Vincent van Gogh

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Vincent van Gogh
Autorretrato, primavera de 1887, pintura a óleo, 42 × 33.7 cm, Art Institute of Chicago (F 345)
Nome completo Vincent Willem van Gogh
Nascimento 30 de março de 1853
Zundert, Países Baixos
Morte 29 de julho de 1890 (37 anos)
Auvers-sur-Oise, França
Principais trabalhos A Noite Estrelada; Os Girassóis; Terraço do Café à Noite;
Área Pintura, desenho
Movimento(s) Pós-impressionismo

Vincent Willem van Gogh (pronúncia em neerlandês: [ˈvɪnsɛnt ˈʋɪləm vɑn ˈɣɔx] (Ltspkr.png ouça); Zundert, 30 de março de 1853Auvers-sur-Oise, 29 de julho de 1890) foi um pintor pós-impressionista neerlandês. Sua produção inclui retratos, autorretratos, paisagens e naturezas-mortas de ciprestes, campos de trigo e girassóis. Desenhava desde a infância, mas deu início às atividades de pintura somente ao fim dos seus vinte anos. Muitos de seus trabalhos mais conhecidos foram finalizados durante os dois últimos anos de vida. Em pouco mais de uma década, produziu mais de 2 100 obras de arte, incluindo 860 telas a óleo e cerca de 1 300 aquarelas, desenhos, esboços e gravuras.

Van Gogh nasceu numa família de classe média alta e passou o início de sua vida adulta a trabalhar para uma firma de negociantes de arte. Viajou por Haia, Londres e Paris, posteriormente indo lecionar em Isleworth e Ramsgate. Profundamente religioso quando mais jovem, aspirava a ser um pastor. A partir de 1879, serviu como missionário numa região de mineração na Bélgica, onde começou a esboçar representações de pessoas da comunidade local. Em 1885, pintou seu primeiro grande trabalho. A paleta por ele empregada à época consistia principalmente em tons terrosos sombrios e não mostrava nenhum sinal da coloração vívida que viria a distinguir suas pinturas posteriores. Em março de 1886, mudou-se para Paris, onde conheceu os impressionistas franceses. Mais tarde, migrou para o sul daquele país, onde passou a ser influenciado pela forte incidência solar da região, algo que estimulou o desenvolvimento de trabalhos em maior complexidade cromática. Essa mudança veio a criar um estilo único e altamente reconhecível que encontrou auge durante sua estada em Arles, em 1888.

Após tempos sofrendo de ansiedade e com crises de desequilíbrio mental, van Gogh morreu aos 37 anos em decorrência de uma ferida de bala auto-infligida, num ato de suicídio. Até que ponto a saúde mental afetou sua produção figurativa tem sido uma questão amplamente debatida por acadêmicos. Apesar da tendência generalizada de se romantizar sua má condição psíquica, críticos contemporâneos vêem no pós-impressionista um artista profundamente frustrado com a inatividade e a incoerência forjada pela doença. Suas últimas pinturas, contudo, mostram-no ao auge de suas habilidades, completamente sob controle e, de acordo com o crítico de arte Robert Hughes, "ansiando por concisão e graça". Van Gogh é considerado um dos pioneiros estabelecedores da ligação entre as tendências impressionistas e as aspirações modernistas, sendo a sua influência reconhecida em variadas frentes da arte do século XIX, como por exemplo o expressionismo, o fauvismo e o abstracionismo. Sua fama póstuma cresceu especialmente após a exibição das suas telas em Paris, em 17 de março de 1901. Com uma vasta obra, o artista é considerado um dos mais importantes da história. Em sua homenagem, foi fundado o Museu Van Gogh, em Amsterdã, dedicado à difusão de seu legado.

