Wal Torres

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Wal Torres, MS
(Martha Freitas)
[1]
Sexualidade humana[2]
Nacionalidade Brasil
Residência Brasil
Nascimento 30 de março de 1950 (64 anos)
Local São Paulo
 São Paulo
Cônjuge Divorciada
Atividade
Campo(s) Sexualidade humana[2]
Alma mater Universidade de São Paulo (USP)
Universidade Gama Filho (UGV)
Tese «O Gênero e seus Problemas»
Orientador(es) Prof. Dr. Pedro Jurberg
Conhecido(a) por
  • Ser pesquisadora de transexualidade de prestígio internacional[2]
  • Fundar a primeira clínica de gênero virtual do Brasil[nota 1]
  • Ser um dos porta-vozes da medicina transexual no Brasil
  • Militar em favor da causa transgênera
  • Escrever livros sobre disforia de gênero
Notas Na atualidade usa profissionalmente Wal Torres, MS.[3] No passado, foi amplamente conhecida e citada bibliograficamente como Martha Freitas ou Waléria C. Torres.[4]


Wal Torres (São Paulo, 30 de março de 1950) é uma terapeuta do gênero, sexóloga, escritora e ativista transexual brasileira.[5] Mestre em sexologia pela Universidade Gama Filho, é autora de dois livros sobre transtornos de identidade de gênero e desde 2001 atende pessoas com transtornos de identidade de gênero de todo o mundo através de sua clínica virtual, a Gendercare.[6]

Em 2002 tornou-se membro titular da World Professional Association for Transgender Health, Inc. (WPATH), a mais respeitada entidade mundial no estudo e no tratamento de problemas de identidade de gênero.[7] [6] [8] [3] Torres já foi também porta-voz da Organização Internacional de Intersexuais (OII) para os países de língua portuguesa, a qual aderiu em 2006, desligando-se em 2012.[9]

Carreira[editar | editar código-fonte]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Com mais de 40 anos e após duas décadas de uma vida próspera como engenheiro químico no Brasil e no exterior, quando deu aulas em universidades e foi consultor de indústrias petroquímicas e de fertilizantes,[2] [1] Wal Torres decidiu enfrentar uma transição de gênero, época em que já estava divorciada e distante da família.

Com a mudança radical de vida, veio a necessidade de mudança profissional.[2]

Clínica virtual pioneira[editar | editar código-fonte]

Desde agosto de 2001, fundou e começou a atender pessoas com transtornos de identidade de gênero de todo o mundo através de sua clínica virtual, a Gendercare, na qual desenvolve testes e métodos de avaliação pela Web.[3] [5] [nota 2] Há anos advoga pela não adequação cirúrgica de genitais em bebês com problemas de intersexualidade ou hermafroditismo, preconizando aguardar a livre manifestação do paciente antes de qualquer intervenção, para que assim se evitem futuros casos de transtorno de gênero.[nota 3]

Em entrevista ao jornal A Notícia, de Santa Catarina, sobre se a transexualidade tem origem física ou psicológica, a terapeuta afirmou:

«Física, não resta dúvida. O que define o sexo da pessoa é o lado neuropsíquico, algo que se cristaliza entre o quarto e o sétimo mês de gestação. Não é simplesmente aquilo que a criança tem entre as pernas. Se o cérebro for feminino, não há o que o masculinize. O processo de conformação dos genitais, que acontece no quarto mês de gestação, é completamente independente do processo de formação do cérebro. Graças a Deus, o resultado dos dois coincide em 99,99% da população. Mas naquele zero vírgula qualquer coisa é que acontece a discordância de gênero. E nós sofremos com a ignorância e o preconceito, porque tudo relacionado a sexo vira tabu. Se você tiver um problema na medula, no coração ou no fígado, os médicos fazem tudo para corrigir. Mas se você tiver qualquer coisa ligada a sexo, aí é a desgraça absoluta, porque você já vira criminosa, miserável, bandida. Inclusive o termo transexualismo é muito pejorativo, não quer dizer nada, nem científica nem psicologicamente.»[1]

Contrariando muitos e aos preconceitos enraizados, diagnostica jovens e avalia crianças, tendo criado game tests especiais para essas avaliações.[12] A sexóloga acredita que avaliar e estudar é uma coisa, interferir com terapias e cirurgias é outra. As primeiras (retardamento da puberdade e terapia hormonal cruzada) podem ser desenvolvidas precocemente (começando o retardamento aos dez anos, e, ao fim do diagnóstico, iniciando-se, quando for o caso, a terapia hormonal aos doze ou treze anos de idade). Cirurgias reparadoras definitivas, como a cirurgia de redesignação sexual, só aos dezesseis anos, idade que ela considera, pelo menos por enquanto, a mais conveniente.

