Usuário(a):Tetraktys/Critérios de notoriedade temáticos: para quê?

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Editor da Wikipédia estudando os critérios temáticos, com a Justificativa ao seu lado.

A Wikipédia tem regras para quase tudo. Uma delas são os critérios de notoriedade, usados para determinar se o tema é conhecido o bastante para merecer um artigo. Isso parece sensato. O critério geral é muito simples: notório é aquilo que foi coberto por múltiplas fontes fidedignas e independentes de maneira não trivial, ou seja, não vale apenas citar o tema, é preciso que as fontes discorram sobre ele com alguma extensão e profundidade, que permita se extrair informação suficiente para delinear pelo menos os contornos gerais do que está sendo tratado.

Esse critério vale para todos os temas. Seria ótimo que os editores se satisfizessem com ele, pois ele é claro e simples, não gera controvérsia, e atende às necessidades editoriais do projeto. Mas simplicidade é coisa do passado na Wikipédia. Por razões obscuras, muitos editores decidiram que ele é insuficiente para determinar a notoriedade em diversas áreas específicas, surgindo os diversos critérios de notoriedade temáticos, abrangendo Carnaval, Cinema, rádio e televisão, Desporto, Educação, Elementos de ficção, Empresas, produtos e serviços, Geografia, Música, Pessoas (biografias) e Política. Acesse os links no quadro abaixo.

É tão intrigante quanto daninho que eles tenham proliferado tanto, e a cada momento surgem novas propostas para serem ampliados. A norma básica até prevê sua criação, mas adverte que "o não cumprimento dos critérios temáticos não é motivo suficiente para a eliminação automática (de um artigo) pois esses artigos ainda podem comprovar a relevância através do critério máximo de notoriedade". Essa advertência invalida por princípio todos os critérios temáticos, ou, na melhor das hipóteses, os torna supérfluos e irrelevantes. A norma também diz que "os critérios possuem uma hierarquia no sentido de Amplo → Específico. Se um artigo não cumpre os critérios específicos mas cumpre um critério mais amplo então ele pode ter artigo", que dá exatamente no mesmo resultado: os critérios temáticos são inteiramente desnecessários, pois o geral está acima de todos os outros. A regra geral diz mais, enfatizando o mesmo sentido: estipula que os temáticos "devem ser construídos considerando-se que todos os artigos que cumprirem um determinado critério estariam também cumprindo o critério máximo de ter cobertura significativa de fontes confiáveis e independentes demonstrando a notoriedade".

O problema não pára por aí. Ávidos por especular sobre o sexo dos anjos, grupos de editores se empenharam em elaborar listas, às vezes longas e complexas — vide o exemplo de Desporto e Música — para definir o que, dentro dessas áreas, deve ser considerado notório. Mas observando o que foi estabelecido, surpreende a insubstancialidade dos sub-critérios, que se baseiam em muita arbitrariedade.

Vejamos o caso da Música. O critério 2 para Intérpretes, músicos e conjuntos reza que é notório o músico que "teve um single ou álbum nos 10 primeiros lugares de qualquer top nacional ou internacional". Como se chegou a esse número? 10 sem dúvida é mais notório que 15 ou 20, mas 15 ou 20 não são notórios de maneira nenhuma? Em termos de paradas de sucesso, alcançar a 20ª posição nacional pode equivaler a ser conhecido por milhões de pessoas. Isso não seria bastante notório? Na mesma linha vai o critério para Estúdios de cinema, validando apenas os estúdios "que já tenham produzido ao menos dois filmes que participaram de algum circuito importante". Porque dois e não três ou um ou cinco? Como foi descoberto que dois filmes tornam um estúdio notório mas um filme, mesmo que tenha sido um grande sucesso, não torna? Por que não se estabelece cinco filmes? Ou dez? Não seria mais garantido? Como se arbitrou esses números? Jogando dados? Deus disse?

Os critérios que são sensatos apenas reproduzem o critério geral com outras palavras, apesar da norma vedar expressamente a redundância: é o caso, por exemplo, do critério 2 para Álbuns em Música, que prevê o caso de "o seu criador, ou criadores, for(em) notável(is)". Ou o critério para Canções tradicionais ou populares (folclore), definindo notoriedade para aquelas que tenham "um passado histórico e uma ampla representação no folclore tradicional descritas em fontes secundárias, tais como revistas de música e artigos acadêmicos de música e antropologia". O mesmo ocorre no critério 1 para Compositores, libretistas e letristas, prevendo notoriedade para quem "criou ou foi coautor de uma letra, libreto, música, musical de algum tipo (inclui peças de teatro, musicais, óperas, etc.), ou outro tipo de composição que tenha sido considerada notável".

Outros critérios se contradizem mutuamente. Caso clássico é o critério 10 para Políticos, que anula tudo o que foi estabelecido nos parágrafos 1 a 9 e prevê como notórios todos os políticos que "mesmo não cumprindo um dos critérios acima, foram objeto de debates, teses ou demais trabalhos no meio acadêmico", ou seja, os que são notórios segundo o critério geral. Se estes podem ter artigo, pra quê toda a lista anterior? Outro caso clássico é o critério 8 para Desportistas, que anula os critérios 1 a 7 ao admitir "todos os atletas que não se enquadrem nos parâmetros acima mas que por qualquer feito extraordinário se tenham destacado, tendo recebido o devido reconhecimento internacional, comprovável através de cobertura em revistas, livros ou jornais da especialidade", ou seja, que são notórios segundo o critério geral.

