Trojany
Trojany (Icó, Ceará, 1993) é uma artista visual, atriz, educadora e designer brasileira. Sua pesquisa artística percorre as raízes negras e indígenas do interior cearense, observando as marcas deixadas pelos processos coloniais e pelos projetos de modernidade – em especial a construção de açudes, que transformaram profundamente a paisagem e a vida de comunidades tradicionais no Ceará. Sua obra parte de uma concepção expandida de arquivo onde corpo, máquina, natureza, memória e virtualidade se cruzam em instalações, sites, taxidermias, gifs, filmes e performances.
Percurso
[editar | editar código]Nascida em Icó, cidade histórica do sertão cearense, em 1993, crescendo entre os rios, açudes, roçados e calçadas, Trojany é uma típica criança que vive no interior cearense. Durante a infância tem diversas participações em oficinas artisticas e teatrais na escola e na Igreja onde sua mãe atuava como catequista. Teve sua primeira oficina de Introdução ao teatro em 2008 com o ator Silverio Pereira. Começa a participar da cena artista da cidade que gira em torno de grupos de teatro e dança em apresentações no Teatro da Ribeira dos Icós, primeiro Teatro do estado do Ceará. Durante este período começa a ter contato com a computação e internet através das Lan-houses, acontecimento que influencia fortemente sua poética como artista.
Em 2012 a artista começa a viver em Fortaleza onde cursa Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará. Durante os primeiros anos do curso, começa a se interessar por Antropologia visual, Cinema e Artes Visuais. Diante da interação com a vibrante cena artística de Fortaleza, a artista começa a aprofundar o seu desejo pela arte. Em 2013 ingressa na terceira turma do curso de realização em audiovisual da Vila das Artes, escola publica da prefeitura de Fortaleza. Neste período a artista produz dentro da escola como conclusão do curso, o seu primeiro filme profissional de curta metragem entitulado Santa porque Avalanche (2015), onde ainda assinava como Haesney.
Em 2016 em parceria com o coletivo icoense CH5 e o coletivo carioca "osso osso" cria o curta metragem Antes da Encanteria, premiado pelo juri da critica no Festival Cine Ceará como melhor filme de curta metragem. Em 2019 desmotivada com o Audiovisual que enfrenta uma crise durante o governo Temer, a artista retorna a universidade onde cursa Design Digital pela Universidade Federal do Ceará, campus Quixadá. Após o traumático período pandêmico e com dificuldades de interação com o sistema educacional da universidade, trojany retorna a Fortaleza onde começa a trabalhar como diretora de arte, designer e VJ com o coletivo FZRNCK, responsável por artistas com Mateus Fazeno Rock e Mumutante, além de continuar atuante como professora montadora em filmes, video clipes e animações.
Trojany
[editar | editar código]Em 2020 influenciada pelo período traumático e pandêmico, aliada ao estudo de arte e tecnologia a artista renomeia-se para Trojany. Neste período começa a produzir perfomances, vídeos e exposições virtuais como formas de fruição do trabalho de arte durante a pandêmia. Após uma intensa produção virtual de arte no período pandêmico e influênciada pela questões do grupo de pesquisa em softwares e hardwares lives na UFC, Trojany começa a se questionar, por quanto tempo aqueles trabalhos, arquivos, artes e poéticas virtuais durariam.
Para além dos arquivos virtuais em seus HDs e cartões de memória, a artista começa a investigar as fotografias de sua familia como materialidade poética e antropológica, observando que tem uma familia com raizes fincadas em um território que sofreu ações diretas da colonialidade no sertão cearense. A histórias de Icó, e dos povos Icós começam através de suas pesquisas a habitar e compor os seus imaginários, assim como as movimentações e tensões em torno do Rio Jaguaribe.
