Tom O'Carroll

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Tom O'Carroll
Nacionalidade irlandesa-britânica
Data de nascimento 9 de agosto de 1945 (68 anos)
Local de nascimento Warwickshire,  Reino Unido
Pseudónimo(s) Carl Toms
Ocupação escritor, jornalista
Obra(s) de destaque Paedophilia: The Radical Case, Michael Jackson’s Dangerous Liaisons

Tom O'Carroll (Warwickshire, Reino Unido, 9 de agosto de 1945) é um escritor, jornalista e ativista pedófilo com dupla nacionalidade irlandesa e britânica[1] . Entre 1977 e 1979 foi presidente e rosto visível da organização Paedophile Information Exchange (PIE), que fez campanha para substituir as leis sobre idade de consentimento por um marco legal mais flexível e liberal, e que ele levou a atingir uma certa relevância à escala nacional. Mais tarde foi membro proeminente do grupo Ipce, anteriormente conhecido como International Paedophile and Child Emancipation. Tem publicado dois livros: Paedophilia: The Radical Case[2] [3] , sua obra mais destacada, um relato pessoal sobre como chegou a fazer parte do PIE e seu trabalho nessa organização, bem como uma polêmica análise da ética da pedofilia; e Michael Jackson’s Dangerous Liaisons, um estudo em profundidade sobre as relações íntimas do cantor Michael Jackson com garotos adolescentes. Tem colaborado como jornalista em diversos meios, publicando crônicas, ensaios, crítica de televisão e cinematográfica e resenhas de livros. Foi encarcerado três vezes pelo governo britânico sob acusações muito duvidosas[4] .

Biografia[editar | editar código-fonte]

Infância e educação[editar | editar código-fonte]

Tom O'Carroll[nota 1] nasceu em 9 de agosto de 1945 em Warwickshire, Inglaterra. Seu pai era engenheiro técnico e sua mãe dona de casa. O'Carroll e seu irmão mais velho foram educados na cidade de Coventry, onde frequentaram escolas públicas. O ambiente familiar era estável e amoroso. Fizeram-lhes compreender a importância da educação e ambos os garotos passaram para a universidade. O'Carroll estudou história na Universidade de Lancaster e pedagogia como pós-graduado na Universidade de Cambridge, seguindo os passos de seu irmão no Downing College de Cambridge. Posteriormente, durante sua estada na prisão, O'Carroll iria obter um mestrado de alto nível em filosofia pela Open University.

Carreira[editar | editar código-fonte]

Iniciou sua carreira como mestre, profissão na qual passou três anos no final dos sessenta, até entrar em conflito com as autoridades por causa de seu amor declarado por um de seus alunos, um garoto de 13 anos. Isto provocou um escândalo que resultou em seu despedimento. Profundamente afetado em termos pessoais e profissionais, começou a escrever como súplica apaixonada e como catarsis. O romance resultante, The Operation –um exercício de fição científica baseado no assunto da então recente cirurgia de transplante (um professor de meia-idade, pedófilo discreto, morre estraçalhado em um acidente de carro; seu cérebro é transplantado no corpo de um menino de dez anos que morreu devido a uma doença cerebral), nunca foi publicada, mas essa obra, escrita entre 1970 e 1971, marcou o início de uma grande paixão de caráter pessoal e "político" manifestada através de diversas formas literárias.

Tendo começado a trabalhar como repórter em um jornal local, o Leicester Mercury, a maior parte da carreira profissional de O'Carroll iria consistir a partir de então em observar e escrever, com preferência pelo jornalismo narrativo –crônicas, ensaios, crítica de televisão e cinematográfica, livros. Despedido novamente em 1974, dessa vez por conseqüência de seu passado enquanto trabalhava como voluntário em um clube juvenil –um político local lhe causou problemas que afetaram isto e seu emprego no jornal–, entrou para a Open University como adido de imprensa.

