Transgênese

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Transgênicos são organismos vivos geneticamente modificados em laboratório. O código genético de uma espécie é alterado pela a introdução de uma ou mais sequências de genes provenientes de outra espécie, mediante o emprego de técnicas de engenharia genética. O genoma dos organismos transgênicos contém fragmentos do genoma de bactérias ou vírus em seu DNA. Os genes introduzidos não pertenciam ao genoma original dessa espécie e vão conferir-lhe novas características, como a resistência a herbicidas ou a produção de toxinas contra pragas das culturas agrícolas, fazendo também com que essa espécie possa produzir novas substâncias de interesse.

Resultados na área de transgenia já são alcançados desde a década de 1970, quando foi desenvolvida a técnica do DNA recombinante. A manipulação genética combina características de um ou mais organismos de uma forma que provavelmente não aconteceria na natureza. Assim podem ser combinados os DNAs de organismos que não se cruzariam por métodos naturais.

Os termos organismos transgênicos e organismos geneticamente modificados (OGMs) não são sinônimos: todo transgênico é um organismo geneticamente modificado, mas nem todo OGM é um transgênico. OGM é um organismo que teve o seu genoma modificado em laboratório, sem necessariamente receber material genético (RNA ou DNA) de outro organismo. Transgênico é um organismo que foi submetido à técnica específica de inserção de material genético de outro organismo (que pode até ser de uma espécie diferente).[1]

A transgênese aplicada à produção de alimentos foi saudada como a grande esperança para a solução do problema da fome no mundo, podendo alegadamente criar cepas de culturas mais produtivas, mais nutritivas, resistentes a pragas, a ambientes inóspitos e às mudanças climáticas, ou contendo substâncias medicinais, podendo ainda reduzir os custos de produção e o uso de agrotóxicos, mas uma quantidade de novos estudos têm lançado sérias dúvidas sobre essas supostas vantagens, apontando o surgimento de numerosas doenças relacionadas ao consumo de alimentos geneticamente modificados, uso mais intenso de agrotóxicos, desenvolvimento de resistências e mutações biológicas e importante impacto negativo sobre o meio ambiente, havendo hoje grande controvérsia sobre o assunto. Mesmo os estudos que reafirmam a segurança de seu uso e suas vantagens, muitas vezes reconhecem que a técnica ainda é muito recente e precisa de mais pesquisa para que seja mais bem dominada e se atinja um consenso, dizendo haver um potencial de riscos imprevisíveis para a saúde, que podem aparecer apenas no longo prazo, ou derivados da interação desses organismos modificados com outros fora do ambiente controlado dos laboratórios. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) recomenda cautela na liberação de OGMs e a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a realização de mais pesquisas.

História[editar | editar código-fonte]

A história da manipulação de genes de espécies naturais para o benefício do homem é antiga, iniciando na Pré-História, quando o homem começou a selecionar variedades específicas de cultivos que serviam melhor aos seus interesses, aprendendo a cruzá-las entre si para dar origem a variedades permanentes melhoradas. Da mesma forma, selecionou animais, como felinos selvagens, que por cruzamentos seletivos deram origem ao gato doméstico, por exemplo. Essa técnica era externa à biologia celular e tipicamente os melhoramentos levavam muitas gerações até se estabelecer, mas um salto radical foi proporcionado com o desenvolvimento das técnicas contemporâneas de microbiologia, que possibilitaram uma interferência direta na própria estrutura interna das células, modificando o seu material genético e produzindo alterações importantes em brevíssimo tempo. Assim nascia a engenharia genética.[2]

A primeira aplicação dos organismos transgênicos e dos organismos geneticamente modificados foi a própria investigação científica, já que a expressão de um determinado gene de um organismo inserido em outro organismo pode facilitar a compreensão da sua função. A técnica chama-se DNA recombinante. Desde a criação da primeira bactéria transgênica, em 1973, os laboratórios de pesquisa têm utilizado microrganismos transgênicos nas suas investigações. Posteriormente, organismos transgênicos, como plantas e animais, foram desenvolvidos para estudos, e também vários produtos obtidos a partir de transgênicos foram desenvolvidos e comercializados. O primeiro produto comercializado foi a insulina, produzida a partir de uma modificação da bactéria Escherichia coli, no final da década de 1970.[1]

Depois das pesquisas com microrganismos, nos anos 1980 foram desenvolvidas plantas e animais multicelulares para fins comerciais. Na China esta tecnologia foi introduzida nos anos 1990, e em 1994 a empresa Calgene criou nos Estados Unidos um tomate mais resistente ao armazenamento.[2] Em 1996 surgiu a soja resistente a herbicidas, e no ano seguinte, o algodão.[3] Desde então a pesquisa se acelerou e no fim da década já havia 40 milhões de hectares de terras em vários países com cultivos transgênicos, movimentando um negócio de dois bilhões de dólares. Atualmente, vários alimentos transgênicos são utilizados para consumo animal e humano.[2]

Alimentos transgênicos[editar | editar código-fonte]

Mamão geneticamente modificado para resistir ao vírus Potyvirus.

