Tereza de Arriaga

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Tereza Arriaga
Nascimento 5 de fevereiro de 1915
Lisboa
Morte 12 de agosto de 2013 (98 anos)
Oeiras
Nacionalidade Portugal Portuguesa
Ocupação pintora

Tereza de Arriaga (Lisboa, 5 de fevereiro de 1915Oeiras, 12 de agosto de 2013[1]) foi uma pintora portuguesa.

Com um percurso discreto e pouco linear, inicia-se nas artes plásticas sob a motivação do neo-realismo, nos anos 40, tendo evoluído então para trabalhos abstractizantes de carácter geométrico. Todavia, é só a partir de finais dos anos 60 que a sua obra ganha mais consistência. Mantendo a sensibilidade social como traço da sua expressão plástica, vai evoluir para uma exploração aprofundada da cor e das linhas, inspirando-se numa poética[2] da relação humana ao mistério dos elementos naturais. As suas obras são assinadas simplesmente com "Tereza Arriaga" ou "Tarriaga".

Biografia[editar | editar código-fonte]

Sendo neta de Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente da República, Tereza Arriaga, cujo nome completo original é Maria Thereza d' Almeida Pinheiro d' Arriaga, nasce no Palácio de Belém, pois seu pai, Roque Manuel de Arriaga, era na altura secretário pessoal do presidente e vivia com a família numa parte arrendada do palácio. Cedo teve de abandonar esta morada, pois a 14 de Maio de 1915 dá-se uma revolução que pôs fim ao mandato presidencial, tendo Tereza Arriaga andado então debaixo de balas. Com três anos fica órfã de mãe, que morre de gripe pneumónica aos 27 anos.

É educada num meio cultural privilegiado e politicamente esclarecido onde preponderavam as ideias republicanas, as quais lhe suscitaram desde cedo a compreensão dos problemas sociais. Passa a infância no Monte Estoril, onde recebe, tal como os seus irmãos, a primeira instrução dada pelo seu pai, embora este a sujeite a outras experiências educativas que passam, nomeadamente, por uma preceptora inglesa e pelo internato no Colégio da Pena, em Sintra, de pendor religioso. Como estas experiências não tiveram os resultados desejados, a família volta para Lisboa e Tereza vai finalmente para uma escola, o Colégio Inglês, particular e de orientação severa, onde conclui a instrução primária já tardiamente.

Apesar do republicanismo do seu pai, a sua educação tendeu para o que era o ideal burguês da época: saber ler e escrever, tocar piano e aprender Francês. Esta educação atrasou o seu percurso artístico e académico. Tendo tentado seguir o estudo de piano, é no desenho que, já no fim da adolescência, vai investir fortemente por mote próprio, decidindo preparar-se para a Escola de Belas Artes. Entretanto, frequenta o atelier de pintura de Raquel Roque Gameiro, filha do grande aguarelista Roque Gameiro, que logo abandona por conselho da própria, pois o que lá se aprendia e pintava não a satisfaziam minimamente.

Frequenta então um curso nocturno na Sociedade Nacional de Belas-Artes, onde era a única mulher. Nesta escola é aluna do professor Frederico Aires, que lhe emprestava bustos de gesso do seu atelier para Tereza treinar o desenho.

Com a sua dedicação e ambição no ano seguinte consegue entrar para a Escola de Belas Artes para frequentar o curso de Pintura, «num tempo em que eram raras as mulheres que abraçavam de um modo profissional a carreira artística». É lá que conhece o estudante e futuro pintor Jorge de Oliveira, que reencontra mais tarde em Leiria e com quem viria a casar.

No final do 3º ano resolve ir trabalhar e interrompe o curso. Vai então leccionar Desenho para a Escola Industrial de Marinha Grande, uma cidade-oficina do vidro situada em pleno Pinhal de Leiria, na região centro do País, onde reside entre 1944 e 1945. Esta escola estava situada no perímetro da antiga Fábrica Nacional dos Vidros, a maior fábrica de vidro do País, mais tarde designada Fábrica-Escola Irmãos Stephens, fundada em 1769 por William Stephens (e onde hoje está instalado o Museu do Vidro). Para além da actividade de ensino, onde procura implementar métodos de pedagogia pela arte, contacta directamente com a realidade operária, e desenha uma série de esboços, “Meninos operários”, uma grande parte deles em papel de embrulho. Nesta série retrata sobretudo os gestos e os rostos cansados e enrugados pela desidratação das crianças que trabalhavam nas fábricas de vidro.

Em 1952, conclui o curso de Pintura com uma tese (uma pintura a óleo de grandes dimensões) nomeada “Vidreiros”, baseada na experiência da Marinha Grande, a qual se encontra na propriedade da actual Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.

Entre 1944 e 1985 foi professora de Desenho em várias escolas, incluindo a Escola de Artes Decorativas António Arroio.