História[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Vincent Willem van Gogh nasceu em 30 de março de 1853, em Groot-Zundert, um povoado próximo de Breda, na província de Brabante do Norte, localidade de cultura predominantemente católica no sul dos Países Baixos.[1] [2] Foi o filho sobrevivente mais velho de Theodorus van Gogh, um pastor da Igreja Reformada Holandesa, e Anna Cornelia Carbentus. O nome de Vincent foi dado em homenagem ao avô e a um irmão, o primogênito, natimorto exatamente um ano antes de seu nascimento.[nota 1] A prática da reutilização de nomes não era incomum à época; "vincent", em verdade, foi um prenome recorrente na família van Gogh, que teve como figura mais influente o avô (1789-1874), formado em teologia pela Universidade de Leiden em 1811. Este teve seis filhos, três dos quais se tornaram negociantes de arte, incluindo um outro Vincent, citado nas cartas como "tio Cent". O avô, por sua vez, talvez tenha sido nomeado em sequência ao tio de seu pai, o bem-sucedido escultor Vincent van Gogh (1729-1802).[4] [5] Arte e religião foram dois âmbitos em torno dos quais a família van Gogh orbitou. Já o irmão mais próximo do futuro pós-impressionista, Theodorus, ou "Theo", nasceu em 1º de maio de 1857. Ele tinha outro irmão, Cornelius, ou "Cor", e três irmãs, chamadas Elisabeth, Anna, e Willemina, esta última também referida como "Wil".[6]

Vincent com aproximadamente treze anos. Fotografia de c. 1866.
Gravura de van Gogh retratando sua morada em Londres, quando trabalhava para a Goupil & Co.
Casa "Holme Court", em Isleworth, onde Vincent morou em 1876.[7] [8]

Van Gogh foi uma criança séria, quieta e introspectiva. Frequentou uma escola do vilarejo local a partir de 1860, onde um único professor católico ensinava para cerca de duzentos alunos. Em 1861, contudo, ele e sua irmã Anna passaram a ter aulas em casa, dadas por uma instrutora particular, condição essa que perdurou até 1° de outubro de 1864, quando foi colocado num colégio de internato em Zevenbergen, distante aproximadamente 32 km (20 milhas) de casa. O menino mostrou-se aflito em deixar o lar de sua família. Em 15 de setembro de 1866, foi transferido para a escola secundária Willem II, em Tilburgo. Constantijn C. Huysmans, um artista de sucesso de Paris, ensinou-o a desenhar no colégio. A prática do desenho, iniciada na infância, foi continuada ao longo dos anos que antecederam a sua decisão de se tornar um artista. Embora bem-feitas e expressivas,[9] as primeiras ilustrações não abordavam os temas com a intensidade que viria a dominar suas obras posteriores.[10] Em março de 1868, deixou a escola repentinamente e voltou para casa. Ao escrever sobre seus primeiros anos numa carta para Theo, em 1883, Vincent confessou: "minha juventude foi sombria, fria e estéril".[11]

Em julho de 1869, seu tio Cent o ajudou a obter uma vaga de trabalho com os negociantes de arte da Goupil & Cie, em Haia. Após um treinamento, a empresa o transferiu, em junho de 1873, para Londres, onde se alojou na Hackford Road, 87, Brixton, e trabalhou na Goupil & Co. da Southampton Street.[12] Considera-se este como um período feliz da vida de van Gogh; quando foi bem-sucedido no trabalho e, aos 20 anos, ganhava mais que seu pai. A esposa de Theo mais tarde afirmou ter sido este o ano mais feliz na vida do irmão de seu marido. Nesse ínterim, Vincent se apaixonou pela filha de sua senhoria, Eugénie Loyer, porém, quando finalmente confessou seus sentimentos para a garota, ela o rejeitou, dizendo que estava secretamente noiva de um ex-inquilino. A partir daí, ele se tornou cada vez mais isolado e fervoroso em religião. Seu pai e tio arranjaram-lhe uma transferência para Paris, mas lá ficou ressentido por causa da forma com que a arte era tratada, como um commodity, algo que passou a transparecer em seu comportamento no emprego e que foi notado pelos clientes. Em 1º de abril de 1876, Goupil o afastou do trabalho.[13]

