Terceira Guerra Púnica

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Terceira Guerra Púnica
Parte das Guerras Púnicas
Western Mediterranean territory, 150 BC.svg
O Mediterrâneo antes do início da Terceira Guerra Púnica em 149 a.C.. Roma está em vermelho, Cartago em cinza e Numídia em roxo.
Data 149 a.C. até 146 a.C.
Local Cartago
Desfecho Vitória romana
  • Destruição de Cartago
Beligerantes
Roma Cartago
Comandantes
Cipião Emiliano
Mânio Manílio
Lúcio Márcio Censorino
Lúcio Calpúrnio Pisão
Asdrúbal
Forças
36 a 46 mil soldados
4 mil cavaleiros
c. 20 mil soldados
Muitos civis armados
Baixas
Desconhecidas Até 750 mil mortos
50 mil escravizados

A Terceira Guerra Púnica foi a terceira e última de três guerras travadas entre Roma e Cartago. As duas lutaram por supremacia durante quatro anos e o confronto ocorreu inteiramente dentro do território cartaginês no Norte da África. A Segunda Guerra Púnica tinha acabado em 201 a.C. e um dos termos de paz proibia Cartago de guerrear sem a permissão de Roma. O rei númida Massinissa, aliado romano, explorou essa proibição e atacou o território cartaginês repetidas vezes com impunidade. Cartago enviou em 151 a.C. um exército sob Asdrúbal contra Massinissa apesar dos termos do tratado. Esta campanha terminou em desastre na Batalha de Oroscopa, com o exército cartaginês se rendendo. Facções anti-cartaginesas em Roma usaram essa ação ilícita como o pretexto para o envio de uma expedição punitiva.

Um grande exército romano desembarcou em Útica mais tarde em 149 a.C.. Os cartagineses esperavam aplacar os romanos, porém estes seguiram para cercar a cidade de Cartago apesar dos cartagineses terem rendido todas as suas armas. A campanha romana sofreu vários reveses no mesmo ano, aliviados apenas por Cipião Emiliano, um oficial de médio escalão que se distinguiu várias vezes. Um novo comandante assumiu em 148 a.C., mas os rumos romanos continuaram igualmente ruins. Cipião recebeu um apoio popular tão grande durante as eleições consulares de 147 a.C. que as restrições de idade foram ignoradas para que ele pudesse ser nomeado cônsul e comandante na África.

Cipião logo aumentou a pressão no cerco. Os cartagineses reconstruíram parcialmente sua frota e surpreenderam os romanos em uma surtida; o confronto foi inconclusivo, mas os cartagineses perderam muitos navios na retirada. Os romanos então construíram uma grande estrutura na área do porto mais alta que as muralhas da cidade. Cipião liderou uma força que invadiu o acampamento do exército cartaginês e forçou a maioria das cidades próximas a se renderem. O ataque final ocorreu em 146 a.C., com os romanos sistematicamente destruindo Cartago e matando seus habitantes no decorrer de seis dias; os sobreviventes foram vendidos como escravos. Os territórios cartagineses conquistados se tornaram a província da África Proconsular. Cartago foi reconstruída como uma cidade romana um século depois.

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

A principal fonte para quase todos os aspectos das Guerras Púnicas[nota 1] é o historiador Políbio, um grego originalmente enviado a Roma em 167 a.C. como refém.[2] Seus trabalhos incluem um agora quase perdido manual sobre táticas militares,[3] porém ele é mais conhecido por Histórias, escrito em algum momento após 146 a.C..[4][5] Políbio acompanhou o general romano Cipião Emiliano, seu amigo e patrono, durante suas campanhas na Terceira Guerra Púnica;[6][7] isto faz com que o normalmente confiável Políbio reconte as ações de Cipião sob uma luz favorável.[8][9][10] Além disso, partes significativas de Histórias sobre a Terceira Guerra Púnica se perderam.[8][11]

