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Walfredo Gurgel

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Walfredo Gurgel
41.º Governador do Rio Grande do Norte
Período31 de janeiro de 1966
a 15 de março de 1971
Vice-governadorClóvis Motta
Antecessor(a)Aluízio Alves
Sucessor(a)Cortez Pereira
16.º Vice-governador do Rio Grande do Norte
Período31 de janeiro de 1961
a 31 de janeiro de 1962
GovernadorAluízio Alves
Antecessor(a)José Augusto Varela
Sucessor(a)Teodorico Bezerra
Senador pelo Rio Grande do Norte
Período1963 a 1966[1]
Deputado federal pelo Rio Grande do Norte
Período1º:1946 a 1951
2º:1951 a 1952
3º:1952 a 1952
4º:1953 a 1954[1]
Dados pessoais
Nome completoWalfredo Dantas Gurgel
Nascimento2 de dezembro de 1908
Caicó, Rio Grande do Norte
Morte4 de novembro de 1971 (62 anos)
Natal, Rio Grande do Norte
ProgenitoresMãe: Joaquina Dantas Gurgel
Pai: Pedro Gurgel do Amaral e Oliveira
Alma materPontifícia Universidade Gregoriana em Filosofia e Teologia
PartidoAIB
PSD
ReligiãoCatolicismo romano
ProfissãoSacerdote, político
Títulos nobiliárquicos
Sacerdote da Igreja Católica25 de outubro de 1931

Monsenhor Walfredo Dantas Gurgel (Caicó, 2 de dezembro de 1908Natal, 4 de novembro de 1971) foi um sacerdote católico e político brasileiro com atuação política no Rio Grande do Norte, estado do qual foi deputado federal, senador, vice-governador e, por fim, governador.

Líder regional da Ação Integralista Brasileira, liderou as forças anticomunistas na Batalha da Serra do Doutor, uma das principais responsáveis pela derrota da Intentona Comunista em 1935. Chegou ao título de Monsenhor em sua carreira eclesiástica. Idealizou, fundou e dirigiu o Colégio Diocesano Seridoense, com uma proposta pedagógica inovadora, baseada em seus princípios pessoais.

Foi deputado federal pelo PSD a partir de 1945,[2] exercendo mandato como segundo suplente após 1950. Em 1960 foi eleito vice-governador do Rio Grande do Norte na chapa de Aluizio Alves, mas renunciou ao ser eleito senador, em 1962.[3] Em 1965[4] venceu a disputa pelo governo potiguar,[5] a última pelo voto direto até 1982.

Biografia

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Primeiros anos

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Registrado com o nome de Armando Dantas Gurgel, nasceu às 16 horas do dia 2 de dezembro de 1908, numa quarta-feira, na residência situada à Rua Felipe Guerra, nº 537, lar de seus pais, o professor Pedro Gurgel do Amaral e Oliveira e Joaquina Dantas Gurgel. A família já tinha três filhos, Zózimo, Maria Zenóbia e Polísia, e havia recentemente perdido um quarto, Clotário.

O cônego Emídio Cardoso sugeriu ao pai que a criança fosse batizada como Walfredo, em homenagem ao Monsenhor Walfredo Soares dos Santos Leal, um filho de Areia (PB) e, naquele momento, Presidente do Estado da Paraíba.

Pedro Gurgel, que foi para o filho um exemplo de virtudes, faleceu em 31 de março de 1918. Com a mãe viúva com menos de 35 anos, a família, que não vivia em riqueza, passou a conviver com dificuldades. Para manter, formar e encaminhar os filhos, a mãe começou a trabalhar muito mais: costurava, fazia flores, confeccionava chapéus, fabricava doces e, acionando uma máquina de cairel, deixava nos tecidos o bom gosto da artista que era. Àquela época, já era conhecida como parteira em Caicó e região, mas não usou seu trabalho de parteira para amealhar dinheiro, pois outro não era seu desejo senão o de servir. Mulher religiosa que era, católica praticante, participou da fundação do "Apostolado da Oração" da Matriz de Sant'Ana de Caicó.

Com a morte do marido, o pai de Joaquina, Coronel Bembém, queria levá-la com os filhos para sua fazenda. Ela não aceitou a proposta, porque os estudos dos seus filhos seriam prejudicados. Ficou combinado que viriam da Fazenda produtos alimentícios para serem vendidos. Nesse período, Walfredo era aluno do Grupo Escolar Senador Guerra, quando começam a destacar-se seus dotes de inteligência e desenvoltura para as letras. Nas folgas escolares, aquele menino gorducho e corado fazia a distribuição das bananas e demais produtos para colaborar com a manutenção de sua família.

