Valores da família
Valores da família ou valores familiares são valores tradicionais que pertencem à estrutura, função, papéis, crenças, atitudes e ideais da família.
O termo "família tradicional" refere-se a uma família nuclear — um ambiente de criação de filhos composto por um pai provedor, uma mãe dona de casa e seus filhos biológicos. Uma família que se desvia desse modelo é considerada uma "família não tradicional". No entanto, na maioria das culturas, na maioria das vezes, o modelo de família estendida tem sido o mais comum e não o da família nuclear.[1]
Definição
[editar | editar código]Vários dicionários online bem conhecidos definem "valores familiares" da seguinte forma:
- "os princípios morais e éticos tradicionalmente defendidos e transmitidos dentro de uma família, como fidelidade, honestidade, verdade e fé."[2]
- "valores especialmente de tipo tradicional ou conservador que são mantidos para promover o bom funcionamento da família e fortalecer o tecido da sociedade."[3]
- "valores considerados tradicionalmente ensinados ou reforçados dentro de uma família, como os de altos padrões morais e disciplina."[4]
Na política
[editar | editar código]Familialismo é a ideologia que prioriza a família e defende um sistema de bem-estar social onde as famílias, e não o governo, assumam a responsabilidade pelo cuidado de seus membros,[5] em que um conjunto de representações sobre a família cultivadas na sociedade, influenciam a escolha dos objetivos familiares, as formas de organização da vida quotidiana e a interação social[6]
Nos Estados Unidos, a bandeira dos valores familiares tem sido usada por conservadores sociais para expressar oposição ao aborto, feminismo, pornografia, educação sexual abrangente, divórcio, homossexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo, secularismo e ateísmo.[7] Grupos conservadores estadunidenses fizeram incursões promovendo essas políticas na África desde o início dos anos 2000, descrevendo-as como "valores familiares africanos".[8] Os defensores dos valores familiares tradicionais atribuem frequentemente à família tradicional o estatuto de única unidade social moralmente admissível[9].
Este termo é consideravelmente vago e pode ser interpretado de forma distinta em cada cultura. O termo surge frequentemente nos discursos de conservadores sociais e religiosos. No final do século XX e início do século XXI, este conceito foi recorrentemente utilizado em debates políticos no contexto de uma tendência mundial de declínio dos valores familiares após o fim da Segunda Guerra Mundial[10].
Segundo alguns comentadores, os valores tradicionais são um constructo social criado por conservadores americanos na transição das décadas de 1960 e 1970[11][12], e no contexto russo não existem valores únicos, imutáveis ou permanentes[13][14].
Compreensão religiosa
[editar | editar código]A visão cristã tradicional sobre o matrimónio e a família baseia-se na compreensão do ser humano como um ser criado por Deus, pertencente a um de dois sexos (homem ou mulher), que se complementam no casamento. A diferença entre os sexos é vista como um dom especial do Criador. Por tradição, os principais objetivos do casamento são: a procriação e educação dos filhos, a ajuda mútua e um meio para moderar o desejo carnal (Predefinição:Biblia)[15]. O nascimento e a educação da prole ocupam um lugar de particular relevância na compreensão do matrimónio cristão tradicional[16][17], e a recusa deliberada de ter filhos por motivos egoístas é considerada um pecado[18] O Direito canónico sobre o matrimónio da Igreja Católica define como inválido o casamento em que os cônjuges não reconhecem que a sua união se destina à procriação da prole.[19]
A Constituição do Concílio Vaticano II da Igreja Católica, Gaudium et Spes, afirma[20]:
| “ | Pela sua própria natureza, a própria instituição do matrimónio e o amor conjugal ordenam-se à procriação e educação da prole, pelas quais são coroados. | ” |
Nesta conceção, a conceção e o nascimento de filhos são entendidos como a finalidade natural das relações sexuais[21]. Assim ensinaram muitos dos Padres da Igreja e santos na história do cristianismo[22][23][24][25][26][27][28][29]. Recentemente, tem-se discutido cada vez mais nos círculos eclesiásticos a necessidade de proteger os valores familiares tradicionais na sociedade. Estes valores estão associados a qualidades e atitudes como a pureza moral nas relações entre homem e mulher. As famílias numerosas e o amor aos filhos são elevados a um novo patamar[30] e considerados como um meio de superação da crise demográfica[30][31]. Segundo os defensores dos valores familiares tradicionais, o conceito de família é incompatível com fenómenos como as relações homossexuais, a coabitação fora do casamento e a renúncia à procriação[31]. As uniões do mesmo sexo são vistas de forma negativa[31]. Os crentes defensores dos valores familiares tradicionais opõem-se ativamente ao casamento homossexual[32].
