Warwick Kerr

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Warwick Kerr
Nascimento 9 de setembro de 1922
Santana de Parnaíba
Morte 15 de setembro de 2018
Ribeirão Preto
Cidadania Brasil
Alma mater
Ocupação biólogo, apicultor, geneticista, professor(a) universitário(a), entomologista
Prêmios
  • Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico
Empregador Universidade de São Paulo, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Religião Metodismo

Warwick Estevam Kerr (Santana de Parnaíba, 9 de setembro de 1922Ribeirão Preto, 15 de setembro de 2018) foi um geneticista, engenheiro agrônomo, entomologista e professor brasileiro reconhecido internacionalmente.[1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nascido em 1922, em Santana de Parnaíba, em São Paulo, Kerr formou-se engenheiro agrônomo – vencendo as etapas do doutoramento e da livre-docência na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", onde foi professor, e, por quatro meses, chefe do Departamento de Genética. E todos reconheciam que o laboratório de Genética, em Piracicaba, era "um dos mais bem montados da USP". Faleceu aos 96 anos em 15 de setembro de 2018 na cidade de Ribeirão Preto, onde desenvolveu grande parte de sua brilhante trajetória.[1]

Como biólogo e geneticista, Kerr iniciou sua carreira acadêmica numa época em que houve um extraordinário desenvolvimento dessas disciplinas em São Paulo, graças à presença de eméritos cientistas, como Carlos Arnaldo Krug, Friedrich Gustav Brieger, André Dreyfus e Theodosius Dobzhansky, este considerado como um dos maiores geneticistas do século XX. Incentivado por Dobzhansky, Kerr estagiou e deu aulas em diversas universidades norte-americanas (Louisiana, Califórnia, Wisconsin e Columbia University, em Nova York.)[2]

Em 1955, Kerr foi chefe do Departamento de Biologia em Rio Claro no início da Unesp. Em 1965, assumiu a chefia do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina da USP – Ribeirão Preto, da qual se tornou professor titular por concurso em 1971.[3]

Warwick Estevam Kerr foi também o primeiro diretor científico da Fapesp, no início de 1962, por sugestão de Paulo Emílio Vanzolini e Crodowaldo Pavan, tendo sido nomeado pelo governador Carvalho Pinto. Pediu demissão desse cargo em 1964, um mês antes do término de seu mandato, a fim de montar o Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Além de contribuir decisivamente na organização dessa entidade, Kerr empenhou-se na fundação de instituições com os mesmos objetivos da Fapesp em outros estados brasileiros.[4]

Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, desempenhou essa missão de 1969 até 1973, período marcado pelas inúmeras crises entre o governo militar e a comunidade científica e universitária, o que levou a SBPC, sob a liderança de Kerr, a uma clara postura de repúdio às arbitrariedades praticadas pela ditadura. Foi preso duas vezes (em 1964 e 1969).[5] Com a ditadura militar, acabou sendo preso duas vezes e chegou a sofrer ameaças à sua numerosa família de sete filhos, tanto por sua atuação à frente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) quanto por denunciar, em suas aulas, arbitrariedades do regime, como a tortura de uma freira em Ribeirão Preto. [6]

Entre 1975 e 1979, transferiu-se para Manaus para reorganizar o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa, com forte apoio do dr. José Dion de Melo Teles, presidente do CNPq. A respeito de sua participação inicial nesse instituto, Kerr relata que, quando chegou à capital do estado do Amazonas, no Inpa trabalhavam apenas um mestre e um doutor. Quando saiu do Inpa, este contava com cinqüenta mestres e sessenta doutores, quatro cursos de pós-graduação e 233 pesquisadores. "O que fizemos", diz ele, "foi mandar para o sul ou para o exterior todo o pessoal aproveitável para fazer mestrado e doutorado. Também contratamos pessoal local ou de outras regiões, e até mesmo no exterior." Depois de aposentar-se da USP em janeiro de 1981, Kerr foi para o estado do Maranhão, onde permaneceu oito anos. Além de criar o Departamento de Biologia na Universidade Federal do Maranhão, foi reitor da Universidade Estadual do Maranhão. Warwick recebeu o título de Professor Honoris Causa da UFMA em 2017 [7]. Em 1999, foi chamado de volta a Manaus para dirigir o Inpa, por mais três anos.[1][3]

Após terminar suas atividades no Maranhão, Kerr foi convidado a continuar suas pesquisas na Universidade Federal de Uberlândia. Embora aposentado, ao completar setenta anos, em 1992, orientou alunos na pós-graduação, deu aulas de Genética dos Hymenoptera e realizou suas próprias pesquisas até o ano de 2012.[8]

Em toda sua longa, fecunda e empolgante carreira como cientista, a vida de Warwick Estevam Kerr foi assim sintetizada num depoimento registrado pela Fapesp: "no meio acadêmico, a primeira associação que se faz ao nome de Warwick Kerr é a de um formador de grupos, de um catalisador de pessoas voltadas para o desenvolvimento científico". Além de ser membro da Academia de Ciências do Brasil, em 1990, Kerr tornou-se o primeiro brasileiro a pertencer à Academia de Ciências dos Estados Unidos.[9]

