Uriel da Costa

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Quadro Uriel da Costa ensinando o jovem Espinosa, de Samuel Hirszenberg (1901).

Uriel da Costa (também Acosta ou d'Acosta) é o pseudônimo de Gabriel da Costa Fiuza (Porto, 1585 - Amesterdão, 1640); foi um filósofo português, nascido cristão e convertido ao judaísmo durante a idade adulta, quem susteta uma das biografías mais comentadas nos séculos XVII e XVIII por autores como Bayle, Voltaire e Herder.

Vida[editar | editar código-fonte]

Proveniente de uma família de origem judaica sefardita, convertidos ao catolicismo em decorrência da imposição feita pelo rei D. Manuel I, Uriel da Costa nasceu no Porto, em 1585, sob o nome Gabriel da Costa Fiuza, pois enquanto cristão-novo. Depois de anos de estudo, incluindo passagem pela Universidade de Coimbra, as suas discordâncias para com a religião cristã o levam a converta-se ao judaísmo, vendo-se obrigado, pois, a sair Portugal.

Antes da emigrar, convenceu a sua família a regressar ao judaísmo, a partir do que seguiu-se a mudança deles todos para Amesterdão. Lá, começou a questionar-se sobre as práticas judaicas, chegando à mesma conclusão que chegara anteriormente com respeito ao cristianismo, a saber, não era a verdadeira religião, estava imersa em inúmeras incoerências. Tal conclusão imputada também ao judaísmo o fez, como haveria-se de esperar, ser acusado de heresia.

Uma vez acusado de herético, d'ACosta foi excomungado sendo expulso, pois, da comunidade judaica. Afastado da família, sozinho, rejeitado por cristãos e por judeus, vivendo em isolamento, ele decidiu voltar à congregação judaica, não com verdadeira crença, mas pela insustentabilidade da sua situação. A sua readmissão foi realizada por meio de 39 vergastadas públicas e ainda pelo pisoteamento das pessoas da sinagoga portuguesa de Amesterdão.[1]

Apesar de aceito novamente, ele fora, posteriormente, perseguido e acusado pelas autoridades da sua comunidade judaica por causa das suas perspectivas filosóficas que ele não largara (tal como Bento de Espinosa), sendo mais uma vez expulso do judaísmo.

Exemplar Humanae Vitae, de Uriel d'Acosta, publicado logo após o seu suicídio.

Após mais esse desastre na vida de Uriel, ele resolve escrever a sua célebre biografia Exemplar humanae vitae, que ficaria conhecida em toda a Europa, sendo comentada por pensadores como Bayle, Voltaire e Herder. No seu momento final de desespero, resolve assassinar o seu opositor judeu responsável pela denúncia que levou a sua segunda excomunhão. Contudo, fracassada tal tentativa, Uriel da Costa acaba por suicidar-se, em 1640.

Obra[editar | editar código-fonte]

Uriel ficou marcado na história da filosofia pela luta que empreendeu contra o obscurantismo religioso, tanto cristão como judaico. Tendo vivido na comunidade portuguesa de judeus de Amesterdão por muitos anos, o impacto com o seguidismo dos escritos enquanto verdade absoluta, faz com que inicie todo um processo de ataque ao status quo, gerando desta forma os seus três escritos mais importantes sobre o tema, a saber, Propostas contra a Tradição" (1618), Exame das Tradições Farisaicas (1624) e Exemplar Humanae Vitae (1640), que foram os grandes responsáveis por suas duas excomunhões.

Exame das Tradições Farisaicas, sua maior e mais completa obra, tivera queimados publicamente todos os seus exemplares impressos e fora terminalmente proibida tanto pelo governo holandês como pelaa comunidades judaicas e cristãs. A obra, então, passa três séculos desaparecida e, após um grande esforço de pesquisadores de vários países, é reencontrada em 1990 na Biblioteca Real de Copenhago, após anos de busca.

Escritos[editar | editar código-fonte]
  • No seu livro "Exemplar humanae vitae" (1640), Uriel Acosta relata a sua experiência como vítima da intolerância.
    • Uriel da Costa, Espelho da Vida Humana (Exemplar humanae vitae); introdução de Teófilo Braga, trad. de A. Epifânio da Silva Dias. Lisboa, Imprensa Lucas, 1901 (digitalizado pelas Éditions Ionas).
  • Exame das tradições phariseas conferidas com a Ley Escrita (1624).
  • Propostas contra a tradição (1618).

Legado[editar | editar código-fonte]

A conturbada e combativa carreira filosófica de Uriel da Costa não passou despercebida pelo grandes pensadores da filosofia nos séculos seguintes que decorreram do suicídio cometido pelo filósofo cético português por volta de 1640. Pierre Bayle, por exemplo, dedica um longo verbete a da Costa em seu Dicionário Histórico e Crítico, no final do século XVII. Já no século XVIII, a obra e vida de Uriel é comentado por Voltaire, quem afirma que Uriel da Costa trocou a religião pela prática filosófica. Leo Strauss, já no século XX, em seu Die Religionskritik Spinozas, comenta o seguinte sobre o pensamento de Uriel da Costa:

