Turcos mesquécios

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Turcos mesquécios
População total

de 400 000 a 600 000[1][2][3]

Regiões com população significativa
 Geórgia 1 500 [4][5]
Cazaquistão 150 000-180 000 [4][5]
 Azerbaijão 87 000–110 000 [4][5]
 Rússia 70 000–95 000 [4][5]
 Quirguistão 42 000–50 000 [4][5]
 Turquia 40 000-76 000 [5][6]
 Uzbequistão 15 000-38 000 [5][6]
 Ucrânia 8 000-10 000 [5][6]
 Estados Unidos 9 000-16 000 [5][6]
Flag of the Turkish Republic of Northern Cyprus.svg Chipre do Norte 180 [5]
Línguas
turco, azeri, russo, georgiano, cazaque
Religiões
islamismo sunita[7]
Grupos étnicos relacionados
turcos e azeris (carapapacos e terecemos)

Os turcos mesquécios (em georgiano: თურქი მესხები; transl.: t'urk'i meskhebi; em turco: Ahıska Türkleri) são um subgrupo étnico dos turcos nativos da região da Mesquécia, na Geórgia, junto a fronteira com a Turquia. A presença turca na região começou com a expedição militar turca de 1578, embora tribos turcos se assentaram na região tão cedo quanto os séculos XI-XII.[8] Hoje, os turcos mesquécios estão amplamente dispersados por toda a antiga União Soviética (bem como na Turquia e Estados Unidos) devido as deportações forçadas durante a Segunda Guerra Mundial.[9]

À época, a União Soviética estava preparando uma campanha de pressão contra a Turquia e Joseph Stalin queria limpar a população turca estratégica na Mesquécia que provavelmente eram hostis às intenções soviéticas.[9] Em 1944, os turcos mesquécios foram acusados de contrabando, bandidagem e espionagem em colaboração com seu povo além da fronteira turca. Expelidos da Geórgia por Stalin em 1944, eles enfrentaram discriminação e abusos dos direitos humanos antes e após a deportação. Aproximados 115 000 turcos mesquécios foram deportados à Ásia Central e apenas algumas centenas foram capazes de retornar à Geórgia desde então. Aqueles que imigraram à Ucrânia em 1990 assentaram-se nas favelas habitadas por trabalhadores sazonais.[10]

Origem e termos[editar | editar código-fonte]

Turcos mesquécios segurando a bandeira com os dizeres Osmanlıların Torunları: Ahiskalı Türkler (os netos dos otomanos: turcos mesquécios)
Reino da Geórgia após sua fragmentação em 1490. O Principado da Mesquécia está mais a oeste

A origem dos mesquécios é ainda inexplorada e amplamente controversa. Mas agora parece que há 2 principais vertentes:

  • A vertente pró-turca: os mesquécios foram etnicamente turcos, descendentes de colonos otomanos, dentro os quais há elementos georgianos.[11]
  • A vertente pró-georgiana: a historiografia georgiana tradicionalmente argumenta que os turcos mesquécios, que falam o dialeto turco de Cars e pertencem a escola hanafi sunita, são simplesmente georgianos turquizados convertidos ao islã no período entre o século XVI e 1829, quando a região de Mesquécia-Javaquécia (Mesquécia histórica) foi sob o governo do Império Otomano.[12]

Contudo, Anatoly Michailovich Khazanov argumenta que "é muito possível que os aderentes dessa visão super simplificaram a história étnica do grupo, particularmente se compararmos com outro grupo georgiano muçulmano, os ajares, que, apesar da conversão ao islã, mantiveram, não só a língua, mas de algum modo a cultura tradicional georgiana e alto-independência. Ao contrário, a cultura tradicional dos mesquécios apesar de conter elementos georgianos, era similar a turca."[12] Kathryn Tomlinson argumenta que nos documentos soviéticos sobre as deportações de 1944 dos turcos mesquécios são referidos só como "turcos", e que foi após sua 2º deportação do Uzbequistão que o termo "turcos mesquécios" foi inventado.[13] Ademais, segundo Ronald Wixman, o termo "mesquécio" apenas começou a ser usado no final da década de 50.[14] De fato, a maioria dos mesquécios chamam-se "turcos" ou "turcos aiscanos" em referência a região. Eles afirmam às vezes que os medievais cumanos-quipchacos da Geórgia podem ser alguns de seus possíveis ancestrais.[15]

História[editar | editar código-fonte]

Conquista otomana[editar | editar código-fonte]

Pela Paz de Amásia (1555), a Mesquécia foi dividida em dois, com os safávidas mantendo a porção oriental e os otomanos ganhando a porção ocidental.[16] Em 1578, os otomanos conduziram uma invasão bem-sucedida nos domínios safávidas na Geórgia, iniciando a Guerra Otomano-Safávida de 1578-1590 e por volta de 1582 estiveram em controle da porção oriental da Mesquécia. Os safávidas reganharam controle sobre a porção oriental da Mesquécia no começo do século XVII, contudo, pelo Tratado de Zuabe (1639), toda a Mesquécia ficou sob controle otomano e isso levou ao fim das tentativas iranianas para retomar o país.[17][18]