Van Gogh retornou à Inglaterra para trabalhar voluntariamente como professor substituto numa pequena escola de internato em Ramsgate. Quando o dono da instituição se mudou para Isleworth, Middlesex, Vincent foi com ele, executando parte da viagem a trem e parte a pé.[14] Essa ocupação, contudo, não vingou e o rapaz a abandonou na busca por se tornar um assistente de pastor metodista, seguindo o desejo de "pregar o evangelho em toda parte".[15] No natal, voltou para casa e, após, foi trabalhar numa livraria em Dordrecht por seis meses. Infeliz com o emprego, passava a maior parte de seu tempo a rabiscar ou traduzir passagens da Bíblia em Inglês, francês e alemão.[16] De acordo com seu companheiro de quarto à época, um jovem professor chamado Görlitz, Vincent comia frugalmente e preferia não ingerir carne.[17] [nota 2]

O zelo religioso de van Gogh cresceu até que sentiu ter encontrado sua verdadeira vocação. Como apoio ao seu esforço de se tornar um pastor, sua família o enviou a Amsterdã, para que estudasse teologia, em maio de 1877, onde permaneceu com o tio Jan van Gogh, um vice-almirante da Marinha.[18] [19] Preparou-se para um exame de entrada com outro tio, Johannes Stricker, um respeitado teólogo nos Países Baixos. Vincent, após a reprovação no exame, deixou a casa do tio Jan em julho de 1878. O rapaz, então, buscou um curso de três meses na Vlaamsche Opleidingsschool, uma escola missionária protestante em Laeken, próxima de Bruxelas, mas não o completou.[20]

Casa em Cuesmes onde van Gogh viveu por volta de 1880. Enquanto lá esteve, decidiu se tornar um artista.

Em janeiro de 1879, assumiu um cargo temporário como missionário no vilarejo de Petit Wasmes,[nota 3] no distrito de Borinage, na Bélgica, que tinha como principal atividade econômica a mineração de carvão. Van Gogh, nesse período, viveu nas mesmas condições de pobreza que aqueles para quem pregou, dormindo em palha numa pequena cabana ao fundo da casa de um padeiro. A mulher do comerciante relatava ouvir Vincent a soluçar à noite na cabana. Sua escolha por viver em condições miseráveis fez com que fosse mal visto pelas autoridades da igreja, que o demitiram por "causar prejuízos à dignidade do sacerdócio". Partiu para Bruxelas,[21] retornou brevemente para a aldeia de Cuesmes, em Borinage, mas cedeu à pressão de seus pais e voltou para casa, em Etten. Van Gogh lá ficou até por volta de março do ano seguinte,[nota 4] algo que deu grande preocupação e frustração para seus pais. Havia um particular conflito entre Theodorus e seu filho, o que o motivou a tentar interná-lo num hospício em Geel.[22] [nota 5]

O rapaz acabou voltando para Cuesmes, onde se alojou com um mineiro chamado Charles Decrucq.[23] Passou a se interessar, então, pelas pessoas e cenas ao seu redor, registrando o cotidiano nos desenhos, algo que foi sugerido pelo irmão, Theo, desejando que Vincent levasse a arte a sério. Viajou, num outono, a Bruxelas, com a intenção de seguir a recomendação do irmão para que estudasse com o artista Willem Roelofs, o qual, por sua vez, o persuadiu — apesar da aversão de van Gogh às escolas formais de arte — a frequentar a Académie Royale des Beaux-Arts, na qual veio a se matricular em 15 de novembro de 1880. Na Académie, estudou anatomia e as regras padrão de sombreado e perspectiva, sobre a qual declarou: "você tem que saber para ser capaz ao menos de desenhar alguma coisa".[24] Vincent desejava se tornar um artista a serviço de Deus, "para tentar entender o significado real do que os grandes artistas, os graves mestres, dizem-nos nas suas obras-primas, que levam a Deus; um homem escreveu e contou isso num livro, outro [pode contar] numa imagem".[25]

Etten, Drenthe e Haia[editar | editar código-fonte]

Kee Vos-Stricker com seu filho, Jan, c. 1879/1880.