Foi durante esses anos que O'Carroll se tornou membro do Paedophile Information Exchange e com o tempo seu presidente. Em última instância, isto derivou em um escândalo ainda maior e com mais repercussão pública em 1978, que o levou a ser despedido da universidade e encarcerado por conspiração para corromper a moral pública. Esses anos também foram testemunhas da publicação de seu primeiro livro, Paedophilia: The Radical Case, em 1980.

Iriam passar muitos anos até que as coisas se acalmassem o suficiente para que O'Carroll encontrasse outro emprego. Foram anos de austeridade, nos quais lutou para se manter à tona economicamente exercendo como escritor-fantasma e realizando trabalhos discretos e irregulares, principalmente como redator técnico independente.

Como corretor de edição demonstrou uma grande aptidão quando seu passado difícil podia permanecer envolvido em um obscuro véu. No entanto, um emprego desse tipo no jornal Wakefield Express terminou em mais outro despedimento em 1994. Naquele então representante sindical e negociador de empresa na União Nacional de Jornalistas, O'Carroll foi objeto da imprensa marrom após o anúncio de sua participação no congresso anual da união, e seu despedimento se tornou inevitável quando seu passado carcerário se tornou público.

O último e mais duradouro emprego de O'Carroll foram os sete anos que passou de 1994 a 2001 como corretor de edição para o Gulf Times, um jornal em inglês de Doha, Qatar. Este, também, terminou conforme o padrão estabelecido: ele foi despedido após ter sido identificado como pedófilo nas páginas de um jornal sensacionalista, desta vez o News of the World. Seu oponente, dessa vez, foi o famoso e principal jornalista de investigação do jornal, Mazher Mahmoud, também conhecido como o "falso xeque".

Mahmoud e sua equipa receberam aviso de que O'Carroll estaria passando férias em um centro naturista da França e foram com ele em segredo fingindo serem naturistas em uma tentativa de fazer amizade com O'Carroll e persuadi-lo a revelar informações comprometedoras em relação à pedofilia. Este não se deixou enganar, mas isto não impediu que o fotógrafo de Mahmoud tirasse uma foto com objetivo de longo alcance de um O'Carroll nu alegadamente brincando com um menino de dez anos (ele mais o menino simplesmente estavam juntos na zona do duche ao lado da piscina do centro) e publicasse uma história baseada unicamente em invenções e insinuações, com os antecedentes de O'Carroll no PIE e na cadeia como fundo[5] .

Com cerca de sessenta anos a essa altura, O'Carroll nunca mais iria trabalhar como colaborador de imprensa. A década seguinte seria para ele uma batalha constante contra as aparentemente intermináveis repercussões legais surgidas a causa da história do falso xeque. Contudo, no meio desses problemas, se dedicou a documentar-se para seu estudo conclusivo sobre as amizades íntimas do Rei do Pop com garotos, Michael Jackson’s Dangerous Liaisons, publicado em 2010.

Sexualidade e relações[editar | editar código-fonte]

Ao tomar consciência à idade de 10 anos da sua atração sexual para meninos e, aos 16, de sua falta de interesse pelo sexo oposto, O'Carroll adoptou primeiramente uma atitude conservadora, julgando sua situação como um problema que devia ser resolvido namorando com garotas; ou, caso não o conseguir, por meio de tratamento médico. Sendo estudante universitário teve um curto namoro, mas a relação fracassou, como haviam feito outras, face à sua decisão de não ocultar sua orientação sexual às mulheres com quem namorava.

Aos 20 anos surgiu nele uma atração sexual para meninas pré-púberes que o colheu de surpresa como um elemento novo, mas ficava claro que nenhum dos dois gêneros lhe atraía para além da puberdade. Ao chegar aos 30 ele tinha a certeza de não querer uma relação de casal com outro adulto, e a partir de aí resignou-se à vida de solteiro.

Embora a reação de O'Carroll diante de sua própria sexualidade foi de inquietação e desconforto ao chegar à idade adulta, suas ideas tiveram uma virada optimista e radical quando começou a descobrir a atitude tolerante em relação à sexualidade de culturas nas quais as crianças não eram/são vistas como sendo "inocentes" e assexuadas, e mesmo a intimidade sexual entre adultos e crianças era/é considerada normal.