O relato do analista romano Lívio do século I a.C., que muito se baseou em Políbio, também é usado por historiadores modernos sobre as Guerras Púnicas,[12] mas tudo que sobreviveu de seus relatos dos eventos após 167 a.C. é uma lista de conteúdos.[13][14] Outros relatos antigos sobre a Terceira Guerra Púnica ou seus participantes que também já foram perdidos são aqueles escritos por Plutarco, Cássio Dião[15] e o grego Diodoro Sículo.[16] Historiadores modernos também usam o relato do grego Apiano do século II a.C..[17][18] O historiador moderno Bernard Mineo afirmou que este "é o único relato completo e contínuo desta guerra".[15] Acredita-se que Apiano também muito se baseou no trabalho de Políbio, porém vários problemas foram identificados.[10][19] Estas questões significam que, das três Guerras Púnicas, a terceira é aquela do qual o mínimo é conhecido de forma confiável.[20] Outras fontes incluem moedas, inscrições, evidências arqueológicas e evidências empíricas vindas de reconstruções.[21]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Roma era a potência dominante na região do Mar Mediterrâneo em meados do século II a.C.,[22] enquanto Cartago era uma grande cidade-Estado localizada no Norte da África.[23] As duas lutaram durante 23 anos na Primeira Guerra Púnica entre 264 e 241 a.C. e depois por dezessete anos na Segunda Guerra Púnica de 218 a 201 a.C.. Ambas as guerras terminaram em vitórias romanas, com a segunda terminando especificamente quando o comandante romano Cipião Africano derrotou o comandante cartaginês Aníbal na Batalha de Zama, aproximadamente 160 quilômetros ao sudoeste da cidade de Cartago.[24] Cipião impôs um tratado de paz sobre os cartagineses que os despojou de todos os seus territórios de além mar e também alguns de seus africanos. Uma indenização de dez mil talentos[nota 2] de prata deveria ser paga no decorrer de cinquenta anos.[25] Reféns foram tomados e Cartago foi proibida de guerrear fora da África e na África apenas com expressa permissão romana. Muitos cartagineses queriam rejeitar o tratado, mas Aníbal o defendeu e ele acabou firmado na primavera de 201 a.C..[27][28] Ficou claro depois disso que Cartago estava politicamente subordinada à Roma.[29]

Moeda de Massinissa

Massinissa, um aliado de Roma, emergiu como o mais poderoso governante entre os númidas, a população nativa do Norte da África.[30] Pelos cinquenta anos seguintes ele repetidas vezes aproveitou-se da proibição cartaginesa de guerrear. Roma sempre apoiou Massinissa e recusou todas as vezes que Cartago peticionou por compensação ou permissão para uma ação militar.[31] Os ataques e saques de Massinissa dentro do território cartaginês tornaram-se cada vez mais descarados. Cartago formou um grande exército em 151 a.C. sob o comando do previamente desconhecido Asdrúbal,[32] que contra-atacou os númidas apesar dos termos do tratado. Esta campanha terminou em desastre na Batalha de Oroscopa e o exército se rendeu;[33][34] muitos cartagineses foram depois massacrados pelos númidas.[32] Asdrúbal conseguiu escapar e voltar para Cartago, onde, para tentar aplacar Roma, ele foi condenado a morte.[35]

Cartago terminou de pagar a indenização em 151 a.C.[36] e estava na época prosperando economicamente,[37] porém não era uma ameaça militar à Roma.[38] Mesmo assim, há muito existia uma facção dentro do Senado Romano que desejava uma ação militar contra Cartago.[39] Por exemplo, o desdém por Cartago pelo senador Marco Pórcio Catão era tão conhecido que desde o século XVIII ele é creditado por terminar todos os seus discursos com a frase "Carthago delenda est" ("Cartago deve ser destruída").[40][41] A facção em oposição a isso incluía o senador Cornélio Cipião Násica, que argumentava que um inimigo forte como Cartago manteria as pessoas comuns sob controle e evitaria divisão social.[32][42] Catão participou de uma embaixada para Cartago provavelmente em 153 a.C. e percebeu seu crescimento militar e econômico;[42] Násica provavelmente também participou dessa embaixada.[43] Roma começou a preparar uma expedição punitiva[44] usando a ilícita operação militar cartaginesa como pretexto.[39]

Duplo xéquel da última cunhagem de Cartago antes de sua destruição[45]

Acadêmicos modernos já levantaram várias teorias sobre o motivo de Roma querer uma guerra.[46] Estas incluem: temor da competição comercial cartaginesa;[47][48][49] desejo de prevenir uma guerra mais ampla que poderia estourar com a morte de Massinissa, que na época tinha 89 anos;[50] uso faccionário de Cartago como um "bicho-papão" político, independentemente de seu verdadeiro poder;[51][52] ganância por glória e pilhagem;[47][53] e desejo extinguir um sistema político considerado uma anátema.[51] Não há nenhum consenso sobre essas e outras hipóteses.[54] Embaixadas cartaginesas tentaram negociar com Roma, que respondeu evasivamente.[35][55] A grande cidade portuária norte-africana de Útica, aproximadamente 55 quilômetros ao norte de Cartago,[56] passou para os romanos em 149 a.C.. O Senado e a Assembleia Popular de Roma, cientes que esse porto muito facilitaria um ataque contra Cartago, declararam guerra.[33][57]

