Une ténébreuse affaire

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Une ténébreuse affaire
Um caso tenebroso: cenas da vida política (PT)
Um caso tenebroso (BR)
Autor(es) Honoré de Balzac
Idioma Francês
País  França
Série Scènes de la vie politique
Editora Souverain et Lecou
Lançamento 1841
Edição portuguesa
Tradução Henrique Marques Júnior
Editora Guimarães
Lançamento 194?
Páginas 225
Edição brasileira
Tradução Ubiratan Machado
Editora F. Alves
Lançamento 1983
Páginas 216
Cronologia
Un épisode sous la Terreur
Le Député d'Arcis

Une ténébreuse affaire (em português, Um caso tenebroso[1]) é um romance francês de Honoré de Balzac, surgido no começo do ano de 1841 em prépublicação no jornal Le Commerce, depois em volume por Souverain e Lecou, em 1843, com uma dedicatória a "Monsieur de Margone, seu hóspede do castelo de Saché em reconhecimento. De Balzac". O romance integrará, em 1846, as Cenas da vida política da edição Furne da Comédia Humana.

A obra tem importante papel na narrativa do primeiro longa-metragem de François Truffaut, Les quatre cents coups (1959).

Análise[editar | editar código-fonte]

De uma só vez um romance policial, romance de espionagem, formado por complôs, traições, a obra remete a Les Chouans com um toque bem mais fino, mais hábil, menos guerreiro. A arte da tática é desenvolvida aqui com maestria particular. Em seu prefácio ao romance, o filósofo Alain[2] se mostra muito entusiasmado:

Esse romance, um dos maiores de Balzac, faz parte, naturalmente, dos romance da guerra civil. Aqui se encontra Corentin e a polícia[3]. As camadas sociais aqui estão sublevadas de modo a fazer aparecer a Revolução, o Império de Napoleão e a Restauração, tais quais poderiam vê-los um simples cidadão dessa época. Essa análise política é superior à tudo que se pode citar na literatura.

E acrescenta (ponto de vista de que não partilham os amantes da ação rápida):

E porque a análise social, diríamos sociológica mesmo, é feita ao mesmo tempo que a narrativa e pela narrativa mesma, não é fácil lembrar de tudo e reservar tempo para conhecer esse romance, um dos mais difíceis de ler.

Um romance político[editar | editar código-fonte]

De fato, trata-se de um romance político, o único de fato em que o autor retrata suas opiniões e faz exprimir sucessivamente aquelas dos realistas fanáticos que conspiram contra Bonaparte (a família de Simeuse, Laurence de Cinq-Cygne), aquela dos realistas moderados, prontos a se reunir ao novo regime (a família d'Hautserre, o velho marquês de Chargeboeuf que aconselha Laurence a fazer concessões), os antigos jacobinos (Michu e sua esposa Marthe, filha de um procurador montanhês que ordenara a execução dos Simeuse, e cuja memória trará horror à filha). Encontra-se também Corentin, dândi policial de espírito sombrio, pronto a mudar de campo assim que Fouché conspirar contra Napoleão no advento da batalha de Marengo, bem como no advento do sacro-império do primeiro cônsul.

Em realidade, se Balzac parece neutro e destacado de toda paixão realista, é porque ele espalha por todo o romance uma espécie de admiração difusa por Napoleão, um sentimento que impregna quase toda a Comédia Humana. Napoleão tem um destino, ele é forçosamente uma personagem balzaquiana.

Finalmente, Fouché, que havia organizado um complô para assassinar Bonaparte (fazendo acusar os Simeuse e Michu, o fiel administrador de seu domínio) se vê obrigado a renunciar quando o furuturo imperador, dado como perdedor, volta vencedor de Marengo.

Resumo[editar | editar código-fonte]

A ação se passa em Arcis-sur-Aube, no momento em que o fiel administrador de propriedade Michu, reputado jacobino, faz tudo para esconder que preserva os bens de seus antigos mestres (Les Simeuse, guilhotinados durante a Revolução) e seus herdeiros: os gêmeos de Simeuse, que emigraram. Esses jovens emigrados, justamente, voltam clandestinamente na França, e o administrador se preocupa com tudo, com razão. Pois Fouché mandou perseguir a família, caçar da terra de Gondreville, e refugiar-se no domínio de Hautserre dois dos seus espiões: Corentin e um policial de menor importância. Os dois homens surgem quando Michu limpa seu fuzil. Sabe-se já que o destino do homem está selado.