A produção de Trojany desde então parte de uma concepção expandida de "arquivo": não apenas o documento institucional, mas o rastro vivo deixado por corpos, paisagens, afetos e tecnologias. Sua obra se inspira e investiga nas marcas deixadas pelos processos coloniais e modernizantes no Ceará, com atenção especial aos açudes, às barragens e aos espaços de água – estruturas que transformaram profundamente a vida de comunidades tradicionais e o próprio imaginário sertanejo. Em suas obras, corpo, máquina, natureza, memória e virtualidade se cruzam, criando zonas de contato entre o ancestral e o atual.
Tem definido seu trabalho como uma intensa e complexa relações entre diferentes noções de arquivo. Arquivo céu, arquivo palavra, arquivo fóssil, arquivo imagem, arquivo bicho.
Entre seus trabalhos recentes, destacam-se os GIFS Jacarecangoscópio (2017), a performance C.R.I.D.A – Centro de Recuperação Intensiva de Dados (2023), a série perfomática e fotografica " A noite mais bonita é quando somos o céu" (2024) e mais recente a série Oráculos (2024 - 2026), aves taxidermizadas que possuem um computador raspberry dentro de seu corpo, levantando questões sobre a troca de perspectiva entre a visão animal e humana, e sobre a introdução de dispositivos eletrônicos no corpo.
Trojany também atua como educadora, ministrando oficinas de arte inspiradas em suas práticas e pesquisas, transitando entre cinema, artes visuais, perfomance e arte tecnologia aliada ao estudo da antropologia, arqueologia, matemática e computação.
Participou de residências artísticas e programas educacionais em instituições como Solar dos Abacaxis, JA.CA, Kinobeat e Porto Iracema das Artes, e foi indicada ao Prêmio PIPA em 2024.
Trabalho artístico
[editar | editar código]A artista trabalha com uma noção expandida de "arquivo", explorando as relações entre linguagem, corpo, máquinas, produção de memória, virtualidade e internet . Sua produção cruza as relações entre tecnologia, arte, ancestralidade, softwares e hardwares livres, criando ambientes de imersão virtual, sites específicos, objetos em 3D, filmes e performances .
Seu projeto de pesquisa se inspira na astronomia dos povos originários, buscando construir uma nova sensibilidade para o olhar ao céu, desvinculada do conhecimento astronômico hegemônico . Suas investigações se materializam em instalações, bandeiras, taxidermia, GIFs, filmes, web art e performances .
Obras em acervos
[editar | editar código]Arediri Pigó - African Routes - Rotas Ópticas - Acervo Museu da Abolição - Recife - PE - 2026
Morango do Nordeste - Acervo Pinacoteca do Ceará - Fortaleza - Ceará - 2023
Prêmios e indicações
[editar | editar código]- Indicada ao Prêmio PIPA (2024)
Residências
[editar | editar código]FACT + KINO BEAT – Portos Conectados – Liverpool (Inglaterra) / Porto Alegre (RS, Brasil)
TERRA AFEFE – Vivências Breves – Ibicoara (BA, Brasil) – 2025
JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia – Belo Horizonte (MG, Brasil) – 2024
Territórios de criação – Pesquisa e visita aos sítios arqueológicos do Nordeste (Fase 1) – Paraíba (Brasil) – 2024
Solar dos Abacaxis – Rio de Janeiro (RJ, Brasil) – 2024
PRIS – Hub Cultural Dragão do Mar – Fortaleza (CE, Brasil) – 2023
Tecnologias travestigêneres – Museu da Imagem e do Som – Fortaleza (CE, Brasil) – 2023
Exposições e participações
[editar | editar código]- Atlântico Sertão – Centro Cultural Banco do Brasil (curadoria coletiva) – São Paulo (SP, Brasil) – 2026
- Cobra Norato – Galeria Zielinsky (curadoria de Adriano Casanova) – São Paulo (SP, Brasil) – 2026