Formação sacerdotal

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Walfredo queria ser padre, mas sua mãe não encontrava em condições para enviá-lo ao Seminário e arcar com as despesas. Ela não esperava, porém, que ele pedira pessoalmente ao Bispo Diocesano para ser matriculado no Seminário "São Pedro". Dom José Pereira Alves, Bispo de Natal, visitando a Pastoral em 1920, viera a Caicó e o menino Walfredo lhe expôs o desejo de ser sacerdote. Dom José imediatamente procurou sua mãe e acertou com ela que, no dia 1º de fevereiro de 1921, seria o ingresso de Walfredo no Seminário, em Natal. Lá, ele foi considerado o melhor aluno e, daí, foi encaminhado para estudar no Pontifício Colégio Pio Latino-Americano, em Roma, onde se formou em Filosofia e Teologia.

Aos 17 anos, Walfredo chegou a Roma na manhã do dia 15 de maio de 1926. No verso de uma fotografia que enviou para sua mãe, a quem pediu a bênção, ele escreveu: "Estuda, Gurgel! Vieste para Roma estudar e não contemplar as ruínas desta velha cidade dos Césares. Estuda com coragem para que melhor sirvas à tua religião e à tua Pátria. Não perder tempo, pois o tempo é ouro. Lembra dos sacrifícios da tua Diocese e tua mãe. Estuda! Estuda!". Passava as férias escolares na região de Livorno.

Suas correspondências são repletas de lições, seus escritos revelam o homem de cultura que vem sendo formado naquele ambiente que convivia com a sabedoria e a oração. Quanto às suas inegáveis inspirações, seja por prosa ou poesia, revela-se modesto em relação ao que escreve. Para ele, a cultura da qual é detentor não estava a serviço de seu engradecimento pessoal ou para culto da vaidade, mas tem por finalidade servir.

Matriculou-se, então, na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde a língua oficial e as aulas eram ministradas em latim e convivia com diversos europeus, como italianos, franceses, ingleses, alemães e espanhóis, conhecendo e falando bem o italiano, o francês e o espanhol.

Walfredo recebeu sua primeira tonsura em Roma, na Capela do Seminário Romano, no dia 21 de dezembro de 1929, das mãos do Cardeal Basílio Pompilj, vigário do Santo Padre Pio XI. As ordens de Ostiário e Leitor lhe foram conferidas por um bispo polaco, Mons. Dubwski, em 1930. A ordenação presbiteral, foi realizada no dia 25 de outubro de 1931, na Capela do Colégio Pio Latino-Americano. Rezou sua primeira missa no altar de Nossa Senhora Aparecida da igreja de São Joaquim, em Roma.

Já doutor em Filosofia e Teologia, despede-se de Roma em 1932, chegando a Recife em 12 de agosto. No dia 14, o Padre Walfredo Dantas Gurgel chegou a Caicó, a tempo para o aniversário de sua mãe, no dia 16.

Integralismo

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Com a chegada ao Rio Grande do Norte, Walfredo começou sua caminhada no mundo político. Em 1933, vendo a monarquia como a salvação do Brasil, interessou-se pela Ação Imperial Patrianovista Brasileira, e acompanhou a comitiva do então chefe desse movimento no estado, Câmara Cascudo, no seminário da diocese.[6]

Em 1935, foi transferido para a Paróquia Nossa Senhora da Guia, no município de Acari, onde fundou um núcleo da Ação Integralista Brasileira.[6] Durante a Intentona Comunista, Walfredo organizou e liderou um grupo de integralistas de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos para debelar a coluna comunista que se dirigira ao interior do estado. Ele foi capaz de interceptá-los na Serra do Doutor, em Campo Redondo. Tendo sido o primeiro a chegar e a montar pessoalmente a linha de defesa, Walfredo liderou as forças integralistas no que foi a Batalha da Serra do Doutor, que marcou o colapso militar do levante comunista no interior do Rio Grande do Norte, confinando-o a Natal, onde os revolucionários seriam derrotados dois dias depois. Participou, a partir de 1936, da Câmara dos Quatrocentos, um dos órgãos mais altos a nível nacional da Ação Integralista Brasileira.

Ginásio Diocesano Seridoense

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Cônego Walfredo Gurgel.

Após o fechamento da Ação Integralista Brasileira pelo Estado Novo em 1937, Walfredo Gurgel idealizou, fundou e tornou-se o primeiro diretor, a partir de 1942, do Ginásio Diocesano Seridoense, em Caicó, dentro de princípios pedagógicos católicos, nacionalistas e escolanovistas do "aprender-fazendo". Ingressou no seu quadro docente como professor de português, latim e francês. Era apaixonado pela formação de cada aluno: de todos eles, gravaria pelo resto da vida o nome completo e o apelido, e os acompanharia com viva afeição até a morte.