Vincent se mudou com seus pais para o interior de Etten em abril de 1881. Continuou desenhando, muitas vezes usando vizinhos como tema. No verão daquele ano, o rapaz costumou realizar longas caminhadas com a prima recentemente enviuvada Kee Vos-Stricker, filha da irmã mais velha de sua mãe e Johannes Stricker.[26] A moça era sete anos mais velha que ele e tinha um filho de oito anos de idade. Van Gogh a pediu em casamento, mas ela recusou, respondendo: "não, nunca, jamais" ("nooit, neen, nimmer").[27] [28] Em novembro, Vincent escreveu uma contundente carta a Johannes[29] e, em seguida, partiu para Amsterdã, onde eles se falaram em várias ocasiões.[30] Kee se recusava a vê-lo e os pais dela escreviam-lhe: "sua persistência é repugnante". Em desespero, van Gogh um dia colocou sua mão esquerda numa chama de lâmpada, falando: "deixe-me vê-la pelo tempo em que eu consigo manter minha mão no fogo".[31] Ele não recordaria o evento muito bem, mas depois relatou que seu tio teria apagado a chama. O pai de Kee deixou claro que a recusa da filha teria de ser ouvida e que os dois não se casariam[32] por causa da incapacidade de van Gogh de se sustentar.[33] A percepção a partir daí construída a respeito do tio e ex-tutor o teria afetado profundamente e posto fim no seu fervor religioso.[34] Num natal, Vincent se recusou a ir à igreja, discutindo violentamente com o pai como resultado disso, o que, por conseguinte, levou-o a sair de casa no mesmo dia, indo para Haia.[35] [36]

Van Gogh se estabeleceu em Haia em janeiro de 1882, e lá passou a visitar o marido de uma prima, Anton Mauve, pintor realista neerlandês e um dos principais membros da Escola de Haia. Malva apresentou-o à pintura a óleo e aquarela e emprestou-lhe dinheiro para montar um estúdio,[37] mas os negócios de ambos logo caíram.[38] Um tio de Vincent, Cornelis, um negociante de arte, encomendou-lhe doze ilustrações a tinta de paisagens da cidade, as quais o sobrinho concluiu logo após chegar em Haia, junto com mais sete outros trabalhos de desenho.[39] Van Gogh passou três semanas de junho daquele ano num hospital, sofrendo de gonorreia.[40] No verão que seguiu, começou a pintar a óleo.[41]

Aquarela de van Gogh retratando o telhado do ateliê de Haia, 1882.

Mauve teria subitamente se tornado frio com Vincent, não retornando algumas de suas cartas.[42] Este supôs que o parente teria descoberto que estava a morar com uma prostituta e mãe solteira, Clasina Maria Hoornik (1850-1904), também chamada de "Sien".[43] [44] Van Gogh teria conhecido Sien no final de janeiro, grávida e com uma filha de cinco anos de idade. A mulher já havia dado a luz a duas crianças que morreram, embora Vincent não soubesse disso;[45] Em 2 de julho, Sien pariu um menino, que recebeu o nome de Willem[46] Quando Theodorus descobriu os detalhes do relacionamento, exigiu que seu filho a abandonasse, embora o pintor tenha primeiramente recebido esse mando como um desafio.[47] Van Gogh pensou em se mudar com a família de Sien para fora da cidade, mas, em outono de 1883, decidiu por deixá-la.[48] É possível que a falta de dinheiro teria obrigado a moça a voltar à prostituição. A partir desse eventos, Vincent teria sentido que a vida familiar era incompatível com o seu desenvolvimento artístico. Quando ele foi embora, Sien deu sua filha para a mãe e Willem, ainda bebê, para um irmão. Ela, então, mudou-se para Delft e mais tarde para Antuérpia.[49]

Willem, tempos depois, relatou ter sido levado para visitar a mãe em Roterdã quando tinha por volta de 12 anos de idade. Lá, um tio tentou persuadir Sien a se casar a fim de legitimar o filho. Willem lembrou de sua mãe dizendo: "mas eu sei quem é o pai. Ele era um artista com quem eu vivi há quase vinte anos atrás, em Haia. Seu nome era van Gogh". Ela, então, teria falado para o filho: "você recebeu esse nome em homenagem a ele".[50] Embora Willem acreditasse ser filho de Vincent van Gogh, o período de seu nascimento torna essa hipótese improvável.[51] Em 1904, Sien cometeu suicídio, afogando-se no rio Escalda.[52] Ao fim do relacionamento, Van Gogh mudou-se para a província de Drente, no norte dos Países Baixos. A solidão, contudo, o fez voltar à casa de seus pais, que haviam se mudado para um povoado em Nuenen, ainda em Brabante do Norte.[52]

