Usuário:André Koehne/temporário

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Repercussão no Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil a imprensa retratou a polêmica desencadeada antes da turnê do grupo.

A revista de maior circulação da época, Manchete, retratou a celeuma que se passava nos Estados Unidos, trazendo como subtítulo "Depois de muita confusão os Beatles dizem que não disseram o que disseram de Deus", lembrava que há poucos meses a revista Time havia trazido na sua capa a pergunta "Deus morreu?" e que, nesse contexto, Lennon havia feito sua declaração, ali traduzida como "Considero lamentável que nós, os Beatles, sejamos hoje mais populares do que Jesus Cristo" e que, nas entrevistas dadas antes de suas apresentações em Chicago e Detroit ele dissera que poderia ter se referido à televisão ou outra novidade, em vez dos Beatles; a revista noticiava ainda a reação feroz de "minorias" e dos "fanáticos racistas do Sul", retratando que havia o temor de que os artistas fossem agredidos como ocorrera algum tempo antes nas Filipinas ou que houvesse ausência de fãs nos shows da turnê — mas informava ter ocorrido o oposto, com fãs exibindo cartazes com dizeres como "We support John".[1]

Na cobertura do incidente o Jornal do Brasil publicara na edição do domingo, dia 6 de agosto de 1966, uma chamada na primeira página para a matéria intitulada "Começou o boicote aos 'Beatles'" nos Estados Unidos, informando que Epstein havia chegado no dia anterior a Nova York "alarmado, para apresentar desculpas pela agitação que causara a declaração dada por um dos Beatles, John Lennon, de que o cristianismo está em decadência e que os cantores do grupo 'são agora mais populares do que o próprio Jesus'"; por conta disso quinze emissoras daquele país haviam cessado a execução das músicas do grupo após a entrevista dada a Maureen Cleeve para um vespertino que havia sido reproduzia por uma revista feminina novaiorquina; em Illinois uma emissora transmitia um editorial contra os músicos de Liverpool de hora em hora e uma queima de discos estava programada.[2] Na edição da quarta-feira seguinte o jornal noticiava a antecipação da viagem do grupo para a turnê, e que medidas de segurança extraordinárias estavam sendo adotadas; o jornal concluía essa matéria: "Epstein interpretou as observações de Lennon como uma manifestação de pesar ao declínio do cristianismo, mas a reação desfavorável continua."[3] Na edição do dia 12 era noticiada na primeira página a chegada com sucesso do grupo a Boston, apesar da queima de discos promovida pela Organização da Juventude Católica da Igreja de Santa Catarina de Siena, em Indianápolis e que, depois de a execução de suas músicas haver sido proibida na África do Sul, a venda de discos crescera naquele país; mesmo com a multidão de jovens que os fora receber no aeroporto a polícia havia declarado que "a recepção foi decepcionante e bem menor que o esperado"; o jornal informara ainda que um funcionário da Pan American World Airways, onde os músicos viajaram, havia colocado exemplares da Bíblia nos assentos que os mesmos ocupariam no avião.[4]

No dia 13 nova manchete na primeira página dava conta de que "Beatles se retratam da blasfêmia" em Chicago; informava adiante que, na entrevista do grupo, John lamentava ter dito "a verdade": "Parece-me que se tivesse dito que a televisão é mais popular do que Jesus nada teria acontecido — acrescentou — Sinto muito ter aberto a boca."[5] No dia 19, o "JB" publicara uma defesa do grupo pela Miss Universo Margareta Arvidsson, em visita ao país: "Os Beatles são muito engraçados (...) e as declarações de John Lennon de que o conjunto é hoje mais popular do que Cristo refletem mais humor do que vaidade. Não há como negar, entretanto, a sua grande popularidade. Eu os adoro".[6] No dia 1º de setembro o jornal falava do fim da turnê, da qual os Beatles saíram "mais ricos, mortos de cansados" e que o único incidente na partida fora "quando um grupo de jovens hasteou num edifício do aeroporto uma grande bandeira com a legenda 'Graças a Deus vocês regressaram sãos e salvos' — numa aparente alusão aos comentários de John Lennon acerca de Jesus Cristo e à reação mundial que provocaram."[7]

