Travestilidade

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Disambig grey.svg Nota: Não confundir com Transvestismo, ou Transexualidade.

A travestilidade, é referente às pessoas travestis, é uma expressão de gênero que difere da que foi designada à pessoa no nascimento, assumindo, portanto, um papel de gênero diferente daquele imposto pela sociedade, que objetiva transicionar para uma expressão diferente.[1][2] Na maioria de suas expressões, a travestilidade se manifesta em pessoas designadas do sexo masculino no nascimento, mas que objetivam a construção do feminino, através de suas roupas e podendo incluir ou não procedimentos estéticos e cirúrgicos.[3][1]

No Brasil, há também outras denominações populares para o termo "travesti" de indivíduos do sexo masculino como "t-gata", "t-girl", shemale, "boneca".[4] "trava" e "traveca" (pejorativo).[5] A palavra passou por várias mudanças de significado e ainda é usada em uma variedade de sentidos. Hoje, o termo travesti é comumente considerado ultrapassado e depreciativo.[6]

De acordo com Jaqueline Gomes de Jesus, a categoria travesti é mais antiga que a categoria transexual, por isso é mais utilizada. Essa maior utilização, no entanto, é marcada pelo preconceito, já que o sentido empregado é, grande parte das vezes, pejorativo. Para esta autora, a maioria das travestis prefere ser tratada no feminino, considerando insultoso serem adjetivadas no masculino, por isso devemos dizer as travestis e não os travestis. Assim, pode-se definir como travesti as pessoas designadas homens ao nascer que "vivenciam papéis de gênero feminino, mas não se reconhecem como homens ou como mulheres, mas como membros de um terceiro gênero ou de um não-gênero".[7]

Termos relacionados[editar | editar código-fonte]

Crossdresser[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Crossdressing
Jovem crossdresser.

Crossdressers são pessoas que vestem roupa ou usam objetos associados ao sexo oposto, por qualquer uma de muitas razões. Quando cross-dressing ocorre para fins eróticos ao longo de um período de pelo menos seis meses e também causa sofrimento ou prejuízo significativo, o comportamento é considerado um transtorno mental no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, e o diagnóstico psiquiátrico "travestismo fetichista" é aplicado. [7].[8][9]

Drag Queen[editar | editar código-fonte]

Silvetty Montilla, Salete Campari e outras drag queens brasileiras em 2009.
Ver artigo principal: Drag Queen

Drag queens ou Drag kings são artistas performáticos que se travestem, fantasiando-se cômica ou exageradamente com o intuito geralmente profissional artístico.

Eonista[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Eonismo

Eonistas são pessoas que valorizam o sentido de disfarçar-se, de "passar" como se fosse do sexo feminino. O termo eonismo ou eonista tem origem no agente secreto francês Chevalier d’Eon que durante muitos anos se fez passar por mulher. O sentido de disfarçar-se associado ao travestismo e eonismo (Éon+ismo) provavelmente deve-se a esse agente secreto.

Transformista[editar | editar código-fonte]

Show de Transformistas.
Ver artigo principal: Transformista

Transformista é uma pessoa que veste roupas usualmente próprias do sexo oposto com intuitos essencialmente artístico-comerciais, sem que tal atitude interfira necessariamente em sua identidade de gênero.

Transexual[editar | editar código-fonte]

Mulher Transexual na parada LGBT de Roma.
Ver artigo principal: Transexualidade

Transexual é uma pessoa que possui uma condição neurológica intersexual congênita chamada antigamente de Síndrome de Harry Benjamin.[10] Diferentemente do travestismo fetichista (que se descreve como um tipo de parafilia), o travestismo transexual se caracteriza por pessoas vivem esta síndrome e ainda não entraram em transição mas eventualmente se vestem do sexo desejado. Indivíduos que nasceram com essa condição sofrem uma inversão psicossocial completa de gênero causando . Sendo considerado um problema físico e não psicológico como muitos acreditam, há tratamento médico e psicológico com hormônio terapia e cirurgia para melhor adaptar o gênero do corpo ao sexo neurológico.


Estudos sobre o travestismo[editar | editar código-fonte]

Neste tópico são abordados alguns estudos conduzidos em relação ao travestismo e/ou transexualidade:

Prevalência[editar | editar código-fonte]

Os estudos mais antigos indicam a frequência da travestilidade e transexualidade masculina em 1 em 37 000 homens e 1 em 107 000 mulheres. Em estudo mais recente, realizado nos Países Baixos, os dados apontam para a frequência de 1 em 11 900 homens e 1 em 30 400 mulheres[11][12]. Há predominância no sexo masculino. Em outro estudo, realizado na Escócia, em 1999, foi verificada uma prevalência de 8,18 em 100.000, com uma relação homem/mulher igual a 4/1[13]. Em crianças, num levantamento em uma clínica psiquiátrica canadense, de 1978 a 1995, encontraram-se 275 transexuais, com uma relação meninos/meninas igual a 6,1/1.