Dedicando-se com empenho quer à maternidade (é mãe pela única vez em 1948), quer à profissão, e devido à sua discrição, a sua carreira de pintora vai durante anos ficar para segundo plano. Diferentemente de seu marido, Jorge de Oliveira, cuja obra desde cedo se tornou uma referência na história da arte portuguesa, tendo participado nos movimentos emergentes do neo-realismo e do surrealismo, e sido um dos pioneiros do abstracto-geometrismo em Portugal.

A pulsão criativa esteve no entanto sempre presente, e mesmo na ausência de um trabalho sistemático, faz então inúmeros esboços e projectos, muitos deles em simples bilhetes de eléctrico ou em papelinhos de telefone, que mais tarde viriam a traduzir-se em apontamentos desenvolvidos. Neste longo período dedica-se também à aguarela, explorando o seu potencial técnico na elaboração de projectos para telas a óleo, que viria a usar para a grande maioria dos seus trabalhos, pois como a própria pintora diz, "o óleo é como cavar a terra". A aguarela permite uma maior liberdade e rapidez no momento da criação conceptual. Sendo também uma desenhadora exímia, nos anos 50 e 60 dedica-se principalmente ao Retrato. É desta altura, 1951 e 1952, a pintura em atmosfera geométrica. Colabora ainda, em 1966 e 1967, com a Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, conhecida por Cooperativa Gravura, expondo nas exposições de final de curso.

Mas é só a partir de finais dos anos 60 que Tereza Arriaga começa a dedicar-se com mais disciplina e assiduidade à pintura, adoptando o estilo que, evoluindo na continuidade, mantém até aos dias de hoje[3].

Resistência política[editar | editar código-fonte]

Ainda na Marinha Grande, sensibilizada pela terrível realidade que testemunhou, e motivada pela conjuntura (final da II Guerra Mundial e pelo desenvolvimento de actividades políticas anti-regime de Salazar), vem a desenvolver uma série de iniciativas de âmbito cultural-político, designadamente, através de clubes e associações operárias, conferências temáticas sobre os direitos das mulheres, a música ou a história, levando à vila industrial intelectuais e artistas de Lisboa como Fernando Lopes Graça, Maria Isabel Aboim Inglês ou o historiador Flausino Torres.

Envolve-se na mesma época (anos 40/50) numa participação política antifascista que a levam a ser detida pela PIDE e encarcerada na prisão de Caxias durante 110 dias. Esta prisão viria a trazer-lhe inúmeros problemas profissionais[3].

Fases de criação plástica[editar | editar código-fonte]

Apesar dos inúmeros esboços (como, por exemplo, a série de carvões sobre os meninos operários, de pendor neo-realista) e criações pontuais mais elaboradas, é só a partir de 1967 que Tereza Arriaga se vai entregar com mais consistência e profissionalismo à pintura.

Dificilmente se pode falar em fases plásticas, mas a autora divide os seus estudos em três séries, que correspondem a três períodos: Bioburgos, Helioburgos e Biohélios. A todos assiste a procura de um ideal de perfeição e a expressão de uma inquietação interior. Faz variar o elemento semiológico dominante: Os bioburgos, segundo a autora, somos nós, animais de burgos, mas biológicos, ou seja, inseridos num sistema muito mais vasto, pois todos os animais têm burgos. Por sua vez, o elemento “hélio” remete para o confronto do ser com a luz. A semiologia dos elementos vitais insere-se numa busca emocional e intelectual das ligações cósmicas entre os seres que, por indefinidas à consciência, só podem ser expressas no limiarismo, ou seja, na ambiguidade entre o sonho e a emoção, o dentro e fora, o perto e o longe, o encontrar e o perder[4]. Denota nesta poética uma relação reverencial aos elementos vivos, que são todos os elementos do Universo, mas despida de qualquer sacralidade, preferindo chamar a essa relação “camaradagem”. A sua pintura, segundo a sua própria definição, “são sítios aonde ir”[5]. Nesta busca, deixa transparecer frequentemente ora um tom irónico e crítico, ora um tom traumático e filosófico.

O seu projecto plástico explora deste modo, sobretudo, o poder da cor na sua ligação às formas geométricas, as quais se fundem num limiarismo conceptual e sugestivo.

A sua obra está representada na colecção do Museu do Chiado, e em colecções institucionais e particulares, nacionais e estrangeiras[6].