A jovem Laurence de Cinq-Cygne era ainda criança quando a população veio tirar os Simeuse de seu domínio, poupando os gêmos por causa de sua pouca idade, e também Laurence, pequena criança aterrorizada. A caracterísitica da jovem é uma total maestria de sua aparência. Ela joga com a sua beleza e sua graça para dar a ilusão de que não é senão uma frágil tânagra. Em verdade, ela esconde uma vontade de ferro e uma força viril. Faz crer a seus tutores Hautserre, que a acolheram após o drama, que ela percorre o campo a cavalo por seu prazer, quando a verdade é outra. Ela transmite, em realidade, mensagens aos Simeuse, protegidos pela aristocracia estrangeira hostil a Napoleão. Os parente Hautserre ignoram que seus dois filhoes estão igualmente unidos a seus primeros e pensam que os jovens se escondem para escapar à conscrição de Napoleão.

Os gêmeos Simeuse e os irmãos Hautserre, de volta à França, financiados pelas cortes estrangeiras, têm a intenção de restabelecer a realeza. Não se sabe de que forma realizarão isso. A explicação fica obscura, mas isso não atrapalha o desenvolvimento da ação que, como todos os romances policiais, jogam com inverossimilhanças. Fouché, suspeitando que eles querem recuperar a terra de Gondreville, abandonada a um de seus adeptos de nome Malin, envia ao local os policias Peyrade e Corentin.

Em realidade, Malin transportou, para a terra de Gondreville, documentos comprometedores para ele mesmo e para Fouché sob outro complô: aquele que Fouché montou para se desfazer de Napoleão, fazendo cair a responsabilidade nas famílias Simeuse e Hautserre.

Enquanto isso, Malin desconfia (com razão) que Michu quer recuperar essa terra para seus antigos mestres. Ele supõe também (e Corentin está lá para confirmar isso) que a família Hautserre, Michu, mademoiselle de Cinq-Cygne, e o grupo de pessoas unidas de uma maneira ou outra à terra de Gondreville, escondem os emigrados. O que é exato.

Buscando na floresta, Michu descobriu os restos de um antigo monastério sob os quais se encontra uma gruta. É lá que eles escondem os jovens procurados e faz levar a comida necessária por um enviado que banca o tolo diante da polícia, por sua esposa que será apanhada, ou por mademoiselle de Cinq-Cygne. Michu, por outro lado, guarda um tesouro para uso de seus mestres. Enquanto se acredita que ele estava pronto a tudo para se enriquecer na vila, ele, ao contrário, escondeu os sacos de outro ao pé de árvores especificamente marcadas. Esse tesouro será de grande utilidade para a família.

Infelizmente, é no dia de carnaval no país, nesse dia mesmo no qual Malin é sequestrado, que a família escolheria desenterrar o tesouro. O álibi deles será difícil de estabelecer. Mas mademoiselle de Cinq-Cygne trata Corentin com tal arrogância que ele perde um pouco de seu orgulho.

Balzac se inspiraria num fato diverso: no sequestro do senador Clément de Ris sob o Império (encarnado por Malin no romance)[4] com ligação a um complô contra Napoleão. Se tal é o caso, o fato diverso não têm senão um fraco papel na narrativa. Homens mascarados do mesmo porte que os Simeuse e os Hautserre sequestram Malin, queimando documentos comprometedores e desaparecenod com o homem, que se encontrará na mesma gruta onde estavam escondidos os jovens Simeuse. Corentin termina, então, por descobrir o truque de Michu e este será o primeiro acusado. Pois Corentin manda a Marthe um bilhete no qual a escrita de Michu é imitada, e no qual o homem pede à Marthe enviar provisões ao prisioneiro, com o fim de enganá-la e de acusá-la. E Marthe é presa.

Há um processo no tribunal de Trouyes. Aconselhados por seu parente, o sábio marquês de Chargeboeuf que eles acolhem, ajudados por advogados talentosos (Bordin), apoiados pelo senhor de Grandville, imparcial substituto do procurar que não se deixa convencer por um juri "comprado", as famílias Simeuse, Hautserre, mademoiselle de Cinq-Cygne e Michu tem boa esperança. Mas a armadilha de Corentin funciona maravilhosamente e Marthe é presa no momento em que ela dá um pão ao prisioneiro na gruta. Nada poderá salvar Michu do cadafalso e mademoiselle de Cinq-Cygne abandona sua arrogância para obter a graça do seu fiel administrador diante de Napoleão.

De acordo com Alain: "Napoleão é, talvez, o verdeiro herói de Um caso tenebroso. Ele é gigante e real[5]" Dessa forma, Laurence de Saint-Cygne vai encontrar Napoleão no campo de batalha no advento da batalha de Iena e pede a graça para Michu, os de Simeuse e os de Hautserre. "Eles são inocentes", declara ela. Napoleão lhe mostra os acampamentos de dois exércitos e diz: "Aqueles lá são certamente inocentes, e amanhã, trinta mil homens terão morrido."

