Tecnocracia

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Tecnocracia é o modelo de governabilidade funcional, no qual há aplicação das ciências no ciclo de todas as cadeias produtivas e da organização social tendo em vista superar a fase predatória do desenvolvimento humano.

Para Thorstein Veblen (autor de "Os engenheiros e o sistema de preços") a fase predatória é condicionada a determinados comportamentos que expressam irracionalidades beligerantes e uma atitude de bestial sob a forma de simulacros. Segundo Veblen, um exemplo concreto da manifestação da cultura predatória é a tourada.

A Teoria da Classe Ociosa (Veblen, 1924)

No campo da economia isso significa que os conceitos que reafirmam a relação "touro-toureiro" devem ser superados por outros mais racionais. O documento "Dois Tratados sobre o Governo" de 1689 de John Locke oculta a figura do "toureiro" pela expressão "a mão invisível sobre a economia" e sublinha a figura do "touro" tratado como "raça de trabalhadores". Para superar a fase predatória do desenvolvimento humano esses dois conceitos teriam que ser superados. E o que os tecnocratas propõe para substituir esses dois clássicos conceitos?

Em primeiro lugar as duas premissas da Tecnocracia são: 1) Os fenômenos sociais são mensuráveis fisicamente por métodos quantitativos energéticos, termodinâmicos, biofísicos, etc.. 2) A tecno(logia) é a principal causa de mudança social; A primeira premissa pode ser confirmada, por exemplo, em leituras disponíveis pelo site: http://socialphysics.media.mit.edu/

São sete elementos que definem a Tecnocracia: 1.Economia biofísica e um sistema de contabilidade energética; 2.Mobilização total para apoiar o design de um Tecnado em um determinado Continente; 3.Auto-suficiência de energia do Tecnado; 4.Lideranças e equipes especializadas focadas no planejamento social e familiar; 5.Controle total da produção e consumo em termos de saúde, desenvolvimento pessoal e qualidade dos ambientes (naturais, sociais e culturais); 6.Governança funcional não-burocrática baseada em sistema de apoio a decisão por via do método científico e dados; 7.Substituição de dispositivos legais meramente enunciados por mudanças efetivas tecnológicas para proteção e bem-estar das pessoas;

Neste contexto o Tecnado contaria com uma Indexação de Recursos Naturais e não apenas na lógica artificial da economia moderna. Assim seria preciso implementar um Inventário 24 h dos recursos naturais e derivados e regular o mercado com base nos recursos disponíveis no meio-ambiente por via do setor científico e tecnológico. Um recurso que pode ser apoio ao Inventário já está disponível no site: http://www.eoearth.org/

Dentre os esforços para que um Continente possa ser um Tecnado encontra-se: a necessidade de constante capacitação técnica, o planejamento rigoroso para o desenvolvimento, o cumprimento rigoroso de metas, a industrialização, a geração de empregos para cargos altamente especializados, aplicação de inteligência artificial em tarefas/empregos, a criação de infraestrutura a partir da economia inovadora, o aumento na qualidade da Educação Fundamental, Média e Superior com produção de Ciência & Tecnologia. A educação precisa, por sua vez, de levar em conta as necessidades objetivas das pessoas, ensinar lógica (ensinar o indivíduo a pensar com autonomia), objetividade e racionalidade.

A composição do Tecnado Continental está vinculada aos perfis mais notáveis da sociedade. Os poderes legislativos e executivos teriam quadros selecionados com base no perfil psicológico, na experiência, no notório saber e por contribuições efetivas. Poderíamos pensar que a classe política seria a primeira a resistir ao regime tecnocrata, porque as indicações políticas seguem outra lógica.

Albert Einstein com outros engenheiros e cientistas com em 1921 (Aliança Técnica)

Albert Einstein escreveu: “Os politiqueiros ambiciosos e sem escrúpulos, por suas intrigas, são os responsáveis por esse fracasso, mas também, por toda parte, em todos os países, a indiferença e a covardia. Se não mudarmos, pesará sobre nós a responsabilidade do aniquilamento da soberba herança de nossos antepassados. [...] O capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competência entre os capitalistas, e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho alentam a formação de unidades maiores de produção em detrimento das menores. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado cujo enorme poder não pode ser controlado efetivamente nem sequer por uma sociedade política democraticamente

Carlos Chagas e médicos do Instituto Oswaldo Cruz, em recepção a Albert Einstein

organizada. Isto é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados pelos partidos políticos, em grande medida financiados ou de alguma maneira influenciados por capitalistas privados que, por todos efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura.”

Nesse contexto poderíamos perguntar:

Quem deixaria um profissional sem credenciais operar seu coração sem nenhuma formação, preparo ou experiência?

Por que motivo permitimos que operem os órgãos fundamentais da nossa vida pública sem os requisitos necessários?

Assim os tecnocratas precisam defender isonomia: Todos aqueles que pleiteiam cargos políticos devem provar suas aptidões técnicas para a função - mediante exame público prático e teórico como os demais servidores da nação!

