Ultima Hora
| Periodicidade | diário |
|---|---|
| Sede | Rio de Janeiro |
| Fundação | 12 de junho de 1951 |
| Fundador(es) | Samuel Wainer |
Ultima Hora (estilizado sem acento em “Ultima”) foi um jornal brasileiro fundado pelo jornalista Samuel Wainer em 12 de junho de 1951, no Rio de Janeiro. Concebido para dialogar com um público popular urbano e assumir uma linha editorial favorável ao projeto político de Getúlio Vargas, o periódico tornou-se um marco na imprensa brasileira pela combinação de inovação gráfica, linguagem direta e cobertura político-social combativa.[1][2] Além da matriz carioca, teve edições em São Paulo e uma edição nacional, com cadernos complementares locais em Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Niterói, Curitiba, Campinas, Santos, Bauru e no ABC Paulista.
Contexto editorial e projeto gráfico
[editar | editar código]Idealizado, nas palavras de Wainer, como “um jornal de oposição à classe dirigente e a favor de um governo” — o de Getúlio Vargas —, o periódico inovou em termos técnicos e gráficos no cenário brasileiro.[2] Foi o Última Hora que incutiu nos repórteres a prática de escrever com tamanho pré-definido de texto para facilitar a diagramação: evitava-se resumir uma matéria na capa para publicá-la na íntegra no miolo e preveniam-se “buracos” que exigissem calhaus (textos de enchimento).[3]
Para a equipe artística, Wainer contratou profissionais de países vizinhos e valorizou a charge num momento em que outros jornais as relegavam em razão da censura.[4] O jornal trazia logotipo, ilustrações e vinhetas impressos a cores — contraponto ao preto-e-branco dominante então. O título imitava letra manuscrita e grafava Última sem acento no “u”, reforçando a ideia de urgência e atualidade do noticiário.[4]
História
[editar | editar código]Fundação, sedes e primeiros anos
[editar | editar código]O jornal começou a circular em 1951 e foi apresentado à população com desfile de jipes e caminhões de entrega adquiridos para a empresa. A primeira edição trouxe um editorial assinado pelo próprio Getúlio, mas vendeu pouco.[5][1]
Instalou-se inicialmente num edifício na Avenida Presidente Vargas, próximo à Estação Central do Brasil, antes ocupado pelo Diario Carioca.[6] A transferência da posse do imóvel e da estrutura é tema de controvérsia. Segundo Benicio Medeiros, Wainer obteve, por intermédio do banqueiro Walther Moreira Salles, recursos para comprar ações da empresa Érica, de Horácio Gomes Leite de Carvalho Filho (do Diario Carioca), assumindo também dívidas com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal — com prazo de 15 anos para quitar Cr$ 22 milhões.[7] O prédio da primeira sede foi demolido, e em seu lugar ergueu-se o edifício que hoje abriga a sede do Metrô do Rio de Janeiro.[6]
A segunda e última sede do diário foi um prédio de quatro andares na Rua Sotero dos Reis, nº 62, próximo à Praça da Bandeira. O local era precário, sujeito a alagamentos e de difícil acesso. Em 2009, o térreo abrigava um bar e os andares superiores estavam favelizados, com pontos de prostituição de baixo custo.[8]
Controvérsias, CPI de 1953 e expansão em rede
[editar | editar código]Em 1953, o jornal foi acusado por Carlos Lacerda — dono da Tribuna da Imprensa e antigo amigo de Wainer — de receber favorecimento em empréstimos do Banco do Brasil. Wainer sugeriu a abertura de uma CPI, instaurada em junho. Ao concluir os trabalhos, em novembro, a comissão registrou que empresas jornalísticas em geral mantinham relações irregulares com o banco estatal.[9] Outra acusação, jamais provada, dizia respeito à suposta origem bessarábia de Wainer, o que — se confirmado — o impediria de dirigir órgão de imprensa pela Constituição de 1946.[9] O jornalista chegou a ficar um mês preso por falsidade ideológica.[10]
Também em 1953, o senador Assis Chateaubriand levou ao Senado denúncias contra o Última Hora, descrevendo-o como orientado por um “Kominform brasileiro” — o Jornal do Brasil registrou o discurso em 24 de julho daquele ano.[11]