Obras[editar | editar código-fonte]

Eis uma lista não exaustiva das obras mais significativas de Tereza Arriaga:

BIOBURGOS

  • Em Novelo, óleo s/ madeira prensada, 65x46 cm, 1967.
  • Domínio, óleo s/ madeira prensada, 62x43 cm, 1967.
  • Sua Excelência, óleo / madeira prensada, 62x40 cm, 1967.
  • Dona, óleo s/ madeira prensada, 56x39 cm, 1968.
  • Bioburgo, óleo s/ tela, 73x54 cm, 1968.
  • Quietude, óleo s/ madeira prensada, 62x40 cm, 1970.
  • Refúgio, óleo s/ tela, 92x65 cm, 1971.
  • Ser-não ter, óleo s/ tela, 92x60 cm, 1971.
  • Noite pessoa, óleo s/ tela, 92x60 cm, 1971.
  • Pastilha elástica, óleo s/ tela, 65x46 cm, 1972.
  • Fulgor, óleo s/ tela, 100x65 cm, 1972.
  • Cativeiro,óleo s/ tela, 100x65 cm, 1972.
  • Seiva I, óleo s/ tela, 116,81 cm, 1972.
  • Querida flor, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1973.
  • Seiva II, óleo s/ tela, 116x81 cm, 1973.
  • Entardecer, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1973.
  • Renascer, óleo s/ tela, 116x81 cm, 1973.
  • Indo, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1974 (esta pintura chamou-se inicialmente No Amarelo).
  • Existência-Inexistência, óleo s/ tela, 116x81 cm, 1974.
  • Aterraestámorrendo, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1979.
  • ...e quero rios de água potável..., óleo s/ tela, 81x60 cm, 1979.

HELIOBURGOS

  • ...Na penumbra, óleo s/ tela, 92x65 cm, 1985.
  • Meditação, óleo s/ tela, 73x54 cm, 1987.
  • No vermelho, óleo s/ tela, 81x60, 1989.
  • Sonhar montanhas, óleo s/ tela, 80x60 cm, 1990.
  • Noites acordadas, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1990.
  • Mistério, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1990.
  • Algo ao longe, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1990.
  • A noz, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1990.
  • Invernal, óleo s/ tela, 73x54, 1990.
  • Mistério nocturno, óleo s/ tela, 65x50 cm, 1990.
  • Cachos de luas, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1990.
  • Eu noite, óleo s/ tela, 81x54 cm, 1990.
  • Um olhar, óleo s/ tela, 65x50 cm, 1991.
  • No azul, óleo s/ tela, 92x65 cm, 1991.
  • ...Ao Sol I, óleo s/ tela, 92x65 cm, 1992.
  • ...Ao Sol II, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1992.
  • ...Ao Sol III, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1992.
  • Manhãs, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1992.
  • Sideral, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1992.
  • Janela da noite, óleo s/ tela, 92x65 cm, 1992.
  • Noite, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1993.
  • Flor do Sol, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1993.

(mais...)

BIOHÉLIOS

  • Ecos da memória, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1994.
  • La fajro (Fogo, em esperanto), óleo s/ tela, 100x73 cm, 1995.
  • Vibrações, óleo s/ tela, 116x89 cm, 1995.
  • Abandono, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1995.
  • Âmago, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1995.
  • Evocando, óleo s/ tela, 100x81 cm, 1996.
  • Xantos, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1998.
  • Du, óleo s/ tela, 92x73 cm, 1998.
  • Personagem, óleo s/ tela, 100x73 cm, 1999.
  • Infindo II, óleo s/ tela, 81x60 cm, 1999.
  • Sinal, óleo s/ tela, 100x73 cm, 2002.

(mais...)

Exposições[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Carmo, Fernando Infante (editor e prefácio): Aspectos das Artes Plásticas em Portugal, 1992 (não fala da pintora; reprodução de um quadro e foto da pintora)
  • Dacosta, António: Dacosta em Paris - textos, Ed. Assírio e Alvim, s/d, p. 97.
  • De Carvalho, Orlando M. P. N.: "Entrevistas a Tereza Arriaga e Jorge de Oliveira, 2005-2007", APMNR (Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo)/Centro de Documentação do Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, 2007.
  • Exposição Geral de Artes Plásticas, Catálogo, SNBA, Julho de 1946.
  • Gonçalves, Rui Mário: Colóquio Artes, nº 19, Out. 1994, pp. 31-37 (cita brevemente a pintora).
  • Santos, Luísa Duarte: Tereza Arriaga - Pintura, in Catálogo da Exposição 22/06 - 21/07, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 2007.
  • Tavares, Salette: Tereza Arriaga, in Catálogo da exposição na Galeria Diprove, Lisboa, Abril-Maio de 1974.
  • Tereza Arriaga, Helioburgos, Catálogo da exposição na Galeria Espiral, Oeiras.

Referências

  1. «Artista plástica Tereza Arriaga morreu aos 98 anos». Sol 
  2. Santos, Luísa Duarte: Tereza Arriaga - Pintura, in Catálogo da Exposição 22/06 - 21/07, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 2007.
  3. a b De Carvalho, Orlando M. P. N.: "Entrevistas a Tereza Arriaga e Jorge de Oliveira, 2005-2007", APMNR (Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo)/Centro de Documentação do Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, 2007
  4. Tereza Arriaga, Helioburgos, Catálogo da exposição na Galeria Espiral, Oeiras
  5. Tereza Arriaga, Helioburgos, Catálogo da exposição na Galeria Espiral, Oeiras
  6. Santos, Luísa Duarte: Tereza Arriaga - Pintura, in Catálogo da Exposição 22/06 - 21/07, Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 2007