Viriato Clemente da Cruz

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Viriato da Cruz
Nome completo Viriato Francisco Clemente da Cruz
Nascimento 25 de março de 1928
Porto Amboim, Cuanza Sul
Angola portuguesa
Morte 13 de junho de 1973 (45 anos)
Pequim,
 China
Ocupação Político e poeta
Influências
Magnum opus Colectânea de poemas: 1947-1950

Viriato Francisco Clemente da Cruz (Porto Amboim, 25 de março de 1928 - Pequim, 13 de junho de 1973) foi um político e escritor angolano.

Atividade política[editar | editar código-fonte]

Viriato da Cruz cresceu numa família em situação económica difícil, uma vez que o seu pai o tinha abandonado. Apesar destas dificuldades, fez estudos liceais no Liceu Salvador Correia. Nos anos 1950 esteve em contacto com a movimentação anticolonial clandestina em Luanda, incluindo o Partido Comunista Angolano (PCA), fundado naquela altura. Abandonou Angola por volta de 1957 para se dirigir a Paris onde se encontrou com Mário Pinto de Andrade, desenvolvendo atividades políticas e culturais.[1]

A primeira digressão pela China Continental foi em novembro de 1958, e durou 3 semanas. Tanto Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade foram a Pequim, Xangai e Guangzhou (Cantão).[2]

Tal como Mário Pinto de Andrade, Matias Miguéis, Lúcio Lara, Hugo Azancot de Menezes e Eduardo Macedo dos Santos, Viriato participou em 1960 na Guiné-Conakry na fundação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), tornando-se o seu secretário-geral.[3] Nesta qualidade fez parte de uma delegação da recém-formada FRAIN (Frente Revolucionária Africana pela Independência Nacional dos Povos sob Domínio Português) que, ainda em agosto de 1960, fez uma viagem à China para obter apoios.[4] Este foi um passo fundamental para Viriato da Cruz. Ele trouxe dinheiro que ajudou o MPLA no âmbito político-militar e financeiro.

Em Maio de 1962 Viriato da Cruz abandonou espontaneamente o cargo de secretário-geral do MPLA a pretexto de tornar o Comité Director mais representativo (ou epidermicamente mais escuro). Com a chegada de Agostinho Neto a Léopoldville em Julho daquele ano depois da sua fuga de Portugal, irromperam divergências insanáveis entre Viriato e Neto que se arrastaram até à I Conferência Nacional do Movimento em Dezembro. No rescaldo deste evento que consagrou Neto como novo presidente do MPLA, Viriato apontou Neto de ser o símbolo da viragem política do MPLA à direita. Injustamente acusado de se ter apropriado de recursos monetários do Movimento, foi formalmente expulso a 7 de Julho de 1963. Antes disso, porém, os sequazes de Neto, comandados por Manuel dos Santos Lima, arrancaram-no brutalmente da pensão em que se alojava em Léopoldville e espancaram-no acolitados por soldados congoleses agenciados por Neto. A extensão das agressões físicas foi de uma tal magnitude que Viriato sangrava por todos os lados, espojado no chão. Neto, Lúcio Lara, Iko Carreira e outros dirigentes sequer se coibiram de exibir no rosto um ar trocista, mesmo tendo diante dos olhos um espectáculo tão sórdido que feria profundamente a dignidade e o conceito público de um ex-companheiro da estirpe de Viriato. Mesmo esfacelado e a rastejar no solo, o antigo secretário-geral e criador do MPLA[5] continuou a ser sovado e insultado pelos seus verdugos. Os abusos prosseguiram na penitenciária de Lufungula onde o aprisionaram e humilharam juntamente com outros seus companheiros. Saiu do cárcere entre a vida e a morte.[6]

Nos dias 24 e 30 de abril de 1963, Viriato da Cruz participou na Conferência de Jornalistas Afro-Asiáticos, patrocinada pelos regimes de Ahmed Sukarno e Mao Zedong, que levou à fundação da respectiva associação, que excluía propositamente a União Soviética, recorrendo ao argumento que eram "brancos". Por outras palavras, ajudou a instituir mais um organismo rival criado pela China Continental, contra a União Soviética. Viriato integrou a mesa da presidência da reunião, em representação de Angola.[2]

Na China[editar | editar código-fonte]

Valendo-se dos contactos anteriores, Viriato da Cruz viaja em 1966 para Pequim onde mais tarde fixaria residência. A sua chegada deu-se, assim, no início da Revolução Cultural Chinesa, e foi recebido pelos dirigentes chineses, dentro do espírito daquele período chineses.