Nesse estágio de crítica [bíblica], único nesse estágio, da Costa vêr-se compelido a apresentar a sua crítica da Bíblia. Sua crítica bíblica dar-se para livrar o que é proveniente da revelação divina de todas adições e adulterações humanas. (...) A desconfiança a respeito da tradição transforma-se em desconfiança quanto ao texto em si, em seu caráter de uma herança passada de geração à geração. (...) Uma vez que a revelação não pode ir de encontro à razão, a prova de que uma passagem é irracional é suficiente para o reconhecimento da ilegitimidade da mesma.[2]

Obra de terceiros sobre d'Acosta[editar | editar código-fonte]

  • Uriel Acosta é uma das figuras do romance Expulsão do inferno, de Robert Menasse.
  • Agustina Bessa-Luís: "Um bicho da terra", uma biografia romanceada de Uriel da Costa.
  • Um dos contos de "Dreamers of the Ghetto", do escritor inglês Israel Zangwill, está inspirado em Uriel da Costa.
  • Em 1846 o escritor alemão Karl Gutzkow publicou "Uriel Acosta", drama em cinco atos inspirado na vida de Uriel da Costa.

Bibliografia crítica[editar | editar código-fonte]

  • Albiac, Gabriel. "Morir en la Sinagoga: Uriel da Costa", in La sinagoga vacía: un estudio de las fuentes marranas del spinozismo. Madrid: Hiperión, 1987, 183-252.
  • Basto, Artur de Magalhães. "Alguns documentos inéditos sobre Uriel da Costa", 0 Instituto, Vol. 79, 1930, 1-20.
  • Bodian, Miriam. "Review: Uriel Da Costa: Examination of Pharisaic Traditions by H. P. Salomon & I. S. D. Sassoon", The Jewish Quarterly Review. Vol. 87, No. 1/2 (Jul. - Oct., 1996), 167-169.
  • Boer, Harm den. "Was Uriel da Costa's 'Examen' seized by the Spanish Inquisition? The Spanish 'Index librorum prohibitorum' as a bibliographical source", Studia Rosenthaliana, 23, 1989, 3-7.
  • Damasio, Antonio Rosa. “The Uriel da Costa Affair”, in Looking for Spinoza: Joy, sorrow, and the feeling brain. Orlando, Fla.: Harcourt, 2003, 240-4.
  • Faur, José. "Uriel da Costa: The Man behind the Mirror", in In the Shadow of History: Jews and Conversos at the Dawn of Modernity. Albany: State University of New York Press, 1992, 110-141 (chapter 7).
  • Ferreira, J. A. Pinto. "Uriel da Costa (pensador quinhentista e portuense) redivivo no século XX?", Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, XXV, 1969, 329-343.
  • Fishman, Talia. Shaking the Pillars of Exile: ‘Voice of a Fool’, an Early Modern Jewish Critique of Rabbinic Culture. Stanford, California: Stanford University Press, 1997.
  • Gebhardt, Carl (ed.). Die Schriften Des Uriel da Costa: mit Einleitung, Ubertragung und Regesten Herausgegeben. Amsterdam: Curis Societatis Spinozanae, 1922.
  • Goldish, Matt. "Perspectives on Uriel da Costa's "Example of a Human Life", Studia Rosenthaliana, Vol. 42/43, (2010-2011), 1-23.
  • Mordoch, Gabriel, A língua e o discurso do Exame das Tradições Phariseas de Uriel da Costa. M.A. Thesis. The Hebrew University of Jerusalem, 2011.
  • Osier, Jean-Pierre. "Un aspect du judaïsme individualiste d'Uriel da Costa", Cahiers Spinoza, 3, 1980, 101-115.
  • Porges, Nathan. “Gebhardt’s Book on Uriel da Costa”, Jewish Quarterly Review, 19, 1928, 37-74.
  • Proietti, Omero. “La você di De Acosta [=431]››. Sul vero autore del Qol Sakhal”, La Rassegna Mensile di Israel, Vol. LXX, N. 3, Settembre - Diciembre 2004, 33- 54.
  • Révah, I. S. "La religion d'Uriel da Costa. Marrane de Porto (d'après des documents inédits)", Revue de l'histoire des religions, Année 1962  161-1 , 45-76.
  • Salomon, H.P. "A Copy of Uriel da Costa's 'Exame das tradições phariseas' located in the Royal Library of Copenhagen", Studia Rosenthaliana, 24, 1990, 153-168
  • Sassoon, Isaac S.D. "The relevance for today of Uriel da Costa’s "Exame das tradições fariseas", Studia Rosenthaliana 28,1 (1994), 5-9.
  • Shepard, Sanford. “The Background of Uriel da Costa’s Heresy – Marranism, Scepticism, Karaism”, Judaism, a quarterly journal, 20-3 (Summer 1971), 341-350.
  • Sonne, Isaiah. "Da Costa Studies", Jewish Quarterly Review, 22 (1932), 247-93.
  • Strauss, Leo. “Uriel da Costa”, in Spinoza’s critique of religion. Translated by E.M. Sinclair. New York: Schocken Books, 1965, 53-63.
  • Vasconcelos, Carolina Michaelis de, "Uriel da Costa, Notas relativas à sua vida e às suas obras", Revista da Universidade de Coimbra, 8 (1922), 237-395.

Ver também[editar | editar código-fonte]


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  1. d'Acosta, Uriel (1640). Exemplar Humanae Vitae. [S.l.: s.n.] 
  2. Strauss, Leo (1997). Spinozas's critique of Religion. Chicago/Londres: University of Chicago Press. p. 56