Os romanos elegiam anualmente como magistrados dois cônsules que também podiam liderar um exército em tempos de guerra; seus mandatos poderiam ser estendidos ocasionalmente.[58][59][60] Um grande exército romano desembarcou em Útica em 149 a.C. sob os dois cônsules daquele ano: Mânio Manílio comandando o exército e Lúcio Márcio Censorino a marinha. Os cartagineses continuaram a tentar aplacar os romanos e enviaram uma embaixada para Útica. Os cônsules exigiram a rendição de todas as armas, algo que foi relutantemente cumprido. Grandes comboios tiraram enormes quantidades de equipamentos de Cartago para Útica. Registros que sobreviveram ao tempo afirmam que incluíam vinte mil conjuntos de armadura e duas mil catapultas. Todos os navios de guerra cartagineses navegaram para Útica e foram queimados no porto.[61] Censorino, assim que os cartagineses estavam desarmados, exigiu que os habitantes de Cartago abandonassem sua cidade e se mudassem para dezesseis quilômetros longe do mar; Cartago seria então destruída.[61][62] Os cartagineses abandonaram as negociações e se prepararam para defender sua cidade.[63]

Forças[editar | editar código-fonte]

Defesas de Cartago

A cidade de Cartago era incomumente grande para a época: historiadores modernos estimam que sua população ficava entre noventa e oitocentos mil habitantes. Qualquer número dentro desta margem faria de Cartago uma das cidades mais populosas na região do Mar Mediterrâneo na época.[64][65] Ela era muito bem fortificada com muralhas de mais de 35 quilômetros de circunferência.[66] Protegendo a principal área de aproximação por terra estavam três linhas de defesa, das quais a mais forte era uma muralha de tijolos com nove metros de grossura e entre quinze e vinte metros de altura, mais um fosso de vinte metros de largura localizado na sua frente. Alojamentos capazes de abrigar mais de 24 mil soldados foram construídos dentro dessa muralha.[62][67] Cartago tinha poucas fontes confiáveis de água, mas possuía um complexo sistema para pegar e canalizar água da chuva e muitas cisternas para armazená-la.[68]

Os cartagineses levantaram entusiástica para guarnecer a cidade a partir de seus cidadãos e da libertação dos escravos dispostos a lutar.[63][69][70] Eles também formaram um exército de campo com pelo menos vinte mil homens[71] sob o comando de Asdrúbal, libertado de sua sentença de morte. O exército ficava baseado em Néferis, 25 quilômetros ao sul de Cartago.[72] Apiano afirmou que o exército romano tinha 84 mil soldados; historiadores modernos estimam que tinha na verdade entre quarenta e cinquenta mil homens, dos quais quatro mil eram de cavalaria.[67][73]

Guerra[editar | editar código-fonte]

149 a.C.[editar | editar código-fonte]

O exército romano seguiu para Cartago e tentou sem sucesso escalar suas muralhas, se contentando com um cerco. Eles estabeleceram dois acampamentos: Censorino ficou protegendo os navios romanos, enquanto Manílio abrigou as legiões. Asdrúbal moveu seu exército para perturbar as linhas de suprimentos e grupos de forrageamento romanos.[74] Estes lançaram mais um ataque contra a cidade, novamente derrotado pelos cartagineses. Cipião Emiliano, neto adotado de Cipião Africano que estava servindo como tribuno, uma patente de médio escalão, segurou seus homens e conseguiu usá-los para barrar os cartagineses em perseguição, impedindo maiores perdas.[75][76]

Estátua de Cipião Emiliano

O acampamento estabelecido por Censorino estava localizado em um local ruim, ficando tão pestífero no início do verão que precisou ser movido para uma localização mais saudável. Entretanto, este local não era defensável e os cartagineses infligiram grandes perdas à frota romana com brulotes.[75] Os romanos em resposta construíram fortificações adicionais para dificultar esses tipos de ataque.[77] Os cartagineses mesmo assim continuaram a atacar os acampamentos. Cipião distinguiu-se ainda mais em seu papel em combates muitas vezes confusos durante esses ataques; a disciplina que ele impôs entre suas tropas estava em contraste com o comportamento da maioria do resto do exército romano.[78]