Paris[editar | editar código-fonte]

Retrato de Père Tanguy, 1887. Observe-se a presença da influência japonesa explícita em seis diferentes ukiyo-e no cenário de fundo.

Em março de 1886, Van Gogh mudou-se para Paris, onde dividiu um apartamento em Montmartre com Theo. Depois, os dois mudaram-se para um apartamento maior na Rua Lepic, 54. Por alguns meses, Vincent trabalhou no Estúdio Cormon, onde conheceu os artistas John Peter Russell, Émile Bernard e Henri de Toulouse-Lautrec, entre outros.[53] Este último, alcóolatra, apresenta van Gogh ao absinto, bebida popular da ocasião, que viria a ser muito consumida pelo pintor, que a retratou em Natureza Morta com Absinto. O absinto possuía como principal ingrediente uma planta alucinógena de nome Artemisia absinthium e apresentava gradação alcoólica de 68%. O absinto, também conhecida como "fada verde" devido aos efeitos alucinógenos, foi responsabilizado por alucinações, surtos psicóticos e até mesmo mortes.[54]

Através de Theo, conhece Monet, Renoir, Sisley, Pissarro, Degas, Signac e Seurat.[53]

Naquela época, o impressionismo tomava conta das galerias de arte de Paris, mas Van Gogh tinha problemas em assimilar esse novo conceito de pintura. Vincent e Émile Bernard começaram o uso da técnica do pontilhismo, inspirados em Georges Seurat.

A partir de sua estada em Paris, Van Gogh abandona sua temática sombria e obscura de camponeses e suas obras recebem tons mais claros. São desta época os quadros Mulher sentada no Café du Tambourin, A ponte Grande Jatte sobre o Sena, Quatro Girassóis, os Retratos de Père Tanguy, entre outros.[53]

Em 1887, conhece Paul Gauguin, e mais para o final do ano expõe em Montmartre. No ano seguinte, decide mudar-se de Paris.

Arles[editar | editar código-fonte]

Vincent van Gogh chegou em Arles, no Sul de França, no dia 21 de fevereiro de 1888. A cidade era um local que o impressionava pelas paisagens e onde esperava fundar uma colônia de artistas.

Com objetivo de decorar a sua casa em Arles (conhecida como A Casa Amarela, retratada em uma de suas obras), Van Gogh pintou a série de quadros com girassóis, dos quais um se tornaria numa de suas obras mais conhecidas. Dos artistas que deixara em Paris, apenas Gauguin respondeu ao convite feito para se instalar em Arles. O Vinhedo Vermelho, único quadro vendido durante a sua vida, foi pintado nesta altura. Ele o vendeu por 400 francos.

Gauguin e Van Gogh partilhavam uma admiração mútua, mas a relação entre ambos estava longe de ser pacífica e as discussões, frequentes. Para representar as relações abaladas entre os dois, Van Gogh pinta a A Cadeira de Van Gogh e a A Cadeira de Gauguin, ambas de dezembro de 1888. As duas cadeiras estão vazias, com objetos que representam as diferenças entre os dois pintores. A cadeira de Van Gogh é sem braços, simples, com assento de palha; a de Gauguin possui assento estofado e possui braços.

Mediante os diversos conflitos, Gauguin pensa em deixar Arles: "Vincent e eu não podemos simplesmente viver juntos em paz, devido à incompatibilidade de temperamentos", queixou-se ele a Theo. Gauguin sentia-se incomodado com as variações de humor de Vincent pela pressão exercida por elas.