A proximidade com lideranças políticas se refletiu na composição do quadro dirigente. Em 1955, o então deputado federal e ex-ministro do Trabalho Danton Coelho assumiu a direção da Editora Última Hora e, no mesmo ano, ao lançar-se candidato a vice-presidente na chapa de Adhemar de Barros, afastou-se do jornal.[12][13]
Sob Wainer, o jornal estruturou a Rede Nacional de Última Hora, com edições em diferentes praças. Em 1961, a rede estava presente em sete estados: Guanabara, Rio de Janeiro, São Paulo (com edições especiais para Santos, Bauru e o ABC Paulista), Pernambuco, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.[14] As filiais seguiam projeto gráfico comum, misturando reportagens locais com crônicas da matriz.[15] A expansão contou com alianças com banqueiros e empresários — a filial mineira teria sido aberta com Magalhães Pinto, e a de São Paulo contou com apoio de Ademar de Barros.[15]
A edição seguinte à morte de Getúlio Vargas vendeu, segundo cálculos de Wainer, 700 mil exemplares. Tal desempenho teria sido favorecido por impedimentos impostos por grupos varguistas aos concorrentes O Globo e Tribuna da Imprensa.[16] Às vésperas do golpe de 1964, o jornal contratou João Apolinário, recém-fugido da ditadura salazarista, como editor de cultura e crítico de teatro.[17]
Ditadura militar (1964–1985)
[editar | editar código]Golpe e reações
[editar | editar código]O Última Hora foi um dos poucos diários a defender o governo de João Goulart em 1º de abril de 1964, nas primeiras horas do golpe militar.[18][19][20] As sedes do Rio de Janeiro e do Recife foram invadidas e depredadas.[21][22] Wainer exilou-se no Chile e, de lá, recebeu proposta de compra do jornal por um grupo de empresários de obras públicas.[18]
Em 23 de abril de 1964, o deputado Rubens Requião discursou na Assembleia Legislativa do Paraná atacando o Última Hora, questionando sua sustentabilidade financeira e insinuando financiamento estatal ou estrangeiro. [23] No dia seguinte ao golpe, militantes do Movimento Anticomunista (MAC), após incendiarem a sede da UNE, dirigiram-se à redação do Rio de Janeiro para empastelar o jornal e agredir funcionários. Sem apoio policial, a equipe deixou o prédio antes da chegada dos grupos.[21] A sucursal do Recife também foi atacada.[22] Mesmo diante dos estragos (carros virados e incendiados, bobinas inutilizadas, linotipos destruídos), os jornalistas Moacir Werneck de Castro e Jorge de Miranda Jordão coordenaram a saída de uma edição reduzida com material que restara.[24] O censor in loco designado para o jornal, coronel reformado Teles de Menezes, acabou por manter relação cordial com parte da redação.[25]
Exílio de Wainer e reformas editoriais
[editar | editar código]Do exílio em Paris, Wainer articulou reforma editorial tocada por Jânio de Freitas, a quem deu carta branca para decisões jornalísticas e financeiras.[26] A gestão enfrentou resistências internas — inclusive pela posição política de Jânio, “à esquerda do Partidão”.[27] De volta ao Brasil em 1967, Wainer e Jânio divergiram: o proprietário considerou a reforma “modesta” e planejou captação com banqueiros para mudanças mais amplas, ao mesmo tempo em que buscava distensão com militares — a ponto de o comandante do I Exército pedir que publicasse, na primeira página, poema em resposta à canção "Caminhando", de Geraldo Vandré.[18][28] Três anos mais tarde, uma nova reforma foi conduzida por Washington Novaes,[29] seguida pela direção de redação de Pinheiro Júnior em 1970.[30]
Crise financeira e venda (1969–1971)
[editar | editar código]A pressão do regime se estendeu a anunciantes, agravando a situação financeira do jornal.[31] Em memórias, João Pinheiro Neto afirma que o então ministro da Fazenda Delfim Neto teria se oferecido para ajudar.[31] O aperto afetou salários: em certa ocasião, Wainer acertou com Abraão Medina (rede Rei da Voz) o pagamento de colaboradores em eletrodomésticos. João Saldanha, que recebeu um liquidificador, quebrou o aparelho no chão e comunicou sua saída do cargo de comentarista esportivo, num protesto que se tornou célebre.[32] Em outro momento, a redação paralisou por um minuto durante o fechamento, diante dos atrasos salariais.[33] Faltavam itens básicos nos banheiros, e Wainer, com o irmão José, vendia objetos do jornal para honrar despesas.[34]