Governo soviético[editar | editar código-fonte]

Deportação de 1944 da Geórgia à Ásia Central[editar | editar código-fonte]

Em 15 de novembro de 1944, o secretário-geral do PCUS Joseph Stalin ordenou a deportação de mais de 115 000 turcos de sua terra natal,[19] que foram secretamente retirados de suas casas e reunidos em vagões. Entre 30 000 e 50 000 morreram de fome, sede e frio e sofreram no exílio.[20][21] Segundo censo soviético de 1989, 106 000 turcos viviam no Uzbequistão, 50 000 no Cazaquistão e 21 000 Quirguistão.[19]

Área dos turcos mesquécios em 1926
Jovens turcos mesquécios como camisetas nas quais se lê: 14 de novembro, 1944, nós não esquecemos a deportação

Diferente de outros nacionalidades deportadas na Segunda Guerra Mundial, nenhuma razão foi dada para essa deportação, que permaneceu secreta até 1968. Foi apenas em 1968 que o governo soviético finalmente reconheceu que os mesquécios foram deportados. A razão foi porque em 1944 a União Soviética preparou campanha de pressão contra a Turquia. Em junho de 1945, Vyacheslav Molotov, então ministro das relações exteriores, apresentou exigência ao embaixador turco em Moscou para render três províncias anatólias (Cars, Ardaã e Artvin). Como Moscou também preparou-se para apoiar as exigências armênias de várias outras províncias anatólias, a guerra contra a Turquia parecia possível, e Joseph Stalin quis resolver a questão da estratégica fronteira turco-georgiana onde os turcos mesquécios estavam assentados que eram provavelmente hostis às intenções soviéticas.[9]

Diferente de outros grupos muçulmanos deportados, os mesquécios não foram reabilitados nem permitidos retornar a sua terra natal. Em abril de 1970, os líderes do monimento nacional turco mesquécio enviaram ao embaixador turco em Moscou um pedido para emigrar à Turquia como cidadãos turcos se o governo soviético persistisse negando o reassentamento deles na Mesquécia. Contudo, como resposta, o governo soviético ordenou a prisão dos líderes mesquécios.[22]

1989 - deportação do Uzbequistão para outros países soviéticos[editar | editar código-fonte]

Em 1989, revoltas eclodiram entre turcos assentados no Uzbequistão e uzbeques nativos. Ressentimentos nacionalistas contra os mesquécios que também competiam com os uzbeques no superpovoado vale de Fergana também estiveram presentes. Centenas de mesquécios foram mortos ou feridos, quase 1 000 propriedades foram destruídas e milhares de mesquécios fugiram ao exílio. A maioria deles, aproximados 70 000, foram ao Azerbaijão, enquanto o resto foi para várias regiões da Rússia (especialmente o crai de Crasnodar), Cazaquistão, Quirguistão e Ucrânia.[19][23]

Guerra Civil no Leste da Ucrânia[editar | editar código-fonte]

Aproximados 2 000 mesquécios foram forçados a fugir de suas casas na Ucrânia desde maio devido os conflitos entre as forças do governo e separatistas pró-russos. Representante da comunidade mesquécia em Donetsk diz que aqueles que fugiram procuraram refúgio na Rússia, Azerbaijão, Turquia e diferentes partes da Ucrânia.[10] mais de 300 mesquécios da minoria falante de turco na Ucrânia Oriental chegaram à província turca de Erzincan onde viveram sob as medidas recém-adotadas de asilo do país.[24]

Demografia[editar | editar código-fonte]

Mesquécios fora da Casa Branca em Washington

Segundo censo soviético de 1989, havia 207 502 turcos vivendo na União Soviética. Porém, autoridades sovietes registram muitos mesquécios como pertencendo a outras nacionalidades como "azeris", "cazaques", quirguizes, e "uzbeques".[1] Portanto, os census oficiais não necessariamente mostram um reflexo real da população mesquécia; por exemplo, segundo censo azeri de 2009, havia 38 000 turcos vivendo no país; contudo, nenhuma distinção é feita entre mesquécios e turcos da Turquia que se tornaram cidadãos azeris, como ambos os grupos sendo classificados como "turcos" ou "azeris".[25] Segundo relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados publicado em 1999, 100 000 mesquécios viviam no país e o descontinuado Instituto da Paz e Democracia de Bacu afirmou, em 2001, que entre 90 000 e 110 000 mesquécios viviam ali. Similarmente, estimativas acadêmicas sugeriram que eles compreendiam 90 000 e 110 000 pessoas.[26]

