Tarântula
Theraphosidae
tarântulas, caranguejeiras | |||||||||||
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Theraphosidae (grafia portuguesa: Terafosídeos[1]) é uma família de aranhas, que inclui as espécies conhecidas pelos nomes comuns de tarântulas (português europeu) ou caranguejeiras (português brasileiro) (não confundir com a aranha-caranguejeira[2], espécie de aracnídeo distinta das caranguejeiras/tarântulas, que pertence à família dos Tomisídeos), que se caracterizam por terem pernas longas com duas garras na ponta e corpo geralmente robusto coberto por pelos. As tarântulas habitam as regiões temperadas e tropicais das Américas, Ásia, África, Oceania e Oriente Médio. Enquanto crescem, têm uma fase de troca de pele chamada ecdise.
Em espécies do Novo Mundo, especialmente das subfamílias Theraphosinae e Aviculariinae, uma importante defesa são pêlos urticantes localizados no abdômen, que podem ser lançados ou esfregados contra predadores, causando irritação na pele e mucosas.[3] Apesar do tamanho e aspecto sinistro, as tarântulas não são perigosas para a espécie humana, uma vez que não produzem toxinas nocivas aos humanos em quantidades significativas, por isso são eventualmente criadas como animais de estimação.
Em média atingem de 15 cm a 25 cm de comprimento com as pernas estendidas, mas existem espécies que podem chegar até 30 cm, como é o caso da tarântula-gigante-comedora-de-pássaros (Theraphosa blondi) da América do Sul.
Etimologia
[editar | editar código]A aranha originalmente chamada de "tarântula" foi a espécie Lycosa tarantula, uma aranha lobo da família Lycosidae nativa da Europa mediterrânica. O nome deriva da cidade portuária do sul da Itália, Tarento, região onde estas aranhas são facilmente encontradas e que, posteriormente, foi aplicado a quase todas as espécies de aranhas de grande porte, especialmente a família das Mygalomorphae, das regiões mais quentes da América e as theraphosidae. Durante muito tempo acreditou-se, no sul da Europa, que uma pessoa picada pela tarântula seria tomada de extrema melancolia e poderia mesmo morrer se não se entregasse a uma dança frenética, a tarantela, capaz de eliminar o veneno pela transpiração.[4] Tanto o nome do agente causador do suposto distúrbio quanto o da dança derivam do topônimo da cidade italiana. O termo vem do latim tarento, de origem grega Taras (do genitivo tarantos, provavelmente a partir da ilíria darantos, que significa "carvalho"), personagem da mitologia grega fundador da colonia grega de Taras (Tarentum, a moderna cidade de Taranto).[5][6]
Nomenclatura e abrangência
[editar | editar código]O termo "tarântula" em português, assim como "caranguejeira", refere-se a toda a família Theraphosidae, que possui distribuição mundial. Embora popularmente o termo seja mais associado às espécies americanas (especialmente da subfamília Theraphosinae), todas as espécies da família — sejam americanas, africanas, asiáticas ou da Oceania — são taxonomicamente consideradas tarântulas ou caranguejeiras.[7]
Subfamílias
[editar | editar código]A família Theraphosidae está dividida em 12 subfamílias reconhecidas, com distribuição em diversos continentes.[8][9]
Novo Mundo (Américas):
- Theraphosinae — a maior subfamília (~400-500 espécies), caracterizada pela presença de pêlos urticantes no abdômen, distribuída desde o sudoeste dos Estados Unidos até o norte da Argentina
- Aviculariinae — espécies principalmente arborícolas, também com pêlos urticantes, encontradas na América Central e do Sul
- Acanthopelminae — pequeno grupo restrito ao sudoeste dos Estados Unidos
- Selenogyrinae — América Central e do Sul
Velho Mundo (África, Ásia, Oceania):
- Selenocosmiinae — maior subfamília do Velho Mundo, distribuída pela Ásia, Austrália e Oceania
- Ornithoctoninae — Sudeste Asiático, incluindo espécies conhecidas pela coloração vibrante
- Poecilotheriinae — endêmica da Índia e Sri Lanka, caracterizada por espécies arborícolas
- Thrigmopoeinae — Índia
- Harpactirinae — África Subsaariana
- Eumenophorinae — África e Oriente Médio
- Stromatopelminae — África Ocidental e Central
- Ischnocolinae — distribuição ampla, incluindo África, Ásia e algumas regiões das Américas
As subfamílias do Novo Mundo geralmente possuem pêlos urticantes como mecanismo de defesa, enquanto espécies do Velho Mundo frequentemente utilizam estridulação (produção de sons) e podem apresentar veneno mais potente.[3][10]
Características
[editar | editar código]Morfologia geral
[editar | editar código]As tarântulas são aranhas de grande porte, caracterizadas por corpo robusto coberto por pelos, com quelíceras robustas voltadas para baixo (característica das Mygalomorphae) e pernas providas de duas garras na extremidade. A maioria das espécies possui oito olhos dispostos em grupo compacto na região frontal da carapaça, embora algumas espécies tenham número reduzido de olhos ou olhos vestigiais.