Manílio decidiu atacar o principal acampamento cartaginês perto de Néferis, mesmo este estando localizado em uma posição vantajosa e fortificada. O cônsul ordenou um ataque imediatamente assim que chegou, contra os conselhos de Cipião. Isto inicialmente seguiu bem, porém os romanos avançaram até uma posição que não poderiam manter. Ele foram atacados pelos cartagineses quando tentaram recuar e sofreram enormes perdas. Cipião liderou trezentos cavaleiros em uma série de ataques limitados e bem disciplinados, ameaçando os cartagineses a tal ponto que eles pausaram por tempo suficiente para permitir a retirada completa da infantaria romana. Na mesma noite, Cipião liderou sua cavalaria de volta a fim de resgatar um grupo de romanos que tinham ficado encurralados.[79] A coluna romana recuou de volta para seu acampamento próximo de Cartago, onde um comitê do Senado chegou para investigar o progresso da guerra. A performance de Cipião foi destacada em seu subsequente relatório.[80] Cipião fez contato com vários líderes da cavalaria númida de Cartago, em seguida juntando-se a uma expedição mais bem preparada sob Manílio contra Asdrúbal em Néferis. Os romanos novamente não fizeram progresso, apesar do maior planejamento, porém um dos númidas contatado por Cipião deserdou com 2,2 mil homens. Manílio recuou depois dos romanos terem ficado sem comida, enquanto Cipião liderou os novos aliados romanos em uma expedição de forrageamento bem-sucedida.[81][82]

148 a.C.[editar | editar código-fonte]

Os romanos elegeram dois novos cônsules em 148 a.C., mas apenas um deles foi enviado para a África: Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, com Lúcio Hostílio Mancino comandando a marinha como seu subordinado. Pisão recuou e afrouxou o cerco de Cartago em favor de um bloqueio em uma tentativa de tomar as outras cidades cartagineses na área. Ele falhou: apesar de Neápolis ter se rendido e sido em seguida saqueada, Áspis resistiu aos ataques tanto por terra quanto por mar, enquanto Hipo teve um cerco sem resultado. Uma surtida cartaginesa de Hipo destruiu as máquinas de cerco romanas, fazendo com que estes encerrassem a campanha e fossem para seus quartéis de inverno. Enquanto isso, Asdrúbal derrubou a liderança civil de Cartago em um golpe de estado e assumiu ele próprio o comando. Cartago se aliou com Andrisco, um pretendente ao trono da Macedônia. Este invadiu a Macedônia Romana e derrotou o exército que a defendia, coroando-se rei como Filipe VI e iniciando a Quarta Guerra Macedônica.[83][84]

147 a.C.[editar | editar código-fonte]

Pontas de flecha, restos de uma adaga e pedras para estilingues no Museu Nacional de Cartago

Cipião tinha a intenção de concorrer ao cargo público de edil, uma progressão natural para ele naquele momento em sua carreira, nas eleições de 147 a.C.. Ele tinha entre 36 e 37 anos, muito novo para concorrer a cônsul, que por lei a idade mínima era de 41 anos. Houve consideráveis manobras políticas nos bastidores. Cipião e seus apoiadores destacaram seus sucessos nos dois anos anteriores e o fato de que era o neto adotivo de Cipião Africano, que tinha conquistado a vitória romana na África durante a Segunda Guerra Púnica. O povo romano exigiu que ele fosse nomeado cônsul e assim assumisse a responsabilidade pela guerra na África, consequentemente o Senado dispensou os requerimentos de idade para todos os postos naquele ano. Cipião foi eleito cônsul e nomeado o único comandante militar na África; teatros de guerra normalmente eram entregues a um dos cônsules por sorteio. Ele recebeu o direito normal de recrutar homens suficientes para compensar as perdas sofridas e também o direito incomum de aceitar voluntários.[85][86]

Cipião mudou o principal acampamento romano de volta para próximo de Cartago, sendo observado de perto por um destacamento cartaginês de oito mil homens. Ele discursou exigindo uma disciplina mais rígida e dispensou os soldados que considerou indisciplinados ou desmotivados. Em seguida liderou um ataque noturno e invadiu a cidade com quatro mil homens. Os defensores cartagineses entraram em pânico, fugindo depois de oferecerem uma resistência feroz. Cipião concluiu que essa posição seria indefensável assim que os cartagineses se reorganizassem depois do amanhecer, assim recuou.[87] Asdrúbal ficou horrorizado pelo modo como as defesas cartagineses ruíram e fez com que prisioneiros romanos fossem torturados até a morte nas muralhas, de vista para todo o exército romano. Esta ação também reforçou aos cidadãos cartagineses o desejo de resistência, pois deste ponto em diante não haveria possibilidade de negociação ou mesmo rendição. Alguns membros do conselho municipal criticaram suas ações, porém Asdrúbal ordenou que eles fossem mortos.[88][89]

Vista aérea dos restos da base naval da cidade de Cartago. Os restos do porto mercante estão no centro e o da base militar no canto inferior direito.

