Tapete de Arraiolos

Os tapetes de Arraiolos são tapetes bordados em ponto de Arraiolos, com lã sobre tela de juta ou algodão, tradicionais da vila de Arraiolos, em Portugal. O processo de confecção do tapete de Arraiolos está classificado como Património Imaterial Cultural pelo Estado Português.[1] As referências mais antigas à técnica de fabrico de tapetes de Arraiolos datam de finais do século XV.
História
[editar | editar código]Depois de 1496, por ocasião da explusão da Mouraria de Lisboa por ordem de D. Manuel I, várias famílias mouriscas passam pela vila de Arraiolos em direcção ao Sul de Espanha e Norte de África. Pensa-se que algumas famílias se terão estabelecido na vila sob a aparência de conversão ao Catolicismo. É provavelmente graças à sua influência que a manufactura de tapetes aqui se inicia, e ganha o nome d bordado de Arraiolos. O pastoreio de ovelhas local produz a lã, matéria-prima fundamental para a execução dos tapetes. A partir daqui a técnica ter-se-á desenvolvido até chegar ao que hoje chamamos de Tapete de Arraiolos, com regras e pontos definidos.[2]
Século XVII
[editar | editar código]1.º período
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É no século XVII que surgem as primeiras tapeçarias que recebem a atribuição actual de Tapetes de Arraiolos, o que indica que a manufactura de tapetes estaria já bem estabelecida na vila, dado o seu nível de aperfeiçoamento e mestria. A sua confecção é atribuída a artesãs isoladas, ou do trabalho conventual alentejano. Trata-se, porém, de uma hipótese não confirmada até ao presente, e baseada em inventários de conventos da região. Por este motivo, teoriza-se que talvez fossem parte do espólio de mulheres nobres deixados a estes lugares aquando do seu recolher à vida monástica. Mercadores de alcatifas espanholas e orientais recorrem à experiência dos artesãos de Arraiolos para produzir tapetes com motivos semelhantes aos dos tapetes orientais e Persas, populares na época.[2]
Os tapetes possuíam cores em grande número, para a produção das quais seria necessária uma oficina tintureira. Os contornos eram bordados a ponto de pé de flor sobre serapilheira. Eram cheios a ponto de Arraiolos mais ou menos perfeito. A barra era feita sem cantos, pois estes eram feitos num quadrado. A franja era feita com agulhas de croché. Nesta época executavam-se tapetes «eruditos» com desenhos preconcebidos muito perfeitos e outros «populares», que eram feitos de forma livre.
2.º período
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Os tapetes desta época baseiam-se em tapetes asiáticos (persas, caucasianos, turcos) ou inspirados nos motivos do manuelino. As cores são magníficas, alegres e muito bem combinadas. Os de inspiração persa caracterizam-se por motivos de animais, arabescos muito elegantes presos uns aos outros com sarnentos, medalhões repetitivos, motivos manuelinos com rosetas nós estilizados e cordas. As franjas passaram a ser feitas em pequenos teares. Os contornos começam a deixar de ser em ponto de pé de flor, passando a ser em ponto de arraiolos.
Século XVIII
[editar | editar código]1.º período
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Neste período os tapetes de Arraiolos, embora fossem de carácter erudito e continuassem a ser executados com motivos orientais como anteriormente, deixam de ser feitos em cores alegres passando a cores mortas, inexplicavelmente, pois não se identificam motivos para isso. Os cantos são a direito.
2.º período
[editar | editar código]A indústria caseira dos tapetes de Arraiolos tornou-se florescente dado o elevado número de peças que então foram feitas. Os motivos orientais desapareceram quase por completo cedendo lugar aos motivos florais, vasos com asas, bonecas com penteados altos (como se usavam nesse tempo) e laços à Luís XVI.


3.º período
[editar | editar código]Após o incremento verificado anteriormente começou a decadência desta indústria artesanal.
Desapareceram totalmente os motivos orientais e as composições pitorescas baseadas na fauna e na flora regional e festas folclóricas, para darem lugar a desenhos simples e repetidos, sobre fundos muito pobres e de cores mortas.