Políticas públicas do Brasil[editar | editar código-fonte]

Em 29 de janeiro de 2004 foi lançada a primeira campanha brasileira contra a transfobia. O lançamento foi feito no Congresso Nacional e contou com a participação de ativistas transexuais. A campanha foi uma iniciativa do Departamento DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, e recebeu o nome “Travesti e Respeito”, tendo sido idealizada e pensada por ativistas transexuais para promoção do respeito e da cidadania.[14] A campanha teve como principal objetivo reforçar as "atitudes de respeito e de inclusão social deste segmento da população, que se torna muito vulnerável ao vírus da aids pelo preconceito e violência".[15] Assim, 29 de janeiro tornou-se o Dia da Visibilidade Trans: "A data tem o objetivo de ressaltar a importância da diversidade e respeito para o Movimento Trans, representado por travestis, transexuais, transgêneros e outros grupos que subvertem a heteronormatividade e o cissexismo das relações humanas".[16] Defensores dos direitos GLBT do Brasil estão sensíveis às dificuldades enfrentadas pelas travestis tanto na construção de uma cidadania que as aceite como no estudo e aconselhamento sobre os tratamentos hormonais e estéticos que elas almejam. Em audiência com o Ministro da Saúde José Gomes Temporão, realizada em 29 de janeiro de 2008, Dia da Visibilidade Trans, foi entregue uma carta de reivindicações: entre elas estão a humanização do atendimento às travestis nos serviços de saúde públicos e a ampliação de pesquisas sobre uso de hormônios femininos nas travestis e as consequências para a saúde delas[17].

Várias políticas vem sendo adotadas pelo governo brasileiro, sejam elas na esfera federal, estadual ou municipal a fim de se criar uma cidadania para travestis, transexuais e transgêneros em geral:

Educação

Considerando a dificuldade de vários transgêneros em concluir os estudos, o MEC passou a recomendar políticas específicas como o uso do nome social no ensino. Em julho de 2010, 12 estados brasileiros já possuíam diretrizes estaduais do uso do nome social no ensino público: Tocantins, Goiás, Santa Catarina, Paraná, Piauí, Paraíba, Pará, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas e Rio Grande do Sul.[18]

Saúde

De forma semelhante o CREMESP aprovou a Resolução nº 208/2009, que garante o direito das pacientes transexuais e travestis serem atendidas pelo nome social, independente do nome e sexo do registro civil.[19] Em 2010 o Ministério da Saúde e a Secretaria de Direitos Humanos também esclareceu que o Sistema Único de Saúde (SUS) deve adotar o nome social de travestis (como preferem ser chamados) nos prontuários médicos.[20]

Emprego

Os servidores públicos federais, travestis e transexuais, têm assegurado o direito de usar os seus nomes sociais no cadastro de dados e informações, nas comunicações internas, nas correspondências por email, crachá, lista de ramais e nome de usuário em sistemas de informática.[21]

Identificação legal

O uso do nome social de travestis e transexuais, ou seja, aquele pelo qual essas pessoas se identificam e são identificadas pela sociedade[21] é uma antiga reivindicação que vem ganhando uma boa aceitação dentro das políticas públicas afetas aos direitos LGBT.

Em São Paulo o uso do nome social no Bilhete Único está assegurado através do decreto 51.181/2010.[22] Para alterar o nome civil nos registros de RG é necessário ingressar com uma ação judicial para a alteração do prenome.

Emprego

As travestis, de uma forma geral, possuem baixa escolaridade. A baixa escolaridade, de alguma forma, pode ser explicada através do processo de hormonização e/ou aplicação de silicone no corpo para torná-lo mais feminino, que muitas vezes inicia-se ainda na adolescência, sendo difícil suportar, portanto, as chacotas ou violências que este processo gera no ambiente escolar, ocasionando uma evasão precoce nos estudos e formação educacional[23].

