial de 2-1.[14] Aquela foi precisamente a primeira expulsão ocorrida na história do Re-Pa.[15] Naquele ano, venceu novamente o Torneio Início.[2]

Tricampeonato estadual e falecimento[editar | editar código-fonte]

O primeiro título estadual de Suíço e do Paysandu enfim veio no campeonato de 1920, em campanha invicta e com 100% de aproveitamento marcada pelo reforço de Mimi Sodré, jogador e presidente,[16] e também ex-jogador da seleção brasileira.[3] Na campanha, duas vitórias no Re-Pa, por 2-0 e por W.O.[16] O ano de 1920 também foi o do casamento do jogador, com Raymunda Castelo Branco Spindola, em cerimônia civil realizada na sede do Paysandu às 17h30 de 31 de julho.[2]

Suíço e o clube conseguiram novo título invicto, seguido, no campeonato seguinte, em campanha que incluiu goleadas de 12-0 (no Guarany) e de 15-0 (no Panther).[17] Suíço experimentou dois sabores contrastantes naquele ano: a notícia da convocação à seleção brasileira e uma suspensão de três meses, inicialmente arbitrada em seis, após agredir o árbitro em um Re-Pa entre os segundos quadros da dupla. Voltou a tempo de estar no segundo clássico do campeonato, em dezembro.[18]

O tricampeonato seguido veio em 1922, bastante valorizado na época em função de ser no ano do centenário da independência do Brasil, fazendo o Paysandu ser saudado como "campeão do centenário". Suíço, porém, só pôde realizar a primeira partida da campanha, em 11 de junho. Foi justamente na maior goleada da história do campeonato, o 17-0 sobre o Panther.[4] Suíço marcou seis gols nesse jogo.[19] A partida seguinte ocorreu em 16 de julho, no 6-1 sobre o Guarany. Metade da renda foi revertida a Max, o filho de Suíço.[4] O ídolo havia falecido uma quinzena antes, e seu filho tinha pouco mais de um ano.[2]

Suíço foi vítima de uma combinação de malária contraída no Acará com severa infecção intestinal decorrente da ingestão, em uma festa junina na Praça Brasil, de uma unha de caranguejo estragada.[19] Seu cortejo fúnebre atraiu quatro mil pessoas,[2] entre trinta carros e dez bondes, com remadores da regata ocorrida no mesmo dia comparecendo ainda uniformizados. A torcida construiu-lhe um mausoléu no cemitério de Santa Izabel.[19] A antiga sede social do Paysandu chegou a guardar a última camisa utilizada pelo ídolo, recordado também em foto acima do armário. Em terrível coincidência, no ano anterior o arquirrival Remo havia perdido precocemente o ídolo Periçá em uma prova de mergulho. De modos similares, o Paysandu foi apelidado de "clube de Suíço" e o rival, de "clube de Periçá".[1]

Além dos títulos locais, Suíço havia sido reconhecido por vitórias em excursões ao Maranhão e ao Amazonas, bem como em amistosos contra marinheiros de embarcações ingleses (Dartmouth, Glenafric, Virgil) e italianas (Libia) que aportaram em Belém.[2] Dentre as lendas que surgiram em torno de seu nome, uma das mais conhecidas envolve o Re-Pa ocorrido em 15 de julho de 1923. O goleiro bicolor João Moraes afirmava ter ouvido a voz do ex-colega aconselhando-lhe a pular para o canto direito na cobrança de um pênalti para o rival. Segundo essa versão, João teria pulado para esse canto, defendido e imediatamente iniciado contra-ataque a resultar no único gol da partida, de Vadico.[19] O resultado em 1-0 com gol de Vadico em 15 de julho de 1923 de fato aconteceu. E o Remo, descontente com a arbitragem do fundador bicolor Hugo Leão, buscou anular a partida, acabando por abandonar o Estadual de 1923 em novembro após não ter sucesso na medida,[20] cancelando novo Re-Pa.[21]

A convocação à seleção[editar | editar código-fonte]