Para formar uma elite intelectual e católica no Seridó e Nordeste, o então cônego Walfredo Gurgel decidiu pela abertura de um internato, destinado aos alunos que não residiam em Caicó. Os internos cultivavam hortaliças, verduras e algumas frutas tropicais. Para economizar, as refeições deles durante as provas de segunda época eram feitas na casa da mãe de Walfredo. Para arrecadar fundos para o internato, o cônego tornou-se dramaturgo, compondo peças dramáticas de valor educativo. Organizou entre os alunos uma banda de música. Escreveu um hino para a instituição, no qual buscava incutir nos alunos a aspiração por imortalizar seu nome na história, através do serviço ao Brasil e a Deus. Cuidou rigorosamente do programa escolar, e focou em orientar seus alunos sempre à fé, à pátria e aos valores morais.[7]

Período populista

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Após o fim do Estado Novo, começou a liderar o Partido Social Democrático em todo o Seridó. Foi deputado federal de 1946 a 1954, embora, desde 1950, na suplência. Após sair da Câmara Federal, reassumiu a direção do Ginásio e fundou o jornal A Folha, no qual absorveu alunos egressos.[8]

Atuou como vigário da Catedral de Caicó a partir de 1950, em fevereiro de 1952 é Vigário-capitular, voltando ao vicariato geral na posse do 3º bispo diocesano. É homenageado pela Cúria Romana com o título de Monsenhor Camareiro em 1955.[9]

Tentou se reeleger deputado federal em 1958, mas não foi eleito e, apesar da primeira-suplência, nem convocado. Mesmo assim, sua figura inatacável e honra levaram sua aliança a ser buscada pelos seus mais fiéis adversários, como o passaporte para a vitória eleitoral. Em sua plataforma, defendia o nacionalismo econômico, o anticomunismo, o anti-imperialismo, os valores cristãos e a promoção do desenvolvimento econômico e social do Rio Grande do Norte.

Nas eleições de 1960, foi eleito Vice-Governador em chapa com Aluizio Alves.

Nas eleições de 1962, foi eleito Senador Federal.

Governador do Rio Grande do Norte

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Em 1965, renunciando ao seu mandato como Senador, candidatou-se a Governador do Rio Grande do Norte, e venceu.

Como governador, fugia da ostentação e, em 1969, proibiu a colocação dos nomes de quaisquer autoridades nas placas de obras públicas, inclusive e primeiramente o seu próprio. Usava seu carro particular, um fusca verde, e o dirigia por si. A responsabilidade do Monsenhor pelo patrimônio público o levou a ganhar o apelido de "Não senhor", pois negava sistematicamente pedidos que o Estado não tinha condições, ou responsabilidade, de atender. Seu mandato foi marcado pela pacificação social e realizações nas áreas da terra e campo, água e esgotos, energia elétrica, crédito, habitação, educação, saúde, água e solos, rodovias e estradas, cultura, finanças, indústria e ação social.

Poucos meses após encerrar seu mandato, vítima de câncer no pulmão com metástases ósseas, já há dias sem conseguir andar, alternando entre a lucidez e a inconsciência, Monsenhor Walfredo Dantas Gurgel faleceu de embolia pulmonar em sua residência no dia 4 de novembro de 1971, às 10h20.[6][10][11]

Referências

  1. a b «Senador Walfredo Gurgel». Senado Federal. Consultado em 17 de dezembro de 2018 
  2. Eleito com 7.116 votos.
  3. Eleito com 108.301 votos.
  4. Eleito com 151.349 votos.
  5. «Diplomação de Walfredo e Clóvis, dia 30». O Poti, ano X, edição 1269, página 6/republicado pela Biblioteca Nacional-Hemeroteca Digital Brasileira. Consultado em 23 de junho de 2020 
  6. a b c MELO, Gleiber Dantas. Análise discursiva do Governo do Monsenhor Walfredo Gurgel (1966-1971). Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Pau dos Ferros, 2019.
  7. Paula Sônia de Brito. «A luta do bispo Dom José de Medeiros Delgado por educação escolar para todos» (PDF). 2004. Consultado em 11 de junho de 2021 
  8. Paula Sônia de Brito. «A luta do bispo Dom José de Medeiros Delgado por educação escolar para todos» (PDF). 2004. Consultado em 11 de junho de 2021 
  9. «Walfredo Dantas Gurgel» (PDF). adcon.rn.gov.br. Consultado em 11 de setembro de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 21 de abril de 2023 
  10. ”Datas”, disponível em Veja, ed. 166 de 10 de novembro de 1971.
  11. «Morreu Monsenhor». Diário de Natal, ano XXXII, edição 9314, página 1/republicado pela Biblioteca Nacional-Hemeroteca Digital Brasileira. 5 de novembro de 1971. Consultado em 23 de junho de 2020 

Ligações externas

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Precedido por
Aluizio Alves
Governador do Rio Grande do Norte
1966 — 1971
Sucedido por
Cortez Pereira

Precedido por
José Augusto Varela
16.º Vice-governador do Rio Grande do Norte
19611962
Sucedido por
Teodorico Bezerra