Alguns são definitivamente rocambolescos e quase incompreensíveis, como a Observação 4 de Desporto, estabelecendo que "quando no texto se refere a algo considerado notório, significa que a mesma preenche os seus respetivos critérios de notoriedade, ou na ausência dos mesmos, essa notoriedade é verificável implicando para isso o reconhecimento através de uma cobertura de múltiplas fontes de relevo, como obras publicadas em fontes fidedignas e independentes do objeto em si. Por outras palavras, múltiplos trabalhos publicados em todos os meios, tais como artigos em jornais e revistas bem como as suas versões online, livros, e documentários de televisão, exceto nos seguintes casos: Qualquer informação de comunicados de imprensa e outras publicações referenciando diretamente o evento em si como publicações próprias e toda a publicidade que mencione o evento”.

Outros chegam ao ponto de contradizer a norma geral, como os critérios 1 e 3 para Lugares de Carnaval, definindo como notórios "sambódromos que sejam o palco principal de um desfile oficial", e "outros lugares em que sejam efetuados desfiles carnavalescos, fora do Brasil". Ora, nesses casos o desfile oficial dos alunos do Colégio Nossa Senhora de Deus Me Livre da vila de Nenhures que só tem 356 habitantes poderia ter um artigo. No mesmo caso está o critério 1 para Empresas, produtos e serviços, onde são aceitáveis artigos sobre "empresas públicas ou concessionárias de serviços públicos", ou seja, qualquer empresa pública estaria contemplada, mesmo o serviço municipal de coleta de tampinhas de garrafa da vila de Nenhures de 356 habitantes.

Também contradizem a norma geral os critérios para Telenovelas em Cinema, rádio e televisão, admitindo expressamente todas as telenovelas, sem qualquer respeito pela necessidade da regra geral de cobertura significativa por fontes independentes; os critérios para Filmes, admitindo expressamente todos os longas-metragens; os critérios para Emissoras de rádio e TV, admitindo todas as emissoras nacionais e locais; os critérios para Geografia física em Geografia, admitindo como notórios todos e quaisquer "rios, riachos, ribeirões e lagoas de qualquer natureza", mesmo que o rio tenha somente 5 km de extensão e seja um fio d’água, que o riacho tenha 1 km e desapareça em todos os verões, que o ribeirão tenha 300 metros e seja de fato o valão de esgoto de uma favela qualquer, e a lagoa seja uma simples poça no fundo de um barranco esquecido por Deus e pela humanidade. Na mesma situação absurda entram os critérios para Torneios em Desporto, validando os torneios oficiais estaduais, interestaduais, nacionais e internacionais; os torneios municipais reconhecidos pela federação estadual, e os torneios amistosos onde haja a participação de clubes relevantes, ou seja, vale virtualmente todo tipo de torneio! Não sem antes aceitar como notórias "todas as competições entre seleções". De novo, vale tudo, mas o que seja uma seleção não é definido. Poderíamos incluir a competição de arremesso de anão entre as seleções da vila de Nenhures?

Os critérios foram feitos idealmente também para identificar algo que é muito conhecido porque se destaca do comum, porque é muito importante, porque gerou escola, porque exerce influência em larga escala, porque está na capa dos jornais, porque tem qualidade superior à média, ou porque por qualquer motivo mereceu ser estudado por vários especialistas acreditados, ao contrário do que é pouco conhecido e pouco significante, e por isso não notório. A regra geral prevê isso explicitamente, ao dizer que "o melhor barômetro para avaliar a notoriedade de um tema é a existência de pessoas independentes que o consideraram tão importante que investigaram, escreveram e publicaram elas próprias trabalhos sobre essa temática". Mas não deviam ser criados para atrair toda uma categoria independentemente da importância relativa de seus integrantes para dentro do buraco-negro da Wikipédia, contradizendo frontalmente o critério geral.

Não é preciso nos estendermos mais nessa pesquisa. Fica evidente que os critérios temáticos são deuses ex machina, coelhos tirados da cartola, um pot-pourri de princípios desconexos, e quando não são redundantes com o critério geral, são arbitrários na melhor das hipóteses, e absurdos na pior. Pra quê tudo isso? Só serve para confundir o freguês e dar fogo para discórdias recorrentes nas discussões sobre as páginas para eliminar, onde jamais se pode chegar a um consenso porque as normas são insubstanciais, contraditórias e irrelevantes.

A Wikipédia podia passar muito melhor sem eles, e permanecer agarrada somente no critério geral, que serve para tudo. O triste é ver, nas discussões para eliminação, que muitas vezes o critério geral parece sequer ser conhecido, e toma-se como norte um calhamaço longo e enfadonho que não tem pé nem cabeça em detrimento de uma regra simples e clara que é prática e eficiente.


Tetraktys, novembro de 2020