São alimentos produzidos a partir de organismos cujo embrião foi modificado em laboratório, pela inserção de pelo menos um gene de outra espécie. Alguns dos motivos de modificação desses alimentos são para que as plantas possam resistir às pragas de insetos, fungos, vírus, bactérias e ao uso de herbicidas. Também teoricamente podem ser criadas variedades que produzam certas substâncias medicinais, tenham maior teor nutritivo, se adaptem com facilidade a ambientes pouco favoráveis, exijam menos cuidados ou menos agrotóxicos, e que reduzam os custos da produção, favorecendo o crescimento das atividades agropecuárias.[2] [4] [5]

O mau uso de pesticidas pode causar riscos ambientais, tais como o aparecimento de plantas resistentes a herbicidas e a poluição dos terrenos e lençóis de água. O uso de herbicidas, inseticidas e outros agrotóxicos pode diminuir com o uso dos transgênicos, já que eles pretendem tornar as culturas mais resistentes aos venenos, que então eliminariam apenas as pragas sem afetar as lavouras. Essa modificação poderia reduzir a necessidade dos agrotóxicos.[2] Uma lavoura convencional de soja pode exigir até cinco aplicações de herbicida, enquanto que numa lavoura transgênica Roundup Ready, resistente ao herbicida glifosato, é prevista apenas uma aplicação.[6] Ao mesmo tempo, em caso de pragas difíceis de controlar, a alta resistência das plantas modificadas possibilitaria o uso de maiores quantidades de agrotóxicos sem afetar a lavoura. Isso frequentemente ocorre, pois após algum tempo as pragas costumam desenvolver resistência aos venenos.[2]

Prevalência de culturas geneticamente modificadas[editar | editar código-fonte]

Desde 2004, após seis anos de proibição, a União Europeia autorizou a importação de produtos transgênicos. No dia 2 de março de 2010, a União Europeia aprovou o plantio de batata e milho transgênicos no continente, após solicitações dos Estados Unidos. A batata transgênica será destinada para a fabricação de papel, adesivos e têxteis. O milho atenderá a indústria alimentícia. Cada país da União Europeia poderá ser responsável pelo cultivo transgênico em suas fronteiras em votação marcada para o meio do ano[7] Em 2012 a Comissão Europeia aprovou mais 11 cultivos modificados.[8]

É estimado que a área de cultivo deste tipo de variedades esteja com uma taxa de crescimento de 13% ao ano. A área total plantada é já superior a 100 milhões de hectares, sendo os principais produtores os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil, a Argentina, a China e a Índia. As culturas prevalentes são as de milho, soja e algodão, baseadas principalmente na tecnologia Bt.[9]

É necessário também diferenciar alimentos transgênicos de alimentos geneticamente selecionados, pois estes não foram parte de uma troca de genes com outra espécie, mas sim, a seleção de indivíduos com características favoráveis e sua reprodução em um meio artificialmente isolado.

Controvérsias[editar | editar código-fonte]

Atualmente existe um debate bastante intenso relacionado à inserção de alimentos geneticamente modificados (AGM) no mercado. Alguns países, como o Japão, rejeitam fortemente a entrada desses alimentos, enquanto que outros países asiáticos, norte e sul-americanos permitem a comercialização de AGMs. Porém, a bibliografia que cita variados efeitos negativos para a saúde humana, para a economia, para a biodiversidade e para a justiça social, entre outros aspectos, está crescendo.[10] [11] [12] [13] [14] [15] [16] [17]

Impacto na saúde humana[editar | editar código-fonte]

