Triunfo Eucarístico

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Triunfo Eucarístico foi uma festividade realizada em 1733 na cidade brasileira de Ouro Preto, chamada na época de Vila Rica, estado de Minas Gerais, que marcou a trasladação do Santíssimo Sacramento da Igreja do Rosário e a sua condução triunfal até a Igreja do Pilar[1]. A festa foi antecedida pela guarda do Santíssimo pelos negros do Rosário até culminar na construção da Matriz do Pilar.[2]

No contexto de uma sociedade eminentemente analfabeta, a linguagem visual de uma procissão suntuosa tinha um caráter comunicacional.[3]

Características e significados[editar | editar código-fonte]

Cortejo foi acompanhado por diferentes segmentos da sociedade

O acontecimento, "um dos eventos sociais mais exuberantes da América Portuguesa"[2], foi narrado por Simão Ferreira Machado, português de Lisboa e residente nas Minas, provável Conde das Galveas, então governador da província. Ao registrar o cortejo em O Triunfo Eucarístico - Exemplar da Cristandade Lusitana, publicado em 1734, mostrou os "portugueses senhores dos mais finos diamantes de todo o mundo" em um momento ao qual referiu não ter tido lembrança "que visse o Brasil, nem consta, que se fizesse na América ato de maior grandeza".[4][5]

O lisboeta, testemunha entusiasta e participante dos acontecimentos, estampou para que "perpetue em lembrança (...) e digna de eterna memória"[5] o momento cultural e histórico-social do território mineiro[6] e o mito edênico próprio da crônica do período colonial [7], o que serviria de base para diversos estudos.

Ele revelou as sugestões místicas e profanas do cortejo, ou seja, "suntuosas minúcias" como os trajes enfeitados com pedras preciosas, alegorias, efeitos visuais e sonoros das danças e músicas, teatro, jogos públicos, toque dos sinos, uso constante de estampidos, rufares de tambor, apitos, clarins, trombetas, caramelas, tiros de mosquetes, poesias junto ao Palácio do Bispado e cavalhadas.[1][3][4][5][8]

A narração também inclui os preparativos. Nos dias que antecederam o Triunfo Eucarístico, bandos de mascarados saíram diariamente às ruas com trajes galantes e gestos jocosos para divulgar as festividades.[8]

A atuação desses emissários, motivos de riso, colaborou para a atração de "um numeroso concurso de gente, tanto da principal como da plebe de todas as Comarcas".[8]

O acontecimento também teria sido precedido por um longo período de atos comunitários, "seis dias de luminárias" antes da procissão, além da decoração das janelas com colchas de seda e damasco, enfeites das ruas com cinco arcos cravados de ouro e diamantes, montagem de altar, flores, aromas e uma verdadeira explosão cromática. A pompa presenciada por Vila Rica parecia não ter limites[1]. O uso das luzes tinha uma significação especial, já que clarear a noite invertia a ordem da natureza e do costumeiro, pois, após escurecer, os arraiais coloniais tinham a modorra como rotina. O procedimento, na visão do cronista, dava "a entender que tinha renascido o dia, quando principiava a noite", visava "dilatar às luzes o domínio das trevas", ou seja, era a representação da vitória do homem sobre a escuridão.[3]

A procissão foi iniciada por um cavaleiro que ficava oculto em uma abóbada e saía de repente, já montado na serpente do paraíso, com a intenção de assustar a multidão.[3]

Procissão barroca[editar | editar código-fonte]

Luz e sombra, imagens duplicadas e ostentação fizeram parte de manifestação marcante de Vila Rica

A festa, "um misto de espetáculo devoto e intenção encomiástica"[9], retratou a euforia da sociedade mineradora, o êxito da empresa aurífera, a "excitação visual caracteristicamente barroca", ou seja, mais que o Santíssimo Sacramento ou o comprazimento espiritual.[1][10]

Pela profusão de ornamentos, receptividade da comunidade que celebrou a si própria e a exaltação dos sentidos, o Triunfo foi desvinculado dos cânones tradicionais e "inaugurou uma nova fase de concepções e manifestações estéticas no campo da expressão da religiosidade popular".[11]

Segundo Laura de Mello e Souza, a festa, um ato de exaltação do metal precioso no momento de maior abundância, teria causado a impressão de democratização, ou seja, era "como se ouro estivesse ao alcance de todos, a todos iluminando com o seu brilho na festa barroca".[1]

A estética barroca criou um cenário audiovisual e de surpresa, no qual o ilusório e o inesperado conviveram simultaneamente.[3]