Sua introdução nesse novo mundo de possibilidades deveu-se em grande parte ao escritor Angus Stewart, a quem conheceu na qualidade de admirador na casa do escritor em Oxfordshire (Inglaterra), após a leitura de Sandel, um romance de Stewart de 1968 sobre o relacionamento amoroso entre um jovem universitário e um menino de coro. Naquela época, Stewart tinha passado muito do seu tempo em Marrocos, onde ele próprio teve amantes pré-púberes.

Tom O'Carroll nunca tem afirmado (o qual evidentemente teria sido perigoso) ou negado publicamente ter tido relações com menores. Doutro lado, nunca houve nenhuma denúncia a respeito. O elevado grau de controlo a que tem estado sujeito pela polícia e a mídia durante várias décadas sugere a abstinência ou um grau de discreção ausente noutros aspetos de sua vida. Tem sido especulado que a dedicatória "To A and Z, with love" de seu livro Paedophilia: The Radical Case podia fazer referência a meninos com os que ele podia ter tido algum tipo de relação íntima.

Ativismo[editar | editar código-fonte]

A 'revolução sexual' de final da década dos 60 e início dos 70 foi uma época em que O'Carroll e muitos outros –inclusive filósofos como Michel Foucault, Jacques Derrida e Louis Althusser, ou o antigo revolucionário comunista Daniel Cohn-Bendit– entendiam que a libertação sexual das crianças e a supressão da idade de consentimento eram assuntos que deviam ser submetidos à ação e ao debate. O crescente movimento de libertação gay daqueles anos forneceu o modelo que inspirou a criação do Paedophile Information Exchange no Reino Unido em 1974, grupo ao que O'Carroll se juntou no mesmo ano.

Logo começou a se envolver no Comitê Organizador, tornando-se primeiramente secretário e depois presidente. Naquele então adido de imprensa pela Open University e com experiência como jornalista, O'Carroll encarregou-se da campanha promocional do PIE, dirigida a mostrar que as reformas da legislação que propunha a organização eram bem documentadas e na realidade bastante moderadas[nota 2] . O'Carroll, assim como seu antecessor na presidência, Keith Hose[6] , pensavam que um grupo que fizesse campanha de forma aberta e enérgica não iria ser visto facilmente como uma mera sociedade de fachada para atividades criminosas –o que já acontecera com o grupo irmão Paedophile Action for Liberation, que fracassou devido aos ataques da imprensa marrom[6] [7] .

Inicialmente, os resultados não foram maus. Em 1976, O'Carroll obteve uma importante projeção pública ao pronunciar um discurso sobre a utilização da castração química para pedófilos perante o Conselho Nacional de Liberdades Civis (NCCL, por sua sigla em inglês; atualmente Liberty), conseguindo uma resolução para condenar essa forma de "tratamento". Também foi membro do subcomitê de direitos homossexuais do NCCL. Poder-se-ia sustentar que esse era o nível apropriado de ativismo, dirigido a instituições e meios de comunicação liberais e libertários em geral. Mas O'Carroll foi demasiado rápido e demasiado longe procurando energicamente a atenção de toda a mídia, inclusive dos jornais sensacionalistas mais furibundos.

Descrito pelo diretor do The Guardian Alan Rusbridger como tendo "um evidente engenho para a publicidade" em seu papel como porta-voz do PIE, ele conseguiu indiscutivelemente dar a conhecer o grupo em 1977, mas a um preço alto. Um verão de sucessos em que o PIE se viu envolvido salpicou dia após dia, durante vários meses, as primeiras páginas de toda a imprensa nacional, com especial atenção na participação de O'Carroll no congresso de Nottingham da Campaign for Homosexual Equality, no congresso em Swansea da Sociedade Britânica de Psicologia sobre "Amor e atração" e num encontro aberto do PIE no Conway Hall de Londres. A O'Carroll também foi oferecido repetidamente participar noutros programas de debate (mesmo um prestigioso convite para fazer um discurso na histórica sociedade de debate Oxford Union[8] ), mas logo os convites viram ser-lhe repentinamente retirados quando os protestos sociais ameaçaram escapar das mãos.