Em 2000, na revista Scientia Sexualis, publicada pela Universidade Gama Filho, ela afirmou:

«A pessoa disfórica, por motivos neuro-organizacionais durante sua gestação, termina por sofrer uma discordância de gênero, ou seja, seus tecidos genitais e sua organização neural basal não têm o mesmo gênero. Resultados neurobiológicos modernos mostram isso de forma contundente (...). Sendo assim, cientificamente não mais se considera a disforia de gênero como tendo sua origem apenas em processos 'psicológicos', e muito menos morais e sociais.»[5]

A terapeuta também preconiza a necessidade de treinamento especializado, intensivo e abrangente para qualquer cirurgião estar capacitado a realizar cirurgias de redesignação sexual, tanto em mulheres transsexuais quanto homens transexuais.[8] Sobre esse aperfeiçoamento ela declarou ao portal Fervo:

«Esperamos que o Conselho Federal de Medicina venha a se manifestar a respeito, empenhando-se em proporcionar à população brasileira as condições adequadas para aprendizado e treinamento de cirurgiões de [cirurgias de] redesignação sexual, para que se atualizem no 'estado da arte', e a partir daí venham a aprimorar técnicas, de forma experimental no Brasil, nos hospitais universitários, além de aplicar as técnicas já desenvolvidas no país, tal qual a técnica Jurado de redesignação para MTFs, após um período prolongado de residência na clínica Jalma Jurado em Jundiaí.»[8]

A falta de treinamento específico causou no passado vários insucessos e mutilações nesse tipo de cirurgia no Brasil.[13]

Publicações e mídia[editar | editar código-fonte]

Em 1998, publicou pela Editora Vozes o livro Meu Sexo Real,[1] [14] [15] usando o pseudônimo Martha Freitas, como ficou mais conhecida no Brasil, principalmente na mídia. Com o mesmo cognome, escreveu O Mito Genital, pela Belaspalavras, sua editora virtual. O livro foi posteriormente enviado pelo editor para a Feira do Livro de Frankfurt, de 1998, e logo reconhecido como uma publicação de importância sobre a questão da identidade de gênero pelo Dr. Günter Dörner, do departamento de endocrinologia da Universidade Humboldt, em Berlim.[16]

Em Meu Sexo Real a terapeuta afirma:

«A pessoa é autônoma na definição de sua identidade... O transexualismo é uma disforia de gênero,[5] um problema biológico e congênito, uma discordância entre dois sistemas: o neural e o genital. Mas o neural prevalece, porque determina o si-mesmo neuro-psíquico da pessoa. Então, se existe uma desordem ela é genital, e precisa ser corrigida, porque a pessoa como si-mesma, acima de tudo, precisa ser respeitada.»[15]

Objetivando tornar mais conhecido o drama que sofrem transexuais e transgêneros, participou de várias entrevistas e debates em programas de televisão na Globo, na Band e no SBT, assim como em rádios e na mídia impressa. Hoje em dia, contudo, ressentida com o sensacionalismo que os meios de comunicação ainda dispensam ao assunto — com um enfoque pouco científico e muito especulativo —, prefere recusar novos convites. Continua, entretanto, representado o Brasil em vários congressos internacionais sobre disforia de gênero,[5] como em 2001, por ocasião do XV Congresso Mundial de Sexologia, em Paris, no qual divulgou suas idéias e seus conhecimentos na área, assim como em 2007, no 20º Simpósio Bienal da WPATH, em Chicago, nos Estados Unidos.[7] [9]

Vida pessoal[editar | editar código-fonte]

Família e formação[editar | editar código-fonte]

A terapeuta sofria de conflitos de identidade desde a primeira infância, quando já acreditava que devia pertencer ao sexo feminino.[17]

Já adulta mas ainda vivendo no papel social masculino, Wal Torres formou-se em Engenharia Química pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo da USP,[1] em 1972, casou-se duas vezes e teve filhos de ambos os casamentos. Mais tarde, diante de uma grande crise existencial, submeteu-se a uma busca espiritual que a levou por fim à aceitação de seu transtorno de identidade, aos 45 anos.[2]

Transição de gênero e cirurgia[editar | editar código-fonte]

No início do processo de transição, Torres buscou apoio com outras pessoas, como ela, transexuais. Contudo, em virtude de os aconselhamentos serem incipientes e experimentais, e portanto muito arriscados, resolveu buscar a parca ajuda especializada disponível na época à comunidade transexual e transgênera. Mais tarde, já devidamente tratada pela Dra. Dorina Quaglia,[nota 4] ex-diretora do Instituto de Gônadas e Intersexo do Hospital das Clínicas da USP, e levando uma vida como mulher, decidiu estudar os transtornos de identidade de gênero, o que a levou a fazer um Mestrado em Sexologia pela Universidade Gama Filho,[6] no Rio de Janeiro, por meio de uma bolsa da Capes, o que lhe rendeu o título de Mestre em Sexologia, em 2002, e um Cum laude como distinção de honra pelo seu desempenho acadêmico.