As descrições da festa mostrava o jogo e contraste de luz e sombra, vida e morte, "tão ao gosto barroco".[3]

Assim, o Triunfo teria sido um mecanismo de reforço para "criar um largo espaço comum de riqueza", divulgar uma "mensagem social de riqueza e opulência" em uma sociedade marcada pelas desigualdades e de restrita extensão da riqueza. Portanto, na expressão da autora, o "fausto era falso", a festa teve a finalidade persuasória de neutralizar conflitos, causar a ilusão barroca de uma sociedade rica e igualitária[1]. A hierarquização social, composta pela decoração das casas e manifesta publicidade, estava nitidamente expressa.[3]

Hierarquia social[editar | editar código-fonte]

Manifestação profana e religiosa teve adesão de diversos fiéis e irmandades

A decoração das casas não representava estritamente o fervor religioso. Era, sobretudo, a forma de exibir a distinção social, em um "ambiente ilusório, como um espelho ondulado, onde alguns elementos eram salientados em detrimento de outros" . Neste jogo de espelhos, a vida era representada como um teatro, "num processo de duplicação do real e da sua representação". As casas dos moradores de um dos morros que formavam a vila, chamado Pascoal da Silva, eram, no relato do cronista, as mais iluminadas, para mostrar propositalmente às autoridades onde estava o centro da opulência, do poder.[3].

A historiadora Júnia Ferreira Furtado explica que "a procissão, como um texto, passava pelo crivo do Estado e da Igreja. Perante o povo, representava a sociedade hierarquizada, tal qual ela devia se constituir".[3]

As confrarias, irmandades e demais segmentos da sociedade desfilaram de acordo com a interpretação da sociedade e ordens civis e eclesiástica, ou seja, de acordo com regras pré-estabelecidas. A historiadora também defende que "nada ocorria por acaso, toda a procissão se organizava a partir da fala do poder".[3]

Já Caio César Boschi defende que o processo de estratificação social não assumira diferenças e contradições tão nítidas. Portanto, na ocasião, o relacionamento de diferentes classes não constituíra excepcionalidade.[2]

Referências

  1. a b c d e f SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro - a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1982, p.33-69
  2. a b c BOSCHI, Caio César. Irmandades, religiosidade e sociabilidade. In: VILLALTA, Luiz Carlos; RESENDE, Maria Efigênia Lara de (orgs.). História de Minas Gerais – vol. 2. Belo Horizonte: Autêntica, 2007, p.71
  3. a b c d e f g h i j FURTADO, Júnia Ferreira. Desfilar: a procissão barroca. Revista Brasileira de História. São Paulo, vol. 17, nº 33, 1997, pp. 251-279
  4. a b FERNANDES, Luciano de Oliveira. A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto: teatro sacro e alegorias de um discurso teológico-político. II Encontro Memorial do ICHS-UFOP, 2009
  5. a b c FERNANDES, Luciano de Oliveira. Alegorias do Fausto: o triunfo eucarístico e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto. Ouro Preto: Editora da Universidade Federal de Ouro Preto, 2009, 135 p.
  6. LOPES, Hélio. Letras de Minas e Outros Ensaios. São Paulo: EDUSP, 1997. p.5
  7. ÁVILA, Affonso. Resíduos Seiscentistas em Minas - Textos do século do ouro e as projeções do mundo barroco. Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros, 1967. v.1, p.15
  8. a b c FURTADO, Júnia Ferreira. Os sons e os silêncios nas Minas do Ouro. In: Furtado, Júnia Ferreira. (Org.). Sons, formas, cores e movimentos na modernidade atlântica: Europa, Américas e África. 1 ed. São Paulo: Annablume, 2008, v. 1, p.45
  9. BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 43ª ed., 2006, p.50
  10. ÁVILA, Affonso. O lúdico e as projeções do mundo barroco. São Paulo: Perspectiva, 1971. p.117
  11. FONSECA, Genaro Alvarenga. Imaginário e festividade na Villa Rica setecentista. Ouro Preto: Revista Cadernos de História - Universidade Federal de Ouro Preto, ano II, n.1, março de 2007

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

"Resíduos Seiscentistas Em Minas: Textos do Século do Ouro... Triunfo Eucarístico: Reprodução fotografada da edição principe. Glossário e notas ao texto do Triunfo Eucharistico". Ed. Arquivo Público Mineiro. Affonso Ávila - 2 Volumes 2006

Ver também[editar | editar código-fonte]