Existem poucas ações governamentais a fim de facilitar o ingresso no mercado formal do trabalho para travestis, transexuais e transgêneros em geral: o projeto mais conhecido é o "Projeto Damas" do Rio de Janeiro, coordenado pela ASTRA-Rio onde várias travestis e transexuais receberam cursos profissionalizantes;[24] outro projeto conhecido é o "Escola Jovem LGBT", coordenado pelo Grupo E-JOVEM, de Campinas, que também oferece cursos profissionalizantes.[25]

Saúde

Algumas políticas de saúde pública voltadas a travestis, transexuais e transgêneros em geral vem sendo implementadas: em 9 de junho de 2009, o primeiro ambulatório de saúde do Brasil dedicado exclusivamente a travestis e transexuais foi inaugurado pela Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo.[26] Em um ano de funcionamento mais de 4 mil atendimentos foram realizados pelo ambulatório.[27] Em dezembro de 2011, o Ministério da Saúde lançou a portaria nº 2.836 instituiu no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (Política Nacional de Saúde Integral LGBT).[28]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Manual de comunicação LGBT. ABGLT.
  2. ROSA, Mariléia Catarina. KAHHALE, Edna M. P. Travestilidade: A constituição da subjetividade na pele em que se habita. Salvador, BA. 2012
  3. CASSEMIRO, Luiza Carla. Travestilidade, Transexualidade: revisão da literatura recente das Ciências Sociais. PUC-Rio, 2010
  4. «T-Girl -». www.travesticomlocal.com.br. Consultado em 2015-10-12. 
  5. ^ Paulo Dalgalarrondo (2009). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Artmed Editora. p. 414. ISBN 978-85-363-1493-8.
  6. Thompson, Sarah. «Gender and Transgender in Modern Paganism page 118» [S.l.: s.n.] 
  7. JESUS, Jaqueline Gomes de. «Orientações sobre Identidade de Gênero: Conceitos e Termos». p. 17. Consultado em 09 de setembro de 2013. 
  8. Leonardo Baldaçara (2015). Transtornos Mentais. Clube de Autores. p. 191.
  9. «DSM-V» (PDF). The DSM Diagnostic Criteria for Transvestic Fetishism. American Psychiatric Association. 2009. 
  10. http://www.shb-info.org/id19.html
  11. Meyer III W, Bockting WO, Cohen-Kettenis P, Coleman E, DiCeglie D, Devor H; et al. (2001). «Standards of Care for Gender Identity Disorders, Sixth Version» (PDF). The Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association's International Journal of Transgenderism [S.l.] 2 (2). Consultado em 2007-09-29. 
  12. Amanda V. Luna de Athayde (2001). «Transexualismo Masculino». Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia International Journal of Transgenderism [S.l.] 45 (4). Consultado em 2007-09-29. 
  13. Wilson P, Sharp C, Carr S. (1999). «The prevalence of gender dysphoria in Scotland: a primary care study». British Journal of General Practice Royal College of General Practitioners [S.l.] 49: 991–2. Consultado em 2007-09-17. 
  14. Blogueiras Feministas (2012). «Chamada Blogagem Coletiva: Dia da Visibilidade Trans». Consultado em 10 de setembro de 2013. 
  15. Ministério da Saúde (2004). «Travestis ganham campanha contra aids e preconceito». Consultado em 10 de setembro de 2013. 
  16. JESUS, Jaqueline Gomes de (2013). «Manifesto Transgênero». Consultado em 10 de setembro de 2013. 
  17. «Ministro da Saúde recebe ativistas no Dia da Visibilidade Travesti». 29 de janeiro de 2008. Consultado em 2008-01-31. 
  18. «RS: trans poderão usar nome social nas escolas». 07/07/2010. Consultado em 11/07/2010.  Parâmetro desconhecido |pulicado= ignorado (Ajuda)
  19. «Resolução permite que transexuais e travestis sejam atendidas pelo nome social». A Capa. 11/11/2009. Consultado em 11/07/2010. 
  20. «Campanha orienta travestis sobre uso de nome social no SUS». iparaiba. 28/04/2010. Consultado em 11/07/2010. 
  21. a b «PORTARIA Nº 233, DE 18 DE MAIO DE 2010». Imprensa Nacional. 19/05/2010. Consultado em 14/09/2010. 
  22. «Após humilhação, transexual consegue nome social em Bilhete Único». A Capa. 10/2/2010. Consultado em 14/07/2010. 
  23. «Guia de Prevenção das DST/Aids e Cidadania para Homossexuais» (PDF) [S.l.: s.n.] 2002-09-01. Consultado em 2008-01-01. 
  24. «Em defesa dos direitos de travestis e transexuais». Agencia Fiocruz de Notícias. Consultado em 14/09/2010. 
  25. «São Paulo terá Escola Jovem LGBT a partir de 2010». MixBrasil. 18/12/2009. Consultado em 14/07/2010. 
  26. «SP ganha primeiro ambulatório para travestis e transexuais do país». Secretaria da Saúde. 09/06/09. Consultado em 06/08/2010. 
  27. Ricardo Barbosa Martins. «Ambulatório garante cidadania e direitos humanos». Agência de Notícias da AIDS. Consultado em 06/08/2010. 
  28. Ministério da Saúde (2011). «PORTARIA Nº 2.836, DE 1º DE DEZEMBRO DE 2011». Consultado em 10 de setembro de 2013. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]