Suíço não foi o primeiro paraense requisitado pela Seleção Brasileira de Futebol: Abelardo de Lamare fez-se presente inclusive no primeiro jogo do Brasil, contra o Exeter City, em 1914. Outro jogador de origem paraense, Mimi Sodré, também defendeu a seleção na década de 1910 e já havia representado combinados brasileiros que disputaram partidas prévias a 1914. Contudo, ambos jogavam no Botafogo. Suíço tornou-se o primeiro efetivamente chamado diretamente do futebol do Pará.[3]

A fama de maior jogador da Região Norte do Brasil chegou ao Rio de Janeiro e Suíço foi requisitado pela seleção brasileira que disputaria a Copa América de 1921, na Argentina. A Confederação Brasileira de Desportos enviou em 13 de julho de 1921 o seguinte telegrama à liga paraense: "Presidente Liga Paraense - Belém - Peço gentileza informar condições treino jogador Antônio Barros, Suíço, e se pode ficar desde já disposição CBD. Saudações - Macedo Soares - Presidente". A resposta foi "Resposta vosso telegrama condições treino jogador Antônio Barros, Suíço, ótimas. Consultado, promete embarcar. Felicito Confederação aquisição desse elemento cujo sucesso aí será garantido. Saudações Camargo, Presidente".[2]

Em 3 de agosto, chegou novo telegrama da CBD: "Rio, 3 de agosto - Procure Agência Lloyd passagem recursos. Venha urgente próximo vapor. Macedo Soares".[2] A vinda de Suíço foi destacada até mesmo no Jornal do Brasil,[3] na edição de 7 de agosto, com a seguinte publicação, intitulada "A vinda do player 'Suíço'", enviada pelo repórter correspondente em Belém:

Contudo, Suíço não pôde embarcar. O tesoureiro da CBD na época, Luiz de Carvalho Meirelles, apropriou-se indevidamente de 150 contos de réis dos recursos financeiros da entidade, fugindo em seguida, parte de um golpe que rendeu prejuízos de mil contos de réis entre outras vítimas em todo o Rio de Janeiro. A CBD enviou novo telegrama: "Para liga - sobre vinda Suíço aguarde novas ordens pela inobservância tesoureiro ordens recebidas fugindo dinheiro Confederação. Saudações, Deputado Macedo Soares".[2]

Ainda em 1921, Suíço chegou a ser suspenso por seis meses após agredir um árbitro em um Re-Pa. Na época, a convocação à seleção de um jogador de fora do eixo Rio–São Paulo era ainda mais incomum; no ano anterior é que ocorrera a primeira convocação de alguém fora do eixo - Ismael Alvariza, do Brasil de Pelotas campeão gaúcho pela única vez, em 1919.[23] Assim, a suspensão de Suíço repercutiu na imprensa carioca, no seguinte relato publicado em O Paiz:

A convocação de Suíço, bem como o imprevisto contra seu embarque, foram recordados em nota sobre o antigo Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais já no ano de 1944 publicada pelo italiano Tommaso Mazzoni para o jornal carioca Sport Ilustrado, na qual o jogador paraense foi descrito como "magnífico".[3][25]

Posteriormente, dois jogadores puderam defender o Brasil vindos diretamente do futebol paraense: Manoel Maria, ponta-direita da Tuna Luso (1968), e Rosemiro, lateral-direito do Remo (1975-76). Ambos foram convocados pela seleção olímpica. Suíço segue como único chamado pela principal.[3]

Títulos[editar | editar código-fonte]

Paysandu[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. "o footballer Antonio de Barros Filho, conhecido por "Suisso" nos nossos grounds seguirá para o Rio de Janeiro afim de incorporar-se no scratch brasileiro que disputará o próximo campeonato sul-americano, a realizar-se na Argentina. Nas rodas sportivas desta capital commenta-se o facto por ser a primeira vez que o Estado fornece um dos seus melhores elementos para um jogo de tão grande responsabilidade, sendo opinião geral que o mesmo player attestará, nos campos cariocas onde vai ser experimentado, o valor e o progresso da cultura physica paraense", na ortografia da época.
  2. "O foot-baller Suisso, do Paysandu, do Pará, requisitado pela Confederação, está suspenso - Por ter aggredido o referee do match dos segundos quadros, Club do Remo x Paysandu, o conselho da Liga Paraense de Desportos Terrestres, em sessão realizada no dia 6 do mez findo, suspendeu por seis mezes o foot-baller Antonio Barros Filho (Suisso), campeão do Paysandu S.C., que tinha sido requisitado pela Confederação Brasileira de Desportos, para treinar em um dos seus seleccionados", na ortografia da época.