Em 1997, aos 47 anos, submeteu-se a uma cirurgia de redesignação sexual (CRS) com o Dr. Jalma Jurado, então o mais reputado cirurgião especializado em operações de mudança de sexo no Brasil, tendo feito mais de 500 desse gênero no país.[18] [2] [1]

Em entrevista à revista Época em 2002 ela revelou detalhes sobre sua vida pós-transição de gênero:

«Nasci com cabeça de mulher, mas reprimi essa realidade quanto pude. Como engenheiro químico de prestígio, dei aulas em universidades e fui consultor de indústrias petroquímicas e de fertilizantes. Tive de enterrar essa carreira porque a masculinidade do ambiente não permitiria que eu virasse a Marthinha de uma hora para outra. Não passaria sequer da portaria das empresas. Fiz um mestrado em sexologia e hoje me dedico a atender pessoas com transtornos de identidade sexual. Quando ligam procurando o 'falecido', digo que ele está no Exterior. Antes da transformação, casei e tive filhos. Não tenho mais contato com eles. Era um amante do tipo que as mulheres gostam. Fiz a cirurgia aos 47 anos e hoje vivo no Rio. Ganhei uma vagina, tenho mais prazer e estou em paz comigo mesma. Mas, confesso, sou bissexual. Posso me apaixonar tanto por homens quanto por mulheres.»[2]

Divorciada, a terapeuta hoje em dia mora na cidade de São Paulo, após um grande período de sua vida vivendo e no Rio de Janeiro.

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. A Gendercare foi a primeira clínica virtual de gênero no mundo. Ela foi idealizada quando de sua volta do XV Congresso Mundial de Sexologia de Paris, em 2001.
  2. Nos EUA já existem alguns grupos terapêuticos e clínicas comandados por pessoas que sofreram problemas de gênero, como o Colorado Identity Center, comandado por Kathy Wilson, PhD, a clínica da Drª Anne Lawrence, MD, em Seattle, e a clínica de Sheyla Kirk, MD, na Pensilvânia.[10] [11]
  3. A terapeuta prefere o termo «discordantes de gênero».[1]
  4. A Dra. Dorina Epps Quaglia foi professora de endocrinologia da USP e psicanalista, com quase trinta anos de experiência nos estudos e avaliações de gênero no Brasil, fundadora do Grupo de Estudos de Gônadas e Intersexo do Hospital das Clínicas da USP.

Referências

  1. a b c d e f g OLIVEIRA, Maurício (5 de abril de 1999). Um corpo, dois sexos A Notícia. Visitado em 26 de novembro de 2012..
  2. a b c d e f g SEGATTO, Cristiane (21 de novembro de 2002). Nasce uma mulher Revista Época, edição nº 236. Visitado em 21 de março de 2014.
  3. a b c Adm. do portal (2007). [1] WPATH. Visitado em 16 de julho de 2014.
  4. HOLMES, Morgan. Critical Intersex, Queer Interventions. [S.l.]: Ashgate Publishing, Ltd., 2009. 257 p. ISBN: 9780754673118
  5. a b c d e FIGARI, Carlos. @s "outr@s" Cariocas: interpelações, experiências e identidades homoeróticas no Rio de Janeiro : séculos XVII ao XX. [S.l.]: Editora UFMG, 2007. 588 p. ISBN: 9788570414984
  6. a b c SANCHEZ, Fábio (2003). O terceiro sexo Revista Superinteressante. Visitado em 21 de março de 2014.
  7. a b Adm. do sítio web (2014). WPATH – aba «Find a provider» World Professional Association for Transgender Health (WPATH). Visitado em 21 de março de 2014.
  8. a b c ROCHA, Gabriel (30 de outubro de 2002). Novas colunistas e artigos Portal Fervo. Visitado em 21 de março de 2014.
  9. a b Adm. do sítio web (23 de agosto de 2007). Em resposta a Thomas Whetstone Sítio web da cientista Lynn Conway. Visitado em 21 de março de 2014.
  10. Adm. do sítio web (2006). Welcome to the CIC The Gender Identity Center of Colorado. Visitado em 3 de julho de 2014.
  11. Adm. do sítio web (2005). Dr. Anne Lawrence on Transsexualism and Sexuality Anne Lawrence.com. Visitado em 3 de julho de 2014.
  12. TORRES, Waléria; MS (2003–2005). The Future of Gendercare Game Tests International Journal for Gender Identity Disorder Research. Visitado em 26 de novembro de 2012..
  13. LAVAGNINI, Andréa (19 de dezembro de 2001). Transexuais querem indenização por erros Diário Web. Visitado em 21/03/2014.
  14. ROCHA, Lívia (2010). Transexualismo e aspectos jurídicos Portal «Domínio Público». Visitado em 21 de março de 2014.
  15. a b Departamento de taquigrafia (2008). [2] Câmara dos Deputados. Visitado em 21 de março de 2014.
  16. Adm. do sítio web (2003). Perfil da Dra. Torres BelasPalavras. Visitado em 21 de março de 2014.
  17. FREITAS, Martha C.. Meu sexo real. [S.l.]: Editora Vozes, 1998. 255 p. ISBN: 9788532620019
  18. Da redação (2010). Prazer, eu sou Luciano(a) Revista TPM. Visitado em 21 de março de 2014.