- Delírio Tropical – Pinacoteca do Ceará – Fortaleza (CE, Brasil) – 2024 / São Paulo (SP, Brasil) – 2026
- A Terceira Cidade – FACT / KINO BEAT (curadoria de Gabriel Cevallos) – Liverpool (Inglaterra) / Porto Alegre (RS, Brasil) – 2025
- Negro é um rio que navego em sonhos – Galeria da Liberdade (curadoria de Ana Aline e Cícera Barbosa) – Fortaleza (CE, Brasil)
- Ainda Trago na Boca – Christal Galeria (curadoria de Abniel Nascimento) – São Paulo (SP, Brasil) – 2025
- Residência ao acaso – Luciana Brito Galeria – São Paulo (SP, Brasil) – 2024
- Deitar no céu, olhar o chão – Museu do Conhecimento – Belo Horizonte (MG, Brasil) – 2024
- Oficina Solar – exposição final do Solar dos Abacaxis – Rio de Janeiro (RJ, Brasil) – 2024
- Anas, Simoas e Dragões – Museu de Arte Contemporânea – Fortaleza (CE, Brasil) – 2024
- Ocupa MIS – Museu da Imagem e do Som – Fortaleza (CE, Brasil) – 2024
- Reflorestamento – Museu de Arte Contemporânea – Fortaleza (CE, Brasil) – 2023
- Se Arar – Pinacoteca do Ceará – Fortaleza (CE, Brasil) – 2022–2024
- "Sin señal" – Festival Latino Americano de archivo digital – Centro Cultural Kirchner – Buenos Aires (Argentina) – 2021
- Confirm Humanity – Homeostasis LAB – São Paulo (SP, Brasil) – 2020
Referências
[editar | editar código]Textos críticos, perfis e entrevistas
[editar | editar código]JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia. Trojany (CE). Belo Horizonte, 2024. Relato de processo de residência artística, com descrição detalhada da pesquisa em astronomia indígena, geometria, pólvora e referências a Ana Mendieta e NUT. Disponível em: http://www.jaca.center/trojany-ce/. Acesso em: [data de acesso].
Prêmio PIPA. Trojany (participante 2024). Rio de Janeiro, 2024. Perfil da artista com trajetória, formação, filmografia, obras e lista de exposições. Disponível em: https://www.premiopipa.com/trojany/. Acesso em: [data de acesso].
FACT Liverpool. Trojany (Resident artist). Liverpool, 2025. Perfil institucional destacando pesquisa em arquivo expandido, ancestralidade indígena e afro-brasileira e impacto dos açudes no Ceará. Disponível em: https://www.fact.co.uk/artist/trojany. Acesso em: [data de acesso].
Porto Iracema das Artes / INFINITA Festival. Em parceria com o festival "INFINITA", Porto Iracema das Artes promove oficina sobre produção crítica, com a artista Paula Trojany. Fortaleza, 2024. Divulgação da oficina AMPLI_AR com descrição da atuação da artista. Disponível em: https://portoiracemadasartes.org.br/... . Acesso em: [data de acesso].
Vila das Artes / Portal Terra da Luz. Cultura: Vila das Artes promove curso "Princípios básicos de Blender", com Paula Trojany. Fortaleza, 2023. Entrevista e perfil profissional da artista como educadora. Disponível em: https://portalterradaluz.com.br/curtas/... . Acesso em: [data de acesso].
Embaúba Play. Trojany. 2021. Curta biografia da artista, destacando atuação nos coletivos CH5 (Icó) e Mandacaru (Quixadá). Disponível em: https://embaubaplay.com/diretor_s/trojany/. Acesso em: [data de acesso].
Verbetes em enciclopédias e plataformas de arte
[editar | editar código]Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. Trojany. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Verbete institucional com dados biográficos e participação em exposição "Atlântico Sertão" (CCBB-SP, 2026). Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/198174-trojany. Acesso em: [data de acesso].
SP–Arte. Paula Trojany. 2026. Perfil da artista na plataforma. Disponível em: https://sp-arte.com/index.php/artistas/paula-trojany. Acesso em: [data de acesso].