Vicente Ferreira da Silva

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Vicente Ferreira da Silva
Filosofia do século XX
Vicente Ferreira da Silva
Escola/Tradição: Fenomenologia, Lógica
Data de nascimento: 3 de janeiro de 1916
Local: São Paulo
Morte 19 de julho de 1963 (47 anos)
Local: São Paulo
Principais interesses: Filosofia, lógica, matemática, metafísica
Religião Politeísmo
Trabalhos notáveis Lógica Simbólica, Transcendência do Mundo, Dialética das Consciências
Influências: Xavier Zubiri, Husserl, Whitehead, Ortega y Gasset, Martin Heidegger, Louis Lavelle,[1] Willard van Orman Quine, Gabriel Marcel
Influenciados: Vilém Flusser, Miguel Reale, Guimarães Rosa, Newton da Costa

Vicente Ferreira da Silva (São Paulo, 10 de janeiro de 1916 – São Paulo, 19 de julho de 1963) foi um filósofo, lógico e matemático paulista, pioneiro em lógica contemporânea no Brasil.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Vicente Ferreira da Silva graduou-se em direito na Faculdade do Largo de São Francisco, mas nunca exerceu a profissão, tendo-se dedicado inteiramente à filosofia. Em 1933, aproximou-se do matemático italiano Luigi Fantappiè e passou a estudar a fundo a obra Principia mathematica do filósofo Whitehead, feita em colaboração com seu aluno Bertrand Russell. Pouco depois, Vicente publicou a obra Elementos de Lógica Matemática tornando-se o primeiro a publicar um livro sobre lógica no Brasil.[2]

Casou-se com a poetisa Dora Ferreira da Silva com quem estabeleceu uma parceria de dedicação aos estudos durante vinte e três anos. Dora e Vicente promoviam em sua casa encontros de intelectuais, escritores e pensadores.[3][4] Em 1947, o casal participou de um retiro espiritual e literário na Serra de Itatiaia, junto do casal de literatos portugueses Agostinho da Silva e Judith Cortesão.[5]

Vicente publicou muitos de seus artigos na Revista Brasileira de Filosofia, da qual foi co-fundador com seu amigo Miguel Reale. Em 1955, fundou com Dora e Milton Vargas a revista Diálogo, considerada, na época, uma das mais instigantes do Brasil.[6]

Em 1949 acompanhou Miguel Reale na fundação do Instituto Brasileiro de Filosofia, centro de estudos que congregava pensadores de todas as tendências. Vicente passou a se interessar por autores como Martin Heidegger, Xavier Zubiri e Ortega y Gasset, passando a lecionar em cursos livres que oferecia no Colégio Livre de Estudos Superiores, que ele próprio fundou em São Paulo no ano de 1945.[7]

Morreu no dia 19 de julho de 1963 aos 47 anos, em um acidente de automóvel ocorrido em São Paulo, sua terra natal.[7]

Carreira[editar | editar código-fonte]

Pioneirismo nos estudos lógicos no Brasil[editar | editar código-fonte]

De acordo com a poetisa Dora Ferreira da Silva, sua esposa, Vicente se interessou pela matemática durante sua graduação em direito.[6] Em um primeiro momento ele se concentrou nos estudos de lógica matemática a partir das obras de Whitehead e o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein. Com a publicação de A Lógica Moderna (1939) e Elementos de Lógica Matemática (1940), Vicente se tornou o primeiro brasileiro a lançar livros sobre o tema,[8] ganhando admiradores como o matemático Newton da Costa.[8] Seus estudos autodidatas eram tão brilhantes e aprofundados que acabou se tornando assistente de Willard van Orman Quine, famoso lógico de Harvard, ajudando-o a escrever, em português, a obra O Sentido da Nova Lógica.[9]

"As conferências eram faladas no meu português incorreto, porém Vicente Ferreira da Silva me ajudou a corrigi-las antes de publicar. Quando deixei o Brasil, O Sentido da Nova Lógica estava nas mãos do editor." - Willard Van Orman Quine[10]

Vicente foi ajudante de Quine em São Paulo.

A despeito de seu sucesso nos estudos sobre a lógica, o encontro com Quine mostrou-se decepcionante para Vicente, provocando uma mudança profunda nos seus estudos filosóficos. A partir desse fato ele se afastou das ciências exatas e adentrou a fenomenologia e os temas da filosofia da existência.[11]

A fase heideggeriana[editar | editar código-fonte]

Vicente também foi um dos pioneiros no estudos de Martin Heidegger no Brasil, sendo o pensador alemão sua principal influência durante sua carreira. Em A concepção do homem segundo Heidegger, ele destacou algumas das principais apreciações ontológicas do filósofo alemão. Durante essa fase, Vicente priorizou uma abordagem antropológica, sendo o problema do homem, para ele, considerado de uma perspectiva marcada por um longo, fecundo e refletido diálogo com o pensamento existencial e caracterizado por uma atitude predominantemente humanista com um fundo de sentido e valor do mito e do sagrado.[12]

Embora se enquadrasse na direita política, Vicente se opôs ao integralismo do amigo Miguel Reale, considerando-o como "demasiado selvagem".[13] Ele ainda fez duras críticas ao chamado progressismo e ao pensamento existencialista e marxista de Jean Paul Sartre. De acordo com a sua visão, o que chamam de progresso não é senão uma progressão geométrica, rumo ao abismo da realização total, portanto ao tédio absoluto.[14][2]

O ser e o sagrado[editar | editar código-fonte]