O cerco cerrado renovado cortou a entrada terrestre para a cidade, porém uma interdição marítima era praticamente impossível com a tecnologia naval disponível na época. Cipião ficou frustrado com a quantidade de comida que estava entrando na cidade e assim ordenou a construção um molhe imenso para cortar acesso ao porto por parte de violadores de bloqueio. Os cartagineses responderam criando um novo canal de seu porto para o mar. Eles construíram uma nova frota assim que o canal ficou pronto e atacaram, pegando os romanos de surpresa. Na subsequente Batalha do Porto de Cartago, os cartagineses tiveram um bom desempenho, mas, ao recuarem no final do dia depois do combate, muitos de seus navios ficaram presos contra a muralha marítima da cidade, afundando ou sendo capturados.[90][91] Os romanos tentaram aproveitar para avançar contra as defesas cartaginesas na área portuária, acabando por conquistar o controle do ancoradouro. Pelos vários meses seguintes construíram uma estrutura de tijolos mais alta que as muralhas da cidade, o que permitiu que até quatro mil romanos disparassem contra os reparos cartagineses a curta-distância.[92][93][94]

Cipião, assim que essa estrutura ficou pronta, destacou uma grande força e a liderou contra o exército de campo cartaginês em Néferis. Os cartagineses, sob o comando do grego Diógenes, tinham estabelecido um acampamento fortificado como seu alojamento de inverno. Cipião ordenou um ataque contra o acampamento a partir de várias direções e o subjugaram. Os cartagineses que fugiram foram perseguidos pela cavalaria númida aliada dos romanos, com poucos sobrevivendo. A cidade de Néferis foi então cercada e se rendeu depois de três semanas. A maioria das posições fortificadas ainda resistindo no interior de Cartago se renderam também.[94][95]

146 a.C.[editar | editar código-fonte]

A posição de Cipião como comandante na África foi ampliada em mais um ano para 146 a.C..[96] Ele lançou na primavera um ataque em grande escala a partir da área portuária, conseguindo penetrar nas muralhas.[97] No decorrer de seis dias,[98] os romanos avançaram sistematicamente pela parte residencial da cidade, matando todos que encontravam e incendiando os edifícios que deixavam para trás.[92] Cipião concordou em fazer prisioneiros no último dia, exceto por novecentos desertores romanos que tinham servido por Cartago; estes lutaram em frente a um templo de Eshmun e o incendiaram quando não havia mais escapatória.[99] Asdrúbal se rendeu para Cipião sob a promessa de sua vida e liberdade, enquanto sua esposa se matou junto com seus filhos entrando no templo em chamas.[100]

Aproximadamente cinquenta mil prisioneiros foram vendidos como escravos.[101] A noção de que os romanos jogaram sal na terra é provavelmente uma invenção do século XIX.[102][103][104] Muitos itens religiosos e estátuas que os cartagineses tinham saqueado de templos e cidades da Sicília foram devolvidos com grande cerimônia.[105]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Ruínas do Bairro Púnico de Cartago

Roma ficou determinada em garantir que Cartago permanecesse em ruínas. Uma comissão foi enviada pelo Senado e Cipião recebeu ordens de realizar mais demolições. Uma maldição foi colocada sobre qualquer um que tentasse repovoar o local.[106] O área da antiga cidade foi confiscada como ager publicus, terra pública.[107] Cipião celebrou um triunfo e assumiu o agnome "Africano", assim como seu avô adotivo.[100][101] Não se sabe o destino de Asdrúbal, porém ele se rendeu com a promessa de que poderia se aposentar em uma propriedade na Itália.[100] Os antigos territórios cartagineses foram anexados por Roma e reconstituídos para formarem a província da África Proconsular, com Útica como capital.[107][108] A província se tornou uma grande fonte de grãos e outros alimentos.[109]

Cidades cartaginesas que mantiveram-se leais até o fim tornaram-se ager publicus ou, como no caso de Hipo, foram destruídas.[106][107] As que sobreviveram puderam manter alguns elementos de seus tradicionais sistemas de governo e cultura.[110][111] Os romanos não interferiram na vida particular dos locais, assim a cultura, idioma e religião púnicas sobreviveram, sendo conhecida pelos historiadores como "civilização neopúnica".[112][113] A língua púnica continuou a ser falada no Norte da África até o século VII.[114][115]