Com o anúncio da vitória de Napoleão em Marengo, Fouché sabe que perdeu a ocasião de tomar o poder. A narração dos detalhes de seu complô e de suas traições, das quais ele está ameaçado, se faz num salão atual. Os anos passaram. É De Marsay que conta as manobras de Talleyrand, Fouché, Sieyés. Em vedade, político, ele revela todos os detalhes e permite ao leitor compreender Marengo e o 18 de brumário. Enquanto isso, De Marsay tosse, e parece em mal estado. Balzac nos anuncia brevemente e sem mais explicações que isso se passa pouco antes de sua morte. Doença misteriosa, morte inexplicável, é um fim perfeito para esse misterioso membro dos Treze.

Referências

  1. Honoré de Balzac. A comédia humana. Org. Paulo Rónai. Porto Alegre: Editora Globo, 1954. Volume XII
  2. Extraído de L’Œuvre de Balzac, publicado em Club français du livre, reimpresso em Le livre de poche, Hachette Livre-classique em 1963
  3. Já ativo em Les Chouans, também em Splendeurs et misères des courtisanes
  4. Dictionnaire des œuvres Laffont-Bompiani, t. VI, p. 366.
  5. Introduction à Une ténébreuse affaire, Le livre de poche, Hachette, p. 12, op. cit.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • (fr) Max Andreoli, « Sur le début d’un roman de Balzac, Une Ténébreuse Affaire », L'Année balzacienne, 1975, p. 89-123
  • (fr) S. J. Berard, « A propos d’Une Ténébreuse Affaire, problème de genèse blème-blême », Cahiers de l’Association Internationale des Études Françaises, 1963, n° 15, p. 331-340.
  • (fr) Étienne Cluzel, « David Séchard d’Honoré de Balzac ou une autre 'ténébreuse affaire' », Bulletin du Bibliophile et du Bibliothécaire, 1957, n° 6, p. 225-241.
  • (fr) René-Alexandre Courteix, « La Vision de l’église catholique dans Une Ténébreuse Affaire », L’Année balzacienne, 1998, n° 19, p. 29-38.
  • (it) Luigi Derla, « Balzac e il romanzo storico: Une Ténébreuse Affaire », Testo: Studi di Teoria e Storia della Letteratura e della Critica, Jan-June 2005, n° 26 (49), p. 67-82.
  • (en) Owen Heathcote, « Balzac at the Crossroads: The Emplotment of Terror in Une ténébreuse affaire », The Play of Terror in Nineteenth-Century France, Newark ; London, U of Delaware P ; Associated UP, 1997, p. 130-46.
  • (fr) Ayse Eziler Kiran, « La Révolution et ses référents dans Une Ténébreuse Affaire de Balzac », Frankofoni, 1989, n° 1, p. 213-24.
  • (fr) Mireille Labouret, « Le Sublime de la terreur dans Les Chouans et Une Ténébreuse Affaire », L’Année balzacienne, 1990, n° 11, p. 317-327.
  • (fr) Pierre Laubriet, « Autour d’Une ténébreuse affaire », L’Année balzacienne, 1968, p. 267-282.
  • (fr) Jacques Maurice, « La Transposition topographique dans Une Ténébreuse Affaire », L’Année balzacienne, Paris, Garnier Frères, 1965, p. 233-8.
  • (fr) Anne-Marie Meininger, « Andre Campi : du Centenaire à Une ténébreuse affaire », L’Année balzacienne, 1969, p. 135-145.
  • (en) Armine Kotin Mortimer, « Balzac: Tenebrous Affairs and Necessary Explications », The Play of Terror in Nineteenth-Century France, Newark ; London, U of Delaware P ; Associated UP, 1997, p. 242-55
  • (it) Pierluigi Pellini, « Balzac fra romanzo storico e ‘romanzo giudiziario’: Lettura di Un caso tenebroso », Problemi: Periodico Quadrimestrale di Cultura, Jan-Apr 1996, n° 104, p. 50-79.
  • (fr) Franc Schuerewegen, « Une ténébreuse affaire ou l’histoire et le jeu », L’Année balzacienne, 1990, n° 11, p. 375-388.
  • (fr) Françoise M. Taylor, « Mythes des origines et société dans Une Ténébreuse Affaire de Balzac », Nineteenth-Century French Studies, Fall-Winter 1985-1986, n° 14 (1-2), p. 1-18.
  • (en) Gwen Thomas, « The Case of the Missing Detective: Balzac’s Une ténébreuse affaire », French Studies, July 1994, n° 48 (3), p. 285-98.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]