Pêlos urticantes
[editar | editar código]Espécies das subfamílias Theraphosinae e Aviculariinae, encontradas exclusivamente no Novo Mundo, possuem pêlos urticantes especializados no abdômen. Estes pelos podem ser liberados esfregando as pernas traseiras contra o abdômen, sendo lançados no ar em direção ao predador, ou podem ser transferidos diretamente através de contato.[3]
Os pêlos urticantes causam irritação em pele e mucosas, sendo particularmente eficazes contra mamíferos predadores. Existem sete tipos morfológicos diferentes de pêlos urticantes documentados em tarântulas do Novo Mundo (tipos I a VII), cada um com características morfológicas específicas e distribuição em diferentes gêneros.[3] As tarântulas também incorporam esses pelos em seus casulos de ovos e nas paredes de suas tocas como proteção adicional.[8]
Estridulação
[editar | editar código]Muitas espécies de tarântulas do Velho Mundo, especialmente das subfamílias asiáticas e africanas, são capazes de produzir sons audíveis através de estridulação — a fricção de estruturas corporais especializadas, como cerdas modificadas nas quelíceras, pedipalpos ou pernas. Este comportamento é utilizado principalmente como defesa, produzindo sons de advertência quando a aranha se sente ameaçada.[10]
Ciclo de vida
[editar | editar código]As tarântulas têm um ciclo de vida longo e levam de 2 a 5 anos para atingir a maturidade sexual. Os machos morrem normalmente após o acasalamento, alcançando 5 a 7 anos de vida. Antes de se tornarem adultas, as tarântulas têm de comer diariamente, exceto no período de sua troca de pele, quando há um jejum de, em média, dez dias antes e de sete dias depois. Quando já são adultas podem passar por longos períodos sem comer. Foram registrados casos de longevidade de fêmeas em cativeiro com até 25 anos.
Hábitos
[editar | editar código]As tarântulas são animais solitários e noctívagos. Alimentam-se de pequenos animais, que nas espécies maiores podem incluir pequenos pássaros, roedores ou anfíbios. Todas as espécies de tarântulas apresentam canibalismo.

Toca
[editar | editar código]A maioria das Tarântulas não se afasta de sua toca, nem mesmo para se alimentar, pois sentem a presença das presas pela vibração do solo. O macho normalmente é quem faz as viagens mais longas para encontrar as fêmeas.
As tocas são normalmente subterrâneas, geralmente aproveitadas de outras aranhas ou roedores. São forradas com sua teia formando uma seda, o que arrefece o esconderijo. Geralmente ficam próximas a raízes de árvores e pedras, e podem chegar até 1 metro de profundidade.
Existem espécies que também são arbóreas — não necessitam ir ao solo durante toda sua vida, e fazem tocas em buracos nas árvores.
Reprodução
[editar | editar código]O acasalamento das tarântulas é como o da maioria das aranhas. Uma diferença é que o macho tem ganchos para prender as presas das fêmeas no ato sexual. Os machos têm seus pedipalpos modificados para a cópula. Normalmente o macho foge logo após o ato, antes que a fêmea recobre seu apetite, e morre poucos meses depois, devido a seu curto ciclo de vida. A fêmea armazena o esperma vivo num órgão especial, até chegar a época de botar os ovos.
As fêmeas depositam entre 50 a 200 ovos num saco de seda que incubam por cerca de 6 semanas. Os ovos são bem grandes, e o saco pode chegar a ficar do tamanho de um limão. Os filhotes já nascem com um bom tamanho. Após o nascimento as pequenas tarântulas não recebem cuidados parentais, ficam pouco tempo na toca e logo depois se dispersam.