Outro desafio importante ao avanço da Tecnocracia é a burocracia. Albert Einstein escreveu: "Uma economia planejada, que ajuste a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho entre todos aptos a trabalhar e garantiria os meios de vida de todos, homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover suas próprias habilidades inatas, intentaria desenvolver em um sentido de responsabilidade por seu próximo, em lugar da glorificação do poder e do êxito em nossa sociedade atual.[...]“como é possível, considerando a muito abarcadora centralização do poder, conseguir que a burocracia não seja todo poderosa e arrogante? Como podem proteger os direitos do indivíduo e mediante ele assegurar um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”

Entretanto nada será mais difícil de superar do que a desregulamentação do capital conjugado com o mal uso das tecnologias, o uso dos computadores para desagregar, para desunir e para alienar - e enfim para destruir os projetos coletivos: "...Muito antes da Era da Informática, nos Estados Unidos da década de 1920, um profeta da tecnocracia, Howard Scott, defendera já que o crescimento inexorável da produtividade ultrapassaria muito as oportunidades de emprego e de investimento e provocaria o desemprego crescente.[...]"O Sistema Toyotista e a tecnologia eletrônica que o sustenta fazem com que as economias de escala cresçam sem que para isto seja necessário proceder à concentração física dos trabalhadores."[...]"Além disso, a tecnologia eletrônica conseguiu um feito inédito na história da humanidade, a fusão entre o sistema de fiscalização e o processo de trabalho."[...]" a fragmentação da força de trabalho decorrente da subcontratação e da franchising assume ainda maiores proporções na terceirização."[...]"Para coroar este processo, os ideólogos do capitalismo deram asas à imaginação e anunciaram a utopia última – o trabalho seria prosseguido no lar doce lar através de meios eletrônicos, em condições de máxima dispersão, e a gestão localizar-se-ia nos escritórios dos administradores graças à informática, em condições de máxima centralização."[...] (Professor João Bernardo)

Modelo de Tecnado desenvolvido no contexto da Tecnocracia Norte-Americana da década de 1920

História do termo[editar | editar código-fonte]

O termo tecnocracia deriva das palavras gregas tekhne, que pode significar técnica, destreza, habilidade ou aptidão. Ao passo que kratos, designa governo. William Henry Smith, um engenheiro californiano, é apontado como o inventor do termo tecnocracia em 1919. Para o engenheiro a Tecnocracia seguia "the rule of the people made effective through the agency of their servants, the scientists and engineers", embora a palavra já tivesse sido usada várias vezes antes.[1] [2]

O termo tecnocracia era usado originalmente para designar a aplicação do método científico na resolução de problemas sociais, em contraste com a tradicional abordagem política. No entanto, a palavra tecnocracia tem sido usada popularmente para indicar qualquer tipo de administração feito por especialistas de qualquer campo (não apenas da ciência física) e em diversos contextos.[3]

As aptidões técnicas e de liderança seriam selecionadas através de processos burocráticos, assentes no desempenho e conhecimentos especializados, ao invés de uma eleição "democrática representativa" cujo dispositivo é apenas o convencimento pelo marketing ao invés da competência.

História do projeto de governabilidade[editar | editar código-fonte]

O pensamento tecnocrata se origina nas raízes da Escola de Pitágoras cujo projeto era implantar “o Governo dos Sábios”. Pitágoras - mais de 2500 anos atrás - pode ser considerado “o primeiro pensador tecnocrata” que lutou pela causa do saber contra a tirania sendo perseguido e condenado à morte. Entretanto, os seus discípulos disseminaram suas ideias que permanecem atuais até à atualidade. Para os pitagóricos a atividade científica seria a forma mais elevada de purificação da alma.

Na modernidade, o Conde de Saint-Simon foi quem concebeu a Tecnocracia em 1814. Segundo ele: “a economia não é uma ciência; é meramente uma política disfarçada". É preciso destacar que Mario Bunge, em "O socialismo existiu alguma vez? E tem futuro?", pontua claramente: "O revolucionário francês Henri de Saint Simon, o conde que renunciou a seu título de nobreza, não foi socialista, mas foi o primeiro tecnocrata. Com efeito, defendeu a propriedade privada e limitou-se a planejar a organização do trabalho e da economia, pelo que teve discípulos como o empresário Péreire, rivais dos Rothschild, e o famoso engenheiro Ferdinand de Lesseps, famoso pelo Canal de Suez. Por isso, é de se estranhar o porquê Engels chamou-o de socialista."

No início do século XX a Aliança Técnica, composta por diversos cientistas dentre os quais se encontrava Albert Einstein, formou as bases para a Tecnocracia no contexto da década de 1920.

A Tecnocracia americana surgiu nesse contexto e sua proposta pode ser resumida nas seguintes frases: "No futuro não muito distante haverá um colapso do "Sistema de Preços" todos serão afetados pelos horrores do caos. Seria melhor se a estrutura para a Tecnocracia já estivesse construída antes da crise porque quando chegar a hora de agir em grande escala de acordo com a emergência devemos estar preparados e depois nos acostumamos com o novo modo de ser das coisas. Devemos nos preparar de antemão para isso ou assumirmos as consequências..." (Baseado em: A Technological Social System, Celeste and Howard Smith. 1991. The Northwest Technocrat, 2nd quarter 1991, No. 323.)