Em 23 de dezembro de 1888, após a saída de Gauguin para uma caminhada, Van Gogh o segue e o surpreende com uma navalha aberta. Gauguin se assusta e decide pernoitar em uma pensão. Transtornado e com remorso pelo feito, Vincent corta um pedaço de sua orelha direita, que embrulha em um lenço e leva, como presente, a uma prostituta sua amiga, Rachel. Vincent retorna à sua casa e deita-se para dormir como se nada acontecera. A polícia é avisada e encontra-o sem sentidos e ensanguentado. O artista é encaminhado ao hospital da cidade.[55] Gauguin então manda um telegrama para Theo e volta para Paris, julgando melhor não visitar Vincent no hospital.

Vincent passa 14 dias no hospital, ao final dos quais retorna à casa amarela. Em seu retorno pinta o Auto-Retrato com a Orelha Cortada. O episódio trágico convenceu van Gogh da impossibilidade de montar uma comunidade de artistas em Arles.[53]

O estilo de pintura acompanhou a mudança psicológica e Van Gogh trocou o pontilhado por pequenas pinceladas.

Quatro semanas após seu retorno do hospital, Van Gogh apresenta sintomas de paranoia e imagina que lhe querem envenenar. Os cidadãos de Arles, apreensivos, solicitam seu internamento definitivo. Sendo assim, van Gogh passa a viver no hospital de Arles como paciente e preso.

Rejeitado pelo amigo Gauguin e pela cidade, descartados seus planos da comunidade de artistas, se agrava a depressão de Van Gogh, que tinha como único amigo seu irmão Theo, que por sua vez estava por casar-se. O casamento de Theo contribui para a inquietação de Vincent, que teme pelo afastamento do irmão.[53]

Saint-Rémy[editar | editar código-fonte]

Em 1889, aos 36 anos, pediu para ser internado no hospital psiquiátrico em Saint-Paul-de-Mausole, perto de Saint-Rémy-de-Provence, na Provença. A região do asilo possuía muitas searas de trigo, vinhas e olivais, que transformaram-se na principal fonte de inspiração para os quadros seguintes, que marcaram nova mudança de estilo: as pequenas pinceladas evoluíram para curvas espiraladas.[53]

Auvers-sur-Oise[editar | editar código-fonte]

Retrato do Dr. Gachet, obra de 1890

Em maio de 1890, Vincent deixou a clínica e mudou-se de novo para perto de Paris (em Auvers-sur-Oise), onde podia estar mais perto do seu irmão e frequentar as consultas do doutor Paul Gachet, um especialista habituado a lidar com artistas, recomendado por Camille Pissarro. Gachet não conseguiu melhorias no estado de espírito de Vincent, mas foi a inspiração para o conhecido Retrato do Doutor Gachet. Em Auvers Van Gogh produz cerca de oitenta pinturas.[53]

Entretanto, a depressão agravou-se, e a 27 de Julho de 1890, depois de semanas de intensa atividade criativa (nesta época Van Gogh pinta, em média, um quadro por dia),[56] Van Gogh dirige-se ao campo onde disparou um tiro contra o peito. Arrastou-se de volta à pensão onde se instalara e onde morreu dois dias depois, nos braços de Theo.[53] As suas últimas palavras, dirigidas a Theo, teriam sido: "La tristesse durera toujours" (em francês, "A tristeza durará para sempre").[57]

A doença[editar | editar código-fonte]

Auto-retrato com orelha cortada. O episódio da automutilação ocorreu cerca de 1 ano e meio antes do seu suicídio, em julho de 1890

Na ocasião, o diagnóstico de Van Gogh mencionava perturbações epiléticas, ainda que o diretor do asilo, Dr. Peyron, sequer fosse especialista em psiquiatria. As crises ocorriam de tempos em tempos, precedidas por sonolência e em seguida apatia. Tinham a média de duração de duas a quatro semanas, período no qual Van Gogh não conseguia pintar. Nestas crises predominavam a violência e as alucinações. No entanto, Van Gogh tinha consciência de sua doença e lhe era repulsivo viver com os demais doentes mentais da instituição.[53]

"Após a experiência dos ataques repetidos, convém-me a humildade. Assim pois: paciência. Sofrer sem se queixar é a única lição que se deve aprender nesta vida."
Vincent Van Gogh