Século XIX
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Neste século a indústria dos tapetes de Arraiolos desapareceu quase completamente, embora se tenha executado um restrito número de tapetes feitos por artesãs amadoras isoladas, copiados, em geral, de exemplares feitos nos séculos anteriores. Esta quase extinção deveu-se ao surgimento da era industrial, pois devem ter começado a aparecer tapetes com motivos mais modernos e mais baratos. No entanto os que se manufacturaram eram originais e não menos belos. Tinham poucos desenhos e muito fundo, mas nem por isso deixaram de ser atraentes.
Século XX
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Durante os primeiros três quartos deste século a manufactura dos tapetes de Arraiolos como que renasceu num novo impulso. Diversas artesãs, sobretudo donas de casa mais ilustradas, espalhadas pelo país, executaram cópias de tapetes dos séculos XVII, XVIII e XIX. Estas senhoras iam aos museus tirar os riscos. Por esta razão ficou a ideia de que estes eram elaborados com cores esbatidas uma vez que os tapetes antigos estavam já desbotados pelo direito devido à antiguidade. Pelo avesso ainda tinham as cores originais (ver séc XVII). No último quartel deste século os tapetes tomaram novas expressões menos ortodoxas.
Século XXI
[editar | editar código]Em 2021, a sua confecção entrou para o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial português. [3][1]
Expansão
[editar | editar código]Levada para o Brasil pelos portugueses, onde é muito praticada, esta arte é também conhecida em muitos países da Europa, e em algumas partes do Extremo Oriente.
No Museu Vitória e Alberto de Londres existe um dos mais belos tapetes de Arraiolos do século XVII, que foi comprado por este museu a um fidalgo português no ano de 1895. O referido tapete tem 315 cm de comprimento e 148 cm de largura[4].
Técnica
[editar | editar código]Os tapetes de Arraiolos são feitos sobre uma tela de linho, estopa, juta, linhagem grossa (grossaria), canhamaço ou outros tecidos robustos em que seja possível contar fios facilmente. Por esse motivo, esta técnica pertence a um grupo de bordados chamado de processo de fios contados. Este tecido borda-se com lã grossa, de fabrico apropriado para tapetes, utilizando um ponto cruzado oblíquo, que cobre toda a superfície tecida, resultando numa superfície atapetada. Através do uso da cor, representam-se motivos e ornamentos variados que constituem a decoração do tapete.[2]
Organização do tapete
[editar | editar código]A estrutura do tapete de Arraiolos é inspirada pelos tapetes de origem persa, com dois eixos de simetria, longitudinal e transversal, e inclui as seguintes partes:
- Barra: parte exterior que faz o enquadramento do campo, com motivos e ornatos diferentes dos que são utilizados neste;
- Campo: parte do tapete que está dentro da barra
- Centro ou Ornato central (opcional): motivo central ao tapete, normalmente um ou mais medalhões centrais, mais complexos do que os outros motivos do campo.
O campo e a barra têm para além de motivos diferentes, cores de fundo diferentes. O centro também tem uma cor de fundo diferente, quando existe.
As primeiras composições de tapetes de Arraiolos terão utilizado elementos hispano-mouriscos, espanhóis ou populares portugueses, que se podem misturar entre si, mas sempre segundo a estrutura persa. Na segunda metade do século XVIII, estes motivos são gradualmente substituídos por ornatos de origem europeia, e no primeiro terço do século XIX já não se usam motivos persas nos tapetes, perdurando apenas a estrutura compositiva persa.[2]
Referências
- 1 2 «Matriz PCI - Processo de Confeção do Tapete de Arraiolos». www.matrizpci.dgpc.pt. Consultado em 15 de setembro de 2021. Cópia arquivada em 30 de julho de 2023
- 1 2 3 4 Oliveira, F. Baptista de (1983). História e Técnica dos Tapetes de Arraiolos 4ª ed. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 417 páginas
- ↑ Informação, Sul (15 de setembro de 2021). «Confeção do Tapete de Arraiolos já está no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial». Sul Informação. Consultado em 15 de setembro de 2021. Cópia arquivada em 28 de fevereiro de 2024
- ↑ Baptista de Oliveira, Fernando (1992). "Tapeçarias Decorativas de Arraiolos", página 50.