Os dirigentes chineses recebem-no de braços abertos, pois tinha demonstrado uma enorme capacidade na criação do primeiro Partido Comunista de Angola (PCA) e, posteriormente, do MPLA, primeiro em Conacri e, depois, no Congo Belga (neste foi detido e sofreu torturas, por defender ideias contrárias às estabelecidas). Uma das suas primeiras ações foi o de ajudar a dividir a Organização de Escritores Afro-Asiáticos (OEAA), no decorrer da sua Assembleia Geral Extraordinária, que decorreu em Pequim entre os dias 27 de junho e 9 de julho de 1966, em duas agremiações distintas: a pró-soviética, baseada no Cairo, e a pró-chinesa, com sede em Pequim e em Colombo, no Sri Lanka. Os chineses entendiam que Viriato da Cruz poderia facilitar a penetração ideológica do socialismo maoísta no continente africano - o que não sabiam era que estavam profundamente enganados; daí nasceu um grave mal-entendido com consequências trágicas para Viriato e para a sua família.

Pouco tempo depois instaram-no a proferir um discurso nas comemorações do dia nacional da República Popular da China, 1 de outubro de 1966. Em nome do povo angolano, Viriato da Cruz exaltou o pensamento do dirigente máximo chinês, as atividades dos Guardas Vermelhos e a "Grande Revolução Cultural do Proletariado" em curso. Para as derrotar era necessário constituir uma "frente única internacional" contra o imperialismo americano e o imperialismo russo, que congregasse os povos da Ásia, da África e da América Latina.

Elabora um relatório onde afirma que os países Africanos, mesmo os mais desenvolvidos, não estão preparados para uma revolução socialista. Demonstra então grande firmeza ao recusar-se a mudar o relatório. Esse aspectos do seu carácter já lhe tinha valido graves dissabores na sua curta vida política quando da crise de 1962-63, no seio do MPLA. O relatório pessimista elaborado por Viriato ia contra a doutrina maoísta da iminência da revolução mundial.

Os chineses começaram a ver que Viriato se distanciava cada vez mais das teses maoístas e mantiveram-no como refém. Ele não entendia porque não o expulsavam. Mas os Chineses temiam a inteligência superior de Viriato e as consequências negativas que ele poderia causar à causa maoísta se saísse da China.

Os últimos anos de vida na China[editar | editar código-fonte]

Com o claro propósito de precipitar a expulsão do seu marido e família da China, a mulher de Viriato, Maria Eugénia, derrubou o busto do presidente Mao Zedong. O efeito foi precisamente ao contrário, as autoridades chinesas desterraram-nos para um campo de trabalho na região sul da cidade de Pequim.

Os últimos anos de vida de Viriato foram marcados por falta de alimentos, colidindo na fome que acabou por fragilizá-lo. Veio a falecer no Hospital Anti-Imperialista, antigamente o Hospital Universitário de Pequim, no dia 13 de junho de 1973. No entanto, a derradeira humilhação foi a maneira abjecta como foi levado para o cemitério dos estrangeiros: entaipado entre quatro tábuas, transportado num camião militar. Segundo António Caeiro, um jornalista português que passou vários anos na capital chinesa como correspondente da agência de notícias Lusa, "[a]lém de mim [Ângela Guimarães] e da família, só estava presente um casal colombiano".[7] Entretanto, faz-se útil recordar, dada a sua indiscutível relevância histórica, o último registo de Viriato no seu diário, fixado com o seu punho e letra (a lápis e em caracteres miudinhos). Nele o arquitecto do MPLA não só questiona a "doença" que rapidamente o empurrou para a morte (pois pressentia que estavam a assassiná-lo), mas sobretudo lança estas palavras de advertência para a posteridade: Declaro, sem apelo, que os meus parentes deverão recusar, privada e publicamente, as condolências que, porventura, o MPLA ou alguns dos seus membros, tais como Agostinho Neto, Lúcio Barreto de Lara, Eduardo [Macedo] dos Santos, Mário Pinto de Andrade, Manuel Videira e Gentil Viana, venham a enviar aos ditos parentes meus ou venham a publicar. Não está no meu poder perdoar os actos de felonia, de perseguição e de falta de camaradagem que aqueles senhores e alguns dos seus sequazes praticaram, não só contra mim, mas também contra um certo número de angolanos. Parece-me ser altamente importante que tais actos sejam, em todos os tempos, condenados em Angola como criminosos e desonrosos.[8]