Mais recentemente, alguns mesquécios na Rússia, especialmente aqueles de Crasnodar, enfrentaram a hostilidade da população local. Os mesquécios de Crasnodar sofreram significativa violação dos direitos humanos, incluindo a privação de sua cidadania. Eles também foram privadas de direitos civis, políticos e sociais e foram proibidos de obterem propriedade e emprego.[27] Assim, desde 2004, muitos turcos deixaram Crasnodar em direção aos Estados Unidos como refugiados, com boa parte deles, cerca de 1 300 indivíduos, se assentando em Dayton, Ohio. Eles ainda estão impedidos de total repatriação na Geórgia[28] e mesmo aqueles que ainda habitam o país, sofrem com a tensão racial decorrente da divergência doutrinária e étnica.[29]

Cultura[editar | editar código-fonte]

noiva mesquécia em vestimentas típicas

Os turcos mesquécios são sunitas.[7] Eles falam um dialeto anatólio oriental de turco, que vem das regiões de Cars, Ardaã e Artvin. Seu dialeto também possui empréstimos de outras línguas (incluindo o azeri, georgiano, cazaque, quirguiz, russo e uzbeque), pois os mesquécios estiveram em contato com outros povos durante o governo soviético.[30]

Casamento[editar | editar código-fonte]

Os casamentos mesquécios consistem numa proposta tradicional dos pais do noivo e se os pais da noiva aceita a proposta, uma festa (Nişan) é feita. A todos é dado nessa cerimônia uma bebida doce chamada Xarbate (Sharbat). O casamento de fato dura dois dias. No primeiro as noivas deixam sua casa e no segundo é quando o casamento ocorre. Antes da noiva entrar na casa de seu marido ela usa um salto para quebrar dois pratos com seu pé e coloca mel na soleira da porta. Essa tradição serve para desejar felicidade aos noivos em seu casamento. Ao fim da cerimônia, uma dança é performada com os homens e mulheres dançando separadamente. Finalmente, os recém-casados tem sua última dança que é chamada "Valsa", concluindo a cerimônia.[31]

Referências

  1. a b Aydıngün 2006, p. 1.
  2. Seferov 2011, p. 393.
  3. Boletim 2011.
  4. a b c d e Aydıngün 2006, p. 13.
  5. a b c d e f g h i j Ekinci 2014.
  6. a b c d Aydıngün 2006, p. 14.
  7. a b Aydıngün 2006, p. 15.
  8. Aydıngün 2006, p. 4.
  9. a b c Bennigsen 1983, p. 30.
  10. a b Boletim 2014.
  11. Glück 2016, p. 774.
  12. a b Khazanov 1995, p. 195.
  13. Tomlinson 2005, p. 111.
  14. Wixman 1984, p. 134.
  15. Yunusov 1999, p. 162-165.
  16. Mikaberidze 2015, p. xxxi.
  17. Floor 2001, p. 85.
  18. Tomlinson 2005, p. 110.
  19. a b c UNHCR 1999b, p. 20.
  20. Minahan 2002, p. 1240.
  21. Polian 2004, p. 155.
  22. Bennigsen 1983, p. 31.
  23. UNHCR 1999b, p. 21.
  24. Boletim 2015.
  25. Comitê 2009.
  26. UNHCR 1999a, p. 14.
  27. Barton 2002, p. 9.
  28. Coşkun 2009, p. 5.
  29. Direitos 2017.
  30. Aydıngün 2006, p. 23.
  31. Ranard 2006, p. 18–19.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Barton, Frederick D.; Heffernan, John; Armstrong, Andrea (2002). Being Recognised as Citizens. Nova Iorque: Commission on Human Security 
  • Bennigsen, Alexandre; Broxup, Marie (1983). The Islamic threat to the Soviet State. Londres: Taylor & Francis. ISBN 0-7099-0619-6 
  • Coşkun, Ufuk (2009). Ahiska/Meskhetian Turks in Tucson: An Examination of Ethnic Identity. Tucson, Arizona: University of Arizona 
  • Floor, Willem (2001). Safavid Government Institutions. Costa Mesa, Califórnia: Mazda Publishers. ISBN 978-1568591353 
  • Glück, Helmut (2016). Metzler Lexikon Sprache. Estugarda e Veimar: J.B.Metzler 
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  • Mikaberidze, Alexander (2015). Historical Dictionary of Georgia (2 ed.). Lanham, Marilândia: Rowman & Littlefield. ISBN 978-1442241466 
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  • Tomlinson, Kathryn (2005). «Living Yesterday in Today and Tomorrow: Meskhetian Turks in Southern Russia». In: Crossley, James G.; Karner, Christian. Writing History, Constructing Religion. Farnham: Ashgate Publishing. ISBN 0-7546-5183-5 
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  • UNHCR (1999b). Background Paper on Refugees and Asylum Seekers from Georgia. Genebra: Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados 
  • Wixman, Ronald (1984). The Peoples of the USSR: An Ethnographic Handbook. Armonk, Carolina do Norte: M.E. Sharpe. ISBN 0-87332-506-0 
  • Yunusov, Arif (1999). «The Akhiska (Meskhetian Turks): Twice Deported People». Lulea, Suécia. Central Asia and Caucasus. 1(2)