Uma facção reformista dentro de Roma liderada por Caio Graco queria realizar em 123 a.C. uma reforma com o objetivo de redistribuir terras, incluindo terras públicas. Estas incluíam o local da antiga Cartago, com uma lei controversa sendo aprovada ordenando o estabelecimento de um novo assentamento lá, chamado Junônia. Conservadores foram contra a lei e começaram a espalhar rumores após sua aprovação dizendo que marcadores delimitando o novo assentamento tinham sido cavados por lobos, um mau presságio. Estes rumores, mais outras maquinações políticas, fizeram o plano ser abandonado.[116][nota 3] Uma legislação de 111 a.C. repetiu a proibição contra qualquer novo assentamento.[119] Júlio César, um século depois da guerra, planejou reconstruir Cartago como uma cidade romana, porém pouco foi feito. O imperador Augusto reavivou o projeto em 29 d.C. e levou o plano até sua finalização. A Cartago romana tornou-se uma das principais cidades romanas na África na época do Império.[120][121]

A cidade de Roma existe até hoje como a capital da Itália, enquanto as ruínas de Cartago estão localizadas a dezesseis quilômetros ao leste da Túnis moderna, a capital da Tunísia.[122] Um tratado de paz simbólico foi assinado por Ugo Vetere e Chedli Klibi, respectivamente os prefeitos de Roma e Cartago modernas, em uma vila italiana no dia 5 de fevereiro de 1982, 2131 anos depois do fim da guerra.[123] O assentamento moderno tunisiano de Cartago é um distrito da cidade de Túnis.[122]