Compreensão secular
[editar | editar código]Valores tradicionais e direitos humanos
[editar | editar código]O Comité Consultivo do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, no seu estudo de 2012, observou a «universalidade moral» dos mecanismos existentes de proteção dos direitos humanos, que refletem a total diversidade de culturas e sociedades envolvidas na sua elaboração. O Comité indicou que «a tradição é frequentemente invocada para justificar a manutenção do status quo, sem considerar o facto de que as tradições, culturas e normas sociais evoluem constantemente», e que as violações dos direitos humanos «justificadas por valores tradicionais, culturais ou religiosos, visam frequentemente minorias ou grupos desfavorecidos que não conseguem moldar o discurso dominante onde se definem os valores de toda a sociedade ou comunidade», sublinhando que o direito internacional exige que os Estados alinhem os valores tradicionais com as normas de direitos humanos[33].
Portugal
[editar | editar código]A Constituição Portuguesa (Artigo 67.º) define a família como um "elemento fundamental da sociedade", mas o Estado mantém uma postura de neutralidade axiológica. Portugal distanciou-se do modelo do "homem provedor". O Código Civil foi reformado para garantir a igualdade plena entre cônjuges, eliminando a figura do "chefe de família". Portugal legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo (2010) e a adoção (2016). Estes são considerados hoje parte dos "valores de tolerância e igualdade" da democracia portuguesa. A Igreja Católica em Portugal defende a abertura à vida. No entanto, o Estado garante o direito ao planeamento familiar e interrupção voluntária da gravidez, e o uso de contracetivos é amplamente aceite e incentivado pela saúde pública.
Os deveres do Estado e os princípios fundamentais da família conforme estabelecido no Artigo 67.º da Constituição da República Portuguesa, resumem-se em:
- A família, como elemento fundamental da sociedade, tem direito à protecção da sociedade e do Estado e à efectivação de todas as condições que permitam a realização pessoal dos seus membros
- Promover a independência social e económica dos agregados familiares;
- Promover a criação e garantir o acesso a uma rede nacional de creches e de outros equipamentos sociais de apoio à família, bem como uma política de terceira idade;
- Cooperar com os pais na educação dos filhos;
- Garantir, no respeito da liberdade individual, o direito ao planeamento familiar, promovendo a informação e o acesso aos métodos e aos meios que o assegurem, e organizar as estruturas jurídicas e técnicas que permitam o exercício de uma maternidade e paternidade conscientes;
- Regulamentar a procriação assistida, em termos que salvaguardem a dignidade da pessoa humana;
- Regular os impostos e os benefícios sociais, de harmonia com os encargos familiares;
- Definir, ouvidas as associações representativas das famílias, e executar uma política de família com carácter global e integrado;
- Promover, através da concertação das várias políticas sectoriais, a conciliação da actividade profissional com a vida familiar.[34]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ «Parenting Myths And Facts». Npr.org. Consultado em 4 de janeiro de 2019
- ↑ «family values». Dictionary.com. Consultado em 3 de setembro de 2014
- ↑ «family values». Merriam-Webster. Merriam-Webster, Inc. Consultado em 3 de setembro de 2014
- ↑ «family values». Oxford Dictionaries. Oxford University Press. Consultado em 3 de setembro de 2014
- ↑ Emiko Ochiai, Leo Aoi Hosoya (2014). Transformation of the Intimate and the Public in Asian Modernity. The Intimate and the Public in Asian and Global Perspectives. [S.l.]: BRILL. pp. 20–1. ISBN 9789004264359
- ↑ «Национальная психологическая энциклопедия». vocabulary.ru. Consultado em 14 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 14 de agosto de 2022
- ↑ Dowland, Seth (2015). Family Values and the Rise of the Christian Right. [S.l.]: University of Pennsylvania Press. ISBN 9780812247602
- ↑ McEwen, Haley (25 de maio de 2017). «Nuclear power: The family in decolonial perspective and 'pro-family' politics in Africa». Development Southern Africa. 34 (6): 738–751. doi:10.1080/0376835X.2017.1318700
- ↑ Anne Revillard (2006). [[link suspeito removido] Work/Family Policy in France][1] ([link suspeito removido Arquivado em] 3 de outubro de 2006, no Wayback Machine.). International_Journal_of_Law,_Policy_and_the_Family, 2006 20(2):133—150.