Várias informações contraditórias têm sido lançadas de diversos setores quanto aos potenciais danos que os organismos transgênicos possam provocar nos seus consumidores. A Organização Mundial de Saúde declarou que até o presente não foram provados danos à saúde dos consumidores, mas reconheceu que esta tecnologia tem riscos potenciais e recomendou mais pesquisas.[18] Porém, este parecer não representa uma unanimidade entre a comunidade científica, e tampouco no mercado internacional de sementes e alimentos.[17] [19] Assim como se alega que não foram provados conclusivamente danos à saúde, também se alega que não foi provado que os transgênicos não causam danos. Porém, muitos estudos vêm afirmando que os danos existem, enquanto outros reafirmam sua inofensividade, de maneira que a polêmica é grande.[2]

Os estudos com pessoas ainda são poucos, mas vários testes laboratoriais já foram realizados com animais, além de observações de campo, relatando diversos distúrbios relacionados à alimentação com produtos transgênicos, entre eles alergias, infertilidade, malformações congênitas, alterações no sistema imunológico, desenvolvimento de tumores e taxas de mortalidade mais altas que o normal.[10] [20]

Em 1998, o investigador Árpád Pusztai e a sua equipe lançaram o pânico na Europa, ao afirmar que tinham obtido resultados que demonstravam o efeito nefasto de batata transgênica, quando presente na alimentação de ratos. Quando estes resultados foram publicados verificou-se que o referido efeito tinha sido devido ao transgene inserido nessas batatas ser de uma lectina, que por si só tem um efeito tóxico no desenvolvimento dos mamíferos.[21] Estes investigadores sofreram pesadas críticas da classe política e da comunidade científica em geral. No entanto, ainda há alguma controvérsia quanto à interpretação dos resultados destes autores, opondo organizações não governamentais a alguns cientistas.

Manifestante nos Estados Unidos em uma marcha de protesto contra a Monsanto e os transgênicos. O cartaz diz: "Meu corpo não é um experimento".

Outro caso de um estudo acerca do potencial efeito de transgênicos na saúde pública foi o de Séralini, Cellier & Vendomois. Estes investigadores reavaliaram estatisticamente dados publicados anteriormente pela multinacional Monsanto, e declararam que a alimentação de ratos com milho transgênico MON863 provocou toxicidade hepática e renal, bem como alterações no crescimento.[22] A European Food Safety Authority (Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar) aprovou o MON863 para consumo humano na União Europeia,[23] baseando-se nas conclusões dos estudos entregues pela Monsanto. A Autoridade concluiu que as diferenças encontradas no estudo de Séralini et al. não eram biologicamente relevantes e que os métodos estatísticos utilizados neste estudo eram incorrectos,[24] [25] pelo que não procedeu à reavaliação da aprovação. No entanto, até à data, nenhum outro estudo científico publicado colocou em questão as conclusões do estudo da equipa de Séralini. Ao contrário, pois em 2012 mais de 800 cientistas de 82 países publicaram uma carta aberta, citando explicitamente este estudo como apoio, apontando os riscos que estão por trás da grande propaganda a favor dos uso dos transgênicos, denunciando as exigências legais inconsistentes para a aprovação oficial dos produtos, que se satisfazem com estudos de curto prazo, escassos ou mal orientados, e citaram casos de assédio e censura contra cientistas que tentaram provar impactos negativos, como ocorreu no caso Séralini.[19] [26]

Esta discussão acentuou a polêmica sobre quem deve ser responsável pela avaliação do impacto deste tipo de produtos. O facto de algumas avaliações serem feitas pelas próprias empresas que os produzem tem levantado grande indignação por parte de organizações ambientalistas. O Painel OGM, responsável pela avaliação dos transgênicos da European Food Safety Authority, foi também criticado por vários estados-membros, casos da Itália e a Áustria, que acusam este painel de cientistas de parcialidade.

Algumas das críticas que os transgênicos têm recebido têm a ver com a potencial reação alérgica dos animais/humanos a estes alimentos. O caso mais conhecido foi a utilização de um gene de uma noz brasileira com vista ao melhoramento nutricional da soja para alimentação animal. A noz em causa era já conhecida como causadora de alergia em determinados indivíduos. O gene utilizado para modificação da soja tinha como função aumentar os níveis de metionina, um aminoácido essencial. Estudos realizados verificaram que a capacidade alergênica da noz tinha sido transmitida à soja,[27] o que levou a que a empresa responsável terminasse o desenvolvimento desta variedade. Mais recentemente, investigadores portugueses do Instituto de Tecnologia Química e Biológica, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, e do Instituto Superior de Agronomia, entre outros, testaram a resposta alérgica de diversos pacientes à alimentação com milho e soja transgênica. Este estudo não detectou qualquer diferença na reação às plantas transgênicas, quando comparada com as plantas originais.[28] [29] Vários outros estudos em pessoas e animais chegaram aos mesmos resultados testando diferentes cultivos.[30] [31] Por outro lado, no Brasil, um dos países que mais cultivam transgênicos, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional alertou para o surgimento de doenças ligadas ao consumo de tais produtos, como aumento de alergias e aumento da resistência a antibióticos.[32] Estudos conduzidos sob os auspícios da Associação Brasileira de Saúde Coletiva relataram que o uso prolongado de sementes modificadas e pesticidas têm provocado alergias, câncer, depressão, esterilidade, alergias e problemas neurológicos e mentais, entre outros.[33]