A doença de Van Gogh foi analisada durante os anos posteriores e existem várias teses sobre o diagnóstico. Alguns como o doutor Dietrich Blumer, em artigo publicado no American Journal of Psychiatry, mantém o diagnóstico de epilepsia do lobo temporal, agravada pelo uso do absinto.[55]

Segundo alguns, Vincent teria sofrido de xantopsia (visão dos objetos em amarelo), por isso exagerava no amarelo em suas telas. Esta xantopsia pode ou não ter surgido pelo excesso de ingestão de absinto, que contém tujona, uma toxina. Outra teoria seria que doutor Gachet teria indicado o uso de digitalis para o tratamento de epilepsia, o que poderia ter ocasionado visão amarelada a Van Gogh.[58] Outros documentos relatam ainda que na verdade Van Gogh seria daltônico.

Há ainda diagnósticos de esquizofrenia[59] e de transtorno bipolar do humor, sendo este último o diagnóstico mais aceito.[55] [60] [61] [62]

Consta que na família de Van Gogh existiram outros casos de transtorno mental: Théo sofreu depressão e ansiedade e faleceu de "demência paralítica" (neurossífilis), no Instituto Médico para Doentes Mentais em Utrecht. Willemina era esquizofrênica e viveu durante 40 anos neste mesmo instituto e Cornelius cometeu suicídio aos 37 anos de idade.[57] [63]

Faleceu em 29 de julho de 1890. Encontra-se sepultado no cemitério municipal de Auvers-sur-Oise na França.[64]

Vincent e Theo enterrados lado a lado em Auvers-sur-Oise. A sepultura de Vincent traz a inscrição Ici Repose Vincent van Gogh (1853–1890), a de Theo Ici Repose Theodore van Gogh (1857–1891)

Principais obras[editar | editar código-fonte]

Haia[editar | editar código-fonte]

  • Sorrow (litografia, 1882)
  • Homem Velho com a Cabeça em Suas Mãos ("At Eternity's Gate") (litografia, 1882)..

Nuenen[editar | editar código-fonte]

Antuérpia[editar | editar código-fonte]

Paris[editar | editar código-fonte]

Arles[editar | editar código-fonte]

Saint-Rémy[editar | editar código-fonte]