Já existiu alguma experiência tecnocrática na história? Sim: no Japão. De acordo com o Doutor Murillo Cruz “a democracia industrial seria a possibilidade da construção de uma ordem sócio econômica ―intermediária‖, entre as alternativas de uma plutocracia capitalista selvagem (como nos EUA), ou uma ditadura do proletariado. Aliás, tal ―ordem intermediária de organização planejada e eficiente do sistema industrial moderno, inclusive sob o comando de uma elite técnica, foi efetivamente implantada e relativamente bem sucedida, até hoje inclusive, na organização da economia japonesa após a segunda guerra mundial; uma organização sócio econômica industrial tipicamente tecnocrática. Parece que esta experiência tecnocrática vebleniana, aplicada no Japão moderno, não conta, para inúmeros críticos de Veblen!” Para saber mais sobre a obra de Veblen é possível encontrar informações de alta qualidade no seguinte site: http://www.veblen-institute.org/

Uma das frases que inspira tecnocratas foi dita por Albert Einstein: "Os cientistas têm dado aos homens poderes consideráveis​​. Os políticos se aproveitaram deles. O mundo deve escolher entre a desolação indizível de mecanização para o lucro ou conquista, ou a juventude vigorosa da ciência e da técnica para atender às necessidades sociais de uma nova civilização".

Usos da imprensa atual do termo[editar | editar código-fonte]

Após a crise das dívidas soberanas, o termo tecnocrata foi novamente usado na imprensa europeia. Estes, tais como os primeiros-ministros de Itália (Mario Monti) e da Grécia (Lucas Papademos), foram vistos por uns como solucionadores de problemas que os políticos não conseguiram resolver e, por outros, como pessoas catapultadas para o topo da política, a fim de pôr em prática as ordens dos seus "diretores" na Alemanha e na França,[4] tendo por conseguinte a palavra tecnocrata, adquirido uma conotação pejorativa.

A tecnocracia no Brasil[editar | editar código-fonte]

A identidade brasileira se relaciona com sua expressão máxima, considerando que na bandeira nacional existe o lema: "Ordem e Progresso". Este lema original é "O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim". Perguntamos: O que houve com o amor na bandeira brasileira? Esse lema foi criado por Auguste Comte que foi secretário e discípulo de Saint-Simon, e por sua vez influencio. A proposta de Comte era a fundação de uma nova civilização pautada na humanidade unida sob a Sociocracia: considerada aqui um tipo de tecnocracia.

O idealizador da Tecnocracia no Brasil foi Abílio de Nequete que fundou o Partido Tecnocrata em 1926, sob a máxima. “técnicos de todos os países, uni-vos”.

Entretanto, houve avanços em relação a infraestrutura para tecnocracia durante o Estado Novo quanto houve a industrialização do país e as conquistas dos direitos trabalhistas. O então presidente Getúlio Vargas discursou em 4-5-1931: “A época é das assembleias especializadas, dos conselhos técnicos integrados à administração. O Estado puramente político, no sentido antigo do termo, podemos considerá-lo, atualmente, entidade amorfa, que, aos poucos, vai perdendo o valor e a significação".

Depois do fim da Ditadura Militar houve iniciativas de partidos com traços tecnocratas de Getúlio Vargas tendo em vista consolidar o Brasil como grande potência:

a) PRONA (Partido de Reedificação da Ordem Nacional) de extrema-direita: foi extinto depois da morte de seu líder Enéas Ferreira Carneiro;

b) PDT (Partido Democrático Trabalhista) de centro-esquerda que foi enfraquecido e perdeu as características originais depois da morte de seu líder Leonel Brizola e atualmente passa por um processo de reconstrução;

c) PPL (Partido Pátria Livre) de centro-esquerda é novo, porém nasce a partir da antiga corrente do MR-8 e "se orienta pelos princípios e pela teoria do socialismo científico".

Centro de Pesquisa do Projeto Vênus nos Estados Unidos

Há também iniciativas de movimentos iniciados por civis como o Projeto Vênus do Brasil que segue a linha do Venus Project (fundado pelo ex-tecnocrata e designer Jacques Fresco). Esse projeto, assim como a Tecnocracia americana não possui um aspecto político (partidário) e trata-se de uma iniciativa civil que nasceu no Ceará.

Referências

  1. History and Purpose of Technocracy by Howard Scott[ligação inativa]
  2. Barry Jones (1995, fourth edition). Sleepers, Wake! Technology and the Future of Work, Oxford University Press, p. 214.
  3. Who Is A Technocrat? - Wilton Ivie - (1953)[ligação inativa]
  4. «Em defesa dos tecnocratas». Consultado em 19 de Janeiro de 2012. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Tecnocracia nos Estados Unidos - Marion King Hubbert, Howard Scott, Technocracy Inc., Technocracy Study Course, New York, 1st Edition, 1934; 5th Edition, 1940, 4th printing, July 1945.

- Tecnocracia no Canadá [1] - Tecnocracia na Europa [2] - Tecnocracia no Brasil [3]

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