A Associação Médica Britânica considera que o risco para a saúde é pequeno, mas em declaração oficial de 2004 enfatizou que o conhecimento sobre o tema ainda é precário:

"A despeito da grande quantidade de estudos sobre os alimentos geneticamente modificados (AGMs), muitas questões permanecem sem ser respondidas, particularmente a respeito dos potenciais impactos de longo prazo de AGMs sobre a saúde e o meio ambiente. Os poucos estudos realizados sobre os efeitos dos AGMs na saúde são de curto prazo e muito específicos. Ainda há falta de estudos baseados em evidências a respeito dos impactos de médio e longo prazo sobre a saúde e o meio ambiente — questões que estão hoje no centro da polêmica".[34]

Um estudo de Alessandro Nicolia et al., que revisou 1.783 publicações sobre o tema, indicou que os riscos são pequenos. Dada a amplitude da revisão bibliográfica elaborada, este estudo é muitas vezes apontado como um sinal de que o consenso foi atingido,[35] mas os próprios autores reconhecem que a polêmica ainda é intensa e recomendaram o prosseguimento dos debates. É de assinalar que este trabalho foi produto de apenas quatro cientistas, sob o patrocínio do governo italiano.[36]

Em 2013 a Rede Europeia de Cientistas para a Responsabilidade Social e Ambiental, numa declaração assinada por 313 cientistas, fez outra revisão da bibliografia sobre o tema e afirmou que ainda não há consenso sobre a segurança dos AGMs, repudiando a divulgação pela mídia, governos e empresas de que o consenso existe. A Rede salientou que grande parte dos estudos que alegam a segurança dos AGMs foi produzida ou financiada pelas próprias empresas de biotecnologia, e que muitas vezes as evidências de efeitos negativos são desprezadas ou minimizadas indevidamente. Foi assinalado também que os estudos de risco sobre a saúde foram pontuais, e que não foram ainda feitos estudos epidemiológicos em grande escala, alertando que as organizações e trabalhos que indicam um risco "pequeno" não parecem levar em conta que em termos da população de toda uma nação ou do mundo o "pequeno" pode equivaler a milhares ou milhões de pessoas. Foi citado que as leis reguladoras dos países muitas vezes são fracamente embasadas, e que os estudos sobre os efeitos ambientais também ainda não conseguiram um consenso.[37] A mesma ausência de consenso foi declarada pelo Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança e pelo Codex Alimentarius, convenções internacionais que receberam a adesão de mais de 160 países, e que se baseiam no princípio da precaução.[38] O GENERA (Genetic Engineering Risk Atlas) mantém um banco de estudos com mais de 400 trabalhos, e é outra fonte apontada como reforçando a segurança dos transgênicos, mas somente metade desses estudos foi realizada por pesquisadores independentes.[39]

Ao que parece, a única certeza em toda esta discussão é que há fortes interesses econômicos e políticos engajados em uma intensa propaganda para a aprovação dos transgênicos, propaganda que nem sempre é honesta ou verdadeiramente esclarecedora.[12] [37] [19] [40] [41] [42] [43] Segundo Maria Alice Garcia, bióloga e professora da Universidade Estadual de Campinas, "a agressividade com que transgênicos têm sido propagandeados está diretamente relacionada ao fato de, no plano mercadológico de bens de consumo, os produtos da biotecnologia compõem um dos ramos mais promissores do capitalismo atual. [...] No Brasil, a mídia tem apresentado matérias sobre transgênicos, mas, na maioria das vezes, essas matérias expressam mais opiniões de grupos de interesse e não prestam esclarecimentos à população".[12]

Biodiversidade[editar | editar código-fonte]