Mais tarde O'Carroll foi nomeado entre os seus "personagens do ano" pelo jornal Sunday Times, mas a tática publicitária dele tinha sido muito mal calculada. A imprensa sensacionalista só se concentrou na escandalosa possibilidade de que as relações sexuais com crianças "de apenas quatro anos" fossem teoricamente permitidas conforme ao programa do PIE, enquanto as amplas medidas de proteção incluídas em suas propostas foram totalmente ignoradas. Foi atingido amplamente o reconhecimento do PIE, mas apenas nos termos de escândalo e má fama que logo iriam tornar a organização vulnerável aos ataques sob as desacreditadas leis sobre conspiração.

Contudo, a popularidade do PIE deu dois frutos destacados. Em 1978, os psicólogos Glenn Wilson e David Cox dirigiram-se ao grupo com o pedido de estudar os militantes do PIE sob os auspícios do Instituto de Psiquiatria de Londres. Com a aprovação de O'Carroll e do comitê executivo do PIE, esses pesquisadores realizaram um estudo dos militantes do PIE, resultando em um livro chamado The Child-Lovers: A Study of Paedophilies in Society. Esse foi um avanço importante face às pesquisas anteriores, baseadas quase na sua totalidade em amostras clínicas e jurídicas pouco representativas. O outro grande resultado positivo foi que a editora Peter Owen se dirigiu a O'Carroll para pedir-lhe que escrevesse seu próprio livro, publicado em 1980 como Paedophilia: The Radical Case.

De modo menos positivo para O'Carroll, ele foi despedido da Open University por supostamente desacreditar a universidade, e logo após, entre 1981 e 1982, viu-se cumprindo uma sentença de dois anos de prisão por "conspiração para corromper a moral pública". Desiludido, desacreditado e desempregado, O'Carroll iria passar a maior parte das seguintes dois décadas em escuridão, simplesmente tentando ganhar a vida discretamente.

No final dos anos 90, um antigo amigo que tinha sido oficial do exército lhe "ordenou" que se aposentasse ("É seu dever") para colaborar nos bastidores para vários programas de televisão sobre pedofilia, inclusive a série Witness de Dea Birkett para o Channel 4 e o célebre falso documentário satírico Brass Eye, emitido em 2001. Em 2003, ele ficou diante das câmeras para uma acareação com a ativista contra o abuso infantil Esther Rantzen no programa noturno de debate After Dark.

Esse mesmo militar beligerante amigo seu também iria recrutar O'Carroll para a fronte ocidental: nos Países Baixos ele começou trabalhar para International Child and Paedophile Emancipation (IPCE); na França ele iria participar com grande destaque em dois congressos em Paris, o da International Academy of Sex Research (2000) e o Congresso Mundial de Sexologia (2001). Esses congressos marcaram o início de contatos contínuos com destacadas personalidades acadêmicas e clínicas que iriam ser de grande ajuda para assegurar que o seu livro sobre a sexualidade de Michael Jackson recevesse a atenção de críticos expertos.

Na atualidade (2014), Tom O'Carroll mantém, desde o seu blog Heretic TOC, o que ele define como um "discurso de resistência" sobre a pedofilia.

Encarceramento[editar | editar código-fonte]

Em 1981 foi condenado por "conspiração para corromper a moral pública" pela seção de contatos da revista do PIE Understanding Paedophilia e sentenciado a uma pena de dois anos de prisão. Cumpriu sua pena, finalmente de 16 meses em virtude da normativa então vigente de redução por boa conduta para um terço da pena sentenciada, em três prisões distintas: Wormwood Scrubs, Wandsworth e Lewes. Embora preenchido os requisitos para pedir o livramento condicional após 12 meses de encarceramento, este lhe foi recusado. Durante sua estada na prisão foi três vezes atacado fisicamente. Em uma delas recebeu um soco na cara estando no topo de uma escada de ferro quando trazia um tabuleiro de refeição, que o lançou de cabeça até o final de um modo espectacular. Resultou ileso.