Referências

  1. a b LEAL, Expedito (2013). Leão x Papão. Re-Pa - Rivalidade Gloriosa. Belém: Meta Editorial & Propaganda, pp 52-57
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p DA COSTA, Ferreira (2013). Suíço - Craque foi lembrado para a Seleção Brasileira. Gigantes do futebol paraense. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 284-288
  3. a b c d e f g BRANDÃO, Caio (12 de janeiro de 2016). «Nos 400 anos de Belém, um timaço só com grandes jogadores paraenses que serviram a Seleção». Trivela. Consultado em 25 de julho de 2017 
  4. a b c DA COSTA, Ferreira (2013). 1922 - Paysandu aplica goleada recorde e festeja o Tricampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 33-34
  5. a b c d DIOGO, Julio Bovi (8 de maio de 2016). «Pará State League - List of Champions». RSSSF Brasil. Consultado em 20 de julho de 2017 
  6. a b c DA COSTA, Ferreira (2002). Em 1914, surgiu o clube que se tornaria a grande paixão dos paraenses. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 9-13
  7. a b DA COSTA, Ferreira (2015). 1915. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 14-15
  8. DA COSTA, Ferreira (2013). 1916 - Leão Azul perde um jogo, mas conquista o Tetracampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 23-24
  9. DA COSTA, Ferreira (2015). 1916. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, p. 15
  10. DA COSTA, Ferreira (2015). 1917. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 15-16
  11. DA COSTA, Ferreira (2015). 1918. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, p. 16
  12. DA COSTA, Ferreira (2013). 1917 - Ninguém conseguiu segurar o Remo, que chegou ao pentacampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 25-26
  13. DA COSTA, Ferreira (2002). 1917 - 1º Campeão do Torneio Início. Papão - O Rei do Norte. Belém: Valmik Câmara, pp. 17-18
  14. DA COSTA, Ferreira (2015). 1919. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, p. 17
  15. DA COSTA, Ferreira (2015). Fatos e Personagens do Re-Pa. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 216-220
  16. a b DA COSTA, Ferreira (2013). 1920 - Paysandu é campeão pela 1ª vez e com 100% de aproveitamento. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 29-30
  17. DA COSTA, Ferreira (2013). 1921 - Paysandu massacra adversários e conquista o bicampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 31-32
  18. DA COSTA, Ferreira (2015). 1921. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, pp. 18-19
  19. a b c d CARDOSO, Orlando (mar. 2016). Uma lenda do futebol paraense. Amazônia Viva n. 55, pp. 60-61
  20. DA COSTA, Ferreira (2013). 1923 - Paysandu mostra força e chega ao Tetracampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 35-36
  21. DA COSTA, Ferreira (2015). 1923. Remo x Paysandu - Uma "Guerra" Centenária. Belém: Valmik Câmara, p. 21
  22. «A vinda do player Suíço». Jornal do Brasil n. 334, p. 19. 7 de agosto de 1921. Consultado em 25 de julho de 2017 
  23. STEIN, Leandro (1 de abril de 2018). «Como o Brasil de Pelotas campeão gaúcho ajudou a expandir as fronteiras da Seleção». Trivela. Consultado em 25 de julho de 2017 
  24. «O foot-baller Suíço, do Paysandu, do Pará, requisitado pela Confederação, está suspenso». O Paiz n. 13.437, p. 9. 4 de agosto de 1921. Consultado em 1 de junho de 2018 
  25. MAZZONI, Tomaz (14 de dezembro de 1944). «Como nasceu o campeonato brasileiro de futebol». Sport Ilustrado n. 349, pp. 18-22. Consultado em 25 de julho de 2017