- ↑ Traditional families hit by declining morals, say mothers (Arquivado em 29 de setembro de 2007, no Wayback Machine.). Daily Mail.
- ↑ «Как «традиционные ценности» стали оправданием для репрессий, а потом и войны Весь год в рассылке «Сигнал» мы писали о путинизме. Чаще всего приходилось упоминать это (бессмысленное) словосочетание». Meduza (em russo). Consultado em 2 de agosto de 2024
- ↑ «Откуда есть пошли «традиционные ценности», s-t-o-l.com». s-t-o-l.com (em russo). Consultado em 2 de agosto de 2024. Cópia arquivada em 2 de agosto de 2024
- ↑ «Традиционные ценности и реальность». Ведомости (em russo). 17 de maio de 2019. Consultado em 2 de agosto de 2024. Cópia arquivada em 2 de agosto de 2024
- ↑ «Изобретение традиционных ценностей. О том, откуда есть пошла новая национальная идея, что она означает и на чем строится сегодняшняя государственная философия». Новая газета (em russo). 3 de abril de 2024. Consultado em 2 de agosto de 2024. Cópia arquivada em 2 de agosto de 2024
- ↑ Каноническое право о браке. Учебное пособие, составленное свящ. И. Юровичем. — Колледж Католической Теологии им. св. Фомы Аквинского, Predefinição:М, 1994, с. 20.
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- ↑ ККЦ Amor conjugal[http://web.archive.org/web/*/http://www.catholic.uz/tl_files/library/books/catechism/0322.htm#s6p3 [ligação inativa]].
- ↑ Проблемы биоэтики (Arquivado em 12 de setembro de 2015, no Wayback Machine.), XII, 3 // Официальный сайт отдела внешних церковных связей РПЦ.
- ↑ (Direito Canónico sobre o matrimónio, cânone 1096 parágrafo 1; comentários no livro: Каноническое право о браке. Учебное пособие, составленное свящ. И. Юровичем. — Колледж Католической Теологии им. св. Фомы Аквинского, Predefinição:М, 1994, с. 45—46).
- ↑ Gaudium et spes, 48 parágrafo 1.
- ↑ «Qualquer ato matrimonial deve permanecer, por si só, destinado à procriação da vida humana»: esta citação da Encíclica «Humanae vitae» do Papa Paulo VI é referida na secção do Catecismo Fecundidade do matrimónio[http://web.archive.org/web/*/http://www.catholic.uz/tl_files/library/books/catechism/0322.htm#s6p3a2 [ligação inativa]].
- ↑ Márt. Justino, o Filósofo. Apologia 1: 29. PG.6:373.
- ↑ Atanásio de Alexandria. «Epístola de Santo Atanásio, o Grande, Arcebispo de Alexandria, ao monge Amun».
- ↑ Clemente de Alexandria. O Pedagogo, parte ΙΙ, cap. 10.
- ↑ Gregório de Nazianzo. Obras de Gregório, o Teólogo, parte 3.
- ↑ Beato Teodoreto de Ciro. Breve exposição dos dogmas divinos, 25 // Padres Orientais e mestres da Igreja do século V. — M., Editora MFTI, 2000, с. 172—223.
- ↑ Epifânio de Salamina. Panarion, cap. 58 (78), 22. Obras de Epifânio de Chipre, parte 5, с. 269—270.
- ↑ S. Máximo, o Confessor. Sobre a Caridade, segunda centúria: 17.
- ↑ Teófano, o Recluso. Comentário à Epístola aos Romanos 1, 24.
- ↑ a b Em defesa dos valores familiares (Arquivado em 18 de março de 2013, no Wayback Machine.) // Pravoslavie.Ru, 4 de julho de 2011.
- ↑ a b c Em defesa da família tradicional (Arquivado em 18 de março de 2013, no Wayback Machine.) // Pravoslavie.Ru, 15 de outubro de 2010.
- ↑ Estado de Maryland defende valores familiares tradicionais // Invictory, 3 de junho de 2011.
- ↑ «Em nome da tradição: tentativas de silenciar representantes da comunidade LGBT» (PDF). Consultado em 26 de julho de 2023. Cópia arquivada (PDF) em 26 de julho de 2023
- ↑ Portugal, Artigo 67.º (Família) - Constituição da República Portuguesa de 10 de abril de 1976. Diário da República n.º 86/1976, Série I.