Um «barrister» (advogado) da acusação de conspiração, Peter Thornton, posteriormente Conselheiro da Rainha e juiz decano de distrito, escreveu sobre isso no ano seguinte em Rights, o jornal do Conselho Nacional de Liberdades Civis (posteriormente Liberty). Thornton criticou as acusações, que na sua opinião “estavam muito longe de qualquer contravenção tangível”, e afirmou que O'Carroll tinha sido condenado sob escassos indícios[9] . Por outro lado, Dan Franklin, que tinha sido editor de Paedophilia: The Radical Case, escreveu um epílogo para a edição americana sobre os dois julgamentos contra O'Carroll no Tribunal Central Criminal britânico (realizado o segundo ao mostrar-se em desacordo o júri do primeiro) e posterior encarceramento[10] . Franklin, que posteriormente se tornou, segundo uma resenha no jornal The Guardian, “o colosso editorial dos escritores de grande êxito do Reino Unido”, disse que as autoridades “se tinham demonstrado resolutas a punir este homem inteligente e eloquente no limite de seu poder”. Franklin citou comentaristas da época, entre eles Alan Watkins do The Observer, quem declarou que O’Carroll tinha sido castigado efetivamente nada mais do que por fazer campanha para modificar a legislação.

Em 2002 voltou ter dificuldades legais, dessa vez sob acusação de evadir a proibição de importar fotografias obscenas de crianças desde Qatar. Foi condenado a uma pena de nove meses de prisão com base em três imagens, sentença que foi anulada posteriormente pelo Tribunal de Apelações, que estimou que o juíz de instrução esteve condicionado demais pelo ativismo de O'Carroll. As fotos foram descritas no acórdão como tendo "a qualidade de obscenas no contexto em que elas foram tiradas, mas (...) do tipo que alguns pais podem tirar de seus filhos de maneira totalmente inocente".

Em uma nova audiência, dessa vez para recorrer da condenação, não da sentença, foi negado a O'Carroll recorrer perante um único juíz. Isso não o impediu de recorrer perante uma sala de três magistrados, embora tal implicava que o estado não iria custear seu patrocínio jurídico. Convicto de não ter infringido a lei (ele sempre pensou que as fotos em questão não eram obscenas; a lei exigia ainda que ele soubesse que as fotos importadas eram ilícitas), decidiu preparar seu próprio recurso e representar-se a si próprio nos Reais Tribunais de Justiça.

Ao ditar a sentença, o juíz Tom Crowther disse que O'Carroll era "um defensor entregue, entusiasta e muito bem documentado do que ele considera o inocente e não abusivo prazer de ver fotografias de crianças nuas. Ele expõe argumentos filosóficos, sociais e artísticos sobre o que consideramos irrelevante em relação àquilo que são para nós duas questões jurídicas: (1) Decorreram corretamente o julgamento e a instrução? (2) As convicções são sólidas?". Com base nessas questões o recurso foi rejeitado.

Ainda não satisfeito, O'Carroll apelou mais uma vez, representando-se novamente a si próprio, dessa vez perante o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, onde a questão foi resolvida por uma sala de sete juízes em 2005. O'Carroll alegou que a definição jurisprudencial de "obsceno" era demasiado vaga e portanto contrária à Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Em uma sentença de nove páginas o tribunal descordou, de modo que a condenação tornou-se definitiva.

Em janeiro do ano seguinte, 2006, O'Carroll foi preso novamente, dessa vez sob suspeita de conspirar para distribuir fotografias obscenas de crianças, após ter fornecido a um agente secreto da Polícia Metropolitana de Londres uma coleção de imagens de pornografia infantil obtida de outro acusado pelos mesmos fatos. Em junho de 2006 foi arguido sob acusações de pornografia infantil. Em setembro reconheceu ter distribuído imagens obscenas de menores. Em dezembro foi condenado a dois anos e meio de prisão pelo Supremo Tribunal[11] [12] .