Respeitado membro da Academia Brasileira de Ciências, Academia Norte-Americana de Ciência e Academia de Ciência do Terceiro Mundo, Warwick Kerr possui 648 trabalhos publicados.[10]

Incidente com as abelhas africanas[editar | editar código-fonte]

Em 1956, Warwick Kerr foi à África estudar a produção de mel do continente, para mais tarde aplicar seus conhecimentos ao Brasil. A pesquisa visava melhorar a produtividade das abelhas europeias introduzidas em 1839[11] introduzindo abelhas africanas mais adaptadas ao clima quente como o do Brasil. Quando retornou, trouxe por volta de 50 rainhas africanas (da espécie Apis mellifera scutellata, altamente produtiva e agressiva). Rainhas e operárias foram postas em quarentena em uma floresta de eucalipto de Rio Claro (SP), para que apenas as menos agressivas fossem escolhidas. [12]

As colmeias eram fechadas por uma malha que permitia a passagem de operárias, mas não de rainhas. Um erro na colocação das malhas permitiu que 26 rainhas fugissem. As abelhas enxamearam—se reproduziram—e os pesquisadores perderam o controle sobre elas. De 1957 até 1964 essas abelhas cruzaram-se com as alemãs, italianas e portuguesas. Porém, houve um grande problema: os apicultores colocavam seus apiários próximos aos galinheiros, pocilgas, cocheiras. Houve mortes de galinhas, porcos, cavalos, e a mortalidade de gente que era 120 por ano passou para 180. [2]

A partir daí, o cientista se dedicou a estudar a genética da produção e da agressividade dessas abelhas. Com apoio dos pesquisadores da USP, criou técnicas de manejo mais adequadas e desenvolveu a abelha africanizada, um híbrido das espécies européias (comum no Brasil) e africana. Além de mais mansa e bastante produtiva, a africanizada se mostrou resistente à varroa (praga que destrói colméias) e permitiu aos apicultores produzir o mel orgânico, onde não é necessário o uso de agrotóxicos.[12]

Depois disso, Kerr passou a ser reconhecido por pesquisadores e respeitado pelos apicultores.[2]

Referências

  1. a b c «Warwick Estevam Kerr – ABC». Consultado em 3 de setembro de 2021 
  2. a b c Coelho, Marco Antônio (abril de 2005). «Warwick Kerr: a Amazônia, os índios e as abelhas». Estudos Avançados (53): 51–69. ISSN 0103-4014. doi:10.1590/s0103-40142005000100004. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  3. a b «Registros da 61ª Reunião Anual da SBPC». www.sbpcnet.org.br. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  4. «Desbravador da ciência». revistapesquisa.fapesp.br. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  5. «Warwick Estevam Kerr (1922-2018) – SBPC». Consultado em 3 de setembro de 2021 
  6. «Morre aos 96 o agrônomo Warwick Kerr, brasileiro que ajudou a decifrar as abelhas - Ecoa». ecoa.org.br. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  7. «Fundador do curso de Ciências Biológicas da UFMA recebe hoje título de "Professor Honoris Causa"». portais.ufma.br. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  8. «Warwick Estevam Kerr». IBTEC. 15 de outubro de 2019. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  9. «Warwick E. Kerr». www.nasonline.org. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  10. Peri. «Warwick Estevam Kerr (1922-2018)». Adusp. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  11. «Mel brasileiro tem história e qualidade». Canal Rural. 29 de maio de 2016. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  12. a b Miksha, Ron (15 de setembro de 2018). «Dr Warwick Kerr, the "Man Who Created Killer Bees", has died». Bad Beekeeping Blog (em inglês). Consultado em 3 de setembro de 2021 

BONETTI, Anna Maria (2009). Homenageado da 61ª Reunião Anual da SBPC Warwick Estevam Kerr. Registros da 61ª Reunião anual da SBPC: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. "Amazônia, Ciência e Cultura", 12 a 17 de julho de 2008, UFAM, Manaus, AM. <http://www.sbpcnet.org.br/livro/61ra/homenageado.htm>

Currículo Lattes do professor Warwick E. Kerr: <http://lattes.cnpq.br/4131301582982867>

COELHO, Maro A & KERR, Warwick E. (2005). A Amazônia, os Índios e as Abelhas. Revista Estudos Avançados, vol. 19 n. 53, 2005, p. 51-69. Entrevista de Warwick E. Kerr concedida a Marco A. Coelho. <http://www.scielo.br/pdf/ea/v19n53/24080.pdf>

KERR, Warwick E. ; CARVALHO, G. A. ; SILVA, A. C. ; ASSIS, M. G. P. (2001). Aspectos pouco mencionados da biodiversidade amazônica. Parcerias Estratégicas, n. 12, p. 20-41. Brasília, DF.

SBPC (2010). Cientistas Homenageados. Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seção: "A SBPC". <https://web.archive.org/web/20120729000444/http://www.sbpcnet.org.br/site/asbpc/index.php?secao=382>

SBPC (2010). Presidentes de honra. Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seção: "A SBPC". <http://www.sbpcnet.org.br/site/a-sbpc/historico/presidentes-de-honra.php>

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