Em um periódico católico de agosto de 1966 o médico Eloy Franqueira Soares escreveu um artigo intitulado Os "Beatles" onde liga a frase de John Lennon ao comunismo, denunciado como a causa principal da corrupção moral da juventude da qual Lennon seria o efeito; ali brada que decadentes são os Beatles, onde "no auge da fama zomba John do Cristo" e que é preciso separar o joio do trigo: "O trigo nos pertence. O joio é do John e do negativismo exportado pela Rússia e China Vermelha."[8]

Em 2013 o político e pastor Marco Feliciano divulgou um vídeo onde declara que Deus matou John Lennon numa vingança por causa de sua declaração; em culto religioso o então deputado federal declarou: “A minha bíblia diz que Deus não recebe uma afronta e fica impune. Passou um tempo dessas declarações, alguém chama (John John) pelo nome, ele vira e é alvejado com três tiros no peito. Eu queria estar lá no dia em que descobriram o corpo, eu ia tirar o pano de cima e ia dizer me perdoe, mas esse primeiro tiro foi em nome do Pai, esse é em nome do Filho e esse é em nome do Espírito Santo. Ninguém afronta Deus e sobrevive para debochar”; na verdade o assassino disparou cinco tiros, dos quais quatro atingiram o músico.[9]

  1. Roberto Garcia (27 de agosto de 1966). «Os 4 Cavaleiros do Apocalipse». Manchete (749): 6-9. Exemplar disponível na "Hemeroteca Digital" da Biblioteca Nacional do Brasil. 
  2. UPI-JB (7 de agosto de 1966). «Começou o boicote aos "Beatles"». Jornal do Brasil (ano LXXVI nº 184): 11. Exemplar disponível na "Hemeroteca Digital" da Biblioteca Nacional do Brasil. 
  3. UPI-JB (10 de agosto de 1966). «Polícia garante os Beatles». Jornal do Brasil (ano LXXVI nº 186): 8. Exemplar disponível na "Hemeroteca Digital" da Biblioteca Nacional do Brasil. 
  4. UPI-JB (12 de agosto de 1966). «Boston recebe bem os Beatles - Milhares de jovens de Boston recebem os Beatles e lhes dão solidariedade». Jornal do Brasil (ano LXXVI nº 188): 1-8. Exemplar disponível na "Hemeroteca Digital" da Biblioteca Nacional do Brasil. 
  5. UPI-JB (12 de agosto de 1966). «Beatles se retratam da blasfêmia - Anfiteatro enche na estreia dos Beatles em Chicago onde John faz a defesa de Jesus». Jornal do Brasil (ano LXXVI nº 189): 1-8. Exemplar disponível na "Hemeroteca Digital" da Biblioteca Nacional do Brasil. 
  6. Sem autoria (12 de agosto de 1966). «"Miss" Universo a caminho de São Paulo diz ser fã dos Beatles e da mini-saia». Jornal do Brasil (ano LXXVI nº 194): 10. Exemplar disponível na "Hemeroteca Digital" da Biblioteca Nacional do Brasil. 
  7. UPI-JB (1 de setembro de 1966). «Beatles de volta a casa». Jornal do Brasil (ano LXXVI nº 205): 9. Exemplar disponível na "Hemeroteca Digital" da Biblioteca Nacional do Brasil. 
  8. Eloy Franqueira Soares (14 de agosto de 1966). «Os "Beatles"». Rio de Janeiro. A Cruz (2558): 3. Consultado em 18 de agosto de 2019 
  9. Folhapress (8 de abril de 2013). «Feliciano classifica morte de John Lennon como uma revanche divina». Correio 24 Horas. Consultado em 18 de agosto de 2019. Cópia arquivada em 19 de agosto de 2019