Transladação de Pequim para Luanda[editar | editar código-fonte]

Finalmente, no dia 26 de dezembro de 1990 veio os restos mortais de Viriato da Cruz que estava no cemitério para estrangeiros em Pequim para Luanda. No dia seguinte, dia 27, os restos mortais de Viriato da Cruz foram a enterrar na sepultura onde está o corpo de sua mãe, Clementina Clemente da Cruz, às 10h00. Estiveram perto de 200 pessoas amigas e dois representantes do Bureau Político do MPLA-Partido do Trabalho, França Ván-Dúnem, Ministro do Plano, e Roberto Carneiro. Segundo a viúva de Viriato da Cruz, Maria Eugénia, disse à ANGOP: "[a]s despesas da transladação dos restos mortais de Viriato da Cruz foram custeadas pelo governo chinês".

Principais obras[editar | editar código-fonte]

  • Poemas. Lobito, 1974. Coleção Cadernos Capricórnio, 25.
  • Coletânea de Poemas: 1947-1950. Lisboa, 1961. Coleção Autores Ultramarinos, 4.
  • Poemas: Viriato da Cruz. Vila Nova de Cerveira: Nóssomos; Luanda: Nóssomos, 2013. Coleção Poesia. ISBN 978-989-8563-13-2[9]

Entre os seus poemas destacam-se Namoro, Sô Santo e Makézu.

Notas

  1. Cf. MARCUM, John. The Angolan Revolution, vol. I, The Anatomy of an Explosion (1950-1962), Cambridge/Mass. & Londres: MIT Press, 1969.
  2. a b Cf. ROCHA, Edmundo; SOARES, Francisco; FERNANDES, Moisés (orgs.). Viriato da Cruz: O homem e o mito, Lisboa: Prefácio; Luanda: Chá de Caxinde, 2008.
  3. Pacheco, Carlos (1.ª edição (fevereiro) 1997). MPLA. Um Nascimento Polémico. As Falsificações da História [prefácio de Joaquim Pinto de Andrade]. Lisboa: Vega  Verifique data em: |ano= (ajuda)
  4. A delegação era composta por dois dirigentes do MPLA (Viriato da Cruz, secretário-geral, e Eduardo Macedo dos Santos, adjunto do departamento de Defesa e Segurança) e quatro elementos do PAI (Partido Africano da Independência) da Guiné-Bissau (Amílcar Cabral, Elysée Turpin, Luciano N'Dau e Douara Bangala)
  5. MENEZES, Hugo Azancot de (1.ª edição, 2017). Percursos da Luta de Libertação Nacional. Viagem ao Interior do MPLA. Memórias Pessoais [organização, fixação e revisão do texto, preâmbulo, notas e comentários de Carlos Pacheco]. Lisboa: Vega. pp. 103–106  Verifique data em: |ano= (ajuda);
  6. PACHECO, Carlos (1.ª edição, 2016). Agostinho Neto, o Perfil de um Ditador. A História do MPLA em Carne Viva. Lisboa: Vega. pp. vol. I, pp. 191–200  Verifique data em: |ano= (ajuda);
  7. António Caeiro, Peregrinação Vermelha - O Longo Caminho até Pequim, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2016, p. 102.
  8. PACHECO. Agostinho Neto, O Perfil de um Ditador, op. cit. [S.l.: s.n.] pp. vol. II, p. 1040 
  9. Cf. PORBASE.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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