Negociações para venda vinham desde o exílio. [18] Roberto Marinho, de O Globo, e Nascimento Brito, do Jornal do Brasil, foram sondados sem sucesso.[35] A operação acabou fechada com os empreiteiros que haviam adquirido o Correio da Manhã, por cerca de US$ 1,5 milhão.[35] A última edição rodou em 25 de abril de 1971.[36] Em comunicado afixado na redação, Wainer lamentou o desfecho e prometeu quitar verbas trabalhistas — nem todos os funcionários foram integralmente pagos.[37]
Segundo registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo e do Cartório de Títulos e Documentos, a edição paulistana foi vendida em 1971 à Folha da Manhã S.A. (Folha de S.Paulo), de Carlos Caldeira Filho e Octávio Frias de Oliveira.[2] Outra fonte situa a venda ainda durante o exílio em Paris.[38]
Período pós-Samuel Wainer e legado
[editar | editar código]A partir de 1971, a Última Hora passou por vários proprietários — entre eles um general de Brasília, alinhado ao regime.[39] Em 1973, o jornalista Ary Carvalho adquiriu a versão carioca, mantendo o controle até 1987.[40] Em 1991, o periódico decretou falência, com dívidas de Cr$ 450 milhões.[39]
Em homenagem ao bicentenário da Imprensa no Brasil, o Arquivo Público do Estado de São Paulo disponibilizou na internet um acervo digital com 36 mil páginas do Última Hora, cobrindo edições de 1º de outubro de 1955 a 30 de dezembro de 1969.[41]
Notas e referências
- ↑ a b Monteiro, Karla (2020). Samuel Wainer: O homem que estava lá. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 978-85-359-3333-8
- ↑ a b c História Cultural da Imprensa Brasil: 1900-2000. Marialva Barbosa, pgs. 181 e 198. Mauad Editora Ltda. Rio de Janeiro (2007) Acessado em 20 de maio de 2012]
- ↑ Medeiros 2009, p. 16.
- ↑ a b Medeiros 2009, p. 15.
- ↑ Medeiros 2009, p. 44.
- ↑ a b Medeiros 2009, p. 19.
- ↑ Medeiros 2009, p. 46.
- ↑ Medeiros 2009, pp. 19-20.
- ↑ a b «CPI da Última Hora | CPDOC». Consultado em 15 de outubro de 2015
- ↑ Medeiros 2009, pp. 50-52.
- ↑ «O Caso Última Hora». Jornal do Brasil: 6. 24 de julho de 1953
- ↑ FGV/CPDOC (ed.). «Coelho, Danton» (PDF). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Consultado em 7 de outubro de 2025
- ↑ «Acervo da BN: A última de Samuel Wainer». Biblioteca Nacional Digital. 2 de julho de 2021. Consultado em 7 de outubro de 2025
- ↑ Medeiros 2009, pp. 53-54.
- ↑ a b Medeiros 2009, p. 53.
- ↑ Medeiros 2009, p. 147.
- ↑ Almeida 2019, p. 44.
- ↑ a b c d Gaspari, Elio (2014). A Ditadura Escancarada 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca
- ↑ «Povo e govêrno superam a sublevação». A Noite. 1 de abril de 1964
- ↑ «Guarnições do I Exército marcham para sufocar rebelião em Minas Gerais». Diário Carioca. 1 de abril de 1964
- ↑ a b Medeiros 2009, p. 56.
- ↑ a b Medeiros 2009, p. 57.
- ↑ Requião, Rubens (23 de abril de 1964). «Rubens Requião revida editorial de jornal, ofensivo à revolução». Diário do Paraná: Primeiro caderno, p. 3
- ↑ Medeiros 2009, pp. 57-58.
- ↑ Medeiros 2009, p. 153.
- ↑ Medeiros 2009, p. 91.
- ↑ Medeiros 2009, pp. 91-92.
- ↑ Medeiros 2009, pp. 30-31.
- ↑ Medeiros 2009, p. 89.
- ↑ Medeiros 2009, p. 95.
- ↑ a b Medeiros 2009, pp. 153-154.
- ↑ Medeiros 2009, p. 155.
- ↑ Medeiros 2009, p. 207.
- ↑ Medeiros 2009, p. 204.
- ↑ a b Medeiros 2009, p. 208.
- ↑ Medeiros 2009, p. 209.
- ↑ Medeiros 2009, pp. 209-211.
- ↑ Medeiros 2009, p. 212.
- ↑ a b Medeiros 2009, p. 215.
- ↑ Stycer, Maurício (2009). História do Lance! – Projeto e prática de jornalismo esportivo. São Paulo: Alameda. ISBN 9788598325903
- ↑ Acervo do Última Hora
Bibliografia
[editar | editar código]- Medeiros, Benicio (2009). A rotativa parou! Os últimos dias da Última Hora de Samuel Wainer. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. ISBN 978-85-200-0940-6
- Almeida, Miguel de (2019). Primavera nos Dentes: a história do Secos & Molhados. São Paulo: Três Estrelas. ISBN 978-85-68493-59-5
- Monteiro, Karla (2020). Samuel Wainer: O homem que estava lá. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 978-85-359-3333-8