Notas

  1. O termo púnico vem da palavra em latim punicus (também grafada como poenicus), que significa "cartaginês" e é uma referência à ancestralidade fenícia dos cartagineses.[1]
  2. Vários "talentos" diferentes existiam na Antiguidade. Aqueles mencionados neste artigo são todos talentos eubeus de aproximadamente 26 quilogramas.[25] Na época da Segunda Guerra Púnica, dez mil talentos eram aproximadamente 269 toneladas.[26]
  3. Graco tinha lutado sob Cipião na África,[117] continuando a defender suas propostas de reforma agrária até ser assassinado em 121 a.C. junto com três mil de seus apoiadores.[118]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Sidwell & Jones 1997, p. 16
  2. Goldsworthy 2006, pp. 20–21
  3. Shutt 1938, p. 53
  4. Goldsworthy 2006, p. 20
  5. Walbank 1990, pp. 11–12
  6. Astin 2006, p. 5
  7. Champion 2015, pp. 96, 108
  8. a b Goldsworthy 2006, p. 21
  9. Astin 2006, pp. 5–6
  10. a b Walbank 1979, p. 662
  11. Hoyos 2015, p. 2
  12. Champion 2015, p. 95
  13. Goldsworthy 2006, p. 22
  14. Mineo 2015, p. 123
  15. a b Mineo 2015, p. 126
  16. Mineo 2015, p. 119
  17. Bohec 2015, p. 430
  18. Mineo 2015, p. 125
  19. Goldsworthy 2006, pp. 22–23
  20. Goldsworthy 2006, p. 24
  21. Goldsworthy 2006, pp. 23, 98
  22. Holland 2004, p. 10
  23. Miles 2011, pp. 324–325
  24. Bagnall 1999, pp. 289, 295–298
  25. a b Lazenby 1996, p. 228
  26. Lazenby 1996, p. 158
  27. Miles 2011, p. 317
  28. Goldsworthy 2006, pp. 308–309
  29. Bagnall 1999, pp. 303, 305–306
  30. Kunze 2015, p. 398
  31. Kunze 2015, pp. 398, 407
  32. a b c Bagnall 1999, p. 307
  33. a b Kunze 2015, p. 407
  34. Goldsworthy 2006, pp. 336–337
  35. a b Bagnall 1999, p. 308
  36. Goldsworthy 2006, p. 332
  37. Kunze 2015, pp. 405, 408
  38. Kunze 2015, p. 408
  39. a b Kunze 2015, p. 399
  40. Miles 2011, p. 336
  41. Vogel-Weidemann 1989, p. 79
  42. a b Goldsworthy 2006, p. 333
  43. Vogel-Weidemann 1989, p. 80
  44. Goldsworthy 2006, p. 337
  45. Jenkins & Lewis 1963, p. 53
  46. Vogel-Weidemann 1989, p. 81
  47. a b Bohec 2015, p. 432
  48. Harris 2006, p. 156
  49. Vogel-Weidemann 1989, pp. 81–82
  50. Vogel-Weidemann 1989, pp. 82, 85
  51. a b Bohec 2015, pp. 431–432
  52. Harris 2006, p. 154
  53. Harris 2006, p. 155
  54. Vogel-Weidemann 1989, pp. 81, 87–88
  55. Harris 2006, p. 151
  56. Bohec 2015, p. 437
  57. Goldsworthy 2006, pp. 337–338
  58. Beard 2016, p. 127
  59. Holland 2004, pp. 154–155
  60. Bagnall 1999, p. 24
  61. a b Goldsworthy 2006, pp. 338–339
  62. a b Purcell 1995, p. 134
  63. a b Goldsworthy 2006, p. 339
  64. Hoyos 2005, p. 225
  65. Miles 2011, p. 342
  66. Bagnall 1999, p. 313
  67. a b Goldsworthy 2006, p. 340
  68. Miles 2011, pp. 342–343
  69. Bohec 2015, pp. 438–439
  70. Miles 2011, p. 341
  71. Harris 2006, p. 159
  72. Bohec 2015, p. 439
  73. Bohec 2015, p. 436
  74. Goldsworthy 2006, p. 341
  75. a b Bagnall 1999, p. 314
  76. Goldsworthy 2006, pp. 342–343
  77. Goldsworthy 2006, p. 343
  78. Goldsworthy 2006, pp. 343–344
  79. Bagnall 1999, pp. 314–315
  80. Goldsworthy 2006, pp. 344–345
  81. Bagnall 1999, p. 315
  82. Goldsworthy 2006, pp. 345–346
  83. Goldsworthy 2006, p. 346
  84. Bagnall 1999, pp. 315–316
  85. Goldsworthy 2006, pp. 346–347
  86. Astin 1967, pp. 61–69
  87. Goldsworthy 2006, pp. 348–349
  88. Bohec 2015, p. 440
  89. Goldsworthy 2006, p. 349
  90. Goldsworthy 2006, pp. 349–350
  91. Miles 2011, p. 2
  92. a b Bohec 2015, p. 441
  93. Miles 2011, p. 346
  94. a b Goldsworthy 2006, p. 351
  95. Bagnall 1999, pp. 317–318
  96. Goldsworthy 2006, p. 347
  97. Miles 2011, p. 3
  98. Miles 2011, p. 4
  99. Miles 2011, pp. 3–4
  100. a b c Bohec 2015, p. 442
  101. a b Scullard 2002, p. 316
  102. Ridley 1986, pp. 144–145
  103. Ripley & Dana 1858–1863, p. 497
  104. Purcell 1995, p. 140
  105. Purcell 1995, pp. 141–142
  106. a b Miles 2011, p. 353
  107. a b c Bohec 2015, p. 443
  108. Scullard 2002, pp. 310, 316
  109. Mitchell 2007, p. 345
  110. Fantar 2015, pp. 455–456
  111. Pollard 2015, p. 249
  112. Bohec 2015, pp. 443–445
  113. Fantar 2015, p. 454
  114. Jouhaud 1968, p. 22
  115. Scullard 1955, p. 105
  116. Miles 2011, pp. 354–355
  117. Goldsworthy 2006, p. 361
  118. Miles 2011, p. 355
  119. Miles 2011, p. 448
  120. Richardson 2015, pp. 480–481
  121. Miles 2011, pp. 363–364
  122. a b «Archaeological Site of Carthage». Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Consultado em 16 de dezembro de 2022 
  123. Fakhri, Habib (5 de fevereiro de 1985). «Rome and Carthage Sign Peace Treaty Ending Punic Wars After 2,131 Years». Associated Press. Consultado em 16 de dezembro de 2022 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Astin, A. E. (1967). Scipio Aemilianus. Oxford: Clarendon Press. OCLC 250072988 