Auvers-sur-Oise[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Vincent Van Gogh Biography, Quotes & Paintings, The Art History Archive; Visitado em 12 de julho de 2011.
  2. Pomerans (1997), pg. 1
  3. Lubin (1972), pp. 82–84.
  4. Erickson (1998), 9
  5. Van Gogh-Bonger, Johanna. "Memoir of Vincent van Gogh". Van Gogh's Letters. Retrieved 12 July 2011.
  6. Tralbaut (1981), p. 24
  7. «Vincent van Gogh walked through Brentford». Brentford Dock. Consultado em 11 May 2014. 
  8. «Blue plaque record». Consultado em 11 May 2014. 
  9. Tralbaut (1981), 25–35
  10. Hulsker (1984), 8–9
  11. Letter 347, Vincent to Theo, 18 December 1883. Van Gogh's Letters at webexhibits.org. Visitado em 12 de julho de 2011.
  12. Letter 7 Vincent to Theo, 5 May 1873. Van Gogh's Letters. Retrieved 12 July 2011.
  13. Tralbaut (1981), pp. 35–47
  14. Letter from Vincent to Theo, August 1876. Van Gogh's Letters. Retrieved 12 July 2011.
  15. Tralbaut (1981), pp. 47–56.
  16. Callow (1990), p. 54.
  17. See the recollections gathered in Dordrecht by M. J. Brusse, Nieuwe Rotterdamsche Courant, 26 May and 2 June 1914.
  18. McQuillan (1989), 26
  19. Erickson (1998), 23
  20. Hulsker (1990), pp. 60–62, 73.
  21. Letter from mother to Theo, 7 August 1879 Van Gogh's Letters, and Callow, work cited, 72
  22. Letter 158 Vincent to Theo, 18 November 1881. Van Gogh's Letters; retrieved 12 July 2011.
  23. Letter 134, Van Gogh's Letters, 20 August 1880 from Cuesmes
  24. Tralbaut (1981) 67–71
  25. Van Gogh Museum official website; accessed 20 November 2014. Arquivado em 16 janeiro 2015 no Wayback Machine
  26. Erickson (1998), 5
  27. Letter 153 Vincent to Theo, 3 November 1881
  28. «179». vangoghletters.org. 
  29. Letter 161 Vincent to Theo, 23 November 1881
  30. Letter 164 Vincent to Theo, from Etten c.21 December 1881, describing the visit in more detail
  31. Letter Letter 193 from Vincent to Theo, The Hague, 14 May 1882.
  32. "Uncle Stricker", as Van Gogh refers to him in letters to Theo.
  33. Gayford (2006), 130–1
  34. Pomerans (1997), 112
  35. Letter 166 Vincent to Theo, 29 December 1881
  36. «Letter 194: To Theo van Gogh. The Hague, Thursday, 29 December 1881». Vincent van Gogh: The Letters. Van Gogh Museum. Note 2. Consultado em 20 November 2014. «At Christmas I had a rather violent argument with Pa ...» 
  37. «Letter 196». Vincent van Gogh. The Letters. Amsterdam: Van Gogh Museum. 
  38. «Letter 219». Vincent van Gogh. The Letters. Amsterdam: Van Gogh Museum. 
  39. McQuillan, p. 34
  40. Letter 206, Vincent to Theo, 8 June/9 June 1882
  41. Tralbaut (1981), p. 110
  42. Tralbaut (1981), 96–103
  43. Callow (1990), p. 116; cites the work of Hulsker; Callow (1990), pp. 123–124
  44. «Letter 224». Vincent van Gogh. The Letters. Amsterdam: Van Gogh Museum. 
  45. Callow (1990), 117,116; Citação da pesquisa de Jan Hulsker; as duas crianças mortas nasceram 1874 e 1879.
  46. Tralbaut (1981), p. 107
  47. Callow (1990), 132; Tralbaut (1981), 102–104, 112
  48. Arnold, 38
  49. Tralbaut (1981), p. 113
  50. Wilkie, p. 185
  51. Tralbaut (1981),101–107
  52. a b Tralbaut (1981), pp. 111–22
  53. a b c d e f g h i Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas TASCHEN
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  64. Vincent van Gogh (em inglês) no Find a Grave
  1. Acredita-se que o fato de ter recebido o mesmo nome do seu irmão mais velho falecido poderia ter sido algo de profundo impacto psicológico no artista quando jovem, e que elementos em sua produção artística, como retratos de duplas de figuras masculinas, podem ter relação com isso.[3]
  2. "...he would not eat meat, only a little morsel on Sundays, and then only after being urged by our landlady for a long time. Four potatoes with a suspicion of gravy and a mouthful of vegetables constituted his whole dinner" – from a letter to Frederik van Eeden, to help him with preparation for his article on Van Gogh in De Nieuwe Gids, Issue 1, December 1890. Quoted in Van Gogh: A Self-Portrait; Letters Revealing His Life as a Painter. W. H. Auden, New York Graphic Society, Greenwich, CT. (1961), pp. 37–39
  3. Letter 129, April 1879, and Letter 132. Van Gogh lodged in Wasmes at 22 rue de Wilson with Jean-Baptiste Denis, a breeder or grower (cultivateur, in the French original) according to Letter 553b. In the recollections of his nephew Jean Richez, gathered by Wilkie (in the 1970s!), 72–8. Denis and his wife Esther were running a bakery, and Richez admits that the only source of his knowledge is Aunt Esther.
  4. There are different views as to this period; Jan Hulsker (1990) opts for a return to the Borinage and then back to Etten in this period; Dorn, in: Ges7kó (2006), 48 & note 12 supports the line taken in this article
  5. Ver discurso de Jan Hulsker em The Borinage Episode and the Misrepresentation of Vincent van Gogh, Van Gogh Symposium, 10–11 de maio de 1990. In Erickson (1998), pp. 67–68.

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