Argumentos a favor dos transgênicos incluem a redução do uso de compostos como herbicidas, pesticidas, fungicidas, micro-fertilizantes (que por sua pequena estrutura, causam grande degradação do DNA Mitocondrial) e certos adubos, cuja acumulação pode causar sérios danos aos ecossistemas a eles expostos. As organizações ambientalistas questionam se os benefícios da utilização destas plantas poderia compensar os possíveis potenciais malefícios por elas causados. As culturas baseadas na tecnologia Bt, resultante de um melhoramento por transgenia incorporando genes da bactéria Bacillus thuringiensis, conferem à planta uma proteção natural a larvas de certos insetos, tornando praticamente desnecessário o controle destes por meio de pesticidas normalmente neurotóxicos, de alta agressividade ambiental, que em culturas não transgênicas são utilizados em larga escala. Tem sido posta em causa recentemente se esta tecnologia afetaria também insetos não-alvo, como abelhas e borboletas. Têm sido publicados alguns artigos científicos demonstrando que os insetos não-alvo são mais abundantes nos campos de plantas transgênicas do que nos campos convencionais sujeitos a pesticidas.[44]

Mas recentemente, um estudo de uma equipe de investigadores da Universidade de Indiana descobriu que o pólen e outras partes da planta de milho transgênico Bt são lixiviadas para os cursos de água perto de campos de milho até distâncias de 2 km, apresentando efeitos de toxicidade na mosca-da-água, que é um alimento importante para organismos superiores dos ecossistemas aquáticos, tais como os peixes e anfíbios.[45]

Segundo Benedito & Figueira, é muito lembrado o caso das borboletas-monarca que morreram após ingestão de pólen de milho modificado. Um estudo sobre traças do algodão e do brócoli transgênicos mostrou que elas desenvolviam resistência à toxina dos vegetais modificados. Os pesquisadores apontaram ainda que a difusão na natureza de vegetais resistentes a pragas agrícolas pode levar a uma supressão em grande escala de uma série de espécies de insetos que são importantes para o equilíbrio ecológico das áreas selvagens, o que por consequência pode eliminar também espécies úteis para as culturas, como os polinizadores. Alguns estudos não indicaram qualquer efeito significativo em espécies que se alimentam de pragas agrícolas que atacam culturas transgênicas. Interações imprevisíveis entre espécies modificadas e outras não modificadas podem potencialmente produzir espécies que tenham características diferentes das programadas. Este efeito já foi observado em vírus em condições laboratoriais, e pode ocorrer na natureza.[5]

Polinização cruzada[editar | editar código-fonte]

Uma das preocupações manifestadas para fazer em relação à utilização de plantas transgênicas prende-se com a possível polinização cruzada entre estas espécies com as existentes na natureza ou com culturas não modificadas. Um dos perigos disso é a perda de variedade genética das populações de vegetais, já que as plantas modificadas tendem a ser mais resistentes e adaptáveis.[2] Outro risco é que a difusão de genes estranhos na natureza pode levar ao aparecimento de espécies invasoras e superpragas.[5]

Vários estudos têm demonstrado que a existência de polinização cruzada é real, mas que diminui drasticamente com a distância da cultura transgênica. Um estudo realizado no Brasil demonstrou que após 10 metros de distanciamento entre plantas de soja transgênica e soja convencional, a polinização cruzada é negligenciável.[46] No caso do milho, um estudo de Ma, Subedi & Reid refere que essa distância é de aproximadamente 30 metros. Tais dados levam a que, para a plantação de uma cultura transgênica, tenha que ser respeitada uma determinada distância de segurança em relação às culturas vizinhas. Os investigadores defendem que esta distância deve ser avaliada caso a caso devido às diferenças no tamanho, peso e meio de transporte dos diferentes grãos de pólen.[47] Por outro lado, segundo Abreu, observações feitas no México mostraram que variedades de milho tradicionais que vinham sendo desenvolvidas há séculos pelos agricultores locais desapareceram depois que entraram em contato com milho transgênico.[2]

Uma outra controvérsia relacionada com a polinização cruzada foi a utilização da chamada tecnologia Terminator (em português Exterminador). Esta tecnologia baseia-se na adição, à planta em causa, de um gene que não permite a produção de sementes férteis. Tal prática foi amplamente condenada, por ser considerada como uma tentativa, por parte das empresas produtoras de sementes transgênicas, de impedir que os agricultores pudessem cultivar as plantas por mais que um ano usando as sementes que eles mesmos colhessem da primeira plantação, e assim obrigando-os a comprar novas sementes a cada novo plantio.[48] [49]

Fatores socioeconômicos[editar | editar código-fonte]