Como em várias outras operações dos anos dois mil envolvendo o trabalho secreto da polícia britânica, as motivações e métodos dessa, batizada como Operação Glenlivet, foram altamente duvidosos. No entanto, como costuma ser habitual, os relatos da imprensa sobre o caso não disseram nada no que respeita à defesa dessa história; tampouco a mídia se informou muito na audiência pública sobre o desenrolar do caso[nota 3] .

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Tom O'Carroll é visto a miúde no tranquilo rincão de um pub, absorto no seu exemplar do The Guardian com uma caneca de boa cerveja como única companhia, podendo passar facilmente por um "solitário"; "não dos loucos e perigosos, mas sim parece um cara velho e pobre que perdeu sua amada esposa há pouco tempo" (conforme definição de William A. Percy). Essa é uma distração anônima e discreta muito apreciada por O'Carroll, pois lhe concede tempo e espaço para pensar.

Esta é atualmente sua vida, em geral: uma vida que ele passa pensando e profundamente entregue às palavras de um modo ou outro, com um jornal, com um livro ou face o ecrã de um computador. Ele fez no momento bastantes viagens pelo mundo para relaxar-se e refletir, durante os quais aprendeu (embora depois esqueceu em grande parte) algumas línguas a um nível de conversação razoavelmente bom –francês, alemão, norueguês e espanhol, mas nunca árabe, apesar de ter vivido em Qatar durante sete anos. Essa foi sempre uma designação "temporária", de modo que ele nunca chegou a aprender o idioma. De qualquer modo, nesse país em que ele trabalhou como convidado, a primeira língua de seus colegas do Gulf Times, além de taxistas, lojistas, barbeiros, garçons do seu bebedouro o Doha Club, e outros amigos, era geralmente o malaiala, hindi, urdu, kannada, marathi, konkani, telugu ou, vindos doutros pontos, o tagalog ou alguma outras entre muitas.

No entanto, O'Carroll manifestou seu respeito pelo islão lendo o Corão do princípio ao fim, o que levou ele a fazer o mesmo com a Bíblia. Embora durante a infância ele tinha sido um fervoroso crente, e até prosélito durante um curto espaço de tempo, O'Carroll tinha prestado pouca atenção às escrituras da sua religião de juventude desde que deixou sua fé sendo adolescente. Esse retorno para a Bíblia deu como resultado dois ensaios que começaram como um diálogo com uma dama cristiana dos Estados Unidos sobre as transgressões sexuais do presidente Bill Clinton. Ele está tão orgulhoso desses ensaios como da maioria da sua obra publicada.

Também é, ou costuma ser, um jogador de xadrez perspicaz mas sem talento; contudo, uma vez conseguiu sobreviver com um honroso pate ao campeão mundial Vasily Smyslov em uma partida simultânea.

O squash e a natação mantêm-no em forma há já algum tempo. Na atualidade (2012), com 66 anos, ele comparece ao ginásio duas vezes por semana para fazer exercício, e se o tempo é medianamente adequado, a grande paixão dele é passear a pé pela zona montanhosa próxima da sua casa de Cúmbria, ocasionalmente acompanhado com amigos que vêm de todo o mundo para fazer-lhe uma visitinha.

Obras publicadas[editar | editar código-fonte]

Jornalismo narrativo[editar | editar código-fonte]