Em sua última fase, Vicente passou a se dedicar à metafísica, priorizando os estudos em autores como Max Scheler, Louis Lavelle, Xavier Zubiri, Schelling, Rudolf Otto, Mircea Elíade, entre outros, estudando as noções do ser e do sagrado, da finitude e da dimensão transcendente. Durante esse período ele enfatizou o mito, a arte e a poesia. Para ele a dependência que nos atrela à vida social tem um alcance muito maior do que a satisfação de necessidades econômicas. Segundo o autor, o homem não se basta a si mesmo não só em sentido físico, como também em sentido metafísico, pois a autocompreensão de seus empreendimentos postula uma ordem de vigências sociais que condiciona todas as tarefas particulares.[15]

"A arte não é um simples ornamento que acompanharia a realidade humana, nem um mero entusiasmo passageiro, como também não é uma simples exaltação ou um passatempo. A poesia é o fundamento que suporta a história."[7]

Recepção acadêmica[editar | editar código-fonte]

A despeito de ter sido ajudante de Quine em sua vinda ao Brasil[16], Vicente não passou no concurso para professor de filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), onde tentou lecionar, apresentando como habilitação sua obra Dialética das Consciências (1950). O aprovado no concurso, João Cruz Costa, possuía graduação e doutorado em filosofia, além de experiência como docente. Já Ferreira da Silva somente possuía a titulação de bacharel em Direito. Vicente foi isolado de alguns círculos e instituições formais, embora se mantivesse envolvido com o Instituto Brasileiro de Filosofia.[2]

A partir dos anos 1990 houve uma redescoberta do pensamento e obra tanto de Vicente Ferreira da Silva quanto de sua esposa Dora.[17] No começo da década de 2000 sua obra foi republicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda de Portugal.[18]

Obras[editar | editar código-fonte]

  • Lógica Moderna (1939)
  • Elementos de Lógica Matemática (1940)
  • Ensaios Filosóficos (1948)
  • Exegese da Ação (1949 e 1954)
  • Ideias para um Novo Conceito de Homem (1951)
  • Teologia e Anti-Humanismo (1953)
  • Instrumentos, Coisas e Cultura (1958)
  • Dialética das Consciências (1950)
  • Dialética das Consciências - Obras completas (2009)
  • Lógica Simbólica - Obras completas (2009)
  • Transcendência do Mundo - Obras completas (2010)

Referências

  1. Lavelle, Louis (2014). Managing Public Relations 1ª ed. [S.l.]: É Realizações. p. 5. 565 páginas. ISBN 978-85-8033-180-6 
  2. a b c «A redescoberta da Filosofia no Brasil». Dicta & Contradicta. Consultado em 21 de maio de 2017. 
  3. «Dora Ferreira da Silva». Instituto Moreira Salles. Consultado em 22 de maio de 2017. 
  4. ROCHA, Priscilla da Silva. Mitos gregos : o teor sagrado das Hídrias de Dora Ferreira da Silva. 2009. 111 f. Dissertação (Mestrado em Linguística, Letras e Artes). Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2009
  5. SILVA, Dora Ferreira da. Agostinho da Silva. In: AAVV. Presença de Agostinho da Silva no Brasil. Org. Amândio Silva e Pedro Agostinho. Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2007, p. 132:
  6. a b Galvão, Donizete (outubro de 2003). «Dora Ferreira da Silva: diálogos sobre poesia e filosofia, recordando Vicente Ferreira da Silva». Revista de Cultura (36). Consultado em 29 de maio de 2017. 
  7. a b c «"Vicente Ferreira da Silva: o homem e a sua obra"». Proyecto Ensayo Hispánico. Consultado em 22 de maio de 2017. 
  8. a b «Vicente Ferreira da Silva: da lógica simbólica à filosofia da mitologia» (PDF). Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro. Consultado em 22 de maio de 2017. 
  9. «Per Johns e Vicente Ferreira da Silva». Revista de Poesia e Crítica Literária 
  10. Albornoz Stein, Sofia (setembro 2004). «Willard Van Orman Quine: the exaltation of the 'new logic'». Scientiae Studia (Sci. stud. vol.2 no.3). Consultado em 29 de maio de 2017. 
  11. Ferreira da Silva, Vicente (2009). «Quarta capa». Lógica Simbólica. Obras completas 2ª ed. São Paulo: É Realizações. 160 páginas. ISBN 978-85-88062-74-0 
  12. «Ética e política no pensamento de Vicente Ferreira da Silva». Revista Cultura. Consultado em 22 de maio de 2017. 
  13. «Poeticamente o Homem Habita: Introdução geral às obras completas de Vicente Ferreira da Silva» 
  14. «A Imortalidade de Vicente Ferreira da Silva». Consultado em 22 de maio de 2017. 
  15. Actas del Primer Congreso Nacional de Filosofía, Mendoza, Argentina, marzo-abril 1949, tomo 3, disponível em filosofia.org
  16. QUINE, Willard Van Orman Quine. Autobiography of W.V. Quine. In: Hahn, L. E. & Schilpp, P. A. (Eds.). The philosophy of W. V. Quine. La Salle, Open Court, 1986. p. 23.
  17. Universidade Federal de Uberlândia. Anais do Colóquio Internacional Vicente e Dora Ferreira da Silva. Volume 1, Número 1. Uberlândia: ILEEL, 2015. ISSN: 2447-243
  18. CESAR, Constança Terezinha Marcondes . Delfim Santos e Vicente Ferreira da Silva. In: Cristiana Soveral. (Org.). Delfim Santos e a Escola do Porto. 1ed.Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2008, v. 1, p. 155-170.