Grande parte das polêmicas originadas com a questão dos transgênicos está diretamente relacionada a seu efeito na economia mundial. Países atualmente bem estabelecidos economicamente e que tiveram sua economia baseada nos avanços da chamada genética clássica são contra as inovações tecnológicas dos transgênicos. A Europa, por exemplo, possui uma agricultura familiar baseada em cultivares desenvolvidos durante séculos e que não tem condições de competir com países que além de possuir grandes extensões de terra, poderiam agora cultivar os transgênicos. Para além disso, localizam-se em espaço europeu muitas das empresas produtoras de herbicidas e pesticidas, que são peças importantes na aceitação ou não de variedades agrícolas que possam comprometer os seus negócios.

Os relatos sobre a lucratividade das culturas transgênicas são contraditórios. Um estudo de 2002 do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos apontou que o lucro depende de muitas variáveis, e não apenas do uso de sementes transgênicas. No geral, o estudo concluiu que o algodão modificado se mostrou lucrativo, mas o milho não. A soja, por sua vez, demonstrou um desempenho irregular.[50]

É também utilizado o argumento de que o cultivo de transgênicos poderia reduzir o problema da fome, visto que aumentaria a produtividade de variadas culturas, nomeadamente cereais. Porém, muitos estudos, inclusive o do ganhador do Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, Amartya Sen, revelam que o problema da fome no mundo hoje não é ligado à escassez de alimentos ou à baixa produção, mas à injusta distribuição de alimentos em função da baixa renda das populações pobres. Esta posição, que liga a fome às desigualdades sociais e não a uma suposta produção insuficiente de comida, é referendada pela FAO. A organização também recomenda cautela na liberação de alimentos geneticamente modificados, e não recomenda sua liberação sem estudos de impacto ambiental.[51] Dessa forma questiona-se a alegação de que a biotecnologia poderia provocar uma redução no problema da fome no mundo.

Utilização de compostos químicos e resistência[editar | editar código-fonte]

Crescente evidência vem indicando que a alegação de que as culturas transgênicas exigem menos agrotóxicos do que as tradicionais é enganosa, e que o uso de químicos nessas lavouras têm de fato crescido.[52] [53] [54] [55] [56] [57] Segundo a engenheira agrônoma Flavia Londres, "mais de 75% das lavouras transgênicas cultivadas no Brasil são de soja transgênica da Monsanto tolerante ao Roundup (herbicida à base de glifosato). Não por acaso, o consumo de glifosato no Brasil saltou de 57,6 mil para 300 mil toneladas entre 2003 (ano da autorização da soja transgênica no país) e 2009, segundo dados divulgados pela Anvisa".[58] O glifosato é extensivamente associado às culturas transgênicas e é divulgado como seguro pela fabricante Monsanto, mas pesquisas têm-no acusado de causar uma infinidade de males para a saúde e para o meio ambiente, incluindo câncer, hipotireoidismo, malformações congênitas, moléstias no sistema endócrino, mutações genéticas, neurotoxicidade, aborto, esclerose múltipla, mal de Parkinson, obesidade, doença de Lou Gehrig, autismo, depressão, diabetes, declínio da biodiversidade, esterilização do solo, entre outros efeitos daninhos, mesmo quando usado em doses abaixo das recomendadas.[59] [41] Segundo Alexis Baden-Mayer, a empresa foi condenada na França por fazer propaganda enganosa.[41]

O principal fator de aumento no uso de agrotóxicos deve-se ao surgimento da resistência aos venenos entre as espécies-alvo, obrigando ao seu uso mais intenso. Tendo em vista que todos organismos estão sujeitos à seleção natural e consequente evolução, os críticos dos organismos transgênicos previam que as características destes organismos levariam à evolução dos organismos que a transgenia pretende atingir. Em julho de 2014 a Associação de Produtores de Soja e de Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) notificou extrajudicialmente as empresas Monsanto, DuPont, Dow AgroSciences e Syngenta para que solucionassem perdas de agricultores que compraram sementes de milho que não protegeram a cultura contra as lagartas que a atacam. Neste caso, trata-se do milho em que foi inserida uma sequência de genes da bactéria Bacillus thuringiensis, denominado Milho Bt. Os agricultores foram obrigados a comprar defensivos agrícolas que não seriam necessários anteriormente, sugerindo que houve evolução das lagartas, levando-as a desenvolver resistência.[60]

Referências

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Ver também[editar | editar código-fonte]

Alternativas ao uso de transgênicos[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]