  • Paedophilia: The Radical Case, Londres, Peter Owen, 1980, ISBN: 0 7206 0546 6. Descrito como "um livro eloquente e bem documentado" pelo diretor do The Guardian Alan Rusbridger[13] , essa primeira grande obra de O'Carroll dividiu claramente os críticos. No mundo acadêmico superou bravamente a prova do tempo com mais de 90 citações em Google Acadêmico em 2013. Durante muitos anos foi texto recomendado para os pós-graduados do Instituto de Criminologia da Universidade de Cambridge. Pode ser encontrada uma importante reflexão sobre o livro em Children's Sexual Encounters With Adults, de Li, West e Woodhouse, onde Li compara a postura de O’Carroll com aquela de David Finkelhor, que tem sido descrito como “provavelmente o sociólogo mais destacado” que trabalha no campo do abuso sexual infantil. Li analisou e revisou ambas duas posturas, propondo finalmente uma solução intermédia de cinco pontos. Em 2005, os fundamentos éticos da obra de O’Carroll receberam especial atenção em Sex from Plato to Paglia: A Philosophical Encyclopedia. No verbete sobre pedofilia dessa enciclopédia, Igor Primoratz, professor emérito de filosofia da Universidade Hebraica de Jerusalém, descreve e analisa as mudanças que O’Carroll realiza em relação ao conceito de “inocência” sexual infantil, a opinião de que a experiências sexuais temporãs prejudicam o desenvolvimento da criança, e a afirmação de que o “consentimento informado”, como oposto à simples disposição, é uma necessidade ética para participar em relações sexuais com os outros. Primoratz chega à conclusão de que, “Se a atividade sexual não pode ser vista como diferente [das outras atividades envolvendo adultos com crianças], então a situação moral e legal da pedofilia apenas depende da questão de saber se ela é prejudicial para as crianças. Sobre essa questão o júri ainda não se pronunciou”.
  • Michael Jackson’s Dangerous Liaisons, Leicester: Troubador, 2010. Forjado durante dezassete anos e com uma espessura de 624 páginas, esta foi a obra mais ambiciosa de O'Carroll, na qual, sob o pseudônimo de Carl Toms, ele propõe uma revisão exaustiva das polêmicas relações íntimas do artista com garotos. Descrita pelo historiador estadunidense William A. Percy como "a obra de um gênio", Michael Jackson's Dangerous Liaisons recebeu, antes de ser publicada, o aval entusiasta de cinco eminentes professores, inclusive Percy. Após sua publicação, outro renomado especialista, J. Michael Bailey, professor de psicologia da Universidade de Northwestern, também a elogiou amplamente em uma resenha de quatro páginas para a revista acadêmica Archives of Sexual Behavior. Bailey, um homem de família, escreveu: "A ideia de que as relações pedofílicas podem ser inofensivas ou mesmo benéficas para as crianças é perturbadora para muitas pessoas, incluindo eu próprio". Mas, continuava, "A falta de evidência científica que respalde as minhas reações em grande parte viscerais contra as relações pedofílicas tem sido uma das descobertas mais surpreendentes da minha prometedora educação científica... O’Carroll argumenta contra os meus impulsos e argumenta bem".

Artigos[editar | editar código-fonte]

  • "Chemical castration", Gay Left, nº 7 (inverno 1978-9), pp. 37-8.
  • "Is PIE sexist?", Magpie, nº 12 (janeiro 1979), pp. 7-9.
  • "Paedophilia: A Response", Gay Left, nº 8 (verão 1979), pp. 13-17.
  • "A Jackson jury on the streets", NAMBLA Bulletin, nº 8, Vol. 14 (14-16 de novembro de 1993).
  • "Sentencing in child pornography cases: A Response to the Sentencing Advisory Panel's Consultation Paper", [s.l.], 2002. Versão online, Biblioteca IPCE.

Resenhas[editar | editar código-fonte]