  • Astin, A. E. (2006) [1989]. «Sources». In: Astin, A. E.; Walbank, F. W.; Frederiksen, M. W.; Ogilvie, R. M. Cambridge Ancient History: Rome and the Mediterranean to 133 B.C. 8 2ª ed. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-23448-1 
  • Bagnall, Nigel (1999). The Punic Wars: Rome, Carthage and the Struggle for the Mediterranean. Londres: Pimlico. ISBN 978-0-7126-6608-4 
  • Beard, Mary (2016). SPQR: A History of Ancient Rome. Londres: Profile Books. ISBN 978-1-84668-381-7 
  • Bohec, Yann Le (2015) [2011]. «The "Third Punic War": The Siege of Carthage (148–146 BC)». In: Hoyos, Dexter. A Companion to the Punic Wars. Chichester: John Wiley. ISBN 978-1-119-02550-4 
  • Champion, Craige B. (2015) [2011]. «Polybius and the Punic Wars». In: Hoyos, Dexter. A Companion to the Punic Wars. Chichester: John Wiley. ISBN 978-1-119-02550-4 
  • Fantar, M’hamed-Hassine (2015) [2011]. «Death and Transfiguration: Punic Culture after 146». In: Hoyos, Dexter. A Companion to the Punic Wars. Chichester: John Wiley. ISBN 978-1-119-02550-4 
  • Goldsworthy, Adrian (2006). The Fall of Carthage: The Punic Wars 265–146 BC. Londres: Phoenix. ISBN 978-0-304-36642-2 
  • Harris, William V. (2006) [1989]. «Roman Expansion in the Wests». In: Astin, A. E.; Walbank, F. W.; Frederiksen, M. W.; Ogilvie, R. M. Cambridge Ancient History: Rome and the Mediterranean to 133 B.C. 8 2ª ed. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-23448-1 
  • Holland, Tom (2004). Rubicon: The Triumph and Tragedy of the Roman Republic. Londres: Abacus. ISBN 0-349-11563-X 
  • Hoyos, Dexter (2005). Hannibal's Dynasty: Power and Politics in the Western Mediterranean, 247–183 BC. Nova Iorque: Routledge. ISBN 978-0-415-35958-0 
  • Hoyos, Dexter (2015) [2011]. «Introduction: The Punic Wars». A Companion to the Punic Wars. Chichester: John Wiley. ISBN 978-1-119-02550-4 
  • Jenkins, G. K.; Lewis, R. B. (1963). Carthaginian Gold and Electrum Coins. Londres: Royal Numismatic Society. OCLC 1024975511 
  • Jouhaud, Edmond Jules René (1968). Historie de l'Afrique du Nord. Paris: Éditions des Deux Cogs d'Ór. OCLC 2553949 
  • Kunze, Claudia (2015) [2011]. «Carthage and Numidia, 201–149». In: Hoyos, Dexter. A Companion to the Punic Wars. Chichester: John Wiley. ISBN 978-1-119-02550-4 
  • Lazenby, John (1996). The First Punic War: A Military History. Stanford: Stanford University Press. ISBN 978-0-8047-2673-3 
  • Lazenby, John (1998). Hannibal's War: A Military History of the Second Punic War. Warminster: Aris & Phillips. ISBN 978-0-85668-080-9 
  • Miles, Richard (2011). Carthage Must be Destroyed. Londres: Penguin. ISBN 978-0-14-101809-6 
  • Mineo, Bernard (2015) [2011]. «Principal Literary Sources for the Punic Wars (apart from Polybius)». In: Hoyos, Dexter. A Companion to the Punic Wars. Chichester: John Wiley. ISBN 978-1-119-02550-4 
  • Mitchell, Stephen (2007). A History of the Later Roman Empire. Oxford: Blackwell. ISBN 978-1-4051-0856-0 
  • Pollard, Elizabeth (2015). Worlds Together Worlds Apart. Nova Iorque: W. W. Norton. ISBN 978-0-393-91846-5 
  • Purcell, Nicholas (1995). «On the Sacking of Carthage and Corinth». In: Innes, Doreen; Hine, Harry; Pelling, Christopher. Ethics and Rhetoric: Classical Essays for Donald Russell on his Seventy Fifth Birthday. Oxford: Clarendon. ISBN 978-0-19-814962-0 
  • Richardson, John (2015) [2011]. «Spain, Africa, and Rome after Carthage». In: Hoyos, Dexter. A Companion to the Punic Wars. Chichester: John Wiley. ISBN 978-1-119-02550-4 
  • Ridley, Ronald (1986). «To Be Taken with a Pinch of Salt: The Destruction of Carthage». Classical Philology. 81 (2). JSTOR 269786. doi:10.1086/366973 
  • Ripley, George; Dana, Charles A. (1858–1863). «Carthage». The New American Cyclopædia: a Popular Dictionary of General Knowledge. 4. Nova Iorque: D. Appleton. OCLC 1173144180 
  • Scullard, Howard H. (1955). «Carthage». Greece & Rome. 2 (3). JSTOR 641578. doi:10.1017/S0017383500022166 
  • Scullard, Howard H. (2002). A History of the Roman World, 753 to 146 BC. Londres: Routledge. ISBN 978-0-415-30504-4 
  • Shutt, Rowland (1938). «Polybius: A Sketch». Greece & Rome. 8 (22). JSTOR 642112. doi:10.1017/S001738350000588X 
  • Sidwell, Keith C.; Jones, Peter V. (1997). The World of Rome: An Introduction to Roman Culture. Cambridge. Nova Iorque: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-38600-5 
  • Vogel-Weidemann, Ursula (1989). «Carthago delenda est: Aitia and Prophasis». Acta Classica. 2 (32). JSTOR 2459-1872 
  • Walbank, F. W. (1979). A Historical Commentary on Polybius. III. Oxford: Clarendon. ISBN 978-0-19-814011-5 
  • Walbank, F. W. (1990). Polybius. 1. Berkeley: University of California Press. ISBN 978-0-520-06981-7 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]