Preservação
[editar | editar código]Diversas espécies de tarântulas enfrentam ameaças à sua sobrevivência, principalmente devido à destruição de habitat, coleta para o comércio de animais de estimação e atropelamentos em áreas onde ocorrem migrações reprodutivas de machos.[11]
A família Theraphosidae está listada no Apêndice II da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas) desde 1994, com todas as espécies do gênero Brachypelma incluídas devido ao risco de extinção causado pelo comércio excessivo. A espécie Brachypelma smithi foi a primeira aranha a ser listada na CITES, em 1985.[11] Entre 2007 e 2016, aproximadamente 40.000 espécimes de tarântulas foram comercializados legalmente sob regulamentação da CITES, mas o tráfico ilegal permanece significativo, com estimativas de cerca de 3.000 espécimes contrabandeados anualmente antes de 2017.[11]
Espécies particularmente ameaçadas incluem várias do gênero Brachypelma do México, que sofrem com coleta excessiva e perda de habitat devido ao desmatamento e expansão agrícola. Em contrapartida, tarântulas estão entre as aranhas mais criadas em cativeiro, com programas de reprodução contribuindo para reduzir a pressão sobre populações selvagens.[11]
Exemplo de espécies de tarântula
[editar | editar código]- Theraphosa blondi (Aranha-golias-comedora-de-pássaros)
- Grammostola rosea (Caranguejeira-rosa-chilena)
- Lasiodora parahybana (Caranguejeira-rosa-salmão-brasileira)
- Selenocosmia crassipes (Caranguejeira-do-oriente)
- Brachypelma smithi (Caranguejeira-de-joelho-vermelho-mexicana)
- Avicularia avicularia (Caranguejeira-de-dedos-rosa)
- Acanthoscurria geniculata
- Ephebopus murinus
- Ceratogyrus bechuanicus
- Pterinochilus murinus
- Avicularia versicolor
- Annandaliella travancorica
- Aphonopelma hentzi
- Aphonopelma clarki
- Aphonopelma iodius
- Avicularia aurantiaca
- Avicularia minatrix
- Avicularia metallica
- Chaetopelma gracile
- Brachypelma boehmei
- Citharischius crawshayi
- Grammostola pulchra
- Haplopelma albostriatum
- Haplopelma lividum
- Holothele incei
- Lasiodora difficilis
- Lasiodorides striatus
- Megaphobema robustum
- Pamphobeteus nigricolor
- Phormictopus cancerides
- Poecilotheria regalis
- Poecilotheria formosa
- Psalmopoeus irminia
- Psalmopoeus cambridgei
- Xenesthis immanis
- Typhochlaena costae
Referências
- ↑ S.A, Priberam Informática. «terafosídeos». Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Infopédia. «aranha-caranguejeira | Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Dicionários infopédia da Porto Editora. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ a b c d Bertani, Rogerio; Guadanucci, Jose Paulo L. (2013). «Urticating setae of tarantulas (Araneae: Theraphosidae): morphology and revision». Zoologia. 30 (3): 292-306. doi:10.1590/S1984-46702013000300006. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Fabre, Jean-Henri; Translated by Alexander Teixeira de Mattos; The Life of the spider; Pub: Dodd, Mead, New York, 1916. Download from: http://archive.org/details/lifespider00fabrgoog
- ↑ Room, Adrian (2006). Placenames of the World. 2nd. North Carolina, USA: McFarland&Company, Inc. 369 páginas
- ↑ Colman, Andrew (2001). Dictionary of Psycology. 1st. Oxford New York: Oxford University Press Inc. 754 páginas
- ↑ «Family: Theraphosidae Thorell, 1869». World Spider Catalog. Natural History Museum Bern. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ a b Foley, Iris C.; Kieran, Tim J.; Congdon, Victoria C.; Nachtrieb, Jacob G.; Townsend, Jeffrey P.; Starrett, James (2019). «Tarantula phylogenomics: A robust phylogeny of deep theraphosid clades inferred from transcriptome data sheds light on the prickly issue of urticating setae evolution». Molecular Phylogenetics and Evolution. 140. 106573 páginas. doi:10.1016/j.ympev.2019.106573. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Lüddecke, Tharina; Krehenwinkel, Henrik; Canning, Grace; Glaw, Frank; Longhorn, Stuart J.; Tänzler, Rene; Wendt, Ingo; Vences, Miguel (2018). «Phylogeny, evolution and morphology of the megadiverse Mygalomorph spider genus Megaphobema (Araneae: Theraphosidae) including the description of five new species». ZooKeys. 789: 119-172. doi:10.3897/zookeys.789.27713
- ↑ a b Marshall, Samuel D.; Thoms, Eric M.; Uetz, George W. (1995). «Observations on the defensive behavior of some Old World tarantulas (Araneae: Theraphosidae)». Bulletin of the British Arachnological Society. 10 (2): 58-65
- ↑ a b c d Mendoza, Jorge I.; Francke, Oscar F. (2020). «Species conservation profiles of tarantula spiders (Araneae: Theraphosidae) listed on CITES». Biodiversity Data Journal. 8: e39679. doi:10.3897/BDJ.8.e39679. Consultado em 17 de janeiro de 2026