  • "The Age Taboo": resenha sobre o livro de Dan Tsang The Age Taboo, Minor Problems, nº 1 (1983-4-15), pp. 10-11.
  • "A gay view of 'child abuse'"; resenha sobre The Abomination Paul Golding, [s.l.], 2001.
  • "Judith Levine: Harmful to Minors"; resenha sobre Harmful to Minors de Judith Levine, publicada na internet, 2002. Versão online, Biblioteca IPCE.
  • "Is it a bird? Is it a plane? No, it's Super Ped!"; resenha sobre The Moralist de Rod Downey, Great Mirror Press, Ormond Beach, Florida, 2001. Versão online, Biblioteca IPCE.
  • "A wasted opportunity"; resenha sobre Be Careful Who You Love de Diane Dimond, [s.l.], 2006.
  • "Around Jackson, not 'on' him"; resenha sobre On Michael Jackson de Margo Jefferson, [s.l.], 2009.
  • "Aphrodite's new angle is just as slanted as her old one"; resenha sobre Michael Jackson Conspiracy de Aphrodite Jones, [s.l.], 2009.
  • "Brüno meets Jacko Review of Unmasked"; resenha sobre The Final Years of Michael Jackson de Ian Halperin, [s.l.], 2009.
  • "Comment on ‘The Role of Androphilia in the Psychosexual Development of Boys’ by David L. Riegel, International Journal of Sexual Health, nº 3, Vol. 3, pp. 157-157.
  • "Love is confoundedly complicated!"; resenha sobre Tiger: A Memoir de Margaux Fragoso, publicada em dezembro 2011 em um foro especializado da internet, com acesso apenas para convidados.
  • "Of Goode and evil"; resenha sobre Paedophiles in Society de Sarah D. Goode, 2012, [s.l.], Archive for Sexology.

Obras coletivas[editar | editar código-fonte]

  • Paedophilia: Some Questions and Answers. Folheto informativo sobre a pedofilia escrito em colaboração com Keith Hose, antigo presidente do PIE, e "John", da fundação Albany Trust. Foi distribuído pelo PIE a cada membro do Parlamento britânico.

Notas

  1. A biografia de Tom O'Carroll incluida neste artigo é traduzida em sua maior parte do artigo Tom O'Carroll Biography, publicado em inglês no sítio pessoal do historiador estadunidense William A. Percy..
  2. Conforme o seu programa, a idade de consentimento não seria simplesmente suprimida, mas substituída por um modelo alternativo que apenas acarretaria ações penais se a criança não tiver participado voluntariamente na relação. Outros casos motivo de preocupação seriam resolvidos pelos tribunais civis, os quais poderiam proibir relações susceptíveis de serem consideradas contrárias ao interesse superior do menor.
  3. Mais detalhes sobre o desenrolar do caso podem ser encontrados no artigo Tom O'Carroll Biography, publicado em inglês no sítio pessoal do historiador estadunidense William A. Percy..

Referências

  1. Case of European Court of Human Rights, 2005-3-15.
  2. Rycroft, Charles. "Sensuality from the start". Times Literary Supplement (1980-11-21)
  3. Taylor, Eric. "Too young to love?". New Society (1980-10-30), p. 246.
  4. Tom O'Carroll Biography, no sítio do historiador William A. Percy.
  5. Mahmood, Mazher. Confessions of a Fake Sheik: ‘The King of the Sting’ Reveals All, Londres: HarperCollins, 2009, pp. 116-117. ISBN 0007353642.
  6. a b O'Carroll, Tom. "The Beginnings of Radical Paedophilia in Britain". Em: Paedophilia: The Radical Case. Londres: Peter Owen, 1980. ISBN 0-7206-0546-6.
  7. Santiago, Pablo. "Colectivos a favor de la pedofilia". Em: Alicia en el lado oscuro, Madrid: Imagine, 2004, pp. 387-391. ISBN 84-95882-46-9.
  8. Convite da Oxford Union dirigido a Tom O'Carroll em 1978. Extraído do artigo Tom O'Carroll Biography, publicado em inglês no sítio pessoal do historiador estadunidense William A. Percy.
  9. Thornton, Peter. "Unacceptable charges exposed in recent trials". Rights, Vol. VI, nº 2, 1982.
  10. Franklin, D., Afterword, em O’Carroll, T., Paedophilia: The Radical Case, Alyson Publications, Boston, Mass., 1982, pp. 252-256.
  11. Men jailed for making and distributing indecent images of children, Metropolitan Police
  12. Pair admit to child porn charges, BBC News
  13. Rusbriger, Alan, "Why the DPP resurrected an ancient law to deal with paedophiles", The Guardian, 1981-3-14 (cópia escaneada extraída do artigo Tom O'Carroll Biography, publicado em inglês no sítio pessoal do historiador estadunidense William A. Percy